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OS DESPAUTÉRIOS DO PADRE LIBÓRIO

Quinta-feira, 30.01.14

(UM CONTO DE COUTO VIANA)

 

O «Cu de Coibes» (“coibes” significa couves na linguagem popular minhota) era o sacristão da Senhora do Resgate, uma pequena capela apertada entre dois prédios de habitação – para o exterior, apenas a larga porta numa parede de azulejos –, na rua mais antiga e estreita da cidadezinha.

Morava nas traseiras da capela e, do quarto de cama, via-lhe o sino, quase uma sineta, pondo-o a tocar estando ainda deitado, pois tivera artes de prender um arame ao badalo que puxava da janela nas madrugadas gélidas, pelas cinco e meia, no primeiro aviso da missa d’alva, às seis horas, assistida por mercadores de feiras próximas ou distantes, passageiros do primeiro comboio com destino ao Porto.

O «Cu de Coibes», Armandino Candeias no bilhete de identidade, era balofo e imberbe, apesar dos seus quarenta anos, com uma voz de tenorino, tal um castrado da Senhora Dona Maria I. Cantava, fanhoso, ao som do organito dedilhado pela D.ª Clemência, (um feixe de ossos assexuado, irmã do cónego Ângelo), durante a eucaristia do padre Libório, ali, no Resgate, com o velho sacerdote a dispensar acólito.

O sacristão e a organista tinham de comum a língua viperina, capaz de lançar para as profundas do inferno a alma mais imaculada; aquele inferno onde a aguardava a forquilha do cónego Ângelo, um anjo caído, sempre pronto a intrigar junto do bispo D. Teodorico Chaves, muito crédulo, muito confuso de ideias.

O padre Libório, um santo barão, modesto e ingénuo, era conhecido em toda a cidadezinha pelos tremendos despautérios que dizia e fazia durante o exercício das suas actividades sacerdotais.

Atribuíam-lhe, até, aquele caso em que, inadvertidamente, havia quebrado um segredo de confissão perante uma fila de fiéis, aguardando vez, frente ao seu confessionário: Ajoelhara-se diante das grades uma pobre velhota que trabalhava a dias numa casa fidalga da cidadezinha. Padre Libório, cansado de haver velado toda a noite à cabeceira de um moribundo, deixara-se adormecer embalado pela lengalenga bichanada da pecadora. Ela, ao ouvi-lo ressonar, abandonou o confessionário mesmo antes da penitência. Súbito, padre Libório acorda com um ronco mais forte e, dando pela ausência da confessada, deita a cabeça de fora da cortina roxa e pergunta em voz alta aos fiéis aparvalhados:

   - Onde está a velha que roubou uma panela?

 

A.M. Couto Viana, Os Despautérios do Padre Libório e Outos Contos Pícaros

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publicado por picodavigia2 às 10:50





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