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CASA COM VISTA PARA O RIO

Sexta-feira, 18.11.16

O Doutor Rafael Fernandes, um dos mais conceituados juízes dos tribunais de Lisboa, a pedido seu, foi colocado na comarca de São Romão, Reguengos de Alvaraz. Para além de possuir uma casa que herdara dos avós paternos, a uns bons trinta quilómetros da Vila de São Romão, cuidava o ilustre magistrado que ali, sozinho, numa pequena vila de um interior cada vez mais desertificado, poderia, com maior facilidade, carpir a enorme mágoa que o atingira nos últimos tempos e da qual antevia não mais se libertar.

Na verdade e desde o falecimento da esposa, inesperadamente vítima de um cancro que a atingira fulminantemente, que Rafael Fernandes fenecia como se fosse a mais frágil vergôntea de uma árvore da qual haviam retirado toda a seiva e cortado as raízes mais profundas. Amara muito a Joana, dedicara-lhe um carinho inexaurível e com ela vivera um deslumbrante e deleitoso idílio a que apenas a morte, abruta e irrevogável, pusera termo. Agora permanecia numa pasmaceira inédita, isolado de tudo e de todos, numa inextinguível e diária clausura a que apenas as horas a que era obrigado a passar no tribunal punham termo. O tribunal de São Romão e a casa de São Leonardo decerto nunca lhe haviam de mudar o destino e nunca o curariam da mágoa e da dor que o atormentavam mas talvez lhe dessem uma mais adequada e suportável oportunidade de prantear aos quatro ventos quanto sofrimento e tristeza lhe trespassavam a alma. Ali podia isolar-se, fechar-se, retirar-se, esconder-se do mundo, mais facilmente. Sabia que em Reguengos de Alvaraz ninguém o conhecia e ele próprio cuidava que nunca havia estar com disposição para conhecer quem quer que fosse.

Nos primeiros meses de vida judicial em São Romão, o novo magistrado aboletou-se numa pequena pensão, a única existente na vila. O ambiente, porém, era péssimo e a comida muito má. As horas que passava no velho quarto de que disfrutava pareciam-lhe anos. Os jornais eram raros, as revistas quase não existiam e os programas de televisão, para além dos telejornais, pouco lhe interessavam. Passava as horas que lhe sobravam e os fins-de-semana fechado no quarto, a ler. Mas os livros de que dispunha e que lhe interessavam depressa se haviam esgotado.

Finalmente, num sábado de sol e de bom tempo, farto de estar fechado no quarto, decidiu deslocar-se a São Leonardo, à casa que, por herança, ali possuía. Embora sendo uma residência de veraneio, construída pelos avós maternos, para além de possuir ótimas condições de habitabilidade desfruía de uma belíssima vista para o rio. Era uma magnífica vivenda, em muito bom estado de conservação, de dois andares, com quartos grandes e arejados, com uma enorme sala, a servir simultaneamente de cozinha, com um quarto e garagem no rés-do-chão. Mas o que de mais precioso tinha e que mais cativou o juiz de São Romão foi a admirável vista que dali se desfrutava. Isolada de outras habitações, com janelas e portadas voltadas a sul e com um belo alpendre no piso superior, alva de neve, a casa era uma verdadeira e admirável mansão. Ali, no remanso daquele cenário quase deserto mas de uma beleza rara, poderia dar aso à sua solidão, quiçá sublimando-a um pouco.

Um único problema, no entanto, obstaculizava que Rafael, de imediato, trocasse as acritudes e dissabores do quarto da Dona Pureza, em São Romão, pela casa de São Leonardo. Desabitada deste há muito, a mansão que os avós lhe haviam deixado precisava de uma profunda e eficaz barrela, a que se sentia incapaz de se aventurar. Além disso muitos móveis e cortinados necessitavam de ser substituídos e era necessário adquirir roupas de cama, algumas loiças e um ou outro utensílio de cozinha. Coisa de pouca monta, mas que exigia requinte e bom gosto. Regressou a São Romão a pensar em São Leonardo e de como havia de sair daquele imbróglio.

