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ROCHA DO MAR

Sexta-feira, 07.03.14

(POEMA DE VITORINO NEMÉSIO)

Já uma vila dos Açores

Loze ligeira no horizonte.

Será num alto das Flores,

No Pico ou logo de fronte,

Espraiadinha num cume

Ou encolhida em Calheta?

O ser nossa é que resume

Seus amores de pedra preta.

Para vila da Lagoa

Falta-lhe a cidade ao pé,

A distância de Lisboa

Já não me lembro qual é.

Para Vila Franca ser

Falta-lhe o ilhéu à ilharga,

É airosa pra se ver,

Mais comprida do que larga.

Povoação não me parece,

Nos padieiros não condiz,

Aos camiões estremece,

Mas não aguenta juíz.

Pra Ribeira Grande falta-lhe

O José Tavares no quintal,

Rija cantaria salta-lhe

Dos cunhais, branca de cal,

Mas não é Ribeira Grande:

Essa merecia foral!

No dia em que haja quem mande

Será cidade mural.

Nordeste - só enganada

Na vista da Ilha Terceira,

Longe de Ponta Delgada,

Sua sede verdadeira.

Nem Vila do Porto altiva,

A mais velha da fiada,

Em suas ruas cativa

Como princesa encantada.

De cimento a remendaram,

Coroaram-na de aviões,

Mas eternos lhe ficaram

Os bojos dos seus tàlhões.

Se é a Praia da Vitória

Não lhe reconheço a saia:

Enchem-lhe a areia de escória,

Ninguém diz que é a mesma Praia.

Talvez seja Santa Cruz

Da Graciosa, ou a sua Praia,

Com o Carapacho e a Luz

Cheirando a lenha de faia.

De S. Jorge a alva Calheta

Ou a clara vila das Velas,

E o alto, alvadio Topo

Com um monte de pedra preta

Dando realce  janelas.

As Lajes ou o Cais do Pico,

A escoteira Madalena

Vilas são de vinho rico,

Qual delas a mais morena.

Santa Cruz das Flores seria

Essa vila açoriana

Ou as Lajes de cantaria

Do bom Pimentel soberana.

Finalmente, só o Rosário,

Que do Corvo vila é,

Pequena como um armário

Ou um chinelinho de pé.

Mas não é nenhuma delas,

Nem Água de Pau, que o foi,

S. Sebastião, ou Capelas,

Da Terceira arca de boi

Como a nossa Vila Nova,

Que nem chegou a ser vila,

Tão branca na sua cova,

Tão airosa, tão tranquila.

Ah, já sei! É delas, fundo,

Que o muro alvo se perfila

Contra os corsários do mundo

Que invejam a nossa vila,

Nosso povo, na folia

De uma rocha de mar bravo,

Que o Guião da autonomia

Só por morte torna escravo.

 

Vitorino Nemésio

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publicado por picodavigia2 às 16:55





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