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O PRINCÍPIO

Segunda-feira, 20.01.14

Quando o Belarmino terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam as inúmeras dificuldades que havia sentido ao longo do percurso que agora terminava e que, a muito custo, se orgulhava de ter ultrapassado.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe. Impunha-se-lhe, como a outros da sua idade, o destino de ficar ali, na ilha, vergado ao peso da enxada, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, condenado aos trabalhos inerentes a uma mísera agricultura de subsistência.

Cedo, porém, tentou libertar-se. Mas não foi fácil. Eram os entraves paternos, afirmando que trabalho digno de tal nome só o agrícola e eram os irmãos, acomodados às lides dos campos, que teimavam em contrariar adegeneração do último rebento.

Foi a D. Ilda, que o acompanhara desde a primeira classe e que não cessava de louvar a inteligência do garoto, que demoveu o pai da sua persistente teimosia. Era o Bernardino  a caminho do Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia, e os irmãos de enxada às costas e foice na mão, a percorrer os íngremes caminhos da Eira-daQuada e dos Lavadouros.

 Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros ainda mais se agarravam à rabiça do arado e às enxadas, que agora não era só o sustento da casa... Não era bem aquilo que o Bernardino queria mas Universidade nos Açores era um mito...Quem optasse por estudar tinha apenas duas alternativas: o Magistério ou o Seminário. A escolha, para o Belarmino, foi inequívoca.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão... Livros emprestados... Gastos supérfluos, nem pensar... Além disso, pesavam  constantemente, as ameaças  paternas:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e nos Paus Brancos!...

Nas férias, matava-se a trabalhar. Os outros atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos mais cheios, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vida que levas durante o inverno.

Chegou o fim e com ele o concurso. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar as ilhas, até porque a família também o faria, partindo, em breve para a América, resolveu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com  o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais miseráveis  e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge...

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade, até que as listas saíssem. Saíram... No átrio da Delegação Escolar da Horta, os recém-formados acotovelavam-se, na ânsia da certeza duma colocação. Como era impossível ver fosse o que fosse, o Gregório ia apregoando:

- Judite Maria Ferreira Borges – Barro Branco, Graciosa.

- Manuel Belarmino Rodrigues - Sazes de Lorvão.

O Belarmino ficou branco e mudo.

- Marão?! Isso é em Trás-os-Montes, eu bem te dizia... – balbuciou a Graça

- Não é Marão, é Lorvão, Sazes de Lorvão, Penacova – esclareceu o Gregório, perante a indignação dos que ainda não tinham ouvido o seu nome.

À volta ninguém sabia onde ficava.

- Lá sítio bom, não deve ser - comentava uma outra colega. – Pelo nome... Antes a Fajã da Sanguinha em S. Jorge ou a Ponta da Achada em S Miguel...

Foi o Guedes, que pondo-lhe o braço sobre o ombro, aconselhou:

- Calma Bernardino! Olha que não deve ser tão mau como isso... Acho que Penacova fica perto de Coimbra. Mas quem te pode informar melhor é o professor de Didáctica, o Dr San-Bento. Ele é de Coimbra.

E foi o Dr San-Bento que o esclareceu e acalmou. Que sim senhor, que tinha tido uma grande sorte. Penacova era uma terra linda e maravilhosa, pertinho de Coimbra, aí a uns 20 quilómetros...  Que era uma terra de sonho, de encanto paisagístico e de história, sobretudo de história, o que era mais importante do que a beleza paisagística. Era lá que ficava o mosteiro de Lorvão. Além disso, afirmava o Dr San-Bento que o povo era extraordinário e hospitaleiro. Que ele ia adorar. Depois interrogava:

- Foste colocado mesmo em Lorvão?

- Em  Sazes de Lorvão...

- É lá perto – acrescentava o Dr San-Bento. – Sazes de Lorvão fica a uns dez quilómetros de Penacova. Também é uma terra muito bonita, embora não tenha uma história tão viva como Lorvão. Mas terás muitas oportunidades de vir a Lorvão e ver o admirável monumento que é o mosteiro de Santa Maria, um convento de grandes tradições históricas, de grandes lendas, fundado muito antes da nacionalidade, mas que teve, também, um papel importante na consolidação desta. Depois há pormenores interessantíssimo, que não podes esquecer quando lá fores. No sec. XII, os frades foram expulsos e  o mosteiro foi ocupado por monjas, sob as ordens da Infanta D. Teresa, filha do nosso rei D. Sancho I. Ora existe lá um pluvial ou capa de asperges, daquelas que os só os padres e os bispos usam, que é a única que existe no mundo usada, oficialmente, por uma mulher, a abadessa do mosteiro. Usava-a por privilégio especial, concedido pelo papa, ao mosteiro. Outro pormenor interessante é o coro, separado da igreja por uma formosa grade de ferro, e que possui um magnífico cadeiral, constituído por cem cadeiras, o que também é recorde nacional. É um monumento fabuloso.

O Dr. San-Bento ainda acrescentou que se tratava dum concelho rural, mas muito desenvolvido e de grande atracção turística, com muito artesanato, com destaque para os palitos de Lorvão e que o concelho constituía um polo de interesse paisagístico muito interessante. Era atravessado pelo rio Mondego, predominando as culturas da vinha, do milho e da batata e a criação de gado suíno.  E que ele iria encontrar crianças muito dóceis e amáveis. E, despedindo-se, concluiu:

- Terás óptimas condições para iniciar o exercício do magistério da melhor forma. Vais ter um princípio ideal. E é isso que te desejo.

A pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, amigo do filho, veio receber o Bernardino a Coimbra e levou-o a Penacova, com a recomendação de, o mais cedo possível, realizar um périplo que o levasse à descoberta do concelho. Fê-lo no próprio dia.

Partiram de Coimbra, entrando em Penacova pelo Caneiro. O Rodrigo cedo se mostrou um excelente cicerone:

- O concelho de Penacova, começa aqui. Esta aldeia pertence a Lorvão – e acrescentava – Mas vamos primeiro dar uma volta pela vila, até Oliveira ou Friúmes e depois, então, vamos para a freguesia, onde vais principiar a trabalhar.

Aos olhos do Bernardino, porém, apresentava-se uma paisagem deslumbrante e bela. Serpeando um profundo vale, ladeado pela serras da Aveleira e de Gavinhos, entre um verde muito verde, salpicado de manchas brancas aqui e além, descia calmo, sereno e esverdeado, o Mondego. Nas encostas mais baixas campos cultivados, entrelaçados com pequenas habitações, protegidos por enormes pinhais perdendo-se e confundindo-se com o azul do firmamento. Depois os penhascos desérticos, sem o branco dos casarios, mas com um verde quase mítico. Mais além, casas isoladas, como que perdidas no verde da floresta. Seguindo sempre ao lado do rio, cedo apareceu Rebordosa, com as suas casas espalhadas por uma encosta verdejante, como que a empurrar o Mondego, obrigando a mais uma curva, a proporcionar aos campos de milho e às vides que se alargassem e estendessem mais facilmente pelo vale.

- Esta estrada dá para Lorvão – explicou o Rodrigo. – É perto. E dá para Sazes, mas a estrada por Penacova é melhor e passamos junto aos célebres moinhos de Gavinhos.

Penacova não tardou a aparecer, enquanto o Mondego, lá no fundo do vale, persistia em acompanhá-los. O casario agora concentrava-se mais, sobretudo na margem direita do rio.

 O Rodrigo, vendo-o cada vez mais entusiasmado, à medida que ia apreciando as belezas maravilhosas da paisagem que surgiam em cada curva da estrada, explicava:

- Penacova, como o nome indica, é uma terra de contrastes e contradições. Porque é ao mesmo tempo altura e cova. Vista daqui de baixo é altura, nos penhascos e montes que a rodeiam enquanto vista de lá de cima é uma cova.

E a viagem continuou pelos miradouros de Emídio da Silva e do Penedo do Castro. Aí o Bernardino exclamou:

- Deslumbrante, meu amigo! Se a beleza suprema existe, ela está aqui!

- Bom - comentava o Rodrigo – isto dito por um açoriano é digno de crédito...

Depois do passeio a pé por algumas ruas típicas de Penacova, deixando o Mondego por algum tempo, dirigiram-se para Riba de Baixo, Miró, Vale Maior e depois para  Friúmes,  junto ao rio Alva. De regresso a Penacova, o Rodrigo ia explicando que mais a norte ficavam outras freguesias também de muito interesse: São Pedro de Alva, a terra onde nasceu o Presidente da República Dr. António José de Almeida, Paradela, Travanca, S. Pedro de Alva, S. Paio e Oliveira. E acrescentava:

- Antigamente, estas duas freguesias chamavam-se Oliveira de Farinha Podre e S. Paio de Farinha Podre. Mas o povo não gostava de tais nomes e conseguiu que o governo os mudasse. Parece que antigamente havia aqui um concelho com esse nome. Em Oliveira fica a barragem de Raiva. Antigamente havia lá um porto, quando rio era navegável. Mais acima, já fora do concelho, fica outra barragem, a da Aguieira.

O Sol começava a descer e a tarde aproximava-se do fim. Regressando a Penacova o Rodrigo propôs:

- O melhor é irmos até Sazes. Hoje não temos tempo para mais. Terás muitos dias para descobrires e conheceres o resto do concelho.

E meteram pela estrada do Buçaco. Pouco depois Midões. Viraram à esquerda. Surpreendentemente surgiu Sazes de Lorvão. O Bernardino exclamou, emocionado:

- Por mais terras que conheça, por mais escolas onde trabalhe, nunca esquecerei este dia em que cheguei àquela terra que marcará, para sempre, o princípio da minha vida profissional – Sazes de Lorvão!

À sua frente surgia-lhe uma aguarela maravilhosa: o verde das hortas e dos campos entrelaçado com as casas brancas, verdes, azuladas, separadas por ruelas e caminhos, à volta da pequena igreja de Santo André, que se impunha silenciosamente, com a sua torre sineira. Depois a ribeira de Sazes, mais campos, mais hortas, mais vides e sobretudo mais verde. Finalmente ao fundo, ainda mais verde, a imensa floresta, anunciando a serra do Buçaco.

O Rodrigo já lhe havia garantido alojamento. Mas foi depois de se despedirem, quando ficou só, que o Bernardino entendeu verdadeiramente que começara ali o princípio da nova etapa da sua nova vida, como professor.

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publicado por picodavigia2 às 00:15





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