Alguns dias depois, apareceu-lhe no tribunal um homem que preencheu um documento onde constava ter residência precisamente em São Leonardo. Um pouco receoso, até porque nunca confundia os interesses pessoais com a atividade profissional, o doutor Rafael Fernandes pediu para lhe falar quando ele terminasse de tratar o assunto que ali o trouxera. O homem anuiu de bom grado. Que o senhor doutor dispusesse à vontade. Pretendia o meritíssimo juiz de São Romão saber se o senhor Gonçalves conhecia alguma mulher em São Leonardo que desse dias para fora, isto é, que fizesse limpeza em casas, que ele estava necessitado desse serviço e havia de pagar bem.

Bem sabia José Gonçalves que o senhor doutor juiz possuía uma casa em São Leonardo, no Caminho do Engenho, que havia pertencido aos seus avós, de quem vagamente se lembrava. Quanto a encontrar mulher que fizesse limpeza o senhor doutor não poderia ter batido a melhor porta. A sua esposa já trabalhara muitos anos como empregada doméstica na vila de Macieira e umas horas que fosse, agora que estava desempregada, seriam muito bem-vindas.

Acertou-se que no dia seguinte, após terminar o trabalho, o juiz de São Romão se deslocaria a São Leonardo, a fim de conhecer a dona Irene e de com ela acertar todos os detalhes.

- Não tem que enganar, senhor doutor. – Explicava o Gonçalves. – Ao chegar a São Leonardo, vira na primeira saída à direita, como se fosse para a sua casa. Anda uns metros e depois de passar um pequeno cruzamento, encontra, um pouco mais afastada do caminho, uma casa amarela. É a única casa amarela que existe na rua, por isso não há que enganar. Eu vou avisar a minha mulher a fim de que esteja por casa, por volta das sete horas.

- Combinado, - rematou o doutor Rafael Fernandes, agradecendo a simpatia e disponibilidade do senhor Gonçalves

 

O ford azul estacionou em frente ao portão de José Gonçalves. O juiz saiu e olhou a casa a certificar-se que possuía as características que lhe tinham sido referenciadas pelo proprietário. Um pouco a medo, andou mais uns passos, olhou ao redor e descobrindo, junto à porta da cozinha, um corsa metalizado, seguiu na sua direção, batendo levemente na porta que de imediato se abriu. Emergindo de entre a penumbra da cozinha, surgiu uma jovem de uma beleza rara e invulgar. Um rosto branco, salpicado de ternura, madeixas escurecidas sob a tez acetinada, os olhos de um castanho esverdeado a contagiarem quem os contemplasse e um sorriso, aberto, franco, terno e acolhedor. Rafael estremeceu. Aparentemente embaraçados, fixaram um no outro os olhares transparentes, aureolando-os num sorriso tímido mas recíproco. Permaneceram assim, durante alguns segundos, num balbuciar mudo e eloquente.

Por fim Rafael, tentando refazer-se do acanhamento inicial, adiantou:

- Desculpe menina, mas pelas indicações que tenho cuidei que fosse esta a casa do senhor José Gonçalves e da sua esposa, a dona Irene.

- Sim, sim. É esta – retorquiu a rapariga deixando transparecer uma leve excitação no rosto. – Vou chamar a minha mãe!

Pouco depois, subindo os degraus que davam para as traseiras da casa, surgiu uma mulher, baixa, forte, de meia-idade, cabelos já a esbranquiçarem:

- Boa tarde! Deve ser o senhor doutor, juiz de S. Romão. – Depois desculpando-se – Devia tê-lo esperado na sala. Que vergonha! Receber o senhor doutor à porta da cozinha. Lúcia vai abrir a porta da sala para receber o senhor doutor…

- Que não, que não pensasse em tal coisa. Estavam muito bem ali, que não ia demorar. Apenas o tempo necessário para combinar o que dela necessitava… - Desculpava-se Rafael, enquanto tentava fixar o nome: - Lúcia!

