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QUERMESSE

Quinta-feira, 06.03.14

Era pela festa da Senhora da Saúde. Todos os anos. Num dos domingos que antecediam o dia da festa, lá ia a criançada da catequese, os da quarta, pelas casas da freguesia, desde o Cimo da Assomada até ao fundo da Via d´Água, pela Fontinha, pela Rua Direita, pela Tronqueira e Rua Nova. Rara a casa que escapava à fúria pedidora da ganapada. No fim, acumulava-se, na sacristia de baixo, um amontoado de prémios, bugigangas diversas de pouca utilidade mas, regra geral, bastante vistosos e apelativos. Compravam-se mais umas miudezas baratas, a concertar o amontoado e seleccionavam-se os prémios para a roleta. Os melhores, claro.

Uns dias antes da festa impunha-se que imperasse a organização de todo aquele acervo, metódica, selectiva e emocional. No reboliço da azáfama, ele mais afoito e experiente nestas lides, mas mais desleixado e maleável, ela mais sensível e delicada, mais cuidadosa e sensata na escolha, na selecção e no arranjo. Tudo desenvencilhado em diálogos de circunstância, emoções contidas, desejos refreados, a arfar uma inusitada mas recíproca cumplicidade. A obstrução era rainha, numa ternura desmedida, num envolvimento desejado, a esquecer um passado proscrito, amordaçado. Centenas de quadradinhos de papel eram cuidadosamente enrolados, uns após os outros, simetricamente, num insigne e deslumbrante cuidado. O epicentro do desvelo rasgava-se frenético como se fosse uma onda a vir e voltar, tímida, temerosa, talvez mesmo ofegante. Reservavam-se uns quantos quadradinhos brancos para os premiados, onde se haviam de registar os números atribuídos aos prémios. Depois a lista, cuidadosamente abstrusa, a obrigar e exigir uma repetição, com as bugigangas devidamente registadas e numeradas, onde a cada objecto correspondia um número. Discutia-se a ordenação, a prioridade e a selecção com aparente indignação e disfarçado distanciamento. Despejavam-se, em uníssono mas de forma encoberta, desejos conciliadores, alvoroçava-se, às escondidas, a unanimidade, convertendo-a numa espécie de ternura sufocante, num simulado desembocar de contrição. Colocados os números nos bilhetes que haviam sido reservados, havia que os enrolar, firmes, destemidos, mesmo que a noite já se impusesse como destruidora de fascinações.

Depois vinham os prémios tardios, dos que não estavam em casa e dos que, na altura da derrama, de nada dispunham. Precioso retardamento! Eram precisos mais bilhetes brancos, mais nomes na lista, mais números, mais tudo. Para remediar o que quer que fosse, para acrescentar o que chegava atrasado, havia sempre mais um dia, depois outro e ainda outro - dias consagrados, perenes, profundos, límpidos e serenos. O reparar dos erros renovava a inconstância, o repor das falhas reconstruía a aparência e o acrescentar de conteúdos obstruía o sentimento. Atirava-se ao ar o amontoado gigantesco de desejos e repeliam-se os brados estridentes dos enigmas. Agora, era a excelência, sublime e dominadora, que, substituindo a obstrução inicial, se tornava rainha.   

O quiosque era um hexágono de madeira, chavasco, tosco e pouco estético. Os seis lados do hexágono eram construídos com ripas de madeira cruzadas, um deles com ádito, sendo presos nos vértices a seis barrotes. Estes, unidos na base e presos no cimo, amontoavam-se e agregavam-se, lá no alto, como se fosse uma pirâmide, também ela hexagonal, a afunilarem-se no cocuruto, terminando sob a forma de um pequeno capitel arredondado, com uma bandeira a encimá-lo. Sobre cada um dos vários conjuntos das ripas cruzadas, uma pequena tábua a simular uma espécie de balcão de tasca antiga e seis janelas, sempre abertas, a arejarem o interior, como se isso fosse necessário.

O quiosque era colocado no adro, à entrada para a sacristia, por baixo da torre sineira, e emergia altivo, cativante e motivador. No interior, uma mesa com algumas prateleiras sobrepostas, expositivas dos prémios, imbricados de forma apelativa e convincente, a provocar enlevo e, sobretudo, atracção. Homens, mulheres, crianças todos se aproximavam. Umas vezes acotovelando-se, outras emancipando-se em remanso, iam comprando, desenrolando, desembrulhando. Se não havia o tão desejado numerozinho que correspondia a um prémio, era o desânimo instituído, emaranhado com um outro comentário malicioso, atrevido, displicente. Quando havia prémio era um regalo aliado a um momento de suspense personificado num estender de braços por cima das ripas. A demora da procura, gratificante e envolvente, açulava a expectativa. Se reinava a calma as caixas recheadas dos bilhetes aquietavam-se e era a lista o pretexto para um olhar conjunto, simultâneo, unificado. Um simular de procura ou um suposto engano eram o alor amantético e o travo adocicado de novos e profundos sentimentos, um desenrolar de subterfúgios acorrentados, perdidos, impossíveis de edificar.

Lá fora algumas crianças com cachinhas de papelão a vender bilhetes, o boneco de madeira a revirar-se às boladas, o repique dos sinos, o estalar de um ou outro foguete e a música a tocar, encobrindo um gracejo chocarreiro, um enleio gratificante, um segredo adivinhado, um olhar sublime, um embate inusitado mas sentido e clarificado na doçura de um sorriso.

E quando a noite, madrasta e perversa, desfazia a magia telúrica e profunda da quermesse, caía sobre o quiosque hexagonal, chavasco e tosco um amargo acervo de melancolia.

Mas o que tornava mais bela e gratificante a festa da Senhora da Saúde era a quermesse.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:15





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