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O SAPATEIRO BANDARRA

Quarta-feira, 15.01.14

Quando eu era miúdo, em casa da minha avó havia apenas um livro e dois textos manuscritos. O livro era a “Histórias da Bíblia Resumida” e os manuscritos consistiam em dois conjuntos de folhas soltas, ambos em verso. Um narrava, em quadras, a morte de El-Rei Dom Carlos e outro, também em quadras, apresentava as profecias do Sapateiro Bandarra, ou seja o anúncio profético de um conjunto de fenómenos, quase todos desgraças, que haviam de acontecer sobre o orbe terrestre. Eu deliciava-me com as maravilhosas histórias da Bíblia, como a de José do Egipto, sentia pesar ao ler a forma como um rei e um príncipe haviam sido barbaramente assassinados e assustava-me de sobremaneira com os horrores previstos pelo sapateiro Bandarra.

Pouco se sabia deste suposto adivinho. Apenas que se chamava Gonçalo Eanes Bandarra e era natural de Trancoso, terra que eu desconhecia por completo.

Passaram-se muitos anos e concretizei o meu sonho de ir a Trancoso, conhecer a pátria de tão ilustre sapateiro. Trancoso é uma pequena cidade do interior, pertencente ao Distrito da Guarda, com cerca de 10.000 habitantes e sede de um concelho com 29 freguesias. Trata-se duma bela cidade, com uma história riquíssima e com um notável património arquitectónico, encontrando-se rodeada de muralhas, da época dionisiana, com um belo castelo, também medieval, a coroar um majestoso conjunto fortificado. Os seus vários monumentos arquitectónicos constituem um dos mais expressivos e belos centros históricos do país, destacando-se, as igrejas de Santa Maria, da Misericórdia e de São Pedro, a Casa dos Arcos e o Pelourinho, bela peça do mais puro estilo manuelino. Reza a história que aqui se travaram importantes batalhas, entre as quais a de Trancoso, em 1385, num planalto a poucos quilómetros do centro histórico, que impôs pesada derrota às tropas invasoras.

Foi nesta maravilhosa cidade beirã que nasceu e viveu Gonçalo Eanes de Bandarra sapateiro de profissão que se dedicou à escrita em verso de profecias de cariz messiânico. Os seus escritos revelam um bom conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, do qual fazia as suas próprias interpretações, tendo composto uma série de "Trovas" sobre a vinda do “Encoberto” e o futuro de Portugal, como reino. Bandarra foi acusado pela Inquisição de Judaísmo e as suas trovas foram incluídas, posteriormente, no catálogo de livros proibidos, já que suscitaram interesse sobretudo entre cristãos-novos. Foi inquirido perante este tribunal e foi obrigado a participar numa procissão do auto-de-fé, sendo-lhe ainda imposta a obrigação de nunca mais interpretar a Bíblia ou escrever sobre temas da Teologia. Após o julgamento voltou para Trancoso, onde viria a morrer, em 1556. A sua cidade natal prestou-lhe homenagem, construindo numa das suas praças uma estátua, perpetuando assim a sua memória.

No entanto e apesar de julgado e condenado e da interdição do Santo Ofício, as suas trovas circularam por todo o país em diversas cópias manuscritas. Chegaram também à freguesia mais ocidental da Europa, à Fajã Grande.

As Trovas de Bandarra foram interpretadas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião após o seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir em Agosto de 1578.

Mesmo com todas as censuras e proibições, as Trovas continuaram circulando tendo sido impressas várias edições. Segundo alguns críticos, as Trovas do Bandarra terão influenciado o pensamento sebastianista e messiânico de D. João de Castro, do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.

Alguns exemplos das “Trovas” do Sapateiro Bandarra

“Eu componho, mas não ponho

as letrinhas no papel,

que o devoto Gabriel

vai riscando quanto eu sonho.

 

Com o troquês puxo o coiro,

com a cera encero a linha.

Gasta-se todo o tisouro

para abrir novo caminho.

 

Mas, ai! que já vejo vir

o Presbítero Maior

a riscar todo o primor,

que outra vez há-de surgir.

 

Este sonho que sonhei

é verdade muito certa,

que lá da Ilha Encoberta

vos há-de chegar um Rei.

 

Põe um A pernas acima,

tira-lhe a risca do meio,

e por detrás lha arrima!

Saberás quem te nomeio.”

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publicado por picodavigia2 às 20:47





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