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PEDIR CARNE À PONTA

Segunda-feira, 15.06.15

Muitos americanos que em tempos idos haviam abandonado a ilha, na década de cinquenta regressavam, geralmente no verão, para darem um jantar, ou seja para cumprir ou pagar uma promessa que haviam feito ao divino Espírito Santo. As promessas ao Senhor Espírito Santo eram feitas, geralmente, em momentos de grande aflição, doença ou de catástrofe ou ainda e com maior frequência se tivessem conseguido realizar, com êxito, a sua ida para a América, se a vida por essas paragens lhes tivesse corrido bem, se tivessem tido sucesso profissional e económico, o que geralmente acontecia. Estes jantares incluíam a distribuição de carne e de pão de graça, a todas as famílias da localidade ou da zona delimitada a quando da promessa. Acontecia porém que a maioria dos americanos prometiam dar o jantar apenas às pessoas e famílias da sua localidade, ou seja na Fajã, na Fajãzinha ou na Ponta. Raros eram os que abrangiam toda a população que ocupava o espaço desde o Portal ao Risco, incluindo, para além daquelas três localidades, a Cuada.

No entanto, estes jantares eram mais frequentes na Ponta, talvez porque o número de emigrantes daquela localidade fosse, proporcionalmente, maior do que o de emigrantes da Fajã. Também se sabia que sendo a carne e o pão distribuído em louvor do Senhor Espírito Santo, a pessoa que cumpria a promessa nunca recusava uma posta de carne aos mais pobres mesmo que pertencessem a outra localidade.

Assim e nos meus tempos de menino, sempre que havia um jantar na Ponta, eu e muitas outras crianças e até alguns adultos que não tinham crianças na família, moradores na Fajã, de cestinha em riste, partíamos para a Ponta, na mira de pedir uma posta de carne e um pão. Os que moravam na Assomada e na Fontinha, para encurtar caminho, seguiam pela canada do Mimoio, até à ponte da Ribeira das Casas, onde tomavam o caminho da Ponta, subindo a ladeira das Covas e o antigo caminho, paralelo à Rocha do Vime, até à Ribeira do Cão. Todos juntos, entrávamos na Ponta, atravessando o casario da rua principal, até à parte norte, ao Outeiro, onde, ao lado da igreja da Senhora do Carmo, se situava a Casa do Espírito Santo. Muito envergonhados, por vezes ridicularizados na nossa condição de pobres e pedintes, pela ganapada da Ponta, com quem mantínhamos uma acentuada hostilidade histórica, entrávamos na casa e sentávamo-nos à espera da nossa vez. A Casa enorme e esconsa exalava um cheiro a sebo e a carne fresca, espalhada sobre folhas de cana roca. Era sábado e o gado havia sido morto no dia anterior. Durante a noite, um grupo de homens havia picado a carne que o Senhor Padre Pimentel já havia benzido. Alguns homens ainda serravam, picavam e partiam. Outros colocavam as postas nas cestas das crianças da Ponta que, acompanhando a coroa, a bandeira e os foliões, a iam distribuir por todas as casas. Só no fim, a que sobrava era distribuída aos pobres da Fajã. La chegava a minha vez. Trémulo aproximava-me e colocavam-me uma posta de carne e um pão na minha cesta. Agradecia e, juntando-me aos outros, regressava a casa feliz. No dia seguinte havíamos de ter lá em casa um almoço bem diferente do dos dias habituais.

Tão contente eu ficava quando sabia que havia um jantar na Ponta. Embora muito raramente também íamos pedir carne a um ou outro jantar na Fajãzinha.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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