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O PREGADOR

Segunda-feira, 28.07.14

Era um ilustre e conceituado pregador. O melhor da ilha! Sobretudo nos tríduos, novenas e festas de Inverno, quando não havia, em férias, professores do Seminário, Doutores formados em Roma - os únicos que lhe faziam sombra no Verão - assenhorava-se dos púlpitos e ambões, enchia as igrejas de esplendor e assinalava nas almas dos que, piedosamente, o ouviam o indelével carácter da mensagem divina.

Era exímio em citações. Poder-se-ia mesmo dizer que estas eram a sua especialidade. Para além dos Evangelhos, citava, com um rigor invejável, versículos do Antigo Testamento e das Epistolas de São Paulo, excertos dos Padres e Doutores da Igreja, das encíclicas e até dos discursos e sermões dos papas. Uma maravilha! Um dom invejado pela maioria do clero da ilha.

Certo ano, chegou à ilha, hospedando-se, por uns dias, em pleno Inverno, em casa de um amigo e colega de curso, um sacerdote a paroquiar noutra ilha, mas também ele com fama de bom conhecedor da doutrina da Igreja e muito capaz de a citar de cor.

Alertado para o dom do colega, ouviu-lhe, com redobrada atenção, um sermão pregado numa das mais importantes festas da terra. Nessa prédica, o erudito orador citou, com fluência desusada e convincente convicção, palavras de Pio XII, o Sumo Pontífice reinante, na altura.

Terminadas as cerimónias, na sacristia e já desparamentados, os outros padres elogiaram o sermão. A certa altura, o visitante observou-lhe;

- Olhe, colega. Também eu achei o seu sermão muito interessante, Mas que eu saiba Pio XII nunca disse aquelas palavras.

Resposta pronta do outro:

- Ah! Não disse! Mas devia ter dito.

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publicado por picodavigia2 às 21:12





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