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O PROMONTÓRIO DOS COXOS

Sábado, 10.05.14

Caminho sem destino, ilha fora, em direcção incerta. Emerjo de entre uma floresta jovem, repleta de faias, incensos, urzes, sanguinhos, um ou outro pau branco e figueiras raquíticas. Como se tivesse deixado a noite a meio e partido numa madrugada tímida mas deslumbrante e surpreendente. Surge à minha frente o mar, num vai e vem contínuo e caricioso, de ondas meigas, suaves, maviosas, a baterem com blandícia nos baixios e escolhos, que do alto do miradouro avisto. O espectáculo é belo, doce e sublime, pintado numa paisagem maravilhosa. Ao redor o silêncio dos rochedos negros, o odor das figueiras a definharem, amordaçadas, como que perdidas entre os silvados arrogantes. Apenas o mar domina o mundo, ligando-o ao universo do silêncio, quebrado, apenas, pelo esvoaçar erótico das gaivotas em cio. Lá longe, muito longe, um pequeno ponto entre o céu e o mar reflecte, num mítico raio de luz, a beleza infinita e enigmática duma esperança que urge solidificar.

Desiludido com o inatingível do distante, concentro-me no perto e procuro a pujança duma visão rígida, serena e real. Este mar não pode ser feito só de espuma amuada, nem de ondas entontecidas ou de reflexos de raios de sol perdidos no horizonte. Aqui bem perto, há, neste mar, uma rigidez tremenda, uma força telúrica como que presa, agarrada à lava embriagada e adormecida sobre os rochedos que as gaivotas escolheram como habitat. O mais mítico e emblemático de todos estes rochedos é o metamorfoseado em promontório, a que deram nome dos Coxos, a emergir do seio da ilha, na sua exuberância pubescente, como se fosse um falo intumescido e húmido.

Quando pelas primeiras vezes o vi, quer na sua exorbitante ostentação de ubérrimo e fertilíssimo recanto de pesca, quer como inexaurível e indelével marco de um roteiro, sob a forma de trilho tortuoso e íngreme, mas inebriante e sonhador, evitei as palavras que agora me são ditadas pela emoção. Emoção de ter emergido daquela floresta, outrora inexistente, resultante da desertificação dos vinhedos primitivos, originais e puros, agora floresta florescente, cativante e atractiva mas sem utilidade e proveito. Emoção forte e vibrante, conjugada com a serenidade incongruente do oceano.

As lembranças chovem como sonhos suaves duma história apenas contada que não deixa de ser verdadeira, somente por não ser escrita. Os rumores do passado reclamam para ali um cais natural, desenhado no recorte das falésias, patrocinado pela rigidez milimétrica das formas, estampado na alternativa dos posicionamentos. E assim, na inebriante penumbra dos penhascos enegrecidos, vejo, como se existissem, vultos de homens de albarcas, calças de cotim e chapéus de palha, a subir e a descer, a carregar pipas de vinho, molhos de lenha, sacos de trigo, rolos de couro, o que a terra ressequida mas trabalhada produzia. Lá em baixo, batelões vazios, à espera de serem carregados com todo aquele entulho lávico que, depois se há-de guiarem na direcção do Faial: pão, vinho, bolo do forno, peixe salgado, fruta, e uma ou outra garrafa de bagaço. Tudo rasteja e se esgana por entre as pedras negras, tingidas com excrementos de gaivotas.

Nunca me sentei sobre o rochedo dos Coxos, demandando o prazer da sua essência, nem se quer circulando os rebordos das suas extravagâncias, mas sentei-me ali, ao lado, tantas e tantas vezes, sonhando como se tivesse partido para terras distantes.

Para lá do oceano, numa América imensa e sempre sonhada, há os que estão prisioneiros do sonho e lutam por uma vida melhor. Apenas sorvem, nos momentos em que filtram o barulho das festas e o tédio do trabalho, a saudade, imensa, infinita e perene.

Tantas foram as vezes com que sonhei com aquele rochedo na sua magnífica e vivencial exuberância. Dali partiram barcos e barcos cheios com o suco da lava, muitas vezes ainda a verter o enxofre, sufragando uma insustentável coragem de enfrentar a aventura do sonho, onde tudo é tido e possuído. Mas todos os sonhos nos abismos deste rochedo promontório, onde há a magia necessária para tentar construir um futuro sustentável, apesar de inverosímil e cerceado pelas agruras do destino. A proposta de ali se construir um marco turístico e histórico já foi engavetado. Cuidei que era o dono deste rochedo, que o envolvia num cometimento ousado e perturbador, que o purificava de algas destruidoras e o edificava como baluarte eterno e infinito dos meus sonhos de deficitário pescador. Sou descendente das partilhas naufragada, das entregas dolorosas, das supremacias desoladas e das constâncias, definitivamente, obstruídas. Sou herdeiro dos que tentam preservar as memórias não escritas, dos que decalcam a tradição, dos que despejam, em vasos de terra ressequida, as mágoas dos sonhos desfeitos.

Não sei se no promontório dos Coxos existem vestígios de escolhos intumescentes e  libidinosos, colónias de recifes multicolores e petrificantes, nem restolhos de navios naufragados ou magia de destinos perdidos. No rochedo dos Coxos há sim, memórias vivas de um passado escrito com lágrimas, embalsamado com sofrimento, galvanizado de honra e dignidade.

E se de nome ouve assim, talvez a sua génese esteja gravada na gesta dos que ali subiam e desciam, vergados às estravagâncias da lava vulcânica, a coxear, não porque fossem “coxos” mas que apenas e tão só, porque pareciam “coxos”, devido aos carregamentos que transportavam e às íngremes agruras do trilho. Nem sempre o que parece é.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:16





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