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O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Sexta-feira, 28.09.18

Aproximou-se da borda do velho batel e vomitou pela quinta vez. O Faial ainda ali, bem perto. As Flores, a milhas. Uma noite infinita à sua frente. Cambaleava, entontecido. Fez um esforço de recuperação e voltou à cadeira que, anteriormente, ocupara. Embora ardesse em enjoo, tentou acalmar os nervos e dormir. Só pela noite dentro o conseguiu. Quando acordou, o sol projetava-se em arco-íris sobre as Flores coberta, a norte, por uma chuva miudinha e persistente. Enfim! Depois duma intrigante viagem, entre o constante marulhar do oceano e a ronçaria do velho batel, chegava ao seu destino.

Oficial de pedreiro, oriundo de Vila Franca do Campo, esperava-o a gigantesca tarefa de erguer um templo em honra de São José, debaixo daquelas rochas, envoltas, permanentemente, em brumas e nevoeiros. Ali ficaria encurralado, invernos a fio, verões atrás de verões, impedido duma fuga até à ilha natal, simplesmente, a ver crescer, a passo de caracol, aquela obra monumental, à espera de que lhe chegasse o fim! Dessa, sim! Depois de pronta, dela havia de ufanar-se! Pela primeira vez, abdicara dos pequenos casebres de pedra negra, de Ponta Garça e da Ribeira das Tainhas, a fim de se dedicar a uma obra gigantesca, histórica. Nado e criado naquela que foi, durante o primeiro século de povoamento açoriano, a mais importante povoação da ilha de São Miguel, nela se fixando as principais instituições oficiais, como a Alfândega e a Ouvidoria, de onde o epíteto de "primeira capital micaelense", vagueava, sempre que lhe apetecia, à Lagoa, a Ponta Delgada, por vezes, até à vizinha ilha de Santa Maria. Mas ali, entre mar e rochas, estava numa espécie de jaula, preso como um condenado, sujeito ao isolamento, à solidão.

Não demoraram muito as agruras deste sufoco. Enganara-se. Por sorte ou por destino celeste, em frente ao enorme cerrado, onde se desenhavam os alicerces do novo templo, uma pequena casa, de pedra negra, ombreiras de tufo avermelhado, coberta de palha, mas de portas e janelas sempre abertas. Ela, a dona, a Júlia, sempre meiga, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre disposta a vir trazer um velho jarro de barro cheio de água, fresquinha e apetitosa.

Júlia era o de que mais belo e atraente havia no povoado. Júlia era uma mulher ainda jovem, duma beleza rara aliada a uma bondade extraordinária e a uma generosidade inédita. Além disso era uma mãe extremosa, uma esposa dedicada, sempre pronta a ajudar o marido nas lides agrárias e nas sementeiras. Embora, aparentemente, imbuída de uma ar sério e de uma postura sóbria, Júlia era divertida, afável, enfim, um belo exemplo de virtudes e de dignidade. No entanto, o que mais, estranhamente, a caracterizava era o facto não apenas saber ler e escrever mas, sobretudo, ser possuidora duma cultura invulgar. Fora o vigário que, quando criança, a iniciara nas letras, despertando-lhe um interesse inusitado pela leitura. Quando jovem devorou, num ápice, quantos livros o vigário possuía na sua pequena biblioteca, desde os velhos manuais de teologia e das vidas de santos até aos mais interessantes clássicos da literatura mundial.

Foram os Miseráveis de Victor Hugo, a última novidade que o vigário adquirira, um excelente livro, daqueles que se leem duas ou mais vezes que moldou o coração de Júlia e a tornou extremamente sensível ao sofrimento dos outros. Era uma extensíssima narrativa, um romance interessantíssimo que Júlia devorou em menos de um mês e onde a ficção se envolvia com a história, com a filosofia, com a moral, com a religião. Narrava a vida de Jean Valjean e de variadíssimos personagens que com ele enriqueciam a narrativa, testemunhando a miséria e a pobreza da sociedade francesa da altura. Júlia leu-o três vezes. Leu-o e assimilou, na perfeição, a mensagem.

Enquanto isso, as paredes do novo templo iam-se erguendo lentamente. João Rodrigues, apesar de tolhido pelo cansaço, a abarrotar de calor e de sede, deslumbrava-se com a figura enigmática de Júlia que, apesar de, inequivocamente, o perturbar, aliviava-o mais do que a frescura da água do cântaro que ela trazia para lhe matar a sede. Um gesto inebriante de ternura, o dela. Um reconfortante auxílio para ele, que simplesmente ao vê-la estremecia e meneava como se fosse a chama duma vela acicatada pelo vento. Inicialmente, apreciava-a como mulher atraente, bela, generosa e solidária. Mais tarde, passou a vê-la como amiga solícita, íntima, sincera, desinteressada com quem partilhava tristezas, alegrias, solidão e conforto. Por fim um enorme tufão, vindo não sabia de onde, moldou-lhe a alma e atirou-o para uma paixão incontrolável, desmedida, infinita. Amava Júlia como nunca amara ninguém. E agora? Estava encurralado num beco do qual dificilmente sairia. E ela? Também o amava? Não sabia. Uma dúvida tremenda destruía-o, minava-o, assolava-o por completo. A porta sul do templo já se erguia destemida e arrogante, mas a obra emperrava num contínuo e desmesurado insucesso. Como o constante rugido do vento norte, em noites de invernia, amedrontava-o a enorme paixão que por ela sentia. Mais. Aniquilava-o, desfazia-o por completo. É verdade que as visitas e encontros se sucediam, mas eram rápidos e vagos, balanceados entre um sorvo de água, uma conversa incompleta, um olhar de compaixão, um desejo infinito de a possuir, de a amar. Mesmo quando ausente a sua imagem trespassava-o, turvando-lhe o olhar, entontecendo-lhe o espírito, apertando-lhe o coração.