E ficou combinado que a dona Irene começaria as limpezas no dia seguinte. Demorasse o tempo que fosse necessário. Uma casa há tanto tempo abandonada e fechada tem muito que limpar…

Sem que fosse esperado, Rafael voltou a casa dos Gonçalves no dia seguinte. Vinha apenas lamentar-se por se ter esquecido de, na véspera, deixar algum dinheiro à dona Irene, a fim de que ela comprasse vassouras, panos, esfregões e detergentes… Lúcia não estava… Por certo que não contava com ele…

Foi a dona Irene que o recebeu:

- Não se devia ter incomodado. Não era preciso deixar nenhum dinheiro. Nem deveria ter feito uma viagem tão grande… Quando precisar alguma coisa ou necessitar de mandar um recado o senhor doutor pode fazê-lo pela minha filha, Lúcia, que trabalhava em São Romão…

- Trabalha em São Romão?! – Exclamou Rafael despedindo-se.

- Chama-se Lúcia e trabalha em São Romão… Interessante, muito interessante… - Murmurava o meritíssimo juiz no regresso à pensão da dona Pureza.

E no dia seguinte, estranhamente, decidiu voltar a São Leonardo e à casa dos Gonçalves. Lúcia tinha sido informada pela sua progenitora da visita que o juiz lhes fizera na véspera e, por isso, embora assolada por uma enorme dúvida, esperava-o ansiosamente.

 

Não sonhou em vão!... À tardinha, Rafael Fernandes regressou a São Leonardo e, novamente, bateu à porta dos Gonçalves, alegando desejar saber se a barrela iniciada pela dona Irene dois dias antes, já estaria pronta e se a casa do Caminho do Engenho já teria condições de habitabilidade. Estava farto da pensão onde vivia pelo que desejava ardentemente mudar-se para São Leonardo. Foi Lúcia que o recebeu e, disfarçando sem sucesso a sua excitação, ouvia-o silenciosa. No seu íntimo desejava que se fixasse em São Leonardo mais depressa possível. Na véspera incentivara a mãe a despachar-se com as limpezas… Mas foi a dona Irene que se apressou a intervir, esclarecendo:

- Limpinha, limpinha já está, senhor doutor… Mas as roupas de cama…as loiças… alguns móveis… não estão lá em muito boas condições.

- Amanhã é sábado! Era um ótimo dia para comprar, pelo menos o essencial. – Retorqui Rafael. - Mas não sei onde, não conheço nada em Reguengos de Alvaraz, a não ser o tribunal de São Romão, a pensão da Dona Pureza, a minha casa e, claro, a casa da família Gonçalves.

Riram. De seguida dona Irene esclareceu:

- Olhe, senhor doutor, em Macieira a Casa Viriato, mesmo no centro da vila, vende todo o tipo de roupas de cama e toalhas. E à entrada da vila há uma loja de móveis. Quanto às loiças, utensílios de cozinha e eletrodomésticos pode comprar tudo no Supermercado Terra Mar, também em Macieira. Infelizmente eu não o posso acompanhar amanhã. Mas a Lúcia tem muito bom gosto e, claro, conhece, tudo em Macieira, talvez ela não se importe de acompanhar e de ajudar o senhor doutor a comprar tudo o que necessita…

Lúcia enrubesceu o rosto. Rafael olhando-a com ternura, indagou:

- Não se importaria Lúcia de me ajudar nesta tarefa tão difícil? Ficar-lhe-ia muito grato…

Lúcia acenando afirmativamente esboçou um sorriso do tamanho do mundo, ao mesmo tempo que no seu íntimo sentia uma ânsia inexaurível misturada com uma felicidade sublime.

 

À hora combinada Rafael estacionou, mais uma vez, em frente ao portão do Gonçalves. Já o havia feito várias vezes e isso provocou um indelével mexerico na vizinhança.

- Queredo mulher! Nunca se viu tamanha pouca vergonha nesta freguesia! Há mais de oito dias que aquele homem vem a casa do Gonçalves. Não deve de ser coisa boa!...

- Olha e até já leva a tresloucada da rapariga a passear. E olha como ela vai toda apinocada! – Comentavam.

