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SOB A PROTECÇÃO DE SANTA RITA

Quinta-feira, 06.02.14

Sentada à janela com o lenço a tapar-lhe parcialmente o rosto como se fosse um bioco, a avó do Júlio, entretinha-se a passar, maquinalmente, por entre os dedos da mão direita as contas do terço, como se as acariciasse com ternura e carinho, ao mesmo tempo que em voz trémula bichanava um Padre-Nosso, seguido das dez Avé Marias.

Júlio aproximou-se de rompante e a avó, como que despertando de um sono profundo, abalroada por um enorme sobressalto e, colocando a mão esquerda sob a tez, numa tentativa infrutífera de clarificar a visão, olhava e voltava a olhar para a rua, sem ver nada ou coisa nenhuma.

- Adeus, avó. Até logo. Vou a Ponta Delgada, de barco! – Gritava o petiz, em voz esganiçada, a prolongar-se como em eco e como que a certificar-se de que a avó o havia de ouvir.

 - Eu me benzo do não-sei-que-diga. Credo em cruz! O que estás a dizer, pequeno? Vais para onde?

- Avó, vou p’ra Ponta Delgada. Ouviu bem, avó? Pon-ta Del-ga-da! – E voltava a soletrar, até se convencer de que a avó o havia entendido.

Esta, recolhendo o terço no regaço e concentrando toda a sua atenção no garoto, balbuciou, tremulamente:

- Tu, ou não estás bom do juízo ou estás a fazer pouco de mim. Não se enganam pessoas de idade. Ainda por cima, sou a tua avó… É preciso não ter pingo de vergonha…

Júlio insistia em frustradas tentativas de a convencer:

- Avó, acredite, é verdade, eu vou mesmo a Ponta Delgada. Eu não sou nenhum intrujão. Olhe já estou calçado e tudo. Estou preparado para viajar.

- E vais a Ponta Delgada com quem e fazer o quê? – Perguntou a avó cada vez mais intrigada e incrédula.

- Vou com meu pai. Para lá vamos de barco e para trás vimos a pé. Meu pai vai fazer uma visita ao seu amigo, o senhor Nóia.

Cada vez mais admirada com tão inesperada notícia, a avó benzia-se, vezes sem conta:

– Eu me benzo do Coiso Mau – dizia ela. - Teu pai está doido. Caminhar assim sem mais nem menos, a estas horas, para Ponta Delgada… E vão voltar ainda hoje?…

Nessa altura apareceu à janela a tia Joana, sempre em casa, a varrer, a limpar, a cozinhar, mas também sempre a ouvir e a coscuvilhar tudo e a meter-se onde não devia. Com voz intrigante e ar cínico, indagava, curiosa:

– Quem é que vai a Ponta Delgada? Quem é, quem é?

O miúdo, com mais vontade de largar para o Cais do que estar ali a dar explicações, ainda foi esclarecendo:

- Sou eu, tia Joana. Sou eu e mais meu pai, tia Joana?

Logo uma condenação radical e incomplacente:

- Teu pai não tem uma pinga de vergonha! Ainda não há um ano que tua mãe morreu e ele já caminha para todos os lados. Não para em ramo verde! Nunca está em casa. É uma vergonha! Já toda a gente fala na freguesia.

Júlio nem lhe respondeu. Rodopiando sobre si próprio, largou em debandada, deixando no ar um anátema condenatório

– Canalha! Metam-se na sua vida. Mas se falam é porque minha tia ouve.

Na certeza de que Júlio já não a ouvia, Joana voltou-se para a mãe:

- E o pior, mãe, é que ele caminha para aqui e para acolá e manda os dois pobres piauzinhos mais velhos para as terras, sozinhos. Qualquer dia ainda acontece alguma desgraça. Onde é que se viu duas crianças daquela idade andarem a trabalhar sozinhos por essas terras de foices e machados, a ceifar feitos e cortar lenha!?  Pobres piauzinhos! Ainda se vão cortar! É preciso não ter vergonha! E caminha aquela alma de Deus, com uma criança pequena, a estas horas, para Ponta Delgada!? Vão voltar para casa de noite, a umas lindas horas! Lá isso vão… Olhe mãe: ou eu me engano muito ou ainda se vão é perder naqueles matos.

A avó, levantando-se, muito a custo, lá se foi encaminhando para junto da mesa da sala, sobre a qual existia um oratório com a imagem de Santa Rita. Acendeu-lhe uma luzinha, bichanou umas orações e, muito segura e convicta, retorquiu para a filha:

- Deixa estar que Santa Rita há-de fazer o milagre de os guiar. Já lhe acendi a luzinha. Ela também os há-de iluminar, ser a luz para eles. E desceu as escadas do saguão que dava para a loja, a fim de se deitar.

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publicado por picodavigia2 às 17:23





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