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RASTROS DE SOMBRAS

Quarta-feira, 29.04.15

O Parque era o seu destino. Apenas aos fins-de-semana, que os outros dias eram de trabalho árduo e contínuo. No verão, tempo de dias maiores e mais quentes, aproveitava o ar morno dos fins das tardes. Não se descuidava. Na celeridade da sua destreza, na rapidez das suas passadas, na ligeireza do seu caminhar estampava-se o vigor da sua juventude. O sol iluminava-lhe o rosto, a chuva moldava-lhe o semblante, o vento soltava-lhe os cabelos. Os pássaros cantavam à sua passagem, as flores abriam-se e curvavam-se com a sua voluptuosidade e até o rio, no seu lento rastejar por entre arvoredos e alfombra, parecia apressar o correr das suas águas, com o intuito de a acompanhar. De a perseguir. Nada, na natureza, se alheava do seu doce, sublime e veloz caminhar. Ela, indiferente a tudo. Tanto lhe importava a chuva, o vento, o sol ou as brisas matinais. Caminhava ou melhor corria, corria sempre sem se inquietar com o que quer que fosse, que quebrasse, por uma nesga, a violência do seu querer. Elegante, sublime, esbelta, roupas a desenhar-lhe as formas corporais, esbanjava graciosidade, desferrava encanto, emoldurava-se de ternura. Quem a via entontecia, quem ta acompanhava perdia-se, quem a encontrava delirava e como que se exaltava no envolvimento de um estranho enlevo. E não eram poucos. Entre eles o vizinho da casa em frente. O principal, o eleito. Mal o sol nascia ou mesmo quando entrava no ocaso, atravessava impávido e silencioso a multidão e aguardava, impaciente, a sua passagem, o seu caminhar veloz e decidido. Ela, embora absorta no alvoroço da sua desinibição, depressa se apercebeu de tamanha insistência. Cedo compreendeu o impetuoso alento que ele exalava. Embevecida, deleitada, retribuía, simplesmente, com um meigo, terno e gracioso sorriso. Os outros olhavam invejosos, enraivecidos, terrificados. Às vezes, atiravam ao ar impropérios, protestavam com insultos, estarrecidos de inveja. Ela não se coibia e, no dia seguinte, postava-se com mesmo sorriso, com a mesma doçura, com o mesmo olhar doce e inebriante. Para ele. Só para ele, que orgulhoso, sobrepondo-se à força do vento, ao incómodo da chuva ou ao calor do sol, a admirava, venerava, idolatrava. Como se fosse uma Vénus.

Foi no início do outono. Uma tarde de chuva e ventania. Ela entrou no café onde ele costumava ir todos os dias. Sentou-se e olhou na direção onde ele estava. Privilegiou-o com a doçura de um novo sorriso, semelhante aos do parque. Talvez mais terno, mais meigo, mais comunicativo. Vinha excitada do movimento desusado de casa e da maneira inesperada como o encontrara ali. Olhou-o fixamente. Ele, confuso com tão persistente olhar. Duvidou. A muito custo tentou desfazer o enigma do misterioso olhar que o envolvia. Mas não havia dúvida! Era nele que ela cravejava o segredo da sua intimidade. Era nele que ela depositava a excelência dos seus sonhos malfadados. Num rosto nervoso e inquieto, um sonho sublime, a desfazer a intranquilidade de momentos amargos, dolorosos. Pressentimentos confusos, misturados, por vezes, com lágrimas recusavam-se a sair-lhe do pensamento. Encharcavam-lhe a alma de medos, de incertezas, de intranquilidades. Mas o olhar meigo e carinhoso dele, a adivinhar-lhe a excelência das formas corporais que os jeans, muito justos e colados, deixavam transparecer, tolhia-lhe o sofrimento, secava-lhe as lágrimas, sublimava-lhe a dor. Em dias seguintes, sucessivos, repetiu-se o devaneio que, apesar de regrado por um rígido silêncio, os aproximava cada vez mais. Sem nunca se falarem, entendiam-se. Sem nunca se entregarem, desejavam-se, Sem nunca se unirem, amavam-se.

Mas tudo se sombreou como o fumo duma vela que nunca se acendeu. Ou porque, numa manhã cinzenta e tenebrosa, ela decidiu envolver-se na confluência duma cumplicidade macabra ou, simplesmente porque o café, em falência declarada, encerrou definitivamente.

Agora ela já não corre célere, como outrora. Agora as flores, à beira rio, já não sorriem, os pássaros, ao redor do parque, já não cantam. Nem o vento, sequer, lhe solta os cabelos ou a chuva lhe afaga o semblante, Apenas o Sol, triste e enevoado, de vez em quando e como que a medo, se abre a descortinar os rastros daquelas sombras enigmáticas, desenhadas no seu rosto triste, amargurado, sem sorriso.

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publicado por picodavigia2 às 07:36





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