Alheio a mexericos o juiz conduzindo o ford azul olhava de soslaio Lúcia sentada a seu lado e que se havia apresentado exageradamente bela, exalando um perfume suave e doce. A viagem até Macieira, apesar de curta, foi longa e silente. Por vezes entreolhavam-se e sorriam levemente. Outras o silêncio era tal que quase se ouvia o arfar ansioso de seus corações.

Em Macieira escolheu-se a mobília mais adequada. Lúcia, numa tarde, acompanhara a mãe nas limpezas e conhecia muito bem os recantos da casa onde Rafael iria viver… Por isso prontificou-se a ajudar:

- Ali este um sofá que servirá muito bem na sala… Mais além uma poltrona… Esta cama para o quarto dos fundos… Seguiram-se as roupas de cama, alguns utensílios de cozinha e loiças… Tudo muito simples, moderno e funcional. Tudo o que o senhor doutor necessitava para recomeçar a sua vida em São Leonardo.

- Senhor doutor, não. Rafael, por favor. Aliás, se não te importas, Lúcia, podemos começar a tratarmo-nos por tu…

Lúcia enrubesceu novamente e um pouco a medo, mas num gesto de indelével simplicidade, fez um sinal afirmativo com a cabeça e, pela primeira vez, na presença dele, balbuciou:

- Rafael!

No último fim-de-semana de Abrl a casa do Caminho do Engenho estava recheada com tudo o que era minimamente necessário para ser habitada, pelo que no domingo o meritíssimo juiz de São Romão fixou-se definitivamente em São Leonardo. À noitinha recebeu a visita da família Gonçalves. Vinham dar as boas vindas ao senhor doutor trazer umas batatas, umas cebolas, meia dúzia de ovos e, sobretudo, oferecer os seus préstimos…

Ao despedirem-se José Gonçalves, em jeito de graçola, sugeriu:

- Como ambos trabalham em São Romão, podiam fazer uma vaquinha. Numa semana um levava o caro um, na semana seguinte o outro.

- Ótima ideia senhor Gonçalves, ótima ideia – Atalhou o juiz. – Se a Lúcia não se importar amanhã levo eu o meu. Depois veremos…

Lúcia, na verdade, não se importava nada.

- Será um prazer viajar na companhia do senhor doutor… do Rafael, quero dizer… - Emendou a medo.

A senhora Irene, sem que o marido notasse suspirou, disfarçando:

- Para além do mais… ela sempre poupa um dinheirinho…

 

No sábado seguinte, depois do almoço, por vontade explícita dos pais, Lúcia foi a casa de Rafael convidá-lo para vir jantar à sua casa. Não podia recusar.

Lúcia entrou. Recordava ainda a viagem no regresso de São Romão, no dia anterior. Rafael, sem que ela esperasse, estacionara o carro na berma da estrada. Alegara o esquecimento de uns papéis que lhe faziam muita falta. Talvez tivessem que regressar ao tribunal. Lúcia não se importava nada. Disfarçadamente procurou-os, debruçando-se sobre o tablier, do lado contrário ao seu. Na tentativa enganosa de o fazer, aproximou demasiadamente o seu rosto do de Lúcia e, embora a medo, beijaram-se pela primeira vez, pela segunda, pela terceira e por muitas outras.

 

A tarde foi de esclarecimentos, de desabafos, de enlevos, de juras mútuas, de projetos, de troca de afetos e de beijos. Amaram-se por entre nuvens de sublimidade em ritmos de excelência, ternura e encanto.

E quando à noitinha se sentaram à mesa em casa dos Gonçalves, sem que nada tivessem combinado entre si, exclamaram em uníssono:

- Antes de jantar temos uma coisa a comunicar-vos.

- Nada que me surpreenda – comentou dona Irene em voz baixa.

 

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A FAEIRA DO REGEDOR

Quinta-feira, 16.06.16

Depois de ser apurado nas sortes, o Luís da Aninhas, filho de um abastado comerciante das Lajes, no Carvalho de setembro, partiu para Angra e assentou praça no Quartel da cidade. Mulherengo, boémio e gastador, o jovem recruta, sempre que lhe era dada folga, passava as tardes e as noites, bebendo, divertindo-se e frequentando casas de prostitutas.

