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PRIMAVERA

Quinta-feira, 20.03.14

Ele era um anão e todos os anos, aguardava, ansiosamente, a chegada da Primavera. Esta, não se fazia rogada. Chegava sempre na altura certa e regressava, sempre, afável, alegre, libertadora, plena de simpatia e beleza, trazendo consigo o perfume das flores, o canto dos pássaros, a ternura das manhãs ensolaradas e um grande abraço de ternura e transcendência! O Sol, encoberto durante um longo e terrível Inverno, também agora, ressurgia, no auge do seu esplendor, no empolgante brilho da sua força e na irradiante beleza do seu ser, espargindo a doçura da luz e a sublimidade do calor, sobre os mais recônditos e obscuros recantos da terra. Amachucado, pesaroso, solitário e dolente, o anão rejuvenescia e ressurgia, da letargia enigmática e paradoxal que a ausência prolongada do astro-rei lhe impusera. O renascer das flores, o ressurgir dos frutos, o carinho dos dias quentes e maviosos e, sobretudo, a ternura do abraço primaveril, provocavam-lhe frémitos flamíferos e resplandecentes tais, que o catapultavam para uma nova, alegre e mais delirante vivência.

E mais uma vez, com a chegada da Primavera, os dias de paz e calor, de carinho e simpatia contagiante regressaram e, no pequeno povoado onde tinha o seu cardenho, o anão começou também a alegrar-se e a sorrir, a crescer e a abrir-se, a aceitar a suprema força que o Sol, gratuitamente, distribuía. Apenas um ou outro eclipse, ou algum amanhecer mais sombrio e enevoado obstaculizavam a desconcertante alegria de viver e, desgraçadamente, provocavam, no anão, arrelias e calafrios semelhantes aos dos longas e terríveis dias invernais. Mas agora, porém, a ocultação do astro rei, embora férula, triaga e acentuadamente dolorosa, era momentânea e efémera e, consequentemente, mais suportável para o carraceno.

Mas nos dias seguintes, após o regresso da Primavera, logo de madrugada, passeando pelos bosques, o anão aguardava serena e calmamente o nascimento do maior, mais potente e mais belo astro do firmamento. E a calma, a paz e a tranquilidade voltavam a reinar, até porque o Sol, agora e depois de tão duradoura ocultação, como que se mostrava mais cálido e longânime, mais acolhedor e contagiante, mais ardente e meiguiceiro. Por isso, toda a aldeia onde o anão vivia, florescia constante e decidida, apenas silenciada pela escuridão da noite, que se blasonava garbosa e enfatuadamente, de obstaculizar a concretização dos mais prestigiantes anseios do pequeno desolado.

Os dias, porém, passavam céleres e velozes. O espectro da aproximação de um novo e, quiçá, definitivo inverno, já pairava sobre o espírito do carraceno e, de um modo muito especial, começava a aniquilar-lhe a sua angustiante existência.

Era o princípio do fim de um curto reinado de excelência e de dignidade, onde tudo ao redor da pequena aldeia florescera, em que as árvores perdiam menos folhas, as flores tinham mais aromas e os frutos mais doçura, onde os animais conviviam em alegre e expressiva fraternidade, onde os dias eram de Sol, as noites de esperança, as madrugadas de cheiro a madressilva e a rosmaninho e as tardes com sabor a hortelã e a alecrim.

A catástrofe final, porém, estava eminente!

O trágico anúncio da chegada de um novo Inverno foi feito numa manhã cinzenta e enevoada. A sentença dramática e irreversível foi proclamada com agonia e soledade silenciosa, mas ecoou por toda a terra, qual estertor dolente de quem se fine. As manhãs radiosas não se lançariam nunca mais sobre as árvores e sobre as flores, sobre os arbustos e os insectos, sobre as folhas caídas e os ramos quebrados, sobre o espírito paradigmático dos serranos. A aldeia do anão nunca mais seria verde, nem teria flores de esperança nem frutos de simpatia. A partir de agora, paramentar-se-ia, contínua e ininterruptamente, de um negro fatídico e melancólico, para celebrar a liturgia do desespero e do abandono. Seguiram-se dias e noites de mágoa aflitiva! O povo saia à rua, mas já não vivia a liberdade e a fraternidade que a revolução solar lhe proporcionara. Viviam-se dias de dor e noites de mágoa. O espectro do regresso à solidão ou ao absentismo anteriores era a suma certeza do quotidiano carraceno. De todos os rostos transbordava, continuamente, um ricto que, prevendo a chegada da noite infinita, não era mais do que o reflexo deletério que emanava do terrífico e derradeiro ocaso do astro-rei.

O anão, aflito, perplexo, desfeito em espuma, acorrentado à certeza duma esperança destroçada, expelia uma áscua ténue e rúbida, contemplando, quiçá pela última vez, aquele arquétipo de beleza suma e de sublimidade magnífica, que ao despedir-se, transformado em fulva esfera, que pairando sobre os telhados dos velhos casebres, deixava transparecer, no amarelado dos seus raios, a certeza de também não querer entrar em ocaso definitivo.

Mas o Inverno derradeiro, frio e terrível iniciou, decididamente, a sua marcha triunfante. A Serra entrava definitivamente no reinado da escuridão e da ausência e o anão, tremendo de frio, recolhia-se ao seu esconso e paradoxal valhacoito.

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publicado por picodavigia2 às 06:44





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