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O PICO OU A VERDADEIRA ILHA DE BRUMA

Terça-feira, 05.02.19

Mesmo que já tenhamos aportado inúmeras vezes à maior ilha do grupo central açoriano, quando, novamente, o fazemos não nos limitamos, apenas, a sentir os pés no terreiro, onde os nossos avós bailaram o pezinho ou a chamarrita. Na realidade e sempre que de novo e mais uma vez se arriba ao Pico, para além dos ecos de um passado egrégio e progénie, emergimos num universo a abarrotar de um sem fim de sensações envolventes e dinâmicas, que nos enlevam em encanto e nos sublimam em deslumbramento. Calcorreiam-se atalhos e veredas atapetados de musgo, balizados por bardos de incenso e faia, caminhos ornados de madressilva e poejo, uns e outros construídos nas encostas pedregosas da ilha, muitos deles, quiçá, nos primórdios do seu povoamento. Depois, envolvidos por um silêncio perturbador, penetramos entre o verde das pequenas florestas, a abarrotar de faias, sanguinhos, paus brancos, folhados e uva do mato. Do chão térreo, anos a fio domesticado por alviões manejados sabiamente pelos nossos avós, emerge um perfume a enxofre e a lava e do mar, onde ainda são visíveis as rilheiras dos botes baleeiros e das traineiras, aflora um sabor a uma maresia destemida e deslumbrante. Por entre as brumas e os nevoeiros matinais, ergue-se um cântico de dolência adormecida. É no Pico, talvez por ser a mais jovem ilha açoriana, que sentimos, mais do que em nenhuma outra, correr-nos, nas veias, um basalto negro, ainda vivo, uma seiva, um suco, um mosto, disfarçado de espuma, umas vezes sublime e delicioso, outras angustiante e perturbador, mas sempre dulcificado e apetecível, personificado naquele torrão pétreo onde o florido das orquídeas e das azáleas se mistura com o desabrochar dos primeiros rebentos das figueiras e das vides. É também este basalto negro, como que ensanguentado, que nos trás à memória a labuta de um povo de pastores e baleiros que escreveu a sua história com cajados e remos, gravando-a, para sempre, nas pedras basálticas das encostas e nos rochedos dos baixios e escolhos da beira-mar. É este gigante adormecido, de magma e enxofre que nos traz à lembrança, cada vez que olhamos os socalcos e andurriais da montanha que o personifica, os fantasmas das sombras enigmáticas da lava dos vulcões e os ecos roufenhos do rugido de abalos e terramotos. É esta tremenda e invulgar força telúrica, adormecida no seu seio e armazenada no seu interior, é esta estranha e paradigmática sensação de se ter a alma presa a um alvoroço extrusivo, profundo e místico, que nos deslumbra e faz sonhar, ao mesmo tempo que nos emaranha nos meandros de uma natureza pura e virgem, donde brotam vinhedos fecundos e de sabor adocicado, ladeados por muros singelos de lava carcomida, encostas recheadas de um bruto esplendor, maroiços a abarrotar de pedregulhos saltitantes, paisagens transparentes de uma pureza diáfana, veredas marcadas com o marulhar contínuo das albarcas e dos pés descalços, campos fecundos, ornados de uma vegetação atrevida, metamorfoseada num verde luxuriante que ora povoa os pastos repletos de manadas, ora cobre as encostas de arvoredos e arbustos ou reveste as pequenas courelas de legumes e cereais.

O Pico é assim, como uma princesa revestida de bruma, que as gaivotas beijam e enternecem com mimos e carinho. Sempre que o revistamos de lés-a-lés, encontramos a dolência embevecida das ondas, o eco oscilante das marés ou, até, a braveza incontrolável do oceano e encantamo-nos, deliciosamente, com a inebriante doçura das lagoas e deslumbramo-nos, em excelência, com a ternura sorridente das hortênsias. E como se isso não bastasse, ainda nos fica, no peito, o estigma da ardência das caldeiras e das fumarolas dos vulcões. Por tudo isso é que o Pico é a primeira entre as verdadeiras ilhas de bruma, porque revestida com o negro do basalto, com o verde da esperança e envolta com o azul do mar e o branco baço dos nevoeiros.

Razão tinha o poeta Manuel Alegre, quando, demandando o Pico, procurava uma ilha de bruma, “… uma ilha sobre o vento e a espuma/Agora tenho-a à minha frente/ilha de bruma./Buscava um lugar santo um canto um cântico/um triângulo mágico uma palavra um fim./E vejo um grande pico sobre o atlântico/e uma ilha a nascer dentro de mim”.

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