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PÔR-DO-SOL NA RIA

Domingo, 21.09.14

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um branco amarelado mas tão despidas de cal que quase deixavam ver os adobes de barro com que haviam sido construídas, que se assemelhavam a pequenos retângulos moldados em formas de madeira, ligados com argamassa de cal e areia e, que se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado. Circundava-a, pela frente, uma eira, uma espécie de minúsculo terraço, onde se debulhavam, joeiravam e secavam os cereais. A eira comunicava diretamente, através dum alpendre, com o interior do pequeno cubículo. O alpendre era fechado por um telhado suspenso em grossos e toscos esteios de madeira e nele se recolhiam os cereais depois de secados na eira. O interior da casa também era muito pobre, simples, pouco iluminado e compartilhava-se por quatro divisões: uma cozinha e uma sala, vetustas e enormes a contrastarem com a tímida pequenez de dois quartos laterais ao alpendre.

Era nesta casa que morava Alice, com os pais e os irmãos

A casa ficava perto de uma ria, um enorme e quase infinito lençol de águas límpidas e cristalinas, ora calmas e tranquilas ora rebeldes e assediadas por pequenas ondas que, espicaçadas pela ventania, se iam agigantando até se perderem nas margens contra as quais aparentemente se revoltavam. Ao amanhecer, enquanto o crepúsculo se desfazia e o Sol se espreguiçava, lançando os primeiros raios, a ria como que se enchia duma alegria enigmaticamente expectante e as suas águas revestiam-se de um tom alaranjado e fulvo. Durante o dia, se o Astro-rei, mais atrevida e ousadamente, despejava os seus raios com maior força e intensidade sobre a superfície terrestre, as águas da ria matizavam-se de um azul dourado, transformando-se num enorme tapete acetinado, mas se, pelo contrário, surgiam tardes escurecidas e ensombradas, tingiam-se, então, de um pardacento disfarçado onde se desenhavam brumas densas e espessas, retratando tenuemente o colorido esverdeado das margens e das planícies circundantes e, ao cair da tarde, enlevando-se com a penumbra do anoitecer, embelezavam-se de tons de violeta acinzentados. Finalmente, à noitinha, sobretudo nas noites de Lua Cheia, o aspeto da ria assumia-se como uma espécie de gigantesco manto prateado, onde as vedetas se refletiam, salpicando-o de pontinhos dourados, de serenidade e de silêncio.

A avó da Alice havia-lhe ensinado que a ria era uma espécie de ilha ao contrário, isto é, uma grande porção de água rodeada por terra, onde morava uma infinidade de peixes e desabrochava uma vastíssima quantidade de algas. É que a ria era ladeada por uma ampla e esverdeada planície, entrecortada por inúmeras ribeiras e regatos, matizada, aqui e além, por pequenas manchas esbranquiçadas que se aglomeravam, muito aconchegadas, junto das torres sineiras das igrejas, donde, manhã cedo e à noitinha, emanava o toque simples mas solene e doce das Trindades.

Na ria, um enorme sapal, vislumbrava-se um vigor e uma beleza que se refletiam na placidez das suas águas, na imensidade das suas margens, na opulência da sua fauna e na dissemelhança da sua flora. A ria era fecunda, atraente, fértil e serena e, na sagacidade das suas orlas, sentia-se que transbordava uma esperança de tranquilidade quase transcendente e infinita. Havia qualquer coisa de imponente, sublime e harmonizado na lisura reflexiva das suas águas, no seu aspeto lagunar e na lhaneza das suas margens. A ria transportava, quer os que com ela partilhavam as agruras do seu quotidiano quer os que a visitavam esporadicamente, numa contemplação idílica, permanente e bucólica entre o céu e a terra, numa aspiração infinita de sonhos transcendentes e inatingíveis. É verdade que a ria, por um lado, se apresentava como uma espécie de sertão de água, um pantanal ou um brejo, mas por outro, manifestava-se como um recanto ubérrimo, um recinto deslumbrante, onde a paisagem aspergia grandiosidade, onde a beleza se impunha a cada momento e em cada recanto, num comunhão recíproca e única entre a água, a terra e o céu.

Era na ria que o pai da Alice procurava o sustento da família. Era na planície que circundava a ria que mãe extraía da terra o pão de cada dia. A ria e a planície como que se uniam numa simbiose perfeita e recíproca.

O pai, sobretudo nos meses entre Março e Setembro, embrenhava-se na ria, na apanha e recolha do moliço com que se haviam de fertilizar os campos que se estendiam ao longo da planície. Levantava-se alta madrugada, paramentava-se de camisa de estopa esbranquiçada, manaia crua de algodão e barrete de malha preta de lã e partia. Juntamente com os outros homens da companha, ficava na ria horas e horas a fio, arrastando na profundeza limitada das águas os ancinhos presos nos bordos do barco. Quando os homens os sentiam carregados e cheios, retiravam-nos alternadamente de um e outro bordo e colocavam o moliço recolhido no fundo do barco. Voltavam a lançar os ancinhos e o moliceiro deslizava, de novo, ao sabor vento, movido por uma enorme vela branca. Outras vezes, quando não havia vento suficiente ou o fundo da ria se pressentia baixo, empurravam-no à varada, ou puxavam-no à sirga, sobretudo quando era necessário fazê-lo deslizar por entre as passagens dos canais mais estreitos ou junto às margens das ribeiras e regatos que desaguavam na ria, ou até mesmo quando o barco era forçado a navegar contra as correntes ou contra o vento. Amarravam, então, uma das extremidades da sirga aos golfões enquanto a outra era presa e puxada por um ou dois homens que seguiam a pé pelas margens. Os ancinhos eram de novo lançados à água e voltavam a encher-se e a serem recolhidos tantas vezes quantas eram necessárias para que o nível da água se aproximasse o mais rigorosamente possível da fêmea da ré, sinal claro de que o barco estava completamente carregado. O moliço era então retirado e colocado em terra, esperando que os carros de bois, num vai e vem lento e repetitivo, o fossem distribuindo pelos campos mais longínquos e dispersos.

Raramente o mar era o destino laboral do pai da Alice. Apenas quando as tarefas moliceiras o permitiam ou quando a pesca era escassa na ria. Então atravessava as dunas em enorme correria, pisava ao de leve o areal e fazia-se ao mar alto, acompanhando os outros homens nos barcos saveiros, substituindo um ou outro pescador, para que a companha não ficasse depauperada. A Arte Xávega exigia muitos pescadores embora fosse um tipo de pesca artesanal e era um meio de garantir a subsistência da família mais facilmente, embora com maiores riscos e perigos. Ao cair da tarde regressava à praia, com o barco carregado de peixe. Era um barco de fundo chato, com uma proa muito levantada e aguçada para mais facilmente sulcar as ondas e uma ré ou popa cortada para aproveitar a vaga no encalhe. Era movido a remos, com enormes redes lançadas a grande distância para cercar os cardumes de peixe e, depois, puxadas à força de braços ou até com a ajuda de bois.

Ao redor da ria a planície, muito verdinha e alisada, onde se alternavam prados e campos que no Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspeto avermelhado e escurecido mas, na Primavera, revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono.

Num desses campos, perto da ria, ficava a casa da Alice. Era nele que a mãe, enquanto o pai se ocupava da pesca ou da apanha do moliço, trabalhava de sol a sol porque era dele que tirava o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, a mãe e os irmãos mais velhos cavavam e resvalavam a terra, adubada com o moliço extraído da ria e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida voltavam a cavá-lo de lés-a-lés, abrindo pequenos sulcos onde a mãe depositava os grãos de milho. Tapavam-nos, alisavam novamente a terra e voltavam a abrir novo sulco, cobrindo sempre muito bem cada grãozinho que ali ficava durante alguns dias, muito bem escondidinho para que assim germinasse mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado e a espelhar-se nas águas da ria. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas a mãe semeava o feijão, ervilhas e plantava as couves, as cebolas e os tomateiros. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, sachavam-no e retiravam as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balouçavam como as ondas da ria, ao sabor das brisas matinais e os caules, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no alto com umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos caules enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos caules já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras. Alice e os irmãos acarretavam-nas para a eira. Alguns dias depois marcava-se a desfolhada. Para ajudar vinham alguns vizinhos, os tios, a avó e os primos do Bunheiro. O pai escolhia uma noite de Lua Cheia, em que não fosse para o mar ou para a ria. Sentavam-se todos em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhelho a avó contava histórias e acontecimentos de outros tempos. De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma caneca cheia de vinho muito vermelho, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la tantas vezes quantas eram necessárias para que todos bebessem. De seguida voltava-se ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo.

