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O DESCANSADOURO DA EIRA DA CUADA

Quinta-feira, 07.04.16

O Descansadouro da Eira da Cuada era, incontestavelmente, o mais deslumbrante, o mais emblemático, o mais mítico e, sobretudo, o mais histórico de quantos descansadouros existiam na Fajã Grande. Deslumbrante porque dali se desfrutava de admiráveis vistas e belas paisagens. Emblemático porque além de descansadouro para os homens que vinham carregados das terras da ladeira do Biscoito, da Cuada e, nalguns casos, até da Fajãzinha, era ali também que, uma vez por mês, permaneciam multidões à espera de familiares, amigos e conhecidos que regressavam à ilha a bordo do Carvalho Araújo, sobretudo dos que vinham da América. Mítico porque sobre ele se contavam algumas lendas entre as quais a do Calhau de Nossa Senhora ou Pedra da Missa. Finalmente histórico porque fazia parte da história da freguesia, ligando o povoado da Fajã Grande, desde os seus primórdios até precisamente ao final da década de cinquenta, altura em que se construiu a estrada que liga o porto da Fajã Grande aos Terreiros. Por ali passaram durante dezenas de anos, centenas de pessoas nas suas idas e vindas, não apenas para a vizinha Fajãzinha mas para as Lajes, para Santa Cruz e para todas as outras freguesias das Flores. Além disso também por ali passavam os que, vindos destas paragens, visitavam a Fajã Grande quer por altura das Festas de São José de Santo Amaro ou da senhora da Saúde quer nos dias em que o Carvalho, devido ao mau tempo, fazia serviço na Fajã Grande quer por outra razão qualquer demandavam a mais ocidental freguesia da ilha. Por ali passaram governantes, bispos, capitães-mores, militares, escritores, poetas e muitas outras individualidades que visitaram a freguesia e decerto ali se sentaram para descansar e para apreciar as belas paisagens que dali se disfrutam.

Localizado no lugar da Eira da Cuada, este descansadouro situava-se num planalto, junto ao mar, a sul da freguesia e, consequentemente, muito próximo da Fajãzinha e ligava o antigo Caminho da Missa que tinha o seu início no cimo da Assomada, à direita de quem a subia, com a ladeira do Biscoito que desembocava na Ribeira Grande onde havia uma fatídica ponte de madeira, de vez em quando levada pela força da corrente. Os habitantes da Cuada também usufruíam deste descansadouro, através duma estreita e sinuosa canada. O descansadouro era importantíssimo, sobretudo, para quem vinha dos lados da Fajãzinha, atravessando a Ribeira Grande e subindo a íngreme e comprida ladeira do Biscoito. Cuida-se que em tempos idos teria existido ali uma eira onde os habitantes da Cuada debulhavam o seu trigo. Trata-se, no entanto, de uma mera hipótese, uma vez que na década de cinquenta do século passado já não existiam vestígios ou memórias de ter existido ali qualquer eira. Assim, o epíteto do lugar e, consequentemente, do descansadouro, poder-lhe-á ter sido atribuído, simplesmente, pelo facto daquele lugar se situar sobre um amplo planalto, de tal maneira liso e circular, formando um grande eirado e que, na verdade, fazia lembrar uma espécie de eira gigante.

Mas o que mais caracterizava aquele descansadouro era o facto de estar situado num grande largo, um espaço público ou de ninguém, atapetado de fresca alfombra e povoado de variadíssimos calhaus. Entre estes existia um muito especial, designado por Pedra da Missa ou Calhau de Nossa Senhora. Acerca deste calhau, contava-se que antigamente, quando a Fajã Grande ainda não era paróquia e, consequentemente, não tinha igreja nem pároco, os seus habitantes deslocavam-se à Fajãzinha, todos os domingos, para assistirem à missa na igreja paroquial. Acontecia porém que a Ribeira Grande, que separa as duas localidades, como é bastante larga e com um caudal muito volumoso, não possuía ponte mas sim umas pequenas passadeiras ou alpondras que em dias de muita chuva ficavam submersas na água, o que, juntamente com a força do caudal, umas vezes dificultava e outras impedia por completo a sua travessia. Quanto tal acontecia os fiéis, impossibilitados de atravessar a ribeira, ficavam do lado de cá, no alto da Eira da Cuada, olhando para a igreja da Fajãzinha, que dali de se avistava, rezando e cantando durante a celebração da missa e apenas se dispersando e voltando às suas casas quando viam as pessoas saírem da igreja, sinal de que a missa terminara. Além disso faziam-se sempre acompanhar duma pequenina imagem de Nossa Senhora que colocavam em cima daquela pedra, durante a missa, ao redor da qual ajoelhavam e rezavam. Em paga da sua grande devoção, a imagem de Nossa Senhora, que fora ali colocada tantas e tantas vezes pelos crentes, deixou, para sempre, bem gravadas naquele calhau as marcas dos seus pés. Na verdade na pedra existiam duas pequenas cavidades na parte superior, semelhantes às marcas de dois minúsculos pés. Também se contava que no regresso os fiéis vinham carregados com pedras destinadas à construção de uma ermida, o que de facto aconteceu antes da construção da atual igreja, na década de cinquenta do século XIX. Por esta razão o caminho que liga o povoado à Eira da Cuada se chama Caminho da Missa

Deste descansadouro desfrutava-se de uma maravilhosa vista, sobre o mar, a Fajãzinha, a fajã que a ladeava, a rocha cheia de verde e de cascatas, as rochas da Figueira e dos Bredos, onde, em meados da década de cinquenta, começou a desenhar-se a nova estrada que ligaria os Terreiros à Fajã Grande e que lançaria no esquecimento não apenas este descansadouro mas o próprio Caminho da Misa.

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O DESCANSADOURO DA VOLTA DO DELGADO

Terça-feira, 27.10.15

Até à década de cinquenta e antes da abertura do troço de estrada que liga o Porto da Fajã Grande à ladeira do Biscoito, junto à Ribeira Grande, existia um emblemático e muito concorrido descandouro no lugar conhecido como a Volta do Delgado. Este descansadouro situava-se no antigo caminho que ligava a Fajã à Cuada, um pouco acima de um outro enorme e frequentadíssimo, o do Vale da Vaca, que devido à sua importância e grandiosidade era simplesmente designado pelo Descansadouro, dando inclusivamente nome ao lugar em que situava. Uma espécie de pai de todos os descansadouros existentes nos vários sinuosos caminhos da freguesia.

O descansadouro da Volta do Delgado situava-se precisamente numa enorme curva do caminho, um pouco antes de Santo António, paredes meias com o enormíssimo cerrado do Lucindo Cardoso. A curva que fazia jus ao nome de volta era bastante acentuada e ladeada, a oeste pelos contrafortes do Outeiro e tinha a sudoeste algumas paredes que serviam para colocar os molhos, cestos, sacos e outros carregamentos. A bancada ficava encastoada nas paredes de um pequeno largo formado pelo cruzamento de uma canada que dava acesso a algumas terras do lado da Cuada e servia de descanso aos homens que vinham ou iam para essas terras assim como os que partiam ou regressavam a casa quando se deslocavam para os campos do Delgado, Cabaceira, Cuada, Espigão Lavadouros e muitos outros situados na parte sul da freguesia. Assim paravam ali, diariamente, dezenas e dezenas de homens que, exaustos e cansados, no regresso destas paragens, interrompiam a sua caminhada, fazendo uma pausa. Fumavam, trocavam lume e cigarros, conversava, por vezes faziam contractos e acordos e, sobretudo, descansavam porque as distâncias eram longas, o piso dos caminhos e, sobretudo, o das canadas contíguas era muito íngreme e sinuoso, e as cargas eram pesadíssimas.

Com a abertura da estrada, esta zona do antigo caminho foi desfeita e destruída por completo, assim como o descansadouro que ali se situava, nada dele ficando a não ser a memória. Acresce dizer-se que, pouco depois, o antigo descansadouro da Volta do Delgado foi substituído por um outro, muito perto situado um pouco mais acima, na nova estra que dividira o cerrado do Lucindo Cardoso em dois. O descansadouro deslocou-se para o meio do cerrado, junto a uma casa velha ou palheiro que ali existia. Como este era de dois pisos e o primeiro ou loja estava sempre aberto, este novo descansadouro que tinha a vantagem de possuir um abrigo da chuva, privilégio nunca concedido a nenhum outro, passou a designar-se por descansadouro do Palheiro do Lucindo Cardoso.

