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RESPEITO

Domingo, 29.03.15

Eram colegas de profissão e trabalhavam na mesma empresa. Ele mais velho, mais experiente, mais conhecedor. Chamava-se Jerónimo, ia fazer quarenta anos e era um homem vivido, sabedor e comunicativo. Apesar de abalroado por uma ténue calvície, encastoado num corpo franzino, acachapado e pouco desenvolto, revelava uma inebriante simpatia, olhos claros, rosto sereno embora um pouco cerdoso, intercalado com bátegas de um débil e, por vezes, inseguro sorriso. Era um homem de vontade segura, decidido nas suas atitudes. Umas vezes um pouco tímido, outras, excessivamente meticuloso. A impressão geral que dele se tinha era a de que, quando se solicitavam os seus préstimos, desdobrava-se em atenções excessivas, em cuidados demasiados, em preocupações prementes. Ajudava os mais fracos, aconselhava os mais novos, tentava alegrar os mais tristes. Ela mais nova, sem experiência, embora muito inteligente e estudiosa. Havia terminada a licenciatura e fora colocada, como estagiara, na empresa onde ele trabalhava. Foi decidido que havia de ser ele a orientar-lhe o estágio. Natália, para além de simpática e atraente, era uma jovem inebriantemente bela, elegante e delicada. Aplicava-se ao trabalho com afinco, empenhava-se no exercício da sua atividade com dedicação revelando uma enorme vontade de aprender, de singrar com êxito, profissionalmente.

Quando a viu pela primeira vez Jerónimo dos Santos já sabia que iria ser sua estagiária. Não apenas se deslumbrou como também se ufanou-se, em demasia. Não se importava nada de ser o responsável pelo estágio de quem quer que fosse. Conhecia, em profundidade os meandros da sua profissão, tinha um acervo de experiência e de conhecimentos muito grande e gostava de os partilhar. Era considerado como um dos melhores e mais competentes trabalhadores da empresa. Além disso, orientar estágio enriquecia-lhe o currículo e aumentava-lhe o ordenado no fim do mês. Mas ter como estagiária uma jovem bela, terna e meiga como Natália era um orgulho. Fascinava-o ainda mais. Era bem mais agradável trabalhar ao lado duma mulher jovem, bela e bonita. Havia de privar com ela dia a dia, trabalhar a seu lado, partilhar dificuldades, problemas laborais, envolver-se em tarefas similares. Havia de estar com ela em cada momento, não apenas nas horas de trabalho e nas reuniões mas também nos momentos de descanso, nas pausas para o almoço e para o lanche. Haviam de tornar-se grandes e verdadeiros amigos.

Feitas as apresentações, traçadas as metas pretendidas, elaborados os horários de trabalho e as horas de acompanhamento, selecionadas as estratégias mais adequadas ao sucesso da nova estagiária e iniciado o trabalho, Jerónimo passou a considerar Natália não como uma estagiária e aprendiz mas como uma colega, uma profissional. Natália, que inicialmente encarara o estágio com algum medo e apreensão, respirou de alívio. Jerónimo facilitava-lhe ao máximo os trabalhos e estudos. Apoiava-a com carinho, orientava-a com ternura, acompanhava-a com amor, incentivando-a nos momentos de desânimo, ajudando-a reparar as falhas, valorizando os seus méritos, transformando os seus fracassos em vitórias. Natália sentia-se feliz, realizada. Em casa não cessava de proclamar e bem dizer as atitudes bondosas e os gestos de carinho do seu orientador. A mãe, apreensiva, bem a avisava. Que tivesse cuidado! Um homem mais velho, com atitudes tão carinhosas, íntimas talvez, podia muito bem ser lobo com pele de cordeiro. Que se cuidasse! Que se afastasse. Ela que não. Ele era tão bom, tão delicado, tão terno e tão meigo e, sobretudo, tão respeitador, sem nunca tomar uma atitude de que pudesse suspeitar. Não poderia nunca duvidar das suas atitudes, do seu carinho, da sua bondade. Queria-lhe como um pai!

