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PROSAS DAS CARTAS E DOS RETRATOS DE FAMÍLIA

Segunda-feira, 10.02.14

Pego nestas cartas tanto tempo guardadas,

desato as fitas dos maços, olho as datas seguidas.

Minha mãe sabia a história de cada uma,

melhor direi cada um dos que escreveram,

parentes nossos que quase todos nunca mais

voltaram para acabar onde nascidos.

 

Esta é talvez a mais antigas de todas:

7 de Setembro de 1872.

António, que a data de Broken Hill, na Austrália,

Não se esqueceu que era véspera da Senhora da Saúde,

mas fala já da abóbora assada de Todos os Santos

e do Natal, do Ano Bom e do Dia de Reis.

Sabia que uma carta de lá às Flores tardava,

e por isso, em bom cursivo, os seus votos

de boas festas “com saúde e na graça de Deos”.

 

Era eu bem pequeno quando veio a notícia

desse António, já sobre além dos oitenta anos,

durar ainda, num asilo velhos, parece-me,

numa cidade que me lembro se chamava Adelaide:

e o que ele queria agora não era saber dos seus

mas se herdara alguma terra e, se tivesse herdado,

que lha comprassem, porque o dinheiro, mesmo pouco

fazia arranjo a quem de seu só tinha a idade.

 

Eu imaginava que Austrália cavavam ouro

E só então fiquei sabendo que também lá os velhos

como tantos nossos não tinham para a sua masca.

 - Foi a minha primeira lição de Geografia.

….

 

De 4 de Maio de 1885

e escrita em Red Bluff, na Califórnia,

esta outra carta é do Raulino, que havia um mês

chegara ali para trabalhar, como diz,

nos moinhos da madeira, onde as soldadas eram

melhores que nas ovelhas, e agora estava

em casa de tio José, tratado como seu filho.

Nada mais que contar senão “hua grande desgraçia”;

um do Mosteiro, que já era para vir para trás,

fora apanhado pela serra e ficou sem pernas;

agora estava em Sacramento no hospital e não

se sabia ainda se escapava ou se morria.

E contando-o põe no fim: “Antes elle morra

porq. hum homem assim sem pernas não é nada,”

 

Pobre moço! Um dia aconteceu-lhe a mesma coisa

e não morreu, mas depois a mulher largou-o

e só então ele compreendeu que a sua vida

sem pernas (e sem mulher) não fazia sentido:

como pôde arrastou-se até ao rio, que lá

é o Sacramento River e vai dar, em Vallejo,

à grande baía chamada de São Francisco –

e sem pernas nem vontade de viver se afogou.

 

Agora o que eu encontro é uma fotografia

onde o casal e seus oito filhos que nela estão

diante de um fundo com colunas gregas e parras

vestem uma solenidade de quem faz de conta

que não vive ao lado, exactamente, do equador.

Foi tirada por Fidanza Phoyografpho, no Pará,

e a data na dedicatória de meu tio-bisavô Inocêncio.

é de 16 de Junho de 1894.

Uma carta tarjada de três anos adiante,

conta que o filho maior, José Luís de nome

e então nos vinte, morreu de febre amarela.

E a última notícia que encontrei guardada

desses que as conversas das tias velhas referiam

como os nossos primos Goulartes brasileiros.

 

Finalmente atinjo o fundo do escaninho e tiro

ainda outra carta, solta e a única no envelope,

no entanto aberto e de que arrancaram o selo,

mas que, mesmo assim, dir-se-ia escondida.

Assina-a Afonso, em Luanda, onde assistia,

em 18 de Fevereiro de 1907.

É à mãe e diz-lhe que está bom, mas que passou

um mau tempo, com as febres (o clima pois claro)

e um retrato que junta, mais diz, é com o filho

(um menino mulato, vê-se) e põe que gostava

de o mandar para cá, onde melhor se educaria.

- Mas afinal quem veio, quinze anos além, foi ele

E, que eu me recorde, pois conheci-o bastante,

nunca falava do filho do retrato na gaveta.

Vinha só de visita, disse, mas foi ficando,

Não trazia dinheiro que luzisse e a sua roupa

eram fatos de caqui, sem falar num chapéu

desses que chamam capacetes coloniais.

Com isso, também lá nos veio um papagaio,

que por sinal era cinzento e não verde, mas

falava como falam os outros, do Brasil.

O papagaio chamava- o “Ó Afonso!” – e depois

Era como se desse gargalhadas enquanto

o dono se embebedava com aguardente de figos.

Também gritava “Chiça!”, e foi mesmo o que fez

Quando primo Afonso, como era de esperar

desfeito, verde, morreu de cirrose hepática.   

 

Este meu primo contava pouco da sua vida

dos anos passados em Angola, ao que parece

comprando pelo sertão borracha e cera que logo

revendia a outros comerciantes, na costa.

Um dia perguntei-lhe como eram as pretas

e ele primeiro riu, mas por fim foi dizendo:

“No princípio a catinga enjoava-me, não podia…”

E explicou-me que catinga é como lá se chama

ao cheiro que deita a pele suada dos negros.

 

E a propósito disto, vem-me à lembrança agora

que de uma vez, em Kowloon, além de Hong Kong

uma puta chinesa me disse, e ria, ria

que os nau soc como chamam aos portugueses

(à letra traduzido, vejam lá, cheiro de vaca)

Mesmo lavados sempre cheiram a morto.

 

Mas deixando esta dos odores corporais

que, havemos de concordar, são antipoesia

reparemos antes, com o melhor daquelas cartas

que desde minha bisavó a minha mãe guardaram

e eu agora, a espaços comovido, fui lendo;

reparemos, dizia eu, que é Maio e a manhã

acordou azul e florida, cheirosa, musical

como a dança dos passos das raparigas quando

ainda não sabem (ou não querem saber) que a vida

também é muita vez o mais amargoso que vem

nas tais cartas que são (elas só) a memória que resta

de tantos mortos meus, tão mortos como esquecidos.

 

Pedro da Silveira, Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 20:37





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