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ONÉSIMO ALMEIDA E O SÉCULO DOS PRODÍGIOS

Quarta-feira, 21.11.18

Numa altura em que a palavra “Descobrimentos’” dá origem a algumas discussões acesas, e que, para alguns, será politicamente incorreto usar, Onésimo Teotónio Almeida, em conversa com o PÚBLICO, disse que “descobrir não significa criar, inventar. Quando a Polícia descobre o criminoso, não o inventa. Os portugueses descobriram ilhas que não tinham ninguém nem estavam sequer mapeadas. Descobriram o caminho marítimo para a Índia, ninguém diz que os portugueses descobriram a Índia. Do resto são ‘Descobrimentos’ do ponto de vista europeu. Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. Na narrativa, lidamos com factos e com argumentos, não cabe absolver nem condenar a História.” Alguns dos ensaios inclusos em O Século dos Prodígios serviram como tentativa de corrigir a historiografia anglo-americana que teima em ignorar o que se passou em Portugal nesse período, sobretudo entre o final do primeiro quartel do século XV e os finais do segundo quartel do século XVI, com a chegada ao Japão. “Do ponto de vista propriamente de interesse para a ciência, teríamos de terminar [este período referido] um quartel mais cedo, com a viagem de Fernão de Magalhães”, escreve Onésimo na introdução ao livro. De facto, há poucas obras disponíveis de historiografia traduzidas para inglês. “Algumas foram traduzidas e publicadas, mas em edições muito antigas, e não foram reeditadas. Por tradição, os ingleses e também os americanos não conhecem outras línguas”, diz Onésimo Teotónio Almeida. “Nós não temos feito o bastante para tornar esse material, que existe, disponível em inglês.” E refere alguém que escreveu, num outro contexto, que “os portugueses não souberam contar a sua história”. Ainda sobre este assunto da falta de informação sobre este período da História, e como podem ser tecidas narrativas diferentes dos factos, conta como entre os americanos, também entre os franceses, “e no outro dia também na Suíça, corre a ideia ‘estúpida’”, posta a circular por um escritor americano de livros de ficção, de que Colombo foi ter com D. João II, oferecendo os seus préstimos, e lhe diz que a Terra é redonda, ao que o rei português responde ser plana. “Não foi nada disso”, diz Onésimo. “Os portugueses já sabiam que a Terra era redonda — qualquer indivíduo culto português, na altura, sabia que era redonda. O debate que acontecia era sobre o tamanho da Terra e sobre como era o hemisfério sul.” Por detrás destes ensaios, desta empolgante história de descobertas, está “o fascínio com o novo”, neste século de prodígios. Mas que prodígios foram estes? Para o professor da Brown, o prodígio, ou o conjunto de prodígios, foi tudo o que levou à descoberta do caminho marítimo para a Índia. Foi ter-se encontrado resposta à pergunta “como é que se vai por esse mar abaixo?”, foi fazer a cartografia do Atlântico do Equador para baixo, o mapeamento do céu, “porque foi preciso encontrar novas estrelas para se orientarem, a Estrela Polar desaparece abaixo da linha do Equador. Foi tudo feito com uma tenacidade absolutamente anormal para a época. O fascínio do novo aconteceu aqui.” Era pouquíssima a informação disponível na Europa sobre aquilo que os portugueses precisavam de saber, havia a dos gregos antigos, obviamente, imprecisa e enganosa. As informações sobre o que se encontraria da linha do Equador para baixo eram nulas e pejadas de mitos. Como seria da “parte de baixo” da Terra? “Talvez as gentes andem de pernas para o ar”, constava. E o mar Atlântico ligaria ao Índico? Não seria este um lago enorme sustido de um dos lados pela tal terra incognita do mapa ptolemaico? A tudo isto os portugueses tiveram que dar resposta para conseguirem descobrir o caminho marítimo para a Índia. A partir de determinada altura, “há um desinvestimento em procurar para sul a passagem para o Índico, e começa a aumentar o investimento em procurar, a partir dos Açores, um caminho por noroeste, porque vai ser mais barato, isto sempre dentro do paradigma de que a Terra é redonda”, nota Onésimo Teotónio Almeida. O que se torna inovador — um dos prodígios que titulam o livro — na chegada à Índia foi a maneira como tal aconteceu, dada a reduzidíssima informação existente. “Foi inovador do ponto de vista científico e tecnológico”, diz Onésimo. “Pela primeira vez, ciência e tecnologia andaram juntas. Mesmo mais tarde, no século XVII, em Inglaterra, quem fazia ciência não estava preocupado com a aplicação tecnológica do conhecimento que adquiria. A ciência em Portugal era então orientada para a resolução de problemas práticos. Como é que se vai para ali, e com que barcos, e quando se chegar ao Equador como é que vai ser? Eles sabiam que a Terra era redonda, mas pensavam ‘depois de se passar o Equador vamos cair onde?’, pois não havia a menor ideia da gravidade. Eles vão aos poucos, um barco vai até um cabo na costa de África, e volta para trás e informa os restantes.” A Lisboa daquele tempo fervilhava de gente vinda de todo o lado, isto é sabido dos livros de História. Há então uma nova mentalidade, os reis e alguns nobres interessam-se pelo saber, são curiosos. Procuram entre os estrangeiros aqueles que sabem, os assuntos são conversados e discutidos. As notícias do que acontecia em Lisboa passam as fronteiras do reino. “Lisboa era então uma espécie de pólo magnético que começava a atrair a gente com saber que vivia por essa Europa. A partir de certa altura, quem na Europa queria saber coisas vinha para Lisboa. O Garcia de Orta diz que em Lisboa se sabia mais num dia do que em Roma em cem anos. A Lisboa tudo chegava” diz Onésimo. “Os reis portugueses mandavam gente para a Europa para descobrirem quem sabia mais e depois traziam-nos. Isto é uma atitude completamente moderna. É quase como o exemplo de Palo Alto, na Califórnia, nos dias de hoje — atraem os jovens que sabem, pagam bem, e as pessoas vão para lá.” A nova mentalidade empírica entre a gente culta de Lisboa tem também implicações “tecnológicas”. A experiência, ou melhor, os seus resultados começam a ser tratados de maneira científica, e isso é atestado pelas espetaculares narrativas de Duarte Pacheco Pereira e de D. João de Castro, nos seus diálogos com os marinheiros. Tudo isto foi possível porque havia um grupo de gente muito culta que gostava de pensar, e outros que sabiam construir barcos e navegar, e havia dinheiro. “Não havia uma escola de Sagres, mas havia um escol de gente com muita curiosidade”, refere Onésimo Teotónio Almeida. “Começa a surgir um novo critério do que é que constitui a verdade. Há gente muito inteligente, muito culta, como o D. João de Castro, que põe os marinheiros a fazerem coisas [experiências] e a mandá-los tomarem nota de tudo — ‘vai experimentar, não dá certo, agora corrige’. Há problemas que surgem e que ele próprio resolve, mas há outros que não consegue e então pede ajuda ao Pedro Nunes, um matemático, um pensador, um teórico. O Pedro Nunes nunca viajou — era reconhecido como o maior matemático do século XVI.

NB - Texto retirado do Jornal Público on line

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publicado por picodavigia2 às 08:36





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