Não demorou muito esta loucura estouvada e em janeiro seguinte deu entrada no hospital de Santo Espírito, sendo-lhe diagnosticada uma pneumonia. Aconselhado pelo médico que o assistiu pediu baixa da tropa, sendo dispensado de completar o serviço militar a que estava obrigado. De regresso às Flores, com a denoda intenção de se curar, decidiu passar uma temporada na Fajã Grande, em casa de um primo, em busca de ar puro, sossego, descanso e tranquilidade a fim de evitar que a doença evoluísse para uma tuberculose que, por certo, lhe seria fatal.

Quando o Luís chegou à Fajã, aquartelou-se na casa do primo, o regedor da freguesia, encantou-se e perdeu-se de amores pela filha de um vizinho do regedor, um pobretanas, sem eira nem beira, que morava numa pobre e pequena casa em frente. Em breve o emérito recruta se apaixonou loucamente pela moça, sendo correspondido por ela.

Decididos a viver o seu grande e louco amor, Luís e Isabelinha tiveram que enfrentar muita resistência, não só por parte do primo regedor mas também e sobretudo pelos pais que se deslocaram à Fajã para demover o rapaz de tão grande loucura. Além disso, desde há muito que Isabelinha fora prometida em casamento pelos pais. Era noiva do Leonardo, um brutamontes de má catadura que para além de teimoso era desajeitado e coxo.

Ameaçados de morte por Leonardo, deserdados pelo pai do rapaz, postos na rua, ele pelo regedor e ela pelos progenitores, Luís e Isabelinha abandonaram a ilha e partiram para a América. Poucos dias depois o corpo de Leonardo foi encontrado suspenso numa enorme faeira, numa terra de mato que o regedor possuía no Pocestinho.

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O QUARTO DO LADO

Quinta-feira, 18.02.16

As horas pareciam meses, os minutos dias e os segundos, horas. O aeroporto era mar tumultuoso e desatinado. Os placards pareciam emperrados. Ao desassossego misturava-se o sobressalto. Um emaranhado de vozes confundia-se com o soluçar da espectativa e o amordaçar do silêncio. Finalmente o ecrã gigante anunciou em letras garrafais: aircraft landed.

Respirou de alívio. A inquietação desfazia-se como um boneco de neve acossado pelo calor. Nascia a angústia. Ela demorava tanto em aparecer na porta de saída. Calculou, genericamente, os seus passos. Levantar-se, esperar vez, sair do avião, atravessar a manga, percorrer corredores e descer escadas. Finalmente, esperar pela bagagem. Vinte minutos. Não. Meia hora. Por vezes rondava os três quartos.

Os que, agora, saiam pela porta de acesso à sala de espera, muito provavelmente pertenceriam ao mesmo voo. Ela nada. O vento soprava, no exterior e sentia-se que caía uma chuva de bátegas fortes e incomodativas. Do parque do aeroporto, ao parque do centro comercial e deste à garagem do prédio onde morava era abrigo seguro. Que a chuva se danasse. Não os havia de incomodar, muito menos molhar. Muitos vultos de mulher que saíam sozinhas agarradas aos tróleis ou às malas confundiam-no… Que parvo. Era a ânsia transformar-se em miragens loucas, inaceitáveis, ingratas. Finalmente fez-se luz. Um clarão. Sentiu um baque no peito. Era ela e trazia um sorriso, é verdade que um pouco enigmático, mas do tamanho do mundo.

Júlio conhecera Márcia num verão em que fora passar férias a casa de uns tios nos Açores. Conversaram pouco, mas o suficiente para Márcia lhe demonstrar o tédio e o desencanto que a domavam, após ter terminado a licenciatura em Lisboa. Sonhara sempre com o Norte e com o Porto. Nas ilhas nada a motivava, até porque poucas ofertas de trabalho eram disponibilizadas a recém-formados. Pelo menos na área da sua especialidade. Júlio prometeu que, ao regressar ao continente, havia de procurar e investigar propostas adequadas ao curso que possuía e ao que pretendia. No início de janeiro telefonou-lhe. Havia uma vaga para Assistente Social numa Câmara dos arredores do Porto, a menos de meia hora de distância do local onde morava. A entrevista estava marcada para a primeira segunda-feira de fevereiro.