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O DESCANSADOURO DA CABACEIRA

Terça-feira, 04.08.15

Não era dos mais importantes, nem muito menos dos mais interessantes ou míticos descansadouros de quantos havia nos caminhos da Fajã Grande. Apesar de tudo era imprescindível e útil. Situava-se no antigo caminho entre St António e os Lavadouros Vale Fundo, na reta que se seguia a uma pequena ladeira com o mesmo nome e onde se situavam algumas das principais propriedades do amplo lugar da Cabaceira do Meio. Apesar de pequeno, este descansadouro proporcionava descanso a muitos homens que por ali passavam diariamente. Por um lado, destinava-se ao descanso dos que, vindo dos Lavadouros, da Alagoinha, da Lombega, do Moledo Grosso, do Lameiro, da Cancelinha e de outras paragens, carregados com molhos, cestos e sacos, que ali paravam, sentando-se nos degraus da canada da Cabaceira de Cima, fumando e conversando. Mas também muitos homens e mulheres vindos da próxima Cabaceira de Cima, ali descansavam. Através duma canada que desembocava ali, aproveitavam-no também para se refazer do cansaço dos trabalhos nas belgas de inhames que por ali proliferavam, de cortar e rachar, lenha, ceifar feitos ou cortar cana roca. Por vezes até paravam ali os animais que seguiam para as relvas dos Lavadouros, mais por conveniência do dono do que extenuados pela longa caminhada.

Mas o que mais caraterizava este descansadouro era que, contrariamente à maioria dos outros, não se situava num largo, mas sim em pleno caminho, sendo as paredes deste que serviam para colocar molhos e cestos, enquanto os assentos, para além dos degraus da Canada da Cabaceira de Cima,  eram simples pedras retiradas das paredes e colocada no chão. Eram sobretudo as paredes do lado oeste, duma propriedade que pertencia a meu pai e de uma outra contígua que pertencia ao tio Francisco Inácio e que era trabalhada por um dos filhos, que serviam para colocar cestos, molhos e sacos. Outra característica importante e comum a todos os descansadouros localizados ao longo deste caminho era a de se situar num lugar muito fresco, sombrio e abrigado, pois para além das altas paredes que, regra geral, os ladeavam, neste caso a leste e a norte, perfilava-se ao seu redor um denso arvoredo. As copas das árvores como que cobriam o caminho de um lado ao outro. Este descansadouro, uma vez que não se situava num largo, estendia-se por uma grande área retangular do caminho, com o centro no cruzamento da Canada mas quase nunca se enchia de homens, por haver outros maiores ali perto. A sul e para cima o da Cancelinha, a norte e na direção do povoado o do Delgado e sobretudo o de Santo António. Para além de dar descanso aos homens que acarretavam molhos ou outras cargas trazidos dos campos que possuíam nestes lugares, este descansadouro também dava abrigo a animais sobretudo aos que puxavam corsões, pois sendo aquelas terras muito distantes das casas, regra geral recorria-se a estes meios de transporte, uma vez que assim, numa única viagem, acarretava-se o que às costas seria feito em dez, vinte ou mais vezes. Era sobretudo feitos, cana roca e lenha, incensos para o gado e inhames que se acarretava dali, em corsões ou às costas dos homens

O Descansadouro da Cabaceira tinha, geralmente, um aspeto sombrio, como que acinzentado, o que o tornava, por vezes aparentemente, deserto, misterioso e enigmático. Ali, encastoado entre o arvoredo e as altas paredes, transformava-se num espécie de auditório de silêncio e de mistério onde corriam, incessantemente, murmúrios de memórias perdidas no tempo, sonhos assustadoramente desfeitos e lamentos, inconformadamente, cerceados pelo destino.

 

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O DESCANSADOURO DO CIMO DA LADEIRA DO COVÃO

Domingo, 10.05.15

Embora não fosse muito movimentado, uma vez que servia apenas de local de descanso para os homens que iam e vinham para a Pedra de Água, para o Outeiro Grande e para o Alto do Covão, o descansadouro do Cimo da Ladeira do Covão era um dos mais deslumbrantes descansadouros de quantos havia na Fajã Grande. Situava-se bem lá no alto, onde a ladeira terminava. Era constituído por uma bancada natural, feita de pedregulhos soltos encostada a uma alta parede que protegia de ventos e chuvas, quando vinham do sul e do oeste. Se o vento soprasse do norte, havia uma alternativa. Abrigar-se no início da vereda que dava para as terras do Alto do Covão.

A Ladeira do Covão era, incontestavelmente, a mais desnivelada, a mais íngreme e a mais abrupta ladeira de todas as que possuíam os tortuosos caminhos e veredas da Fajã Grande. Situava-se logo a seguir ao Cimo da Assomada, no Vale da Vaca e ligava o antigo caminho da Cuada, das hortas e dos Lavadouros com a Canada do Covão, ou seja com a penhascosa e escarpada vereda de acesso à Pedra d’Água e ao Outeiro Grande, a meio da qual se engastava o mítico e tenebroso Calhau das Feiticeiras. Situava-se pois, a referida Ladeira, numa elevada e altiva encosta, Mas o que ainda mais caracterizava a Ladeira do Covão e que lhe dava um ar de singularidade, é que se alongava, de um dos lados, como que paralela ao Vale da Vaca, enquanto do outro se confundia com a encosta subjacente, povoada de silvas, de vinháticos, de cubres, de funchos e de canaviais, donde emanavam cores e perfumes diversificados e atraentes e onde a passarada esvoaçava em acasalamentos ou na procura estonteante de sítios mais adequados para os ninhos. Do seu cimo ou seja no local onde havia o pequeno descansadouro, desfrutava-se de um cenário deslumbrante, duma vista maravilhosa. Ao perto o enorme vale onde predominavam as terras e cerrados de milho, muito verde e robusto, mais ao longe a Assomada, com as suas casinhas a agregarem-se e a protegerem-se entre as encostas do Pico e do Outeiro, mais ao longe, a Rua da Direita com o seu casario altaneiro e a igreja com o campanário a sobressair sobre os telhados e, ainda mais ao longe, o mar, o Monchique e os navios. A protegê-la as encostas sombrias do Pico da Vigia.

E como subir a Ladeira do Covão representava um gigantesco esforço e um enorme cansaço a existência do descansadouro, lá no cimo, era como a cereja em cima do bolo. Ali, no entanto, descansavam não apenas os que subiam, muitas vezes levando o gado para as relvas do Outeiro Grande e Pedra d’Água, mas também os que desciam vergados ao peso de molhos e cestos, pois por aquelas bandas, para além das pastagens existiam bons terrenos agrícolas onde se cultivava, para além do milho, excelentes batatas-doces. Além disso o descansadouro para além de muito abrigado e protegido de ventos e chuvas, caracterizava-se, sobretudo, porque como que suavizava o cansaço de quem ali se sentava, galvanizado pelo encanto da paisagem circundante, aureolada com o estonteante colorido da vegetação, com o perfume das flores, com os sabores dos frutos e, sobretudo, com a sublimidade do canto dos pássaros.

Os molhos, cestos e outros carregamentos enquanto os homens se sentavam a descansar e a fumar, eram colocados sobre uma plataforma que ladeava a ladeira do lado da encosta. Também era ali que se juntavam os homens, entre os quais Mestre Augusto Mariano que por ali tinha muitas relvas e terrenos agrícolas, enquanto aguardavam a hora da ordenha, na altura em que o gado estava amarrada à estaca, alimentando-se de trevo e erva-da-casta e trilhando os terrenos.

