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O ROCHÃO TAMUSGO

Segunda-feira, 20.01.14

O chamado “Rochão Tamusgo” era um lugar situado nos matos da Fajã Grande e que hoje, muito provavelmente, será de acesso muito difícil e de lembrança quase indecifrável, talvez mesmo esquecido por completo. Este lugar, com tão estranho e enigmático nome, situava-se por cima da Rocha dos Paus Brancos, a qual possuía uma estreita e sinuosa vereda que dava acesso aquele lugar. No entanto, o caminho vulgarmente utilizado por homens e animais que para lá necessitavam de se dirigir, era o da Rocha, finda a qual, viravam a sul, seguindo pelos atalhos que davam para o Rochão do Junco e Curral das Ovelhas. Embora mais longe e também de mais difícil acesso, tornava-se uma melhor opção relativamente à quase intransponível subida da Rocha dos Paus Brancos, dotada de um piso sinuoso e escorregadio, a abarrotar de água, de densa vegetação e de silvados por tudo o que era sítio.

O lugar do “Rochão Tamusgo” era todo ele ocupado por algumas pastagens pertencentes a particulares. No entanto a dificuldade do seu acesso aliada à fraca qualidade das suas pastagens faziam com que apenas ali colocassem gado alfeiro. A sua proximidade da borda da Rocha era tal que, por vezes, cá de baixo, era possível verem-se muitos dos animais que ali pastavam.

A sul, o “Rochão Tamusgo” era ladeado pela Burrinha, a este pelo Rochão do Junco e a oeste pela Rocha dos Paus Brancos. A norte, porém, o “Rochão Tanusgo” como que se afunilava, encravando-se entre as relvas do Cimo da Rocha.

A origem deste topónimo, no que à estranha palavra “Tamusgo” diz respeito, dado que a mesma não existe na língua portuguesa, nem como substantivo próprio ou comum, revela-se um pouco ambígua e intrigante. Por um lado o nome poderá ser uma deturpação da palavra de “tamujo” ou “tamuje” atribuído a um arbusto existente nas ilhas açorianas. Neste caso, do topónimo “Rojão Tamujo” inicial, poder-se-ia ter derivado e chegado a “Rochão Tamusgo”, o que parece pouco provável. Na língua portuguesa, porém, existe o verbo “tamuscar” com o significado de “dormitar”. Para que esse verbo estivesse na origem daquele topónimo teria, obviamente, que ser utilizado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, “tamusco”, deturpando-se, sob a forma de “tamusgo”. Mas muito estranho seria que alguém “dormitasse” por ali com alguma frequência a tal ponto de dar conhecimento público desse facto, usando a forma verbal “eu tamusco” – “Rochão onde eu tamusco” e “Rochão Tamusgo”.

Sendo assim, a explicação, em minha opinião poderá ser outra. A apanha do musgo nos matos, para encher colchões e almofadas foi sempre prática muito habitual na Fajã Grande, por parte das mulheres. Um dos locais muito procurados para a apanha do dito cujo era toda aquela zona, desde o Cimo da Rocha até à Burrinha. Aquele local, assim como o Rochão do Junco, eram os privilegiados para apanha do musgo, portanto, ali seria um local onde há musgo, “está musgo” ou “tamusgo”. Como era uma enorme zona inclinada sobre a Rocha, era um “Rochão” que para se identificar e distinguir do seu vizinho “Rochão do Junco” se passou a chamar “Rochão Tamusgo”.

Assim e muito provavelmente se terá formado este interessante e bonito nome de um lugar da Fajã Grande que fez parte da sua história, que teve um papel interessante e de alguma forma significativo na sua economia e nos seus costumes e que hoje se perdeu quase por completo.

Curiosamente topónimos semelhantes existem noutras ilhas açorianas, nomeadamente, no Pico, mais concretamente na Candelária, onde existe “O Cabeço do Tamusgo” uma elevação que faz parte do alinhamento vulcano-tectónico do Cabeço Bravo e do cabeço do Pé do Monte, este junto ao lugar do Monte.

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publicado por picodavigia2 às 12:08





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