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OLHARES

Sexta-feira, 10.04.15

O Royal Queen nem sempre abarrotava de gente. Por vezes, clareiras de ponta a ponta, mesas desertas, cadeiras vazias e espaço, muito espaço livre. Henry sentava-se sempre em frente à janela. Geralmente a ler. Tardes inteiras havia em que percorria dezenas de jornais e revistas, informando e recreando-se. Apesar de ter ao seu dispor todas as revistas e jornais do café, no entanto, muitas vezes, optava por divagar, olhando para aqui e para além, para um ou outro cliente, alguns deles, também embebidos na leitura. Outras vezes, sobretudo nas tardes de chuva, entretinha-se, simplesmente, a olhar para rua. Tinha como divertimento pessoas e carros a chapinhar na calçada por entre as bátegas da chuva.

Certa tarde em que abdicara totalmente da leitura, deu de caras com uma mulher, sentada à sua frente, a duas ou três mesas de distância e que o fixava profundamente. Desviou o olhar. Mas pouco depois tornou a voltar-se na direção da enigmática personagem. Ela mantinha-se, simplesmente, a olhar para ele, a fixá-lo decisiva e avassaladoramente. Ele a simular desconhecimento de tão estranha persistência. Ela de olhar sempre fixo. Nem disfarçava. Não tirava os olhos dele. Um olhar terno, comunicativo e profundo. Penetrava-o. Entrava-lhe pelo corpo. Derretia-o. O mais sublime olhar com que alguma vez havia sido confrontado. Parecia anestesiá-lo. Que se lixassem os jornais, as revistas e até os clássicos da literatura mundial, divulgados em fascículos suplementares por um ou outro jornal. Abdicava por completo da leitura. Que nunca mais se fosse embora aquele olhar! Que nunca mais se afastassem dele aqueles olhos! Estava fascinado. E ali ficou enquanto houve olhar. Por fim, ela, elegantemente, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou o café e encaminhou-se para a porta de saída. Ao passar em frente de Henry, dirigiu-lhe um novo olhar a que misturou um leve e doce sorriso. Saiu, deixando atrás de si um rastro de petrificação e desalento. Ele ficou só, imerso num profundo e delirante alvoroço.

No dia seguinte lá estava. Ela também. O mesmo olhar ténue, limpo, doce e profundo. Reparando com mais atenção pode verificar que era uma mulher, bela, simpática, atraente e muito interessante. Casada? Bem casada ou mal casada? Isso pouco importava. Se lhe dirigia aquele penetrante e outorgado olhar era porque o queria, o desejava. Talvez até o amasse. Henry feliz, embevecido já a imaginava a entregar-se-lhe ávida, desejosa pura e virgem. Com as mãos trémulas afagava-a, percorria-lhe todo o corpo doce e meigo. Ela respondia-lhe com doces e sublimes convulsões. Vagia em delirante e disfarçada aflição. Por fim os corpos suados, cansados, intumescidos mas delirantes e vivificados voltavam a entrelaçar-se num reboliço empolgante e por jungiam-se lado a lado, quietos, repousantes a refastelarem-se nos enigmáticos meandros duma paixão acabada de consumar-se. Henry cobria-a de beijos, de carícias, de mimos.

Voltou-a vê-la, dias de pois. Várias vezes. No Royal Queen, na rua, no Parque, à entrada do local de trabalho. Sempre o mesmo olhar a simular desejos obstruídos. Sempre a mesma dúvida sobre uma paixão oculta. Um deserto de ignorância. Nunca lhe falara. Apenas lia as inebriantes mensagens estampadas no seu profundo e doce olhar. Nem sequer sabia o seu nome. Nem nunca o soube, Chamou-a de Queen em homenagem ao local onde a descobrira, onde lhe lançara o primeiro olhar e porque, na verdade ela era uma verdadeira rainha.

A sombra do silêncio ameaçou desfazer-se, numa tarde de Outono. Aproximava-se um fim-de-semana, fútil, desinteressante, igual a tantos outros. Nos corredores do velho solar corriam vultos transparentes, apressados, como ramos de árvores acossados pelo vento em noites de invernia. Um acomodou-se. Queen! Mas assim como apareceu depressa se sumiu, deixando a doçura do seu profundo olhar, o odor do seu sorriso transparente. Dias e dias se seguiram com ela a amordaçar-lhe o destino. Simplesmente com olhares. Olhares que falavam mais do que as palavras. Olhares eternos, infinitos e transcendentes.

Mas, infelizmente, eram diálogos derrelictos, gorados. Tudo se esvaneceu como o fumo lento que em cachões esbranquiçados se evola das chaminés e se perde, para sempre, nos ares.

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publicado por picodavigia2 às 00:27





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