 

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O DESCANSADOURO DO ESPIGÃO

Sábado, 22.11.14

O descansadouro do Espigão, juntamente com os do Tufo, do Covão e dos Lavadouros, era um dos mais pequenos descansadouros de quantos havia na Fajã Grande. Mas, contrariamente, a muitos outros, era pequeno, sobretudo, no que ao espaço dizia respeito, uma vez que este era bastante reduzido, pois limitava-se a um pequeno espaço do próprio caminho, bem lá no alto do Espigão

Situava-se no antigo caminho entre a Cancelinha e os Lavadouros Vale Fundo, na reta que se seguia à ladeira com o mesmo nome e onde se situavam algumas das principais propriedades do Espigão. Apesar de pequeno, este descansadouro proporcionava descanso a muitos homens que por ali passavam diariamente. Por um lado, destinava-se ao descanso dos que, vindo dos Lavadouros, da Alagoinha, da Lombega, do Moledo Grosso, do Lameiro  e de outras paragens, carregados com molhos, cestos e sacos, que ali descansavam antes de iniciar a descida da íngreme ladeira, finda a qual havia um outro descansadouro, o da Cancelinha. Mas também muitos homens e mulheres aproveitavam o descansadouro do Espigão para se refazer do cansaço que a subida da ladeira lhes provocava. Por vezes até paravam ali os animais que seguiam para as relvas dos Lavadouros, também eles extenuados pela subida da fatídica ladeira

Mas o que mais caraterizava este descansadouro era que, contrariamente à maioria dos outros, não se situava num largo, mas sim em pleno caminho, sendo as paredes deste que serviam para colocar molhos e cestos, enquanto os assentos eram simples pedras retiradas das paredes e colocada no chão. Outra característica importante era a de este descansadouro ser muito sombrio e abrigado pois para além das altas paredes que o ladeavam a leste, perfilava-se por ali um denso arvoredo. As copas das árvores como que cobriam o caminho de um lado ao outro.

O descansadouro do Espigão, mais um mito fajãgrandense perdido no tempo.

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publicado por picodavigia2 às 12:00

O DESCANSADOURO DO TUFO DA CUADA

Quinta-feira, 30.10.14

A meio do caminho que separava a Cuada do Vale Fundo e que deste lugar seguia para os Lavadouros, no local onde se iniciava a canada que dava para a Fajã das Faias, havia um enorme Tufo. Tratava-se de uma grande calhau, egro e abrupto, como que nascido da terra, com uma constituição muito porosa, naturalmente originado a partir da consolidação antigos detritos vulcânicos. A sua exuberância e saliente postura fizera com que desse nome ao lugar. Por sua causa, também se alargara ali o caminho, não apenas formando um pequeno largo mas tendo também originado um minúsculo descansadouro, um dos menores da freguesia, porquanto servia apenas os poucos moradores existentes na Cuada e a um outro da Fajã, ou seja aos homens que possuíam propriedades na Fajã das Faias, de onde apenas retiravam, incensos, fetos e cana roca.

As altas paredes ao redor do largo onde estava encravado o tufo serviam para colocar os molhos e um ou outro cesto e a bancada, onde os homens se sentavam a descansar eram os rebordos do próprio calhau.

O que mais caracterizava este descansadouro era o silêncio, a calma e a pacatez que se faziam sentir ao seu redor. Por isso era mtico, sublime e transcendente sentar-se ali, até porque algumas estórias maribulantes que se contavam, tinham aquele local como cenário.

 

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O DESCANSADOURO DA BANDEJA (FAJÃ GRANDE DAS FLORES)

Quarta-feira, 20.08.14

O descansadouro da Bandeja, na Fajã Grande, era um dos mais pequenos e menos frequentados da freguesia, uma vez que, situado no lugar com o mesmo nome, servia apenas de local de descanso aos homens que ali se deslocavam, a que se juntavam, simplesmente, os que vinham das Queimadas, assim como os que regressavam das suas lides e trabalhos no Outeiro, mas apenas na parte do Outeiro paredes-meias com a Bandeja e que eram muito poucos. É que o chamado Caminho da Bandeja terminava nas Queimadas e nele desembocavam, somente, duas canadas: uma, a que vinha dos lados do Outeiro e que se cruzava com aquele caminho mesmo no coração da Bandeja, a outra, situada bem lá no alto das Queimadas, prolongando-se estendendo-se na direcção da Rocha, ligando as Queimadas à Laje da Silveirinha. No entanto, quem viesse com molhos ou cestos às costas daquelas bandas nunca viria por esta canada e pela Bandeja, percurso mais distante e, sobretudo, de muito pior qualidade.

Essa a razão por que o descansadouro da Bandeja era muito pouco frequentado, a não ser nos meses de Abril e Maio, em que o gado estava amarrado à estaca, nas forrageiras. Nesta altura do ano, à tardinha, antes da ordenha da tarde e de se dar às rezes a última cordada, aquele descansadouro enchia-se de homens, muitos vindos da Fonte-Cima e até do Batel, outros com gado na Bandeja e arredores, para ali se sentarem, a fumar, a falquejar, a conservar e, sobretudo, a descansar.

Situado numa zona bastante alta, no largo da entrada para a Canada do Outeiro, o descansadouro da Bandeja gozava de uma vista privilegiada sobre o oceano, sobre as Águas, a Ribeira das Casas e, mais além, sobre a Ponta com a sua igrejinha dedicada à Senhora do Carmo, de cujos sinos o toque das trindades ali se ouvia, podendo ainda observar-se e beneficiar da sombra da Rocha que se estendia da Figueira até ao Risco da Ponta, recortada das suas belas cascatas como da Ribeira das Casas, da Ribeira do Vime e da Ribeira do Cão e muitas outras grotas, impondo-se solene e majestosa.

Este descansadouro ficava voltado para o noroeste, pelo que era protegido dos ventos do sul e de sueste por uma alta e grossa parede, junto à qual se fora construindo uma pequena banqueta, feita de pedras rústicas e soltas que crescia sempre que o número de utentes aumentava.

Um sonho, este mítico descansadouro da Bandeja!

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publicado por picodavigia2 às 17:49

O DESCANSADOURO DA CUADA

Sexta-feira, 16.05.14

Na década de cinquenta, o lugar da Cuada, um dos três lugares habitados na freguesia da Fajã Grande, teria cerca trinta habitantes residentes, distribuídos por sete fogos, correspondentes a outros tantos agregados familiares. Um lugar pacato, silencioso, com as ruas, habitualmente, desertas, no que aos moradores dizia respeito. No entanto, muitos habitantes da Fajã tinham terras para aqueles lados, nomeadamente, no Tufo, Fajã das Faias, Eira da Cuada e na própria Cuada, Assim o fluxo de transeuntes e até de um ou outro carro de bois ou corsão, avoluma-se, por ali, durante o dia. Nas suas idas e vindas para os campos que ali possuíam, muitos homens da Fajã passavam, diariamente, pela Cuada, geralmente, vergados ao peso de molhos de incensos ou de lenha, cestos de milho ou sacos de inhames, bem precisavam de descansar. Além disso, como em muitas dessas terras, juntamente com o milho, semeavam forrageiras, no tempo do oitono, tinham, por ali, o gado amarrado à estaca, o que ainda, sobretudo antes da ordenha, os obrigava a procurar lugar para descansar, fumar, falquejar e conversar. Daí a criação de um descansadouro por ali, uma vez que o mais próximo era muito distante, no Delgado – o descansadouro de Santo António.

Ora o local que, para tal, oferecia melhores condições era precisamente o centro da localidade, onde, na confluência das três pequenas ruas que a Cuada possuía – uma na direcção da Fajã, outra que ligava ao Calhau de Nossa Senhora, no Caminho da Missa e, finalmente a última na direcção do Vale Fundo e Lavadouros, desembocando no Bezarraçado - havia um enorme lago. Era o local ideal para um descansadouro! Possuía paredes circundantes para colocar as cargas, nomeadamente, os muros do pátio de tia Glória, dispunha de banquetas, onde se incluíam os próprios degraus do pátio, água e, sobretudo da companhia dos cuadenses que, habituados a viverem só, viam ali um excelente contubérnio, para conviverem, conversarem e se informarem dos acontecimentos da freguesia.

Assim, os homens que vinham das paragens circundantes, carregando pesados molhos ou sacos tinam ali uma excelente ocasião não só para descansar, como também para matar a sede e dar dois dedos de conversa aos habitantes locais, que normalmente só se deslocavam â Fajã para cumprir o preceito dominical e, no caso das crianças, para virem à escola. De resto a Cuada tinha tudo: casa de Espírito Santo, máquina de desnatar leite, sapateiro e até uma pequena loja, onde se vendiam o indispensável.

 

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O DESCANSADOURO DO PICO AGUDO/PAUS BRANCOS

Quinta-feira, 27.03.14

Na primeira metade do século passado, o descansadouro do Pico Agudo/Paus Brancos era um dos maiores da Fajã Grande, embora fosse dos menos utilizados, sobretudo, devido à distância do povoado e por servir pouco mais do que meia dúzia de lugares. Situava-se no caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, mas já bastante longe do povoado, muito além do seu congénere da Escada Mar, já quase na Alagoinha, precisamente, encastoado entre os dois lugares que lhe davam o nome e no início das canadas que davam para um e outro daqueles lugares. Do lado da Rocha, ou seja à esquerda de quem subia na direcção dos Lavadouros, ficava o lugar dos Paus Brancos que se prolongava pela própria Rocha. Quem circulava naquele caminho, poderia ver, do outro lado, uma pequena elevação de terreno, em forma de pico, bastante delgado e que dava nome ao lugar.

