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O PORTALINHO

Quarta-feira, 21.05.14

O Portalinho era, sem sombra de dúvida, um dos lugares mais pobres, mais inóspitos, mais desinteressantes, mais inócuos e mais improdutivos da Fajã Grande, na década de cinquenta. Mas o pior, é que para além de todas estas maléficas e danosas características, o Portalinho ainda era um dos lugares mais distantes do povoado e, por conseguinte, de difícil acesso.

Situava-se para além dos Lavadouros, encastoado entre o Curralinho e a Rocha, sendo que uma parte do seu espaço se prolongava pela própria Rocha. Era um lugar exclusivamente de terras de mato. Nem relvas, nem terras de inhames, nem de árvores de fruto, nem muito menos de outra cultura qualquer. Apenas matagal, onde por entre fetos e cana roca quase gigantes, proliferavam incensos, faias, paus brancos, sanguinhos, loureiros e vinháticos.

Tudo isto fazia com que o lugar do Portalinho fosse muito pouco procurado, até porque muitas das terras ali existentes, praticamente estavam ao abandono, por parte dos seus proprietários.

O acesso a este lugar fazia-se por um ou outro dos caminhos que ligavam a Fajã aos Lavadouros. Aqui, ou mais propriamente nos Lavadouros de Cima, o caminho bifurcava-se. Voltando-se à direita caminhava-se na direcção do Vale Fundo e da Cuada, por um caminho de boa qualidade. Porém, se voltássemos à esquerda, caminhava-se na direcção da Rocha, com destino ao Curralinho, por uma vereda com muitas poucas condições. O piso não era calcetado, em muitos sítios era bastante irregular e, além disso, só acessível a pequenos corsões. A partir do Curralinho a vereda piorava, uma vez que se transformava numa pequena e estreita canada que conduzia às primeiras terras do Portalinho, onde havia um pequeno largo e onde tudo terminava. Quem pretendesse penetrar pelo Portalinho dentro teria que o fazer atravessando propriedades atrás de propriedades, o que, convenhamos, não era muito fácil, devido ao denso matagal que por ali proliferava.

Meu avô tinha lá uma terra, na fronteira com o Curralinho, onde meus tios iam, de vez em quando, com um pequeno corsão de canguinha, cortar e acarretar lenha. Terei ido lá apenas uma vez. Era o fim do mundo!

O nome do lugar parece advir-lhe do facto de, terminando ali o caminho, o lugar se iniciar com o portal de uma das propriedades ali existentes. Como ali tudo era pequeno, o portal também o era. Seria apenas um portalinho, o qual terá dado nome ao lugar.

O que restará hoje do lugar do Portalinho? Talvez, apenas e somente esta memória…

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publicado por picodavigia2 às 09:34





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