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O SONHO AMERICANO

Quinta-feira, 14.08.14

Não havia habitante da Fajã Grande que durante as várias décadas da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX, com destaque para as de quarenta e cinquenta deste último, não sonhasse com a América que, assim, povoava o imaginário de todos e de cada um dos habitantes da mais ocidental freguesia açoriana. Era opinião geral entre todos os habitantes da freguesia de que a América, contrariamente à ilha onde viviam, era uma terra de abundância e de fartura, uma terra mítica e lendária, de fascínio e de encanto onde todos, mesmo os mais patetas e menos desenrascados, singravam com sucesso e enriqueciam de verdade.

A provar tudo isto, por um lado, as encomendas ou sacas de roupa que, anunciadas pelos tão desejados avisos amarelos, chegavam Carvalho após Carvalho, e que, de verdade, preconizavam uma América farta, terra de riquezas abundantes e fáceis, de roupas bonitas e floridas, de candis e canetas florescentes e até de um cheiro maravilhoso. Por outro lado eram as visitas de muitos calafonas, ricos e bem vestidos, com os bolsos cheios de dinheiro a cumprir a mandar pregar sermões e celebrar festas votivas, a dar jantares em louvor do Senhor Espírito Santo, com pão e carne em abundância e, sobretudo, a contar maravilhas dos taunes onde viviam, dos ranchos onde trabalhavam, do mechins com que ordenhavam vacas e das dólas que ganhavam.

Os que os viam e ouviam, fartos daquela vida maldita e de miséria absoluta, enchiam-se de raiva e de inveja a adquiriam uma enorme vontade de partir, pelo que ou procuravam papéles que os pais ou os avós haviam guardado no fundo dos baús ou nos caninhos das caixas, ou esperavam que um irmão ou cunhado lhes fizesse a carta de chamada e cheios de coragem, embora tímidos, muitas vezes endividados e vendendo terras e animais, partiam com os olhos postos na obtenção de riquezas e de fortuna fáceis.

A América tornava-se, assim, símbolo de poderio e de riqueza, terra de fartura, de deslumbramento e de encanto para quem vivia no meio de muitas limitações, rodeado de enorme pobreza, debaixo de rochas, muitas vezes cobertas nevoeiro até ao casario, calcorreando atalhos e veredas, com os pés descalços, ao frio ou à chuva, com molhos e cestos às costas, a limpar o esterco das vacas ou agarrados ao sacho, à enxada, ao bordão, à rabiça do arado, para ao fim do dia alimentar a família com um calde couve ou de agrião ou uma tigela de leite com um quarto de bolo ou um pedaço de pão de milho, muitas vezes duro e bolorento.

Por tudo isso e por muito mais era enorme a vontade de partir para a América, essa terra nova, farta e moderna, onde havia de tudo, situada para lá do Monchique e do horizonte, onde todos os dias se viam aparecer dezenas de navios, cheios de luzes e de riquezas que demandavam a ilha mas nunca parava. A América com os seus grandes taunes que todos sabiam os nomes, como San Francisco, Fresno, Turlok e San José, com o Vale de San Joaquim, muito melhor para fruta do que a Cabaceira ou o Delgado, os ranchos e as montanhas da Serra Nevada, povoada de rebanhos e abruptamente despenhada para os lados do Pacífico, e depois infinitamente alastrada por vales e cabeços muito diferentes dos do mato da Fajã, antes como os da Bíblia, onde corria leite e mel, onde havia fartura de tudo. Uma terra bendita, um lugar sagrado, onde não existia a pobreza, a fome, a dificuldade de sustentar os filhos, uma terra que oferecia um futuro radioso a todos os que a demandavam e nela se fixavam.

Foi de modo muito especial a descoberta de ouro na Califórnia, na segunda metade do século XIX, que alimentou uma visão utópica daquele estado da América, originando uma corrida desenfreada de pessoas vindas de várias partes do mundo, levadas pela intensa avidez de obter lucros fáceis. A Fajã Grande, por onde, diariamente, passavam e paravam baleeiras americanas, a carregar, clandestinamente, homens e viveres, não poderia ser, nem foi excepção. Essa a razão por que nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, a Fajã perdeu quase dois terços dos seus habitantes.

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publicado por picodavigia2 às 20:24





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