O Descansadouro estendia-se numa grande área rectangular, paralela à estrada e, geralmente, nunca se enchia de homens, pese embora servisse bastantes lugares: Curralinho, Portalinho, Alagoinha, Lavadouros, Mateus Pires, Horta das Abóboras, Rocha da Alagoinha, Paus Brancos e Pico Agudo. Para além de dar descanso aos homens que acarretavam molhos ou outras cargas trazidos dos campos que possuíam nestes lugares, este descansadouro também dava abrigo a animais sobretudo aos que puxavam corsões, pois sendo aquelas terras muito distantes das casas, regra geral recorria-se a estes meios de transporte, uma vez que assim, numa única viagem, acarretava-se o que às costas seria feito em dez, vinte ou mais. Era sobretudo feitos, cana roca e lenha que se acarretava dali, em corsões. Uma vez que na Alogoinha e nos Lavadouros havia boas pastagens, também descansavam ali muitos habitantes da freguesia, nas idas e vindas em que iam levar ou buscar o gado aquelas paragens.

O Descansadouro do Pico Agudo/Paus Brancos era tinha, geralmente, um aspecto sombrio, acinzentado, que o tornava enigmático e quase mítico. Ali, encastoado entre um pico e a rocha, transformava-se num espécie de vale, onde corriam, incessantemente, murmúrios de sonhos perdidos, sonhos assustadoramente desfeitos e lamentos, inconformadamente, cerceados pelo destino.

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O DESCANSADOURO DA RIBEIRA

Domingo, 23.02.14

Interessante embora prescindível, o descansadouro da Ribeira. Interessante porquanto ladeado pela Ribeira, prescindível pois ficava a dois passos de um seu congénere gigante - o descansadouro do Alagoeiro - com o quase inédito e inexaurível dom de ser dos poucos da Fajã Grande que possui água potável. Afinal e bem vistas as coisas, a Ribeira também possuía água e muita. Mas a água da Ribeira, apesar do seu forte e permanente caudal, da sua pureza cristalina e do seu doce ciliciar-se por entre pedregulhos e moitas de agriões, não era bebível, servia apenas para criar enguias, para lavar roupa e tripas, para os animais beberem e, mais cá para baixo, quase junto ao mar, para mover os moinhos.

Paralelo à própria Ribeira, este descansadouro, que dela recebia o nome, tinha como principal razão da sua existência ou enigmática edificação, o arame, ou seja, aquele enorme fio de aço esticadíssimo, que unia o cimo da Rocha com o chão, mas a uma boa distância da base, a fim de que, tornando-se inclinado, molhos de lenha, de fetos, de bracéu e de erva deslizassem por ali abaixo até se açaparem, uns sobre os outros, num enorme largo que existia cá em baixo, junto à junção da Ribeira com os caminhos da Figueira e da Escada-Mar e que tinha espetadas umas enormes e grossas estacas, onde estava preso o portentoso e inclinado arame. Com o tempo, porém, o descansadouro da Ribeira foi crescendo e alterando o seu estatuto de se reduzir ou limitar a ser apenas uma espécie de serviço de apoio ao dito cujo. O descansadouro da Ribeira também tinha como plano B, servir aos homens que vinham, quer das Águas, quer da Figueira, quer do próprio lugar da Ribeira, carregando, às costas; molhos pesadíssimos de erva, encharcada de água e de limos ou cestos de inhames, muito acaculados e com uma outra folha verde que remanescia como prova do seu crescimento e excêntrico tamanho. E como se isso não bastasse para que aquele local de descanso e de paragem de homens crescesse e ombreasse com o seu congénere do Alagoeiro e quejandos, era o facto de ali em frente ser o local predestinado para as mulheres lavarem a roupa. Muitas mulheres também ocupavam os seus degraus, transformados em assentos, lado a lado com os homens enquanto outras, apesar de objectoras assumidas a tão pouca ortodoxa convivência, não se coibiam de dar dois dedos de conversa aos que a elas se dirigiam, louvando, elogiando, mimoseando e, sobretudo, mirando algum nesga de perna que a saia puxada para cima deixasse vislumbrar, enquanto ajoelhadas a beira do açude, inclinadas sobre os toscos lavadouros de pedra, balanceavam o corpo, em movimentos convulsivos.

Todo este dinamismo e esta excentricidade concediam a este descansadouro um misticismo inebriante, transformando-o num recanto de enlevo, por vezes de namoro.

Os molhos eram colocados sobre as paredes, no rodo em que o próprio caminho vindo do Alagoeiro, entrava, abruptamente, pela ribeira dentro, na margem direita. Entre este e a Canada das Águas a própria ribeira transformava-se em via de circulação para os animais, enquanto os humanos caminhavam sobre uns rebordos laterais, construídos para o efeito. Alta a parede protegia do vento norte e facilitava o estatuto dos voyeurs que ali se sentavam, uma vez que os assentos de pedra ali colocados desembocavam sobre a própria ribeira, onde ficava o açude preferido das lavadeiras.

Nos dias em que se apanhava bracéu ou ceifava feitos nas relvas do Mato, o Descansadouro da Ribeira vivia um reboliço desusado. Eram dezenas e dezenas de molhos atirados pelo arame e, cá em baixo, no largo que lhe servia de plataforma de suporte, dezenas de homens, mulheres e crianças, os mais lestos a retirá-los e os outros a acarretá-los, às costas para o caminho, onde aguardavam que os carros de bois e os corções os trouxessem para casa.

Nos restantes dias, o Descansadouro da Ribeira, vivia uma tranquilidade tranquila, normal e desconcertante, apenas intercalada por momentos de vivências mais intensas, como o lavar das tripas, os dias de oitono, com o gado amarrado à estaca nas forrageiras das terras circundantes ou em dias de fio quando, sobretudo, as mulheres e as crianças, ali se sentavam, antes de subir aquele alcantil pétreo e abruto, que era a Rocha que, no entanto, o abrigava do vento, quando este soprava de leste.

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publicado por picodavigia2 às 22:15

O DESCANSADOURO DE SANTO ANTÓNIO

Quarta-feira, 05.02.14

No Largo de Santo António, na Fajã Grande, no caminho que ligava a Assomada aos Lavadouros e, também, à Cuada, uma das vias mais percorridos diariamente pelos habitantes da Fajã na década de cinquenta, havia um interessante e típico descansadouro, conhecido, precisamente, pelo descansadouro de Santo António e que servia de paragem obrigatória e de repouso merecido aos homens que vinham da Cabaceira, da Cancelinha, do Espigão, do Moledo Grosso e da Lombéga, da Alagoinha e dos Lavadouros, assim como os que vinham das terras do lado da Cuada. Tratava-se um local de descanso situado num largo, no cruzamento de três caminhos, rusticamente preparado de modo a que os homens pudessem pousar as cargas que transportavam, descansar e conversar um pouco. Na realidade, em Santo António, como no Alagoeiro, no Pico Agudo ou na Ribeira das Casas e em tantos outros sítios, os homens, ao regressarem dos campos vergados ao peso dos molhos e cestos, uns e outros pesadíssimos, paravam para descansar e cavaquear. Colocando os brutais carregamentos sobre as paredes circundantes, limpavam o suor com as costas das mãos, com lenços ensebados ou até com as mangas das frocas, com as quais também formavam espécies de rodilhas ou almofadas que colocavam sobre as pedras soltas, encostadas às abas das paredes mais altas e abrigadas, para se sentarem sobre elas, de modo a não “apanharem frio”. Sentados sobre essas espécies de toscas bancadas, os homens descansavam, fumavam, trocavam lume e cigarros, por vezes, se o descanso era mais prolongado, até falquejavam troncos de cana-roca ou um garrancho qualquer e conversavam, discutiam, umas vezes a “tirar teimas” outras “acertar contas”, recriminando-se reciprocamente. Uns vinham de longe outros de perto, uns mais cansados outros mais aliviados, mas todos ali se sentavam de manhã, ao meio-dia, à tarde e à noitinha.

