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OUTRA VEZ O PICO

Sábado, 22.08.15

Outra vez o Pico! Outra vez a segunda maior ilha do arquipélago açoriano, maior em tamanho, diga-se em abono de verdade, porquanto em termos de população a sua grandeza deixa muito a desejar. Serão pouco mais de 14.000 os nela residentes. Mas em outros parâmetros o Pico não desarma nem nos ilude. Sobretudo em beleza e sublimidade, o Pico é grande, uma espécie de joia natural, como alguém o apelidou, epíteto que lhe assenta como uma luva. A coroar toda a beleza e grandiosidade, altivez e deslumbramento, a sua majestosa e imponente montanha também ela muito grande e sobretudo muito alta, o ponto mais alto do território Português, com o pico do Pico, bem lá no alto, situado a 2351 metros de altitude, conhecido pelo Piquinho do Pico.

Mas chegar ao Pico, partindo da cidade do Porto, nem sempre ou quase nunca é fácil e rápido. Ou se esquarteja o espaço que separa a urbe tripeira da ilha de lava e se salta de ilha para ilha, esbanjando tempo, demorando uma eternidade, ou se partilha o mesmo espaço, obrigando a pernoitar na ilha do Arcanjo, essa sim a maior parcela açoriana, não apenas em superfície mas também em população. Há outras hipóteses, mas também elas morosas e desgastantes. Viajar até à capital de autocarro, em quatro longas horas de caminhada noturna, com horários desencontrados com os aviões ou então seguir rumo ao Faial, para onde há melhores e mais frequentes voos e depois tomar a lancha para o Pico, com horários também desencontrados. Enfim, de uma forma ou de outra, com mais ou menos demora, com saltos ou sem eles, chega-se ao Pico. Mas na vrdadem vale a pena, para saborear este adocicado torrão de lava negra, de cerca de 450 km2 de superfície, 42 km de comprimento e 15 de largura máxima, inserido no grupo central de lhas da Região Autónoma dos Açores. Além disso o Pico também é uma das designadas ilhas do triângulo, estando os outros vértices, um no Faial e outro em São Jorge. Recorde-se, para os menos circulantes destas paragens que o arquipélago dos Açores ao Pico se divide em três grupos: o Grupo Oriental constituído por São Miguel, Santa Maria e os ilhéus das Formigas; o Grupo Central com Faial, Pico, São Jorge, Terceira e Graciosa e o Grupo Ocidental, formado pelas ilhas Flores e Corvo.

Mas na verdade, cada vez que se regressa ao Pico saboreia-se um oásis de serenidade, comunga-se um paraíso de bem-estar, envolvemo-nos uma espécie de reserva de sossego ou mergulhamos num seleiro de tranquilidade. Voltar ao Pico é embebedar-se com o silêncio estonteante das brisas matinais, entrelaçado com o chilrear irreverente e estouvado da passarada e com os murmúrios maviosos das marés, é purificar-se com os salpicos adocicados duma maresia adormecida, ondulada, apenas, com o sulcar dolente das quilhas das embarcações, a rilharem em redopio, na demanda de chicharros e bonitos ou então de outras mais sofisticadas e modernas na observação de baleias e golfinhos. E como se isso não bastasse, o Pico, quando a ele se regressa, enleva-nos no aroma vertiginoso dos cachos de uva a amadurecerem nos currais de lava, encharca-nos num perfume de maresia e embala-nos no escurecer zonzo e colaço das noites claras, luminosas, embebidas de luar e de sublimidade e a abarrotar de cânticos e danças das cagarras. No Pico, muitas vezes contrariamente ao que se anuncia em jornais, rádios e televisões continentais, há sol, muito sol, destemido e florescente a desfazer madrugadas, já sonsas e sombrias e a aniquilar, por completo, as tardes escurecidas e enevoadas. Por vezes, demasiado, excessivo destruidor de collheitas. No Pico há mar doce, envolvente, de águas puras, cristalinas, purificadoras, mesmo milagrosas. Regressar ao Pico é mergulhar neste mar, encharcar-se neste chão, comungar uma estranha força telúrica que nos atrai, prende e enleva. A Ilha Montanha, qual gigante adormecido no meio do atlântico, cobre-se com mantos de tonalidades variadas onde predomina o verde pardacento das encostas, o azul dourado do oceano, o amarelo suculento da cana roca e dos pêssegos, o vermelho da uvas e das amoras e o negro enigmático das paredes das adegas, dos currais, dos maroiços e de uma ou outra casa. Regressar a Pico é encafuar-se num paraíso, num sonho de paz e silêncio, deixar-se envolver num rendilhado negro e rude, aqui e além galvanizado de verde luxuriante e desenvoltos, penetrar nos campos calafetados de lava ou até subir a imponente Montanha, conquistando uma enigmática e inesquecível sobrenaturalidade. Regressar ao Pico, apesar dos estrepitantes solavancos duma viagem longa e cansativa é deixar-se imergir num sonho bordado a púrpura, ungido com encanto das paisagens, pincelado com silêncio das madrugadas. Na verdade o Pico apresenta-se como um éden, puro e original, para todos os amantes da natureza, disponibilizando-lhes também um excelente património gastronómico.

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