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OS LABREGOS

Segunda-feira, 21.09.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, utilizava-se, com frequência a apalavra labrego ou o seu plural, labregos. Com ela se referiam geralmente os rapazes mais estouvados, atrevidos, por vezes até malcriados que gozavam os outros e lhes faziam partidas. Aquilo é que são uns labregos, ouvia-se com alguma frequência. Na verdade, na língua portuguesa, a palavra labrego, como adjetivo, entre outras coisas significa ser grosseiro ou malcriado. No entanto tomada como substantivo a palavra tem um significado um pouco diferente. As pessoas mais antigas falavam em labregos como seres ou personagens míticas, semelhantes às feiticeiras que, pelos vistos, viviam durante uma parte do ano no mar e outra no mato, bem lá no interior da ilha. Havia mesmo quem cuidasse que os labregos eram diabos que vinham do outro mundo a fim de levar pessoas com eles para o Inferno. Mais contavam os nossos avoengos de que era na noite das candeias, ou seja no dia dois de fevereiro que os labregos saltavam do mar para a terra, subindo as ribeiras e escondendo-se no mato, para voltarem ao mar seis meses depois. Nessa noite ninguém devia sair de casa ou ir para o mar, nem aproximar-se da costa ou das ribeiras, nem andar sozinho, nem sequer deixar as portas das casas abertas. Caso contrário seriam atacados pelos labregos. Pelos vistos comer alho ajudava a afugentá-los.

Sobre eles contavam-se várias estórias. Uma delas era a seguinte: certo dia, na noite de labregos, ou seja, na noite do dia dois de fevereiro, estava um grupo de homens a falar sobre os labregos que haviam de saltar para terra e subir as ribeiras naquela noite. Uns que eles existiam outros que não. Mas verdade é que todos evitavam andar sozinhos naquela fatídica noite. Um deles, muito anamudo e que se gabava de não ter medo de nada nem de coisa nenhuma, jurava a pés juntos que naquela noite ou em qualquer outra noite ia sozinho à costa, à Ribeira das Casas ou a outra ribeira qualquer. Até ia ao mato se fosse preciso. Mesmo à meia-noite. Os outros que não e ele que sim. E vai daí fazem uma aposta. Aquela hora ele subia, sozinho, a Ribeira das Casas até ao Poço do Bacalhau. Apesar de a noite estar escura como breu o homem aceitou a aposta e lá caminhou. Mal tinha passado a ponte e começado a subir a estreita vereda que dá para as relvas e lagoas circundantes ao Poço do Bacalhau, ouviu uma voz rouca e desconhecida que disse:

— Agarra, agarra que é ladrão.

Cheio de medo, todo arrepiado, o homem meteu a mão no bolso e sentiu que tinha consigo um dente de alho. Fora a mulher que, quando soube da aposta, temendo o pior lhe meteu um dente de alho no bolso. O homem pensou que era um milagre de Deus que lhe dava o alho para que o comesse e se visse livre dos labregos. Comeu o dente de alho e logo ouviu outra voz ainda mais rouca que disse

— Não o agarres, que ele comeu alho e bolo do borralho.

O homem ficou todo arrepiado. Cheio de medo, a tremer como varas verdes, voltou para trás e correu para casa, um pé não apanhava o outro. Ainda lhe parecia mentira quando se achou deitado na cama, com a porta bem ferrolhada, ao lado da mulher que não pregara olho até ele voltar.

No dia seguinte o caso espalhou-se pelo povoado e todos diziam que tinham sido os labregos o que ele tinha ouvido.

Nunca mais o homem voltou a fazer apostas, muito menos as que tivessem a ver com labregos.

 

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