Na manhã seguinte o pai partia de novo para a ria e a mãe para os campos enquanto a Alice seguia para a escola. Era uma escola diferente da dos irmãos – a escola feminina - onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Outras vezes a senhora professora mostrava-lhes um mapa afixado na parede onde ela observava a ria, tão azulada como era na realidade mas muito pequenina, sem barcos à vela, sem moliço e sem margens verdes. Ao lado a Murtosa, um pontinho negro, dentro do qual a Alice imaginava a sua casa. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Carmona e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas ajudava a mãe no amanho dos campos e no arranjo da casa, tomava conta do irmão mais novo e fazia as cópias e as contas que a Dona Gracinda mandava. Apenas os domingos e os poucos dias de festa em que os pais não trabalhavam eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com terra e ladeados por casinhas também de barro e por campos onde pastavam as ovelhitas e a que não faltava a ria – um enorme lago feito com um pedacinho de papel prateado e a ladeá-lo leivas de musgo e areia a imitar os campos e as dunas. Mas o que Alice mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite, contrariamente aos outros dias, a mãe punha a mesa cheia de iguarias deliciosas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam para a missa do galo, na igreja da Senhora da Natividade. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros, de tossidelas, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão viesse tocar uma enorme campainha. Então os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, separados das mulheres, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia, vestido de branco e celebrava a missa no altar-mor, todo forrado a ouro. No fim, enquanto se entoavam os cânticos de Natal, dirigia-se para o presépio e balouçava o turíbulo fumegante diante das gigantescas figuras de Maria, José e Jesus, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Alice juntamente com as outras crianças da sua idade, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Nos dias seguinte o pai voltava à ria, a mãe à planície e a Alice à escola.

Este trabalho contínuo, desgastante e pouco rentável, no entanto, começava a indignar o pai da Alice. É verdade que gostava da sua terra, sentia prazer na faina de moliceiro e adorava o mar e a ria. Mas que aquilo era uma vida miserável, lá isso era, não havia dúvida. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o mísero sustento de cada dia. Era sobretudo a vida de escrava que a mulher levava, conjugando as lides domésticas com o trabalho do campo, que mais o preocupava e não se lhe tirava da cabeça a ideia de abandonar a terra, a ria, a planície e partir para um país onde a vida fosse mais fácil e tivesse melhores condições. Muitas vezes, à noite, juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, dali ao lado, de Pardilhó. E os filhos? Que futuro os esperava? Se ali ficassem para sempre, que condições de vida lhes poderiam dar? Continuarem agarrados aos ancinhos ou ao cabo da enxada para terem uns míseros tostões e um caldo de couves com um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor, sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover de tão melindrosa e sinistra ideia, lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Além disso estava habituada às lides do campo. Desde criança se habituara à lavoura, ajudando os pais. A mãe sempre lhe dissera que não nascera para princesa. Nem sequer a deixara tirar a 4ª classe.

Mas o sonho de partir não se desvaneceu e a persistente obstinação do pai sobrepôs-se e ultrapassou a frágil resistência da mãe. Partiram numa manhã de nevoeiro, de sombras e de incertezas. Para trás ficavam os tons coloridos da ria, as velas esbranquiçadas dos moliceiros, o cais do Chegado, a frescura esverdeada da planície, a casinha da Murtosa feita de adobes de barro, o som dolente das Trindades na torre igreja da Senhora da Natividade, a romaria de S. Paio e o rumorejar roufenho dos barcos a arrastarem-se nas areias das dunas.

