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O MELÃO

Sábado, 27.02.16

Franzino, escanzelado, rosto macilento e olhos esbugalhados, o Aires aparecia nas aulas muito carrancudo e retraído, consubstanciando simultaneamente rusticidade e negligência. Vestia desajeitadamente umas roupas de aspecto decrépito e com um estado de conservação notoriamente deteriorado, a que se juntava uma assumida falta de limpeza. O rosto expressava um alheamento permanente e global a pessoas e ensinamentos. Os olhos, absortos e perplexos, emperravam todo e qualquer conhecimento e obstruíam notoriamente a capacidade de atingir objectivos. A sua mente vagueava por um universo abstruso, incoerente e quase irracional. Devaneava com frequência, distraía-se vezes sem conta e desvairava continuamente. Em suma – o Aires não aprendia rigorosamente nada.

Consequência de tudo isto: na pauta, afixada trimestralmente nos placares da escola, ao nome do Aires seguia-se uma enxurrada de negativas em todas as disciplinas, excepto Religião e Moral onde, mais por benevolência do professor do que por mérito do aluno, aparecia bem escarrapachado um três. Mas não ficavam por aqui os malefícios da presumivelmente assumida não aprendizagem do Aires. Os professores passavam horas e horas a discutir, a analisar e a transcrever para a acta as dificuldades do rapaz e a inventar propostas para as superar, atrasando significativamente as reuniões de avaliação e a Directora de Turma, jovem e pouco experiente, via-se e desejava-se para explicar aos pais o mais-que-evidente insucesso do garoto. A própria psicóloga já fora chamada, vezes sem conta, a intervir em tentativas infrutíferas de analisar e compreender tão grave e sério embargo a todo e qualquer tipo de cerebração.

Certo dia, na aula de Ciências, a professora alheando-se um pouco dos conteúdos programáticos, resolveu falar sobre as cucurbitáceas:

- São plantas dicotiledóneas e gamopétalas como a abóbora, a chila, a melancia e o melão – explicou a professora.

Milagre! Enquanto a restante parte da turma se distraia cuidando que aquilo das cucurbitáceas era mais um dos devaneios científicos da professora e que aquela matéria nunca iria sair nos testes, o Aires, sobretudo ao ouvir a palavra “melão”, vai disto e resolve concentrar todas as forças até então perdidas e dispersas no que a professora explicava. Esta, incrédula perante tamanha reviravolta do molengão, procurando uma linguagem mais simples, continuou:

- Vocês conhecem muito bem o melão e a melancia e de certo quase todos já os comeram e apreciaram as suas propriedades refrescantes.

O Aires não pestanejava e, qual abelha a sugar o néctar duma flor, bebia-lhe as palavras uma a uma. A professora insistia:

- O melão é mesmo um fruto bem português, – os olhos do Aires esbugalharam por completo – cultivando-se em grande quantidade aqui, na região do Vale do Sousa. O melão possui propriedades que o tornam, além de saboroso, um excelente auxiliar do funcionamento do corpo humano, pois é uma fonte abundante de fibras e possui grandes quantidades de vitamina A, C e do complexo B. Além disso, é rico em cálcio, fósforo, ferro, potássio, cobre e enxofre e não tem consequências negativas, já que por cada cem gramas de melão ingerimos aproximadamente trinta calorias. O seu alto valor em potássio torna o melão indicado para doentes cardíacos e para pessoas com afecções do fígado. É igualmente recomendado na prevenção e no tratamento da gota, reumatismo e prisão de ventre. Mas, atenção, se ingerido em excesso pode causar cólicas e diarreia.

O Aires estava extenuante e a professora perplexa, por sentir que aquela alma penada pela primeira vez se concentrava e interessava por alguma coisa, sem contudo encontrar uma explicação plausível.

Mas como estava ali para ensinar e o rapaz mostrara grande interesse, no fim do ano não se fartou de partilhar com os colegas o que presenciara naquela aula, manifestando sérias tentativas de o passar. Foram, contudo, improfícuos os seus esforços, esbarrando ingloriamente com a pertinácia dos colegas. Então ia lá passar-se um abantesma daqueles, que afinal dava erros em catadupa, lia mal que se fartava, não dava uma prá caixa em Matemática, não percebia patavina de História e nem sequer sabia distinguir uma colcheia duma semifusa?

E o Aires reprovou mesmo.

Algum tempo depois, ao passar na recta de Sequeiros, na estrada que dá para Lousada, parei para comprar um melão a um dos vendedores que por ali proliferam nos meses de Verão. Qual não foi o meu espanto quando me apercebi que o vendedor, onde casualmente havia parado, era o Aires. Qual Paxá rodeado de donzelas no seu harém, o Aires, sentado em cima de um cesto com a boca para chão e o fundo para cima, tinha à sua volta dezenas e dezenas de melões de todas as espécies, tamanhos e feitios, a que se misturavam algumas melancias. Com invulgar perícia e robusta confiança aconselhava os clientes, escolhia-lhes os melões, convencia-os a comprar, mostrando ainda grande destreza e agilidade nas operações matemáticas inerentes a cada troca comercial. Quando chegou a minha vez, o rosto vermelhou-se ainda mais, revelando um misto de timidez, alegria e confiança. Com acrimónia interrogou-me:

- O setor também quer comprar um melão?

Como acenasse positivamente, acrescentou com enorme empolgamento e invulgar entusiasmo:

- Pó setor vou escolher o melhor. Vai comer um melão como nunca comeu.

Batuca daqui, sacode dali, cheira dacolá, apalpa e volta a apalpar as extremidades do cucurbitáceo. Por fim com os olhos repletos de júbilo e o rosto excessivamente aprazerado, concluíu:

- Este, setor, este! Pode levar! Este é de confiança. Este é mesmo bom!

Conversei um pouco mais, paguei, regressei a casa e deliciei-me com o melão - o melhor melão que comi em toda a minha vida.

Foi então que dei comigo a pensar: se aos professores, nos quais eu obviamente me incluía, que haviam reprovado o parrana do Aires por não saber Português, Matemática, História ou até ler o solfejo, alguém decidisse ensinar como se escolhe um melão, nunca haviam de aprender a fazê-lo com a perícia, a sabedoria e a competência do Aires.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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