Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O SENHOR JOÃO FAGUNDES

Quarta-feira, 16.07.14

O Senhor João Fagundes morava no Cimo da Assomada, precisamente na última casa, no Caminho que dava para as hortas, terras de mato e Lavadouros. Na verdade, a rua da Assomada, a primeira que demandava quem vinha dos lados da Fajãzinha, ou seja do Sul da ilha, tinha a forma de um ípsilon, isto é, no seu cimo, ramificava-se em duas vielas ou caminhos. À direita de quem a subia, a Assomada como que continuava através do Caminho da Missa, com destino à Eira da Quada, à Fajãzinha e às outras freguesias e vilas da ilha. Mas se, pelo contrário, voltássemos à esquerda, a dita rua prolongava-se pelo início do caminho que dava para as terras de cultivo, de mato, para as relvas, para o Covão e Outeiro Grande, para O Delgado e Quada, para os Lavadouros e terminava no Curralinho.

Ora era precisamente deste lado que se situava a casa do Senhor João Fagundes, a última de quem subia e a primeira de quem descia este caminho, um dos mais importantes e mais frequentados da freguesia. Para aqueles lados se situavam as melhores relvas, as mais férteis terras de cultivo do Vale da Vaca, as excelentes hortas do Delgado e Cabaceira, para não referir o lugar da Cuada, na altura habitado por cerca de trinta pessoas. Essa a razão pela qual passavam ali, diariamente dezenas e dezenas de pessoas e animais, embora a casa ficasse com a frente voltada para o lado contrário ao caminho. A casa situava-se muito próximo da Ladeira do Covão e como que abrigada pela encosta da Pedra d’Água.

O senhor João Fagundes, um homem já de provecta idade, com o nome rigorosamente igual ao de meu progenitor, razão pela qual meu pai, por ser mais novo, assinava o seu nome sempre seguido de Júnior. Assim não havia confusão, não tanto pelas cartas que estas traziam remetente, mas sobretudo pelos avisos amarelos, anunciadores das encomendas da América ou daqueles que eram para pagar dízimas e impostos e que não continham remetente. O senhor João Fagundes era um homem muito trabalhador e respeitado na freguesia, tendo exercido alguns cargos de responsabilidade e era irmão da mãe do José Nascimento e de minha tia Adelina, casada com um irmão de meu pai. Muito sério nos seus contratos, honesto nas suas atitudes, não se metendo na vida de uns e de outros. Raramente se vinha sentar à Praça, porque a sua casa ficava muito distante do centro da freguesia. Imagine-se o que seria percorrer toda aquela distância de noite, sem iluminação nas ruas. Por isso e pelo seu feitio e temperamento, o Senhor João Fagundes era um homem muito caseiro. A sua postura, digna, nobre e séria, impunha respeito. A sua bondade e simplicidade auferiam-lhe o apreço, a consideração e a estima de todos, Vivia com a esposa e os dois filhos mais novos, dado que os restantes já haviam casado. O João ingressou na Guarda-Fiscal, deslocando-se, mais tarde, para Santa Cruz, juntamente com a mulher, enquanto a filha casou e partiu para o Canadá.

Dada a situação da casa, muitos homens que vinham das terras, cansados, carregados com molhos e cheios de sede, paravam ali para pedir água. Assim, o largo que existia junto ao palheiro que ficava ao lado da casa como que se transformara numa espécie de descansadouro.

Com a abertura da estrada, no final da década de cinquenta, a frente da casa ficou voltada para esta e, por isso o acesso passou a fazer-se pela nova estrada.

É esta casa, a primeira da freguesia a ser visitada pela coroa do Senhor Espírito Santo, por altura da distribuição da carne, a primeira em que íamos cantar os Anos Bons e os Reis, que actualmente está à venda

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:11





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter