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Quarta-feira, 19.03.14

A Primavera chegara há pouco e, no ar, pairava um perfume, densamente, azedado. A tarde, ainda muito desobscurecida, teimava em aproximar-se do fim. Sentada num banco do jardim, Irene olhava, displicentemente, os caros que passavam velozes, intransigentes, na rua em frente, como se fossem ondas que iam e vinham, apenas elas e só elas a tentarem, infrutiferamente, desfazer-lhe a solidão em que emergira.

Desde há muito tempo que vivia sozinha, isolada, triste, imersa numa espécie de escuridão que a impedia de despoletar vivências gratificantes, de se imiscuir em prazeres amantéticos ou de se encharcar em cometimentos hedónicos.

De vez em quando, porém, gostava de passar o tempo que tinha livre – e tinha muito - ali, sentada num banco, abstracta e abstrusa, no meio daquele silêncio, umas vezes eloquente e acariciador, outras, plangente e opressivo, apenas entrecortado pelas buzinas e motores dos carros, pelo chilrear dos pássaros e pelos gritos das crianças que brincavam no pátio de uma escola, do outro ado da rua. O habitat das suas horas de lazer parecia estar, inevitavelmente acorrentado ao remanso daquele solitário s sombrio jardim.

Os dias passavam lentos e monótonos. Duma caixa de supermercado passara a vendedora de produtos de beleza, numa perfumaria dos arredores. Apesar de, diariamente, lhe surgirem ao balcão dezenas de clientes, geralmente mulheres, muitas delas ávidas de conversas, desejosas de contubérnio, sempre a bisbilhotar, a fazer perguntas, a despoletar silêncios, sempre prontas para devaneios supérfluos, Irene sentia-se cada vez mais só. Tinha trinta e cinco anos e a hipótese de encontrar o companheiro idealizado com quem havia de partilhar momentos de felicidade, de alegria, de bem-estar e, sobretudo de prazer, começava a diluir-se.

Um dia, porém, enquanto almoçava no snack-bar em frente à perfumaria onde trabalhava, renasceu-lhe na alma, uma estranha auréola de esperança. Recebeu um estranho telefonema! Alguém, do outro lado, um homem, numa situação semelhante à sua, pretendia que se encontrassem, a fim de conversarem, partilharem mágoas e angústias. Que esperasse. Em breve chegaria ali. Um fato preto e uma camisa azul escura, haviam de identificá-lo.

Inquieta, expectante e, sobretudo, muito ansiosa, Irene desligou o telemóvel, sem responder e, enigmaticamente, pensativa, voltou à perfumaria. As clientes rareavam, acabando por se reduzirem a zero. Decidiu-se por voltar ao snack-bar. Apenas o dono e duas senhoras, já de idade, sentadas numa mesa, em frente à montra, mantinham-se entretidas com o vai e vem dos automóveis que, apressados, continuavam, cada vez mais intensamente, a cruzar-se na rua, em frente. Pediu um café, abriu o jornal com o intuito de alienar-se, enquanto aguardava. O tempo demorava em passar e, por isso, movia-se emocionalmente, açulada por uma curiosidade inexplicável. Passou um quarto de hora, meia hora e nada. Decidiu-se por regressar, definitivamente, à perfumaria e telefonar. O número ficara-lhe registado no telemóvel. Apenas um silêncio profundo, angustiante e perturbador, do outro lado. Tentou mais uma vez, naquele dia, uma outra no dia seguinte e ainda outra no terceiro dia… Nada. Sempre o mesmo silêncio, sempre a mesma estranha e intrigante e rejeição. Desistiu

Voltaram a rolar vagarosos e monótonos, os dias e os meses… talvez um ano.

Um dia, do lado de fora do balcão da perfumaria, onde geralmente só iam mulheres, encostou-se um homem, já aparentando alguma idade. Uma acentuada calvície a denunciar que já andaria muito para além dos cinquenta, muito magro e alto, mas elegante, charmoso e simpático, muito simpático. Não havia mais clientes. Falaram sobre coisas supérfluas, conversaram sobre assuntos triviais e, Irene sorriu, o que há muito não acontecia. O homem vestia um fato preto, sobre uma camisa azul escura, desajeitadamente desabotoada no pescoço, aparentando que a gravata havia sido retirada há pouco tempo. Voltou no dia seguinte e ela desejou que ele voltasse em mais um dia, em muitos outros dias.

Mas no dia seguinte, o homem de fato preto e camisa azul escura não voltou. Nem em mais nenhum dia. Apenas de vez em quando passava, na rua, em frente à perfumaria. Apenas olhava, sorria e cumprimentava-a com um solene acenar da cabeça. Depois, triste e sorumbático, continuava o seu caminho…

E Irene regressou ao silêncio amargo da solidão, ao emaranhar-se entre as conversas supérfluas dalgumas clientes, o sorriso fingido de outras, entra a indiferença de todas as que demandavam a perfumaria. E ao sentar-se, nas tardes de folga, abstracta e abstrusa, num banco do velho jardim onde apenas, as buzinas dos carros, como se fossem sirenes distantes se misturavam com o chilrear dos pássaros, Irene continuava a sentir uma solidão, aparentemente, ainda maior e, sobretudo, mais dramática. É que na escola em frente, os gritos das crianças que brincavam no pátio, desde há muito que se haviam calado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:50





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