O descansadouro de Santo António, ocupava todo o largo e era circundado por três altas paredes. A Sul, do lado do Delgado ficava uma horta pertencente ao José de Nascimento, com paredes altíssimas e um gigantesco portão sobre o qual havia um pequenino nicho com uma imagem de Santo António, padroeiro onomástico do lugar. A Oeste e do lado da Cuada uma outra parede, também bastante alta e abrigada, pertencente a uma terra do Roberto de José Padre. A norte e a fazer esquina com as duas primeiras, uma terra do Augusto Mariano, com paredes mais baixas e uma espécie de maroiço anexo que servia de palanca onde os homens colocavam molhos e cestos. Um pouco acima e logo no início do caminho que dava para a Cuada havia uma relva pertencente ao Josezinho Fragueiro, onde havia uma nascente de água com uma bica que jorrava permanentemente um diáfano e fresquinho fio de água, onde homens, mulheres e crianças que por ali passavam ou ali paravam a descansar iam matar a sede.

No final da década de cinquenta, a nova estrada que ligava o Porto da Fajã Grande aos Terreiros, passou por ali perto e o descansadouro de Santo António, como muitos outros da Fajã, perdeu o seu protagonismo, sendo, neste caso substituído por um, na nova estrada, no sítio em que a mesma atravessava o cerrado do Lucindo Cardoso, um pouco mais abaixo, no Delgado, junto a um palheiro que ali havia.

O descansadouro de Santo António era dos poucos da freguesia que dispunha de água. Logo a seguir, no caminho que dava para a Cuada, do lado direito de quem caminhava na direcção daquela localidade, ao fundo da relva que ali existia, havia uma nascente de água, que havia sido aproveitada e transformada numa espécie de bica ou fonte, donde brotava um fiozinho de água, que corria dia e noite, ténue, diáfano e cristalino e que era vulgarmente designada pela Fonte do Delgado. O precioso líquido que dali brotava, que rareava naquelas redondezas, era muito fresquinho, limpo e deliciosamente saboroso, pelo que dava de beber e matava a sede a quantos sequiosos passavam por ali ou se sentavam no descansadouro contíguo.

No entanto, ao fundo da relva onde se situava a fonte e um pouco mais abaixo desta, havia uma quinta com altas paredes e um enorme portão, encimado por uma cruz, sempre aberto, sempre disponível a quem quisesse por ali entrar. Mas poucos o faziam, com medo de lá entrar. Contava-se que uns anos atrás se enforcara ali um rapaz. Ora como o suicídio, na freguesia, sobretudo através do enforcamento, era raríssimo, o povo, embalado em ensinamentos religiosos onde pontificava o misterioso, o maldito, o coiso-mau e, sobretudo, a ameaça permanente do envolvimento do diabo e das almas do outro mundo na sua vida e costumes, considerava-o como uma espécie de mistério ou algo de terrível, diabólico e do outro mundo, pese embora neste caso, a beatitude toponímica do lugar ofuscasse, parcialmente o macabro do evento que o notabilizara. Mas a maioria dos transeuntes que por ali passavam e, muito especialmente, os que paravam naquele recanto paradisíaco para ir buscar à água à nascente, num contraste mítico, traziam, permanentemente à memória, a recordação do enforcado, cuidando que ele pudesse eventualmente, dada a sua qualidade de condenado ao inferno, aparecer por ali sob a forma de alma penada ou de demónio. Por isso, todos e cada um dos que por ali transitavam ou se sentavam, sobretudo se tivessem o atrevimento de ir buscar água, temiam que sobre si próprio viessem a cair anátemas de perdição moral ou lhe acontecesse alguma desgraça ou desventura.

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publicado por picodavigia2 às 13:17

O DESCANSADOURO DA ESCADA MAR

Quinta-feira, 23.01.14

Em área, o Descansadouro da Escada Mar, era, sem sombra de dúvida, o maior de quantos descansadouros existiam na Fajã Grande, ultrapassando de longe os maiores, como o do Alagoeiro ou o do Pico Agudo.

Assim, ocupando uma extensa área, mesmo ali quase de debaixo da Rocha, um pouco a seguir ao Cabeço da Silveirinha, o Descansadouro da Escada Mar integrava e situava-se, praticamente, a meio do longo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, precisamente no cruzamento que dava para o Pocestinho. Este Descansadouro servia para pausa e repouso aos homens que vinham carregados com molhos, cestos ou sacos, transportando, às costas, incensos, lenha, inhames, maçãs, erva-santa, fetos e muitos outros produtos dos lugares do Curralinho, Lavadouros, Alagoinha, Mateus Pires, Pico Agudo, Paus Brancos, do Pocestinho e de toda a zona da Rocha, desde a Silveirinha até aos Lavadouros. Por isso eram muitos os habitantes da Fajã que, exaustos e cansados, no regresso destas paragens, ali interrompiam a sua caminhada, fazendo uma pausa. Fumava-se (trocando-se lume e cigarros), conversava-se, faziam-se contractos e acordos e, sobretudo, descansava-se porque as distâncias eram longas, o piso do caminho e, sobretudo, o das canadas contíguas era muito íngreme e sinuoso, e as cargas eram pesadíssimas.

O facto de este Descansadouro ser muito espaçoso e ter uma posição estratégica relativamente aos caminhos que servia, permitia que ele fosse também utilizado para descanso dos animais quando puxavam o corsão ou o carro. Poucos dos outros descansadouros da freguesia se podiam vangloriar do mesmo, sobretudo devido à descomunal exiguidade de que eram detentores e que não permitia o estacionamento daqueles meios de transporte e carregamentos.

No Descansadouro da Escada Mar ou Escada do Amaro, como se chamava nos tempos primitivos, as paredes destinadas a colocar as cargas estavam dos lados norte e leste, neste caso ficando de costas para a rocha. Uma e outra destas paredes, de tão altas que eram, protegiam os que ali se acaçapavam ou se encostavam, evitando os ventos mais fortes e a chuva. Além disso, junto à parede norte havia uma tosca bancada de pedra onde os homens se sentavam e abrigavam.

Situado no interior de um pequeno planalto, que abrangia quase todo o lugar da Escada Mar, este Descansadouro, no entanto, não beneficiava de nenhuma vista agradável e bela, nem de fornecimento de água, pois por ali não havia nenhuma nascente. No entanto, situado na proximidade da rocha, que o cercava e protegia parcialmente, esta concedia-lhe uma impressionante imponência, uma enorme monumentalidade e uma graciosidade única e inexaurível. Dominava-o um enorme e transcendente silêncio, envolvia-o uma solene e estranha magnanimidade, cercava-o um perfume de frescura e povoava-o, nos momentos de ausência humana, uma espécie de paz contemplativa, serena e inebriante.

Meu pai, tinha ali mesmo em frente uma relva, pouco fértil e produtivamente muito debilitada, a ponto que dali nada se tirava a não ser fetos secos, após a ceifa do verão. Mas mesmo assim a safra era muito limitada. Por isso, era quando vinha, acompanhado de meu pai, do Pocestinho ou do Pico Agudo, lugares onde tínhamos terras de mato, carregadíssimos com molhos de lenha, erva-santa, cana roca, incensos ou cama para o gado que o repouso no Descansadouro da Escada Mar me sabia como mel na sopa.

Descansadouro da Escada Mar um testemunho idílico num passado austero e rígido, mas intransigente e dignificante, uma quimera desfeita a perder-se sobre memórias soltas, dispersas e esbatidas.

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publicado por picodavigia2 às 17:48

OS DESCANSADOUROS DA ROCHA

Quarta-feira, 15.01.14

A subida da Rocha da Fajã Grande era árdua, difícil, cansativa e desgastante. Até os mais novos, mais fortes e mais aguerridos e mesmo os que por ali transitavam quase diariamente necessitavam de momentos de descanso, de pausa e de repouso, durante a subida daquele alcantil pétreo, abrupto, íngreme e quase intransponível mas único acesso ao Mato. Quem transitava por ali com alguma raridade, ainda mais se sentia obstaculizado pela irregularidade da subida, só a podendo ultrapassar beneficiando de momentos e locais, onde pudesse descansar, embora sem nenhum conforto. Essa a razão por que ao longo da íngreme e meandrosa subida se haviam institucionalizado alguns descansadouros.

O primeiro era o da Furna do Peito. Situava-se nos arrabaldes daquela enorme gruta, semelhante a um templo, ornada com cruzes nas paredes e enriquecida com bancadas de pedra solta, umas naturais outras feitas por mãos humanas, onde os transeuntes, cansados, logo após o início da subida, podiam, calmamente, descansar. Era lá, também, que se abrigavam os pastores nos dias de chuva.

