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SABORES E DISSABORES DO PICO

Segunda-feira, 20.01.14

Quem visita o Pico no inverno não deixa de ter um ou outro dissabor. No entanto, como são tantos e tão sublimes os sabores que se nos deparam, nos circundam, em que, necessariamente, nos envolvemos e que, na ilha montanha, nos são, diariamente disponibilizados, os primeiros quase se esquecem ou, pelo menos, sublimam-se com relativa facilidade.

A ilha, flagelada por desleixos, incompetências, conflitualidades ou esquecimentos, na realidade, ainda não possui estruturas de acesso que, definitivamente, se oponham a intempéries, chuvas torrenciais, ventos, tempestades e outros reveses climáticos e enigmáticos. Causam transtornos inevitáveis, geram situações incomodativas e inculcam desesperos angustiantes. No entanto, o estigma provocado pelas más condições climatéricas, sobretudo pelo quase constante vento ciclónico com que a ilha é assolada, com alguma frequência, nesta altura do ano, nunca será curado, por mais vontade, competência e capacidade que se tenha. Pode sim, menorizar-se, aliviar-se, talvez mesmo combatê-lo com alternativas viáveis. As ligações aéreas com as restantes ilhas escasseiam no inverno e os aviões “grandes”, para o continente, fogem do Pico como o diabo da cruz. Para se viajar do Pico para o Porto e vice-versa, ou se faz uma escala por Lisboa e pelo Faial ou se pernoita em São Miguel. Além disso os preços são elevados e não há alternativas viáveis. Das ligações marítimas, limitadas, por natureza no inverno, também chegam ecos de viagens, por vezes incompreensivelmente, canceladas, portos encerrados, alternativas bloqueadas. A ferocidade do tempo (e não só) não se compadece com necessidades ou exigências e condiciona, a todos os níveis, não apenas o demandar, mas sobretudo, o viver nas ilhas, especialmente no inverno.

Mas o Pico, mesmo em pleno inverno, na sua excelência endémica, natural e pura, atrai, purifica, eleva e transcende. O chão mantem o bafo da lava e é da lava que emerge o sabor do pão. As vinhas nascem e florescem no rastro dos vulcões e o vinho tem o perfume e o paladar do enxofre vulcânico. O Pico ainda não se perdeu, por completo, no burburinho estonteante da modernidade, nem se desvaneceu na onda atraente e avassaladora do consumismo. Talvez se enfeitiçou por uma e por outro, mas cedo percebeu e recuou. Voltou a perfumar-se com os sabores das marés e os acres respingos da maresia e abrigar o seu destino na íngreme sinuosidade das veredas e maroiços, no aconchego acolhedor das casas e adegas, feitas de basalto puro.

No Pico, os homens ainda atravessam veredas íngremes, subjugados ao peso abrupto dos cestos de batatas ou dos molhos de couves, ainda atiram, com destreza, o alvião à terra e foicinho aos silvados. No Pico ainda se seca milho no forno, se pescam sargos no reboliço das marés e ainda se passa o vinho nas adegas. Há batata-doce a secar ao Sol, milheirais ressequidos, laranjais pejados de citrinos e nos pastos saltam bovinos à porfia. O bolo mantém o sabor adocicado da farinha e o bafo quente do tijolo, as postas de peixe enchem terrinas, ornadas de salsa e o caldo, suculento, fumega nas tigelas, mesmo envelhecidas e de rebordos lascados. As adegas mantêm as portas escancaradas, encenam descansos e emoções, purificam trabalhos e canseiras, envolvem sonhos e esperanças e permanecem como reservas naturais da alegria e do enfeitiçamento, como verdadeiros santuários, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua criação.

O Pico é aquela montanha de lava, atirada pelos deuses sobre o oceano, onde cantam loas as gaivotas, onde a terra se mistura com o mar e onde o Sol ilumina as manhãs com uma luz estranha e enigmática.

O Pico de outrora renasceu, trazendo o doce perfume de sabores ancestrais sem regressar a um passado que, na sua história, nunca se perdeu. A memória nunca se apaga por completo, apenas se renova, genuína, perene e repleta de emoções.

PS – Acrescente-se ainda o “dissabor” da Internet. As “pens” pagas ao minuto, “gamam-nos” euros que nem máquinas de jogos. Demoram uma eternidade a abrir e fraquejam durante o percurso. Na freguesia onde vivo, São Caetano, há um café “O Cantinho” com “sinal” aberto, mas nem sempre acessível. O ciclone, pelos vistos, deixou mossas nas antenas. A Biblioteca Municipal da Madalena, ainda é o melhor local, mas implica uma deslocação à vila.

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publicado por picodavigia2 às 21:52





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