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PAPAS QUE RENUNCIARAM ANTES DE BENTO XVI

Segunda-feira, 27.01.14

A anunciada renúncia à chefia da Igreja Católica, por vontade própria, pelo actual Papa, Bento XVI, senão inédita, é, pelo menos muito pouco vulgar entre os 262 sucessores de São Pedro. No entanto, alguns foram os papas que já o fizeram, embora por outras razões, cabendo a Bento XVI ficar na história como sendo o primeiro papa a abdicar por motivos, considerados pelo próprio, de incapacidade física ou mental, embora haja rumores, no Vaticano, de que João Paulo II, falecido em Abril de 2005, tenha escrito e deixado, aos cardeais, uma carta de renúncia, a fim de que fosse protocolada, caso viesse a ser vítima de qualquer tipo de doença que o deixasse incapacitado para o governo da Igreja.

A primeira renúncia de um chefe da Cristandade ocorreu no ano de 235, e foi feita pelo papa Ponciano, o 18º sucessor de Pedro, durante o seu exílio na Sardenha. Ponciano abdicou voluntariamente, ao perceber que jamais sairia com vida da “ilha da morte”, a fim de voltar ao Vaticano. Ponciano foi chefe da Igreja entre os anos 230 e 235, não foi martirizado como os seus predecessores, mas condenado a trabalhos forçados na Sardenha, pelo Imperador Maximino Trácio. Ponciano foi canonizado e a Igreja recorda-o, juntamente com Santo Hipólito, a 13 de Agosto. Desconhece-se quanto tempo Ponciano viveu exilado, após a renúncia, mas sabe-se que morreu de esgotamento, em virtude do tratamento cruel, violento e desumano de que foi vítima, nas minas da Sardenha, onde trabalhava, condenado a trabalhos forçados. Os seus restos mortais foram transladados para Roma pelo Papa Fabiano e enterrados na catacumba de Papa Calisto I.

O segundo papa a abdicar foi Silvério, em 537. Fê-lo, também, por ser forçado a exilar-se, por ordem da imperatriz Teodora, na ilha mediterrânea de Palmaria. Quando conseguiu libertar-se do exílio e regressar ao Vaticano, a imperatriz já havia colocado outro pontífice no seu lugar, o papa Virgílio, pelo que Silvério aceitou manter-se definitivamente afastado da cátedra de São Pedro. Também foi canonizado.

O Papa actual não ficará na história por ser o único papa de nome Bento a resignar. Durante uma época tumultuosa da história da Igreja Católica, conhecida como a “idade das trevas”, os papas acotovelaram-se, guerrearam e entregaram-se à corrupção e à venalidade, aliando-se, geralmente, a famílias aristocráticas, poderosas e influentes. Para acabar com exageradas mordomias e extravagantes excessos, nada abonatórios do Vigário de Cristo, a Igreja e o povo de Romana elegeu Bento V, como Sumo Pontífice, em 964. Algum tempo depois, o imperador Oto I, fundador do Sacro Império Romano, fez eleger, Leão VIII, pelo que Bento V, foi forçado a resignar, alguns meses após a sua própria eleição. Nascido em Roma, o papa Bento V foi eleito em 22 de Maio de 964, ainda durante o pontificado do seu antecessor, João XII, em circunstâncias políticas críticas e contra a vontade do poderoso imperador que depusera João XII. Bento V passou por períodos turbulentos, não conseguindo opor-se ao todo poderoso imperador que, assim, reinstalou Leão VIII no trono de São Pedro. Bento V abdicou e abandonou Roma, um mês, após a sua eleição, refugiando-se na Alemanha, onde permaneceu exilado, até a morte de Leão VIII. Com a nova vacância da Santa Sé, o imperador Oto I acabou por reconhecer-lhe a autoridade pontifícia sob pressão dos francos e romanos, mas o Sumo Pontífice emérito, faleceu poucos dias depois, com fama de santidade.