O segundo descansadouro, situado a meio da Rocha, era verdadeiramente considerado a pérola dos descansadouros. Devido à sua notoriedade e importância e à obrigatoriedade de todos ali descansarem, chamava-se simplesmente “Descansadouro”. Situava-se ao fundo da enorme volta onde ficava a curiosa furna da Caixa, que quase nada tinha de furna e de pouco mais servia do que para abrigar, parcialmente, uma ou duas pessoas, em simultâneo. O que mais caracterizava este descansadouro, para além da sua enorme utilidade como local de descanso e resfôlego, era o facto de dali se disfrutar de uma bela vista sobre uma boa parte da Fajã Grande e sobre o mar. Um espectáculo de sublimidade, uma devaneação de deslumbramento, um oásis de fascinação, um desfilar de encantamento e beleza. Na enorme curva onde se situava haviam-se construído banquetas de pedra ao redor das quais havia muros e paredes adequadas a que os transeuntes que transportassem cargas, ali as depositassem, durante o descanso.

Já mais perto do Cimo da Rocha, o descansadouro da Fonte Vermelha, o único que ao longo da subida disponibilizava água aos caminhantes. Por isso este era o descansadouro mais desejado. Da fonte, chamada de Vermelha, por se situar numa zona de barro avermelhado, jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou sanguinho, uma água fresquíssima, cristalina e saborosa, que parecia que quanto mais se bebia mais água brotava do tufo. Todos os que por ali passavam dela bebiam, todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber e de descansar, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam e o mais curioso é que a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Ao redor da fonte, o descansadouro com banquetas e paredes adequadas ao descanso de pessoas e carregos.

Ainda no cimo da Rocha, logo a seguir à Cancela, junto ao sítio do Arame, um outro descansadouro, com uma enorme banqueta rectilínea e geometricamente perfeita, situada junto a uma encosta a proteger dos fortes ventos do Norte que ali, muito frequentemente se faziam sentir. Este descansadouro era muito utilizado, sobretudo na descida, porquanto era ali que os homens que vinham dos lados do Queiroal e os que regressavam da Água Branca e da Burrinha combinavam esperar uns pelos outros, a fim de trocarem lume e cigarros e descerem a rocha juntos.

Finalmente e já em pleno Mato havia, por aqui ou por ali um ou outro descansadouro mas menores e de pouca importância, apenas ocasionalmente utilizados, como eram os do Caldeirão da Ribeira das Casas, do Curral das Ovelhas ou até o da Burrinha.

No entanto, como a rocha era de difícil e cansativo acesso quem a subia, parava por descansar aqui ou ali, onde muito bem quisesse ou necessitasse, porque afinal “os descansadouros na Fajã Grande como o Natal, eram em qualquer sítio e sempre que um homem quisesse”.

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publicado por picodavigia2 às 21:56

O DESCANSADOURO DO BATEL

Domingo, 29.12.13

O descansadouro do Batel era, de todos os descansadouros existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, o que se situava num local de maior beleza e de mais plena graciosidade. Na realidade do local onde aquele descansadouro se situava, desfrutava-se de uma das mais belas vistas sobre a Fajã Grande, dado que se encastoava num lugar alto, sobranceiro ao Alagoeiro, a grande parte da freguesia, ao mar e a toda a orla marítima e ainda a uma grande parte da zona além do povoado, desde a Ribeira das Casas até à Rocha da Ponta e à das Covas. Tinha pois o descansadouro do Batel um posicionamento privilegiado, invejável, uma colocação, paisagisticamente, fabulosa, perfilando-se altivo e ufano, sobre quase toda a área da Fajã Grande, com a rocha escabrosa e imponente a servir-lhe de tapume e protecção, com o Monchique e a Baixa Rasa, lá ao fundo, no alto mar e com a extraordinária e rendilhada orla costeira, onde proliferavam baías, caneiros e enseadas, desenhados sobre o baixio negro e lávico, com rendilhados de todas as formas e feitios, transformando-o numa espécie de ex-libris de todos os descansadouro fajãgrandenses.  

Este descansadouro situava-se no cimo da ladeira do Batel, no cruzamento com uma canada que ligava o Batel à Bandeja, num sítio de relvas e de algumas terras de cultivo de milho, de forrageiras e de batata-doce, o que, consequentemente, não dificultava nem obstruía a possibilidade de quem ali se sentasse para descansar, para conversar, para fumar um cigarro, desfruísse da paisagem de sonho e de magia que dali era possível observar.

Na realidade, estrategicamente bem localizado, no alto de uma encosta, no cimo duma ladeira e num sítio bastante alto e largo, onde se iniciava uma canada que dava para a Bandeja, o descansadouro do Batel fora edificado pelos nossos antepassados, sabia-se lá há quantos anos. Mas tratava-se de um descansadouro maravilhosamente belo, enigmático, um espaço rectangular, apenas com uma parede a Sul, junto à qual havia sido construída, através dos tempos, uma ampla bancada feita de pedras soltas, encostadas e encavalitadas umas nas outras. Os homens que ali se sentavam a descansar, quando carregados com molhos, cestos ou sacos, colocavam-nos sobre as paredes do caminho circundante, precisamente do lado em frente ao do descansadouro. Muitos, porém, colocavam os seus carregamentos sobre a própria parede que servia de abrigo ao descansadouro. No entanto, se o vento soprasse de Norte ou de Oeste era praticamente impossível utilizar aquele local para descansar.

O descansadouro do Batel servia os homens que vinham de todas as terras do Sul, na direcção do Alagoeiro e da Fontinha, nomeadamente, Lavadouros, Alagoinha, Mateus Pires. Paus Brancos, Pico Agudo, Pocestinho, Escada Mar e ainda os que vinham da Rocha dos Paus Brancos e do cabeço da Rocha.

Como praticamente todos os outros descansadouros da Fajã, este, actualmente, também se perdeu no tempo e talvez mesmo nas memórias. Dada a sua especificidade e, sobretudo, tendo em conta a vista de que usufruía, poderia muito bem ter sido preservado ou recuperado, mantendo-se, assim, como uma espécie de miradouro, mas também e sobretudo, como testemunho vivo e verdadeiro dos trabalhos, das canseiras, dos carregamentos, dos sacrifícios de todos os nossos antepassados que outrora ali se sentavam a descansar, a conversar, a fumar e, quando tinham disposição e o cansaço lhes permitia, a observar a vista maravilhosa que dali realmente ainda hoje se desfruta.

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publicado por picodavigia2 às 11:02

O DESCANSADOURO DO CIMO DA LADEIRA DO CALHAU MIÚDO

Segunda-feira, 25.11.13

Um dos mais importantes, talvez mesmo o mais útil dos descansadouro da Fajã Grande era incontestavelmente o que se situava no Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo. Útil e importante porque era ali que descansavam todos os homens que vinham carregados com os pesadíssimos molhos de erva, ainda molhada e a pingar-lhes pelos ombros abaixo, que todas as madrugadas iam ceifar para as lagoas da Ribeira das Casas, dos Moinhos, do Rego do Burro, das Covas, da Rocha do Vime e até dos lados da Ponta. Eram grupos e grupos de homens que caminhavam em coluna pelo caminho e que depois de subir a íngreme e comprida ladeira do Calhau Miúdo, sentiam uma insaciável necessidade de poisarem os molhos sobre as paredes das terras da Cambada e se sentarem a descansar numas toscas banquetas ali construídas ou nuns calhaus soltos que por ali proliferavam, uns colocados ali de propósito outros caídos das altas paredes circundantes. Para além de útil e importante este descansadouro proporcionava aos que ali se sentavam, usufruir de duas belas vistas: uma a norte com a ampla planície da Ribeira das Casas, do rolo e do Vale do Linho a impor-se lado a lado com o oceano e o Monchique lá ao fundo e as casinhas da Ponta, acolhidas à volta da igreja e como que encastradas no sopé da Rocha; outra a Sul, com a Fajã a servir de cenário muito bem alinhadinha entre o Pico da Vigia e o Outeiro. Simplesmente maravilhoso!

