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O MACHADO E O RAIO

Segunda-feira, 19.05.14

Antigamente, na Fajã Grande, havia muito medo das trovoadas e, sobretudo dos relâmpagos. Dizia que os relâmpagos, quando faiscavam, emitiam raios perigosíssimos, sobretudo se se reflectissem em espelhos ou no gume de um machado. Assim, sempre que começasse a relampejar deviam tapar-se todos os espelhos e quem transportasse um machado, tanto ao ombro, como nas mãos, devia libertar-se do mesmo, atirando-o para bem longe. Outros objectos, no entanto, também podiam atrair os raios emanados dos relâmpagos, como máquinas de costura, aivecas de arados, sachos, facas, etc. Mas mau, mau eram os espelhos e os machados.

Para ilustrar tais crenças, contava-se que Ti’Antonho Joaquim, que se ufanava de não ter medo de nada nem de coisa nenhuma, muito menos de raios, relâmpagos ou trovões, certo dia, de baixo de uma enorme trovoada, que, a julgar pelo pouco tempo que separava o faiscar do relâmpago do ribombar do trovão, deveria estar muito próxima, o que tornava tudo muito mais perigoso, resolveu pegar num machado, sair de casa e caminhar rumo a uma terra que tinha no Pocestinho, a fim de ir cortar lenha. Ao passar à Praça, alguns homens que ali estavam a descansar e abrigar-se da trovoado, ao ver aquela loucura, bem o avisaram:

- Ó home, já tens idade para tê juíze! Arruma-me esse machade, nã vês a relampada qu’está pr’ai a fazê?! Cum ess’idade, num sabes que debaixe de trovoade nunca se deve pegá num machade! Durante uma trovoada nã se deve pegar num machade, home dos diabes!

 Ele, continuando o seu caminho, respondeu:

- Nã tenhe mede nenhum, nim de nada, muito menes de raios. Raios vos partim é a vocês, qu’istão par’i sentades, sim fazê coisa nehua. Ca pur mim tenhe mazé que trabalhá. Precise de lenha, o cepe está sem nenhua. A minha Adelina qué fazer lume e nã tem cunquê.

E lá foi à sua vida, enquanto os outros ficavam ali pasmados, até porque a trovoada parecia aumentar cada vez mais. Ti’Antonho Joaquim subiu a Fontinha, seguiu até ao Alagoeiro, sempre com o machado às costas. Enfiou-se pela Canada da Fontecima e chegou ao Batel. Subiu a ladeira, abrigando-se junto às altas abas das paredes. Ao chegar ao cimo, junto ao Descansadouro, postou-se no alto, em pé, a olhar o povoado, como se nada estivesse a acontecer, embora, cada vez, trovejasse com mais intensidade.

De repente sentiu um estrondo medonho e um choque terrível percorreu-lhe todo o corpo, fulminando-o e deitando-o por terra, inanimado. Ao lado, o metal do machado derretera por completo. Um raio, emanado de um relâmpago, a que se seguiu um estrondoso trovão, atraído pelo metal reluzente do gume, caíra-lhe sobre o machado provocando uma enorme descarga eléctrica, atordoando-o por completo. Foram uns homens que por ali passaram, algum tempo depois, que o recolheram e o trouxeram em ombros até a casa, ficando alguns dias de cama, até se recompor por completo.

Mas o susto foi tão grande e o perigo de morrer tão eminente que Ti’Antonho Joaquim, em dias de trovoada, nunca mais saiu de casa, nem muito menos, pegou num machado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02





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