Os dias passavam, ora amargos a quando da ausência dela, ora dulcificados com a sua presença. A fachada principal do templo já tomava forma e a torre sineira delineava-se, firme e altiva como que perfurando os ares, como que unindo a terra ao céu. Ele cada vez mais apaixonado, mais louco, mais desfeito não tanto pelo cansaço da obra mas, sobretudo, pela incerteza duma paixão, cuja correspondência era uma enorme indefinição. A sua alma sentia-se, em cada manhã, inundada de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com cada gole de água fresca que ela lhe oferecia e que fruía com uma esperança inusitada. Abandonado à casualidade de frugais encontros saciava mais a agrura da paixão da alma do que a funesta sede do corpo. Era feliz, mergulhando apenas na esperança de mais um sorvo de água fresca que as visitas dela lhe proporcionavam. Se pudesse, ao menos, exalar, sequer, um pequeno afluxo de quanto lhe ia na alma, atingiria a plenitude. Mas pelo contrário, sempre que ela se aproximava com um ar de aparente indiferença, ele afrouxava, desfalecia, sucumbia perante a força do descalabro de mais uma visão.

Se algum dia ela não aparecia, invadia-o um silêncio profundo, uma mágoa lúgubre, um entorpecimento estranho. Nos dias em que ela sorridente e feliz, se aproximava de cântaro apoiado na cintura, João Rodrigues tentava em vão encontrar no instinto confuso dos seus sentimentos, na profundidade da sua paixão, a força necessária para abrir a sua alma e anunciar o seu sufoco. Subitamente, obstruía-se-lhe a voz, como se estivesse sob um pesado alçapão, uma laje basáltica, semelhantes às que agora alçava nas roldanas e muito a custo colocava nos degraus interiores da torre sineira.

Uma sascadela tremenda! Uma pedra enorme tricara-lhe o ombro, entrando-lhe na carne viva, provocando-lhe uma enorme ferida. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto., espargindo um grito de agonia. E foi a dor que lhe trouxe a coragem. Na manhã seguinte, quando Júlia, depois de muito hesitar, lhe bateu à porta do velho casebre, confessou, sem lhe dar tempo de retorquir ou sequer de se opor. Com quanto ímpeto pôde, lançou-se-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Uma paixão do tamanho do mundo. Amava-a, com nunca amara ninguém. Pensava nela todo o dia, toda a hora, todo o momento e a sua imagem acompanhava-o durante a noite inteira. Quando a encontrava ele sentia-se na presença duma deusa. Feridas dolorosas lhe causavam a sua ausência. Eram farpas duras que lhe rasgavam o peito. Erguia-a, como soberana, no seu quotidiano. Impunha-se como senhora do seu destino. Adorava-a, como deusa, em cada momento. Soluços escarlates esmagavam-lhe o rosto. Ela, apática, indiferente, como se nada fosse.

Passada a turbulência da inédia confissão, João Rodrigue enxugou duas lágrimas que lhe corriam dos olhos e olhou-a. Então?! Como não recebesse qualquer resposta, recuou solitário à leviandade da sua ousadia. Mas era tarde. Ainda esperou, ansioso, uma derradeira resposta, uma reação final. Nada. Por fim, Júlia, com uma normalidade arrepiante, esclareceu. Sabia, desde há muito. Os seus gestos, as suas atitudes, os seus olhares, as suas palavras… Tudo o denunciava. Sabia muito bem que ele vivia sob um sufoco, enfeitiçado com a diabólica loucura duma paixão que nunca havia de ser correspondida, paixão que o cegava e lhe perturbava o entendimento, que o impedia de ter consciência dos seus gestos, das suas atitudes. A verdade, porém, é que ela não o amava, nem nunca haveria de o amar. Apreciava-o muito, tinha por ele uma enormíssima amizade. Nada mais.

João Rodrigues insistiu, continuou a despejar sobre ela quanto lhe ia na alma. As palavras, porém, fugiam-lhe. Hesitava e voltava a avançar de novo. O peito ardia-lhe, a cabeça já lhe andava à roda e parecia-lhe não sentir o próprio corpo. Envergonhado, desejava que aquele momento nunca tivesse existido. Mais duas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto num sofrimento sem limites. Ela, insensível, fria, como se nada fosse. Condenava-o, recriminava-o, tentava afastá-lo.

Num ímpeto, João Rodrigues afastou-se. Ela fora muito clara: Não se importaria de continuar a visitá-lo, de acompanhá-lo, mas somente como amiga. Se pudesse até dava uma volta ao mundo na sua companhia, mas não o amava e, por certo, nunca havia de amá-lo. Como um náufrago no alto mar, João Rodrigues percebeu que a salvação só lhe viria do acaso. Afastou-se, desesperado, angustiado, a abarrotar de sofrimento e angústia. Apenas ouvia o silêncio sepulcral e aterrador das pedras que amontoadas em frente à fachada do templo aguardavam que as colocasse lá bem no alto, onde haviam de permanecer, silenciosas, para sempre.

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