Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O PADRE JAIME

Sábado, 16.08.14

O Padre Jaime Luís da Silveira nasceu na Fajã Grande, na rua da Assomada, em 1926, sendo os seus pais José Luís da Silveira, mais conhecido pelo Senhor Faroleiro e Maria Lucinda da Silveira. Fez a instrução primária na Escola Primária da Fajã Grande e deu entrado e matriculou-se no Seminário de Angra, em 16 de Setembro de 1937, tendo terminado o Curso de Teologia, no ano lectivo de 1047/48. Foi ordenado sacerdote, a 13 de Junho de 1948, por Dom Manuel Augusto da Cunha Guimarães, tendo celebrado missa nova, alguns dias depois, na Capela do Seminário.

Exerceu toda a sua actividade sacerdotal nos Seminários de Angra e, mais tarde, no de Ponta Delgada. No Seminário de Angra iniciou a sua carreira com prefeito dos Miúdos, ou seja da Prefeitura de São Luís Gonzaga, que albergava os alunos mais novos. Alguns anos mais tarde foi nomeado secretário e ecónomo daquela insigne instituição de ensino religioso dos Açores, cargos que exerceu até aos finais da década de sessenta, altura em que foi transferido para o Seminário Menor de Ponta Delgada, onde lhe foram confiadas as mesmas funções. Durante os longos anos em que trabalhou no Seminário foi professor de Música, dos alunos dos primeiros anos, de Geografia e, mais tarde de Inglês, dado que, com a ideia de aperfeiçoar a sua formação, frequentou vários cursos de verão em universidades inglesas.

O Padre Jaime exercia todos os seus cargos com competência, dignidade e esmero, pese embora, o último, o de ecónomo, lhe trouxesse um ou outro dissabor. Eram os alunos a reclamar que a “miragaia” era rija que nem sola, eram desenhos anónimos, no “Carpinteiro”, a representarem mergulhadores, equipados com escafandros, na procurar duma nica de linguiça no meio da feijoada, eram os mais novos a protestar contra a “bacalhoada” das sextas, os teólogos contra as travessas vazias e, até um outro professor a gracejar com frases evangélicas, adaptadas à carestia, “carne, autem, infirma est”. Por isso, como ecónomo, embora condicionado pelo permanente e contínuo aperto dos cordões da bolsa diocesana, por parte do Prelado, via-se e desejava-se para tentar, geralmente sem sucesso, “melhorar o rancho”.

Cuidava ele, no entanto, que, se a variedade e a qualidade do cardápio eram metas obstaculizadas pela estranha e condenável sovinice do Senhor Bispo, pelo menos podia diligenciar-se a qualidade na cozedura e apresentação das travessas. Essa a razão, porque passava grande parte do dia, na cozinha, não fossem os cozinheiros descuidarem-se e agravar, com a falta de qualidade, o défice e a pobreza dos produtos cozinhados.

Saudosista e amante da freguesia onde nasceu, o padre Jaime todos os anos ia passar alguns meses de Verão à Fajã Grande, fixando-se na Assomada, na casa que era dos seus pais. Após a morte do progenitor, adquiriu uma casa em Angra, na freguesia de Santa Luzia, perto do Seminário, onde passou a residir com a mãe e a irmã Avelina, não deixando, no entanto de continuar a visitar a Fajã Grande, no Verão, por vezes acompanhado de colegas e amigos de outras ilhas, entre os quais o Dr Simão Leite de Bettencourt, professor de Teologia e Filosofia e Director Espiritual do Seminário de Angra. Era um homem educadíssimo, muito correcto, sempre alegre, convivendo com todos os conterrâneos que o respeitavam de sobremaneira. Depois de alguns anos en Ponta Delgada reformou-se, passando a exercer o cargo de capelão do Convento das Mónicas, em Angra, onde celebrava missa diariamente.

No final da sua vida foi acometido de doença que o obrigou a isolar-se em casa, impedindo-o de continuar a exercer o seu múnus sacerdotal.

Respeitado por todos no Seminário, onde gozava de grande simpatia e estima, o padre Jaime impôs-se sobretudo como professor de música que o ilustre maestro Emílio Porto, seu aluno, assim descreveu. O professor de Música, para os primeiros cinco anos do curso do Seminário, foi o Padre Jaime Luís da Silveira. Possuidor de uma excelente formação musical, trazia para as aulas discos de música clássica, profana, religiosa e sacra. A sua apresentação era motivadora para o gosto musical. Sabia como incentivar e sabia como comunicar. A audição era sempre acompanhada de explicações fundamentadas. Recordo essas aulas como das mais importantes para o que hoje sinto e penso sobre o mundo da música. Não era um pianista, no verdadeiro sentido da palavra, mas dedilhava o piano com alguma facilidade. Tocava também para os alunos algumas canções populares. Toda a turma acabava por cantar ao som do piano. A primeira canção foi Santa Luccia, melodia napolitana mundialmente conhecida. Foi sempre recordada durante o curso, e mais tarde pela vida fora. Santos Narciso, que foi aluno do Seminário, uma vez escreveu: “foi uma canção que marcou uma geração”. Recordo que foi a canção escolhida pelo professor, para o estudo experimental dos primeiros acordes.

A sua estadia no Seminário, como professor, no entanto, ficou assinalado por um dos mais trágicos acidentes acontecidos naquela casa. Como era o ecónomo e muito zeloso para que tudo o que dizia respeito à alimentação dos alunos corresse da melhor forma, o Padre Jaime, todos os dias e, sobretudo antes das refeições, de manhã, ao meio dia e à noite, deslocava-se do seu escritório, no Largo de Santa Teresinha, junto à Capela de Baixo, para a cozinha. Para o fazer, dado que nessas horas os alunos estavam a estudar ou em aulas, saía do seu gabinete, entrava nas camaratas dos médios e, antes da última, voltava à esquerda, pois esta ligava-se directamente à cozinha, através duma espécie de balcão. Era o caminho, mais curto, mais rápido e mais acessível.

Ora o padre Jaime tinha o hábito de ler, quer fosse a rezar o breviário quer a fazer a leitura matinal dos jornais, passeando de um lado para o outro ou até caminhando. Habitualmente, era de manhã, quando se deslocava à cozinha que lia “A União”. Todas as janelas das camaratas comunicavam com o pátio interior do Seminário, através de amplas janelas, sob a forma de portadas, mas não tinham varanda, grade ou sequer um simples varão.

Certa manhã em que padre Jaime mais concentradamente e totalmente absorto lia o jornal, ao atravessar as camaratas, cuidando instintivamente que já estava na última, na que dava acesso à cozinha, virou na anterior, seguindo sempre pela janela fora, como se o chão continuasse. Foi uma queda abruta, um tombo medonho, um estrondo assustador que pôs em polvorosa todo o Seminário, sobretudo os médios que, àquela hora, estavam sentados nas suas cadeiras, no piso inferior, em profundo e absoluto silêncio, pois estavam em hora de estudo. Prontamente socorrido por professores e alunos, padre Jaime ficou em estado de grande debilidade. Levado ao hospital, verificou-se que tinha várias fracturas, para além de muitas escoriações. Das segundas livrou-se facilmente, mas as primeiras causaram-lhe grandes males de que só com o passar do tempo e com o a ajuda do “endireita” de Santa Bárbara se foi lentamente aliviando. Nada mais de grave lhe aconteceu, o que na altura foi considerado um verdadeiro milagre.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 17:14





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Agosto 2014

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31