A importância deste descansadouro advinha-lhe também e sobretudo pelo facto de ele se situar no cimo duma ladeira, enquanto quase todos os restantes descansadouros da Fajã se localizavam em terrenos planos ou então em ladeiras como as do Batel, da Silveirinha ou do Espigão mas que os homens, em vez de subir, desciam quando carregados com molhos, cestos ou outras cargas. Ali, no Calhau Miúdo era precisamente ao contrário, isto é, os homens subiam a ladeira carregando tudo o que as terras davam para aqueles lados, pois para além dos encharcados molhos de erva, ainda acarretavam às costas cestos de milho ou de inhames da Ribeira das Casas e do Rego do Burro, molhos de incensos ou de lenha das Covas, sacos de batatas daqui e de além e até as moendas que se iam levar moinho ti Manuel Luís. Além disso era também ali que parava, não apenas para descansar mas até para dar dois dedos de conversa e partilhar novidades e mexericos, muita gente da Ponta, nas suas vindas e idas à Fajã para tratar disto ou daquilo ou até no regresso das suas viagens provenientes de locais mais longínquos, como seja das Lages ou da Vila. O descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo até servia às gentes da Ponta como local de espera dos passageiros vindos em dia de Carvalho Araújo.

 

Por estes dias procurei o descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo, ali mesmo ao lado da casa do Manuel Branco. Procurei mas não o encontrei, por uma razão muito simples: porque ele simplesmente já não existe, nem sequer uma única pedra dele ali se pode ver, a não ser alguma que eventualmente esteja escondida debaixo dos muros de cimento que actualmente ladeiam grande parte da rua da Tronqueira, no local onde outrora existiu o mais importante e mais útil e um dos mais belos descansadouro da Fajã Grande.

O descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo é hoje um mito perdido no tempo, talvez apenas guardado na memória de alguém que também por ali passou, outrora, carregado com um pequeno molho de erva a pingar-lhe por todo o corpo, cansado, desgastado, molhado e desfeito, ansioso por ali colocar o pesado fardo que trazia aos ombros e dele aliviar-se durante alguns minutos, sentando-se, de seguida, não apenas para descansar mas também para conversar com algum amigo

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publicado por picodavigia2 às 18:01

O DESCANSADOURO DA CASA DE BAIXO

Quarta-feira, 20.11.13

A Casa do Espírito Santo de Baixo situava-se praticamente no centro da Fajã, na rua Direita, um pouco abaixo da igreja. Um lugar ideal para se transformar em descansadouro, não apenas para repouso e convívio dos que moravam por ali perto mas também como local de descanso para os que atravessavam a freguesia de lés-a-lés, carregando molhos, sacos e cestos. Paralela à rua, a casa possuía no seu exterior uma espécie de bancada, de apenas um degrau, mais alto, a noroeste, do lado da casa do Guarda Furtado e cuja altura ia diminuindo ao longo da casa, de norte para sul, terminando, no lado oposto já “remines” com o caminho.

Era precisamente esta bancada, com o apoio dos degraus das duas portas, que fundamentalmente servia de assento a quem quisesse ali descansar, até porque, ficando voltado a leste, aquele espaço beneficiava de uma sombra magnífica e acolhedora durante toda a tarde. Quando a lotação desta bancada ficava sobrelotada havia um muro relativamente baixo, do outro lado da rua, paredes meias com a máquina de baixo e em frente à casa do senhor Nunes, que funcionava como bancada complementar, embora beneficiasse de sombra apenas a partir de meio da tarde. Para além disso este descansadouro precisamente por ficar entre as casas e por ter mais semelhanças com uma praça, era muito diferente dos que se situavam entre os campos de cultivo, relvas e terras de mato. Entre essas diferenças havia uma que se destacava. É que tinha a excelsa vantagem de possuir água, pois na empena sul da casa de Espírito Santo de Baixo havia um chafariz, com uma fonte onde quem quisesse e necessitasse podia ali saciar a sede.

Este descansadouro, na realidade, funcionava mais como uma espécie de “praça” que os homens procuravam mesmo quando não acarretavam molhos, cestos ou sacos e onde, nas calorentas tardes de verão e aos domingos, se sentavam a descansar e sem fazer coisa alguma a não ser fumar, falquejar, conversar, combinar isto e aquilo, mexericar e meter-se na vida de uns dos outros. Os que utilizavam aquele local para descanso da carga que traziam às costas, colocavam os molhos, os sacos e os cestos sobre os muros do Gil e de Tio José Luís. Eram sobretudo homens da Assomada e das Courelas que vinham das Covas e das Ribeiras das Casas com pesadíssimos molhos de erva, toda encharcada, com o pescoço e a cabeça forrados com sacos de serapilheira para se protegerem da água a pingar-lhes pelo lombo abaixo ou os da Via d´Água e da Tronqueira que vinham do Pocestinho e da Cabaceira, banhados em suores e vergados a pesados cestos de inhames ou molhos de lenha. Mas era sobretudo à tardinha, quando os sócios da Cooperativa ou os seus familiares vinham trazer o leite à máquina e esperavam pelos funcionários e pelo toque do búzio gigante, ali se sentavam a descansar, deliciando com o fresco da tarde, que o descansadouro da Casa de Baixo se enchia quase por completo. Mas como povo atraía povo, muitos outros que por ali passavam também paravam em frente à casa e, se houvesse lugares vagos, sentavam-se associando-se ao descanso e à cavaqueira de fim de dia, transformando aquele local numa espécie de ágora do mexerico, da coscuvilhice e da má-língua.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:49

O DESCANSADOURO DA LAJE DA SILVEIRINHA

Segunda-feira, 11.11.13

Ao cimo da Ladeira da Silveirinha, na Fajã Grande, havia um grande largo e nele, do lado esquerdo de quem subia a ladeira, estava cravada uma enorme laje conhecida por “A Laje da Silveirinha”. Era uma pedra monumental, achatada, de forma circular e com a parte superior muito lisa, uma espécie de mesa redonda, embora sem pés e muito baixa, a fazer lembrar um verdadeiro monumento megalítico. A ladeira que começava numa curva do caminho, no sítio em que ele mais se aproximava da Rocha e de onde se desfrutava de uma bela vista da Figueira e de muitas das suas lagoas e levadas, subia íngreme e pedregosa, latejante e desoladora, ao mesmo tempo que se ia alargando até chegar ao cimo e desembocar num amplo e tosco largo, onde pontificava aquela espécie de tampa aparentemente retirada de um dos menires do Cromeleque de Almendres  – a Laje da Silveirinha.

Ora foi precisamente este emblemático e desmedido local, donde também se vislumbrava uma boa parte da freguesia, que os nossos antepassados adaptaram a descansadouro, um dos vários construídos ao longo do caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros. Este era de facto um local que possuía quase todas as condições ideais para um bom descansadouro. Havia uma única excepção: a falta de água, carência, aliás, comum à maioria dos descansadouros, pese embora a Fajã Grande fosse terra de muita água. No entanto, a água bebível mais próxima da Silveirinha, ficava longe dali, mais concretamente nos regos das lagoas da Figueira, situados a uma boa distância, com difícil acesso e dispondo apenas de folhas de inhame como recipiente adaptado para o transporte do precioso líquido. De resto, a Laje da Silveirinha era um local quase perfeito para animais e homens descansarem, aliviando-se durante alguns minutos das pesadas cargas que traziam aos ombros, pois era um espaço bastante largo, com paredes altas e seguras, de um e outro lado do caminho, para colocar molhos, cestos e outros carregos ou para amarrar o gado ou encostar o carro de bois ou o corsão. Para além disso, o Descansadouro da Laje da Silveirinha ainda possuía uma excelente bancada natural. É que a própria laje servia, na perfeição, de assento, pese embora, do lado das Queimadas, tivesse sido construída uma bancada tosca e rústica, feita com pedregulhos grosseiros e achavascados. Neste descansadouro confluíam três canadas. Uma, mesmo ali, junto da Laje e que ligava este caminho ao das Queimadas, outra, um pouco mais acima e do lado oposto do caminho, proveniente do Cabeço da Rocha e, finalmente, ainda mais acima e já quase na Escada Mar, uma terceira canada que servia de acesso às hortas e terras de mato da Silveirinha.

Sendo assim, este descansadouro servia, em primeiro lugar, de descanso sobretudo para quem vinha carregado destas três canadas, uma vez que a maioria dos homens oriundos dos lugares que ficavam a sul da Escada Mar, aproveitava o descansadouro, que ficava um pouco mais acima e era bastante maior e mais largo – o Descansadouro da Escada Mar.

