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O POCEIRÃO

Terça-feira, 29.07.14

Encastoado entre as abruptas e negras rochas do baixio, ligado a terra pelo Caneiro do Porto e pelo Varadouro e quase literalmente tapado do oceano pelo Calhau da Barra, o Poceirão impunha-se, na década de cinquenta como uma espécie de ex-libris de toda a orla marítima da Fajã Grande, quiçá de toda a costa ocidental da ilha das Flores.

Situava-se no lugar do Porto e, por isso, a ele se tinha acesso pelo principal e mais importante caminho da freguesia, que a atravessava de sul a norte, iniciando-se no cimo da Assomada, para terminar a uns escassos metros mais além junto ao Farol e ao Cais. As rochas lávicas que o cercavam, a sua forma quase redonda, com algumas ramificações onde sobressaía a que dava acesso ao Porto Velho, o fecho da Barra e a tranquilidade habitual das suas águas davam-lhe semelhança a uma enorme e gigantesca poça, uma espécie de piscina natural. Por isso lhe chamavam o Poceirão.

Do lado norte, a rocha de lava era mais baixa mas menos rectilínea. Aí proliferavam pequenas enseadas, minúsculos ilhéus, inúmeros caneiros e poças, povoados de caranguejos, moreias, polvos, cabozes, mujas e camarões esverdeados, que recolhidos em cestas, serviam de isca aos inúmeros pescadores que demandavam aquele local, na mira de rateiros, sargos, peixes-reis, carapaus e gorazes. No caso das vejas, que as havia também ali em abundância, a isca era moira que deveria ser apanhada noutras paragens. A sul, porém, o rebordo era alto, abrupto e escarpado, pouco utilizada por pescadores ou nadadores, formando, do lado de terra, uma espécie de baia, protegida de ventos e intempéries, onde, normalmente, era apoitada a Santa Teresinha, a gazolina utilizada na caça à baleia. A leste uma clareira onde se situava o varadouro e, mais no interior o mítico e enigmático Caneiro do Porto, onde a ganapada da freguesia se iniciava na natação mas que, em tempos de debulha do trigo na eira, situada um pouco mais acima, também servia para despejo dos dejectos dos animais que, circulando ao redor do moirão de olhos tapados, puxavam o trilho.

O Poceirão, não era utilizado apenas pelos pescadores de pedra e cana. Havia outros, mais afoitos que ali mergulhavam, sobretudo na mira de polvos e cavacos que abundavam, sobretudo, na parte mais exterior. O lado sul, entre o Caneiro e a baía onde se apoitava a Santa Teresinha, formava uma interessante plataforma lávica, quase plana e de fácil acesso. Um excelente local de pesca e uma plataforma de lançamento para água de quantos terminavam com sucesso a sua aprendizagem no Caneiro. Hoje está totalmente coberta de cimento, com um guindaste ali preso, a ornamenta-la.

O Poceirão, de facto, também servia como um excelente local de banhos, sobretudo no pequeno rectângulo em frente ao varadouro, onde após a aprendizagem no Caneiro, se atiravam os debutantes. Os mais experientes e mais fortes nadavam mais ao largo e muitos havia, que iam até â Barra. Ufanavam-se de subir o enorme calhau, de cujo cimo mergulhavam, pois o mar ali era bastante profundo, sobretudo do lado norte, onde havia uma espécie de portal, por onde as embarcações saíam e entravam.

No Inverno, porém, o Poceirão metamorfoseava-se. Dias havia que as suas águas se enchiam de um furor desusado, transformavam-se em ondas altivas que, cobrindo por completo a Barra, se atiravam com doidas, contra as rochas fazendo desaparecer, ilhéus, caneiros e enseadas, amedrontando os que por ali passavam e pondo em risco os barcos ancorados.

PS – Há dias, surgiu no FB uma foto deste Poceirão, na actualidade e que, pelos vistos e aparentemente, já perdeu quase tudo, até o nome!

 

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publicado por picodavigia2 às 11:27





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