Partiram, cheios de esperanças confusas, de convicções ambíguas e de sonhos vazios, voando sobre ilhas e oceanos, sobre desertos e oásis, com a velocidade do vento e a intranquilidade das nuvens. Chegaram a um país longínquo e desconhecido mas opulento e grandioso, onde abundava trabalho e riqueza. Um país onde viviam povos de todas as raças e cores, gentes de diferentes línguas e credos e onde as pessoas não se conheciam apesar de todos os dias se cruzarem nas mesmas ruas e das casas ficarem muito próximas umas das outras. Um país onde as montanhas, cobertas de neve, se confundiam com o horizonte, onde os rios, negros e cinzentos e com enorme caudal, atravessavam vagarosamente as cidades, onde as estradas se entrelaçavam umas nas outras, num constante rodopiar de automóveis e onde nem o vento nem Sol disputavam a intranquilidade dos dias e das noites. Um país onde o tempo era contado ao minuto, ao segundo, onde o trabalho não tinha sabor a maresia, onde se confundia o perfume das flores com o sabor dos frutos e onde o pão era partido em pedaços muito grandes. Fixaram-se numa cidade gigantesca, com prédios altíssimos e praças ornadas com estátuas de aventureiros e descobridores. Uma cidade onde as ruas se chamavam “streets” e o dinheiro “dólares”. Uma cidade onde não se trabalhava numa ria ou num campo mas em fábricas e “estoas”, onde as crianças eram transportadas em autocarros para as escolas e onde, após a missa dominical, as pessoas não ficavam a conversar umas com as outras no adro da igreja. É verdade que não havia amigos, familiares, festas, romarias, desfolhadas ou matanças de porco, mas havia ruas cheias de automóveis, supermercados atafulhados dos mais variados produtos, esplanadas coloridas e adocicadas com gelados tropicais. É verdade que não havia ria, ribeiras e planícies verdejantes, nem moliceiros carregados de moliço, mas havia museus, catedrais, hotéis de luxo e arranha-céus. 

Aí cresceu Alice e se tornou mulher. Percorreu muitas outras cidades, aprendeu línguas diversas, saltou montanhas, atravessou rios e esqueceu-se do mar, da ria, da planície e da casa pobre, humilde, modesta e de paredes brancas feitas de adobes de barro onde nascera.

Mas os anos passaram e os países do mundo tornaram-se mais semelhantes, mais iguais e, sobretudo, mais próximos uns dos outros. E Alice voltou a sonhar como sonhara outrora. E num desses sonhos regressou ao país, à aldeia, à planície e à ria de onde muitos anos antes, ainda criança, havia partido.

Mas a ria já não era tão matizada de tons coloridos como fora nos tempos da sua infância e que lhe pareciam tão distantes. A planície já não refletia o verde dos milheirais, os moliceiros já não deslizavam, carregados de moliço, ao sabor do vento ou da sirga, os carros de bois, em aflitivas chiadeiras, já não carregavam o moliço para os campos e já não se ouvia, à noitinha, o som doce das Trindades, na torre da igreja da Senhora da Natividade. Apenas o Sol continuava a refletir-se e a projetar os seus raios sobre as águas da ria, ora tranquilas ora revoltas, dando-lhe tons alaranjados, azuis, verdes e violáceos.

A ria transformara-se num paraíso fluvial, aprazível e encantador onde confluíam interesses e projetos. As suas águas eram sulcadas por veleiros em que os antigos moliceiros se haviam transformado e as margens e cais que outrora recolhiam o moliço, haviam dado lugar a portos, marinas e praias de veraneio. A planície, aprisionada de um verde esbatido e melancólico, deixava, tão-somente, evidenciar um rastro branco que ora se exprimia em vestígios do vetusto casario ora se agigantava em novos edifícios que projetavam e difundiam as suas formas geométricas e esguias nas águas prateadas da ria.

Apenas ao entardecer, quando o Sol, descendo por entre as dunas da Torreira alourando o firmamento em enorme mancha áurea e opaca, se projetava e refletia sobre as águas lisas da ria, perdendo-se por completo no horizonte, num deslumbramento de magia e alienação, Alice se recordou de uma aguarela, recortada de um calendário antigo, com que a mãe orgulhosamente ornamentava uma das velhas e carcomidas paredes da sala daquela casita pobre, humilde, modesta, de paredes brancas feitas de adobes de barro, onde nascera e que, numa legenda já meio gasta e apagada pelo tempo, dizia simplesmente:

“Por-do-Sol na Ria, visto da Murtosa”.

 

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publicado por picodavigia2 às 05:52





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