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O “TRANCÃO”

Sábado, 10.11.18

Integrar o elenco das companhas dos botes da baleia na Fajã Grande não era tarefa fácil, nem qualquer um conseguia tal desiderato. Era necessário possuir a arte, a perícia e o engenho de andar no mar, era imperioso ter força e desimpedimento para remar, exigia-se cédula ou carta de marítimo que não era passada a qualquer um – só depois de prestadas as devidas provas - e, além disso, os candidatos eram muitos e as vagas poucas, uma vez que os lugares de marinheiro dos dois únicos botes e da lancha ancorados na Fajã estavam, sistematicamente, preenchidos, época após época. Mas integrar o elenco baleeiro fajãgrandense com a arrojada, dificultosa e destemida função de trancador, era ainda muito mais difícil, para não dizer quase impossível. Para a maioria dos candidatos que a ela aspiravam, não passava de um sonho efémero ou de um desejo esvanecido. É que o Francisco Inácio e o Urbano estavam ali para durar! Não havia concorrente que os destituísse.

O trancador de baleias, que em pé, à proa do bote, à espera de atirar certo e seguro o arpão ao primeiro cetáceo que lhe aparecesse pela frente, tinha que ser forte, destemido, ágil e dotado de excelente pontaria. Acertar à primeira na baleia e acompanhá-la na corrida desenfreada, louca e acelerada que a dita cuja encetava, logo após ser arpoada, era tarefa arrojadíssima, extremamente arriscada e muito perigosa. Apesar de tudo, muitos rapazes sonhavam com ela, pretendendo assim imitar e seguir as pisadas dos dois melhores trancadores de sempre da Fajã Grande: o Francisco Inácio e o Urbano Fagundes.

Alto, esguio mas bastante desajeitado José, como muitos outros da sua idade, sonhou com a pesca à baleia. E sonhou não apenas ser baleeiro. Sonhou mais, muito mais. Sonhou ser trancador. Era safar-se de andar dia e noite agarrado à enxada e ao sacho, libertar-se de percorrer caminhos e veredas atrás das vacas, acarretar molhos e cestos às costas, tirar esterco e despejar a poça, numa palavra era abandonar o árduo e quotidiano trabalho agrícola, quase de escravo, para se dedicar a uma profissão digna, nobre e grandiosa – trancador de baleias.

Consciente das suas limitações, mas convicto das suas possibilidades, José entendeu que era preciso treinar. “Treinar muito” – ouvira ele vezes sem conta. Pois então! Se treinasse, se treinasse muito… seria contratado. Talvez o Francisco Inácio com uma boa junta de bois a dar dias para fora, mais hoje, mais amanhã, abandonasse aquela nobre e arriscadíssima tarefa. Seria ele, José, a suceder-lhe… “É preciso treinar, treinar muito” - pensou com os seus botões. Se bem o pensou melhor o fez. E a primeira oportunidade proporcionou-se. Foi ali perto, mesmo à beira do caminho, quando as abóboras do cerrado das Furnas amadureceram e enquanto aguardavam que as trouxessem para casa, para alimentar os porcos e para o gado… que José decidiu começar os treinos. Muniu-se de um bom pau com um ferro amarrado na ponta a simular o arpão… e vai disto! Começa a desancar, a atirar, a arpoar, a torto e a direito, nas abóboras, acertando numas e falhando noutras, mas desfazendo-as quase por completo!

Nada ganhou com isso pois nunca deu em trancador.

Porém, como na Fajã Grande todos “se pelavam” por arranjar novos apelidos a uns e outros, o José não arpoou em vão nas abóboras e ganhou um apelido, ficando, a partir de então, conhecido por toda a gente e em toda a parte por  “José Trancão” ou simplesmente “O Trancão”.

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