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O VALE DA VACA

Terça-feira, 14.01.14

O Vale da Vaca era, sob o ponto de vista económico e agrícola, na década de cinquenta, o verdadeiro celeiro da Fajã Grande, se excluirmos os lugares situadas à beira-mar, nomeadamente o Porto, as Furnas e o Areal, onde de facto a produção agrícola era de grande qualidade, pese embora, frequentemente, fossem estiolados com tempestades e salmouras.

Situava-se este fértil e produtivo vale, entre o Cimo da Assomada, que o extremava a norte e o Descansadouro e a Volta de Delgado com os quais fazia fronteira a sul. A poente, o Vale da Vaca era ladeado pelo Pico e, a nascente, pelo Outeiro e pelo Covão. Assim, encastoado entre dois montes, tanto um como o outro protegiam-no dos ventos fustigantes de leste e oeste, das tempestades do nordeste e sobretudo, no caso do Pico, evitava que fosse abalroado por salmouras e ventanias vindas do mar, como eram as Furnas, o Porto e o Areal. Era este enquadramento geográfico e o micro clima excelente de que usufruía que faziam que o Vale da Vaca se tornasse num dos melhores lugares de cultivo agrícola da Fajã Grande.

Muitos lavradores possuíam ali grandes cerrados onde praticavam sucessivas culturas durante o ano: milho, batata doce e branca, trevo, abóboras e legumes de toda a espécie. Ali tudo era semeado com regularidade, tudo nascia com eficiência, tudo se produzia em grande quantidade e tudo crescia com excelente qualidade. Para além dos produtos agrícolas, as terras do Vale da Vaca eram excelentes para a produção de trevo e erva da casta, os quais permitiam a permanência dos bovinos, dias e dias, durante os meses da Primavera, amarrados à estaca. Muitos agricultores reservavam exclusivamente para as vacas leiteiras as forrageiras ali produzidas. Muito provavelmente terá sido essa a razão por que este lugar se chamou Vale da Vaca, pese embora, muitas vezes, fosse designado simplesmente por Vale, o que também era sinónimo da sua excelência produtiva relativamente a outros vales ou lugares da freguesia. Além disso o Vale da Vaca era um lugar de beleza rara e dele disfrutava-se de uma vista como que “quebrada” de uma parte da Fajã, tendo como fundo oceano imenso e azulado, com o Monchique bem encravado no meio. Ladeado por encostas verdejantes, onde se encastoavam belgas solarengas, floridas no verão e aureoladas no inverno, o Vale da Vaca simulava, sobre o chão, uma espécie de enorme tapete axadrezado pelas paredes assimétricas dos campos, onde ressaltavam os perfumes do milho, das couves, do trevo e do restolho, sobrevoado por melros, tentilhões e lavandeiras a esgaravatar tudo, na mira de pitança, reflectindo sobre a terra húmida e escura o silêncio profundo das encostas que o ladeavam e o misticismo incongruente dos murmúrios do vento e da chuva.

No final da década de cinquenta, o Vale da Vaca foi esfaqueado e cortado a meio, devido à construção do troço da estrada que ligava o Porto da Fajã à Ribeira do Ferreiro e Ladeira do Pessegueiro. Este acontecimento, que alterou bastante a vida e os costumes dos fajãgrandense, por um lado trouxe alguns benefícios aos donos dos terrenos ali situados, mas por outro dividiu muitas propriedades e desfez parcialmente algumas. No entanto, o acesso à maioria das propriedades que, anteriormente, se fazia, na maioria dos casos, por canadas, atalhos ou maroiços que ligavam ao caminho circundante ao Covão passou a ser bastante mais acessível. Outrora até propriedades ali havia que para se ter acesso era necessário passar por outras. Depois da construção da estrada, o acesso à maioria passou a ser mais fácil, mais acessível e mais rápido, por que feito através da própria estrada que o ligava à Assomada e ao resto da freguesia.

Ultimamente, alguns destes cerrados, nomeadamente os que se localizavam a norte, isto é, mais próximo do Cimo da Assomada, foram vendidos para construção de moradias, fazendo com que aquele vale fértil, verde, belo, produtivo e protegido de ventos e salmouras, aos poucos, se fosse descaracterizando. Muitas outras terras foram abandonadas.

Era o princípio do fim de um éden agrícola, de uma pérola agrária, o dealbar do encerramento daquele que foi desde sempre um dos verdadeiros celeiros agrícolas da Fajã Grande.

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publicado por picodavigia2 às 15:21





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