Contava-me minha avó, que este descansadouro foi palco de um dos mais comoventes actos heróicos praticados, outrora, na Fajã Grande. Por ali terá passado Ti’Antonho do Alagoeiro, a arder em febre e com uma hérnia a sair-lhe pela barriga, quando foi, numa correria louca, desde o seu cerrado das Queimadas até ao Cabeço da Rocha, socorrer Pai Cristiano que ali, junto à rocha, agonizava sozinho, lançando angustiantes estertores que, ecoando na Rocha, se transmitiam desalmada e pungentemente pelos vales e outeiros dos arredores. A sangrar e com as tripas de fora Ti Antonho do Alagoeiro ainda carregou às costas o velho, já cadáver, transportando-o até a sua casa, na Fontinha e entregando-o à sua família, que nem sabia o que se havia passado.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:49

O DESCANSADOURO DO VALE DA VACA OU SIMPLESMENTE O DESCANSADOURO

Domingo, 27.10.13

O Descansadouro do Vale da Vaca era o mais emblemático descansadouro da Fajã Grande, pois era o único da freguesia que era conhecido simplesmente por “Descansadouro”, dando, também, nome ao lugar onde se situava. Todos os outros descansadouros recebiam o nome do lugar em que se localizavam, neste caso, era o descansadouro, situado no cimo do Vale da Vaca que dava nome ao lugar que realmente se chamava “lugar do Descansadouro”. Apenas num outro caso isto acontecia: era o descansadouro que se situava a meio da rocha, junto à Furna da Caixa, que também era conhecido simplesmente por “Descansadouro” , ou “Descansadouro da Rocha”.

O descansadouro do lugar do Descansadouro ficava situado no antigo caminho entre a Volta do Delgado e entrada para a Ladeira do Covão, precisamente no lugar do Descansadouro. Este lugar confrontava a Norte com o Vale da Vaca, a Sul com o Delgado, a Este com o Outeiro Grande e a Oeste com o Pico e o Caminho da Missa. Era um pequeno local, com duas zonas agrícolas distintas: uma zona de cerrados e terras muito férteis que produziam, milho, trevo e erva da casta e beneficiavam das enxurradas e lamas do caminho que eram encaminhadas para os campos através de bueiros localizados na parte baixa das suas paredes e uma outra, situada nos contrafortes do Outeiro, com terrenos mais pequenos em forma de belgas, menos férteis e mais propícios ao cultivo da batata-doce ou de milho para o gado.

O descansadouro propriamente dito situava-se num pequeno largo, junto a uns degraus que davam acesso a algumas das belgas, os quais, simultaneamente, serviam de bancada para o descanso. Os molhos e cestos eram colocados nas paredes das belgas circundantes a esses degraus, todas do lado Este, ou seja do lado do Outeiro Grande. O que mais identificava este descansadouro e o distinguia de todos os outros, era que, sendo o último antes da Assomada, era muito utilizado. Paravam, sentavam-se e descansam ali muitos homens. Embora não tivesse água, possuía boas bancadas e servia quem vinha de todos os caminhos do Sul, excepto do Caminho da Missa, ou seja, quem carregava todos os produtos oriundos das terras do Delgado aos Lavadouros e da Cuada ao Vale Fundo. Depois do Alagoeiro era incontestavelmente, o maior e o mais utilizado descansadouro da Fajã.

Lamentavelmente este descansadouro desapareceu por completo com a construção da Estrada Porto-Ribeira Grande, cujo traçado passou precisamente no local onde se situava o mais emblemático, o mais representativo e o mais genuíno descansadouro da Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 15:51

LISTAGEM DOS DESCANSADOUROS EXISTENTES NA FAJÃ GRANDE, NOS ANOS CINQUENTA

Sexta-feira, 25.10.13

Os “Descansadouros” eram lugares situados em espaços mais largos dos caminhos, geralmente rodeados de paredes altas e bancadas naturais ou construídas mas de forma muito rústica e rudimentar, para os homens descansarem dos pesados carregamentos que traziam aos ombros, para conversarem, pedirem lume uns aos outros, fumarem e, nalguns casos, beberem água. Os “Descansadouros” existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, eram os seguintes, situados nos caminhos que se indicam a negrito:

Caminho do Cimo da Assomada/Lavadouros: - Descansadouro (Vale da Vaca); Volta do Delgado; Santo António; Cabaceira; Cancelinha/Ladeira do Espigão; Espigão; Lagoinha.

Caminho da Missa: - Eira da Cuada.

Caminho da Cuada e Vale Fundo: - Centro da Cuada; Tufo da Fajã das Faias.

Caminho da Fontinha/Lavadouros: - Alagoeiro; Ribeira; Batel; Silveirinha/Batel de Cima; Laje da Silveirinha; Escada Mar; Pico Agudo.

Caminho da Tronqueira: - Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo. 

Caminho da Ponta: - Ladeira das Covas; Ribeira das Casas.

Caminho do Porto: - Matadouro; Eira; Porto.

Caminho das Furnas e Areal: - Areal; Furnas.

Caminho da Rocha e Mato: - Furna do Peito; Descansadouro (Meio da Rocha); Fonte Vermelha; Cimo da Rocha; Ribeira das Casas.

Outros: - Cimo da Ladeira do Covão; Bandeja; Praça; Casa de Baixo.

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publicado por picodavigia2 às 14:32

OS DESCANSADOUROS

Segunda-feira, 21.10.13

Na Fajã, nos anos cinquenta, tudo o que os campos produziam, assim como os produtos necessários à alimentação não apenas das pessoas mas sobretudo dos animais eram acarretados às costas, no caso dos homens, ou à cabeça, em se tratando das mulheres. Molhos de incensos, de erva, de fetos, de couves, de rama de batata-doce, de cana-roca, de restolho, de lenha, de milheiros, cestos e sacos de inhames, de batata-doce, de batata branca, de milho, de esterco, latas de urina, todos os produtos eram transportados por homens, mulheres e crianças, às costas ou à cabeça. No primeiro caso, depois de colocado aos ombros ou levantado do chão para as costas, era enfiado no molho, sobre o ombro direito, um bordão que, fazendo de alavanca, aliviava a carga ou pelo menos equilibrava-a melhor, sobre o lombo do transportador. Caso se tratasse de um saco ou de um cesto, o bordão era colocado por debaixo do mesmo, sendo pressionado, sob a forma de alavanca, à frente do peito, pelo braço ou mão direita, excepto nos canhotos que acontecia ao contrário. Geralmente o molho e o cesto eram colocados sobre um casaco ou froca, dobrado sobre os ombros, ou por um saco de serapilheira enfiado de capuz, para que não magoasse o corpo e evitasse, quando o produto estava alagado, que a água a escorrer entrasse pelas costas abaixo. No caso das mulheres que traziam a carga à cabeça, não necessitavam de bordão para a equilibrar, mas colocavam sobre o cocuruto, a fazer de amortecedor, uma rodilha de pano.

Era uma vida cansativa, amargurada, dorida e fatigada a dos nossos antepassados! 

Tudo isto porque o número de burros existentes na freguesia, nos anos cinquenta, era muito reduzido. Apenas um ou outro lavrador mais abastado os possuía. Os carros de bois, embora em maior número, também eram raros e destinavam-se apenas a acarretarem o esterco, o sargaço, o milho e um ou outro produto, quando do mesmo se necessitava uma grande quantidade. Era o que acontecia, por exemplo, com a lenha para a matança ou a cana roca para a cerca do porco, os fetos para cama do gado ou os milheiros, após a apanha do milho. Como única alternativa plausível ao carro de bois havia o “corsão”, mas o seu uso consubstanciava algumas dificuldades: desgastava-se muito pois era arrastado sobre a calçada, empeçava frequentemente nas pedras irregulares dos caminhos e, como a base era feita de travessas com grandes ralos, obstaculizava o transporte de muitos produtos. Acrescente-se ainda que a maioria das vias eram canadas e atalhos onde o “corsão” e o carro de bois não cabiam. Além disso sendo as vacas a principal fonte de economia era preciso poupá-las para que dessem mais leite.

Assim restava uma única alternativa, dura, pesada e demolidora mas absolutamente necessária e obrigatória: acarretar os produtos agrícolas e todos os outros, por mais pesados que fossem e por mais encharcados que estivessem, às costas ou à cabeça.

Foi deste imperativo que nasceu a necessidade de criar, na Fajã Grande, os “Descansadouros” ou seja locais situados nos espaços dos caminhos, geralmente mais amplos, com paredes circundantes onde se podiam colocar os molhos e os cestos, geralmente com bancadas naturais ou rusticamente construídas e onde as pessoas paravam para falar, conversar, conviver, beber água e, sobretudo, para descansar, aliviando-se, por uns minutos, dos pesados carregamentos que transportavam sobre o lombo.

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publicado por picodavigia2 às 20:48





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