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O MEU PAR

Segunda-feira, 30.04.18

O Antonino era o meu maior amigo, nos meus tempos de criança. A amizade que tínhamos um pelo outro definia-se e concretizava-se não apenas nas brincadeiras e folguedos mas também, na escola, na catequese e até na partilha da realização em comum de muitas tarefas e trabalhos. Esta amizade, que quase nos transformava em verdadeiros irmãos, originara-se no facto de sermos da mesma idade e, ainda por cima, termos nascido no mesmo dia. Por isso crescemos juntos e tínhamos muito em comum. De diferente tínhamos apenas duas coisas: o Antonino, por imperativos genéticos, era um gigante e eu um “lingrinhas” e os pais dele eram ricos e os meus pobres. Mas verdade é que essas diferenças nunca puseram em causa a nossa amizade.

Entrámos juntos para a escola, sentámo-nos na mesma carteira, fizemos passagens de classe e exames ao mesmo tempo, tomámos as vacinas no mesmo dia e até tivemos o sarampo e a papeira pela mesma altura. Na catequese e na missa aos domingos também nos sentávamos lado a lado e raro era o dia em que, depois da escola ou da catequese, não nos juntássemos para a brincadeira ou para fazer em conjunto as contas e as cópias que a senhora professora mandava fazer em casa.

Assim fomos crescendo e o tempo passando.

Quando se aproximou a Comunhão Solene, marcada para o dia da festa de S. José, por razões mais do que óbvias, decidimos, sem consultar quem quer que fosse, que seríamos o par um do outro.

Nos dias que antecederam a festa, reunimo-nos, na igreja, para ultimar os preparativos, sob a orientação do pároco. Uma das primeiras medidas que ele tomou foi formar os pares. Coloquei-me logo ao lado do Dionísio, sabendo que o senhor padre aceitaria, de bom grado, qualquer formação que nós propuséssemos. E os ensaios começaram com afinco e determinação... Todos os dias, depois da saída da escola, corríamos para a igreja, onde esperávamos que o pároco chegasse. Formávamos no guarda-vento, deambulávamos pelo corredor central e pelo cruzeiro, voltávamos ao baptistério lado a lado e de mãos postas, cantando e rezando como se já fosse o dia da comunhão. Depois o padre sentava-nos em lugar de destaque na capela mor e, colocando-se no meio do altar fazia-nos subir dois a dois, de acordo com os pares formados, até junto dele, ensinando-nos as vénias e genuflexões que devíamos fazer e o que devíamos dizer, depois dele erguer a hóstia muito pequenina e proclamar, traçando uma cruz sobre a píxide: “Corpus Domini Nostri Iésus Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam”. Cada um respondia simplesmente: “Amen”. O Dionísio e eu ensaiávamos com o maior empenho, lado a lado, felizes por sermos o par um do outro.

Nas vésperas da festa, porém, uma grande “tragédia” aconteceu. A Dona Maria veio ensaiar os cânticos e, julgando do pouco empenho do irmão nos ensaios anteriores, resolveu dar-lhes os últimos retoques. Começou por analisar os pares um a um, com excessiva meticulosidade e depressa entendeu que alguns estavam muito mal formados. Olhei para o Antonino e trememos. Segundo a eminente irmã do senhor padre, os pares deviam formar-se não em função de “amizadezinhas”, mas sim pelo tamanho e altura dos meninos. Não ficava bem nem era bonito um menino grande ser par de um pequeno. De imediato desfez todos os pares que entendeu, incluindo o nosso.

Reclamámos, barafustámos, rezingámos, alegando como único argumento em nossa defesa que era o senhor padre que assim tinha feito e que assim é que devia ser... Mas nada!

Entrámos numa choradeira desenfreada, a tal ponto de já nem querermos fazer a comunhão. Era o que havia de faltar! Que quem mandava ali era ela, que não queria choramingas, que meninos que iam fazer a Comunhão Solene tinham que ser dóceis e humildes, que o Nosso Senhor assim é que queria, que tinha que ser assim e que por nada deste mundo seria doutra maneira... Nada pudemos fazer… e foi a sua vontade que prevaleceu…

E lá tivemos que fazer a comunhão desgostosos com os pares arranjados à última hora,  pela Dona Maria, envoltos em lágrimas e revolta… Mas, quando a missa terminou, dirigimo-nos, como estava ensaiado e programado, para o altar da Senhora do Rosário, que ficava ao lado da capela-mor. Foi então que o Antonino e eu, sem que ninguém se apercebesse ou desse por isso, nos esquivámos e ficámos ao lado um do outro, enquanto oferecíamos as flores a Nossa Senhora, Lhe rezávamos a consagração e cantávamos o cântico final:

 

“Aceitai estas florinhas,

Óh Virgem pura, cecém.

Aceitai-as como ofertas/

Do nosso amor, doce Mãe.

 

E na hora da nossa morte

Vinde-nos óh Mãe valer.

Lembrai então as florinhas

Que hoje aqui vimos trazer.”

 

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