No século seguinte, em 1009, há relatos de uma nova renúncia papal. Desta feita foi o papa João XVIII, que abdicou pouco antes da sua morte, pela simples opção de querer viver os últimos tempos da sua vida, como monge, na basílica de São Paulo, em Roma. Eleito em 1004, durante os cinco anos e meio de pontificado, promoveu e paz por todos os lugares alcançados pela Igreja Romana, lutou tenazmente para que o cristianismo fosse difundido entre os bárbaros e os pagãos e realizou vários sínodos para levar mudanças à vida dos clérigos. Abdicou voluntariamente e retirou-se para o mosteiro de São Paulo Fora dos Muros, vivendo como monge, durante alguns anos.

No mesmo século, porém havia ainda de verificar-se uma nova mas heteróclita renúncia. Trata-se de Bento IX a quem são reconhecidos três mandatos como papa, implicando outras tantas renúncias.

Bento IX ascendeu ao papado em 1032, com apenas 20 anos, levando uma vida imoral e dissoluta. Em 1044, a cidade de Roma revoltou-se e elegeu como papa Silvestre III, a favor de quem Bento IX se viu obrigado a renunciar. Um ano depois, após a morte de Silvestre III, Bento IX voltou a ocupar a cátedra de São Pedro, num segundo pontificado, que durou apenas 21 dias, pois voltou a renunciar ao papado, mas de forma estranha “vendendo a tiara” ao seu padrinho João Gratian, o qual se fez eleger como novo papa, tomando o nome de Gregório VI. João Gratian, Arcipreste de S. João "ad portam Latinam", forçou o afilhado a abdicar, com o objectivo de ver a Santa Sé livre de um pontífice tão indigno, pese embora o seu pontificado também não tenha trazido a paz à Igreja. No entanto, os bispos reunidos em Sínodo consideraram que o modo como Gregório VI obtivera o pontificado era, claramente, um caso de simonia e obrigaram-no a renunciar, o que acabou por fazer. Como seu sucessor foi eleito Clemente II, que teve um curto papado. Após a sua morte, Bento IX retomou o trono de São Pedro, governando a igreja, apenas durante 228 dias, voltando a abdicar, pela terceira vez, mas definitivamente, em 1048. Bento IX nasceu em Roma com o nome Theophylactus e era filho de Alberico III, conde de Túsculo e sobrinho dos papas Bento VIII e João XIX. Foi o pai que devido ao seu poderio e influência, lhe obteve o trono papal. São Pedro Damião, no Liber Gomorrhianus descreve-o como "regozijando-se em imoralidade" e "um demónio do inferno dissimulado de sacerdote". O destino de Bento IX, depois de renunciar pela terceira vez, é obscuro. No entanto, parece provável que tenha abandonado, definitivamente, as suas pretensões papais.

Também o papa Celestino V abdicou em 1294. Frade beneditino radicalmente espiritualista e um asceta de vocação que vivia como recluso, Celestino V foi eleito num conclave que demorou cerca de dois anos, apesar de haver apenas doze votantes. O conclave foi mesmo interrompido por causa de uma epidemia de peste, que, inclusivamente, vitimou um dos cardeais. A somar a isso, vivia-se um período de lutas pelo poder, entre famílias italianas mais influentes. Em 5 de Julho de 1294, finalmente, elegeu-se Celestino V. De carácter fraco, submisso e desajustado para o cargo, deixou-se iludir e influenciar por famílias poderosas, sendo forçado a abdicar, meio ano após a sua eleição.

Por fim, o último papa a renunciar antes de Bento XVI foi Gregório XII, em 1415. Deposto pelo Concílio de Pisa em 1409, onde foi eleito o antipapa Alexandre V, manteve-se, teimosamente, no trono. A renúncia foi tomada, anos mais tarde, como uma negociação feita durante o Concílio de Constança, no período do Grande Cisma do Ocidente - uma grande crise religiosa que ocorreu na Igreja Católica entre 1378 a 1417. Gregório XII tinha 90 anos à época e sua renúncia acabou por contribuir positivamente para o termo da crise. Consta que o concílio, em reconhecimento pela dignidade mostrada pelo Papa, o convidou a assumir o bispado do Porto e a representação pontifícia da região italiana do Marche. Gregório XII não aceitou e agradeceu, através duma carta que enviou aos padres conciliares. Morreu dois anos após a renúncia.

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publicado por picodavigia2 às 17:57





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