Na empresa, Jerónimo e Natália envolviam-se cada vez mais. Nos corredores, já se comentava, à boca baixa, os excessos de tão íntimo e profundo relacionamento. Jerónimo, ao tomar conhecimento, através duma colega que jurava que apenas lhe queria evitar problemas, ficou mais atento, mas não se desviou dos seus habituais procedimentos. Era a sua forma de ser e nada havia feito que o denunciasse. Nenhuma atitude o comprometia. É verdade que se afeiçoara muito à garota, que lhe queria muito e até, no seu íntimo, desejava-a com mulher. Bela, atraente e meiga atraía-o em cada hora e em cada momento. Quando distante, o fantasma da sua imagem perseguia-o, persistentemente. Mas na presença dela, quando a tinha a seu lado, nos momentos e nas horas de trabalho, apesar de quase perder a respiração, evitava toda e qualquer atitude que o denunciasse. Ajudava-a, apoiava-a, fazia tudo por ela mas sem nunca se comprometer. Natália nunca percebeu que, encoberta entre toda aquele carinho, dedicação e ajuda, havia um grande amor, uma enorme paixão. Continuava, simplesmente, a sentir por ele um grande carinho, uma nobre estima e um sentido agradecimento. Apreciava-o como profissional e sobretudo como homem, sem no entanto o amar de verdade. Jerónimo sabia-o e isso doía-lhe. Encapuzava-se com o manto de um terrível dissabor, refugiando-se numa espécie de fortaleza de silêncio indestrutível, que, emocionalmente, os separava. No seu íntimo contorcia-se de dor, por vezes de raiva, como um condenado. Fazia tudo por ela, desfazia-se em cuidados e preocupações. E a resposta? Apenas estima, consideração, respeito e amizade. Sim! Ela tinha, por ele uma grande amizade e um profundo respeito. Disso não duvidada. O que o trucidava e, por vezes, quase aniquilava era a certeza de que a sua enorme paixão não era nem nunca seria correspondida. Alçapremado num sonho delirante e ousado, caía, vezes sem conta, como um pássaro atingido por um tiro de espingarda. Ela desbaratava-o com uma ligeireza de quem se não impressiona perante nenhuma forma de inocência. Descartava-o sem pejo. Talvez ignorasse ou nem sequer percebesse quanto ele a amava. Para cúmulo, não se coibia de, na sua presença, proclamar um rosário de loas, uma litania de laudes e referências contínuas ao seu namorado.

Mas a matilha dos delatores aumentava, intensificava-se, ganindo com mais insistência. Chegou ao pondo de um pequeno grupo, mais íntimo, não se conter. Mesmo na presença dela disparou. Atirou-lhe de chofre o anátema de assédio. Aquilo não era só profissionalismo. Havia pormenores, atitudes, procedimentos que o denunciavam. Ele descartou-se com a destreza do costume. Ela emudeceu. Não tivera coragem para lhe defender a honra, em público. Mas, no aconchego da intimidade, continuava a confiar nele, respeitá-lo como sempre. Nenhuma palavra, nenhuma atitude, nenhum gesto, jamais, o denunciara. Mas defendê-lo, em público, tornava-se arriscado, pese embora fosse um dever, uma obrigação de que se coibia. Que mais não fosse, havia coisa mais curial, prova mais clara do que continuar ao lado dele, a dar-lhe crédito, aceitação. Era a prova mais evidente de que acreditava na sua inocência.

Mas para Jerónimo o mais preocupante e dramático era o aproximar-se o fim do estágio. Uma esperança havia-o domado durante muitos meses. Agora porém esfumava-se. A empresa não aceitava estagiários. Para além do incerto, ficariam separados. Separados para sempre.

Foi um dia de grande mágoa aquele em que Natália partiu. Encerrava-se, num ápice, o supremo gozo de um ano de convivência, de companheirismo. Envolveram-no dissabores amargos, mágoas dolentes, silêncios profundos. Ela ficava-lhe eternamente agradecida. A promessa de nunca mais o esquecer conjugava-se com a incerteza de se voltarem a encontrar. Nada mais. Um agradecimento selado com um terno e meigo abraço. Do tamanho do mundo.

Na fumaça da separação, Jerónimo viu-a depois, apenas duas vezes. Uma a imiscuir-se entre rajadas de barbárie, outra na doce companhia da mãe. Tinha muito gosto em conhecê-lo e, sobretudo, em agradecer-lhe quanto tinha feito pela filha e, sobretudo, pelo respeito com que sempre a obsequiara.

- Respeito!? – Repetiu Jerónimo, em voz baixa.  E afastou-se, cabisbaixo.e

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publicado por picodavigia2 às 00:00





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