Agora, aguardava, expectante e ansioso, a sua chegada. Sabia muito bem como era um dia de viagem do Pico ao Porto. E não era uma sande no aeroporto de Ponta Delgada, mais a celebérrima refeição ligeira servida a bordo que a saciara. A chuva persistia dolosa e incomodativa mas o Centro Comercial ficava-lhes a caminho. Uma boa dose de picanha ou uma francesinha havia de ressarci-la da abstinência de um longo e cansativo dia de viagem. Depois… Bem depois havia que optar. Ou o hotel ou o apartamento dele. Ficasse bem claro que tinha um quarto disponível, ao lado do dele. Simuladamente hesitou, mas anuiu.

Júlio morava num condomínio fechado em Valongo. O apartamento era amplo e espaçoso, com uma sala bastante ampla a que se anexava uma cozinha pequena, mas muito moderna e funcional. Nas traseiras os quartos. O dele com casa de banho e roupeiro anexos e um outro, o quarto do lado, que na véspera preparara minuciosamente na espectativa de que ela viesse a optar por ali ficar.

O serão foi longo e envolvente. Lá fora a chuva caía em bátegas cada vez mais fortes. Pela segunda vez telefonava à mãe, assegurando-a de que tudo estava bem. Lá longe, no silêncio da ilha, entre o reboliço das marés e os sulcos da lava, estava muito preocupada. A incerteza do futuro que aguardava a sua menina transtornava-a agonizantemente. Não havia de pregar olho até segunda, até saber o resultado da entrevista.

Júlio fixando-lhe os olhos muito vivos e de um azul esverdeado acalmava:

- Tenho sérias esperanças de que o lugar será teu. O teu currículo pareceu-me ter agradado. Uma licenciatura com excelente nota!

Ela insegura sorria com um leve e suave esburacado em cada uma das faces. Ele insistia, esclarecendo:

- E o trabalho que te espera será muito interessante e deveras motivador. A autarquia pretende intervir ativamente na área social através da implementação de medidas sociais de âmbito local. O Serviço Social revela-se cada vez mais como um importante recurso das autarquias na criação das políticas sociais locais.

- Mas para isso pressupõe-se que a Assistente Social, conheça bem o território a fim de intervir mais próximo dos cidadãos e poder propor e implementar programas de desenvolvimento local, adequados aos interesses da população. Nesta área os concorrentes de cá estarão em vantagem sobre uma ilhoa.

Que se tranquilizasse. O conhecimento adquire-se e decerto que se lhe proporcionariam contactos e oportunidades.

A noite ia longa e ela precisava de descansar. O seu quarto era ali, ao lado do dele. Dispusesse de tudo como se estivesse em sua casa. Teimaram em adormecer. Ela domada pela insegurança, ele atormentado pela presença dela, ali, tão perto, apenas separados por uma maldita parede.

Sonhou-a a despir-se, enrolada nos lençóis, imbuída de incertezas, vagueando em possibilidades. Descobrira-lhe no olhar uma réstia de esperança. Talvez o amasse, talvez o desejasse, talvez naquele momento estivesse a pensar nele. Ouviu passos. A porta do quarto abriu-se. Precisaria de alguma coisa? Assomou à porta do quarto. Não a viu. A casa de banho era logo em frente à porta do quarto mas ela já entrara. Ficou de alerta. Logo que ouviu o puxar do autoclismo, levantou-se, rapidamente e assomou à porta. Disfarçadamente, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Mas quando o fez ela, aparentemente, já regressara ao quarto e fechara porta. Talvez o tivesse ouvido e fizesse de conta…

- Cheta! – Vociferou.

Júlio trabalhava por turnos. No sábado trabalhou de tarde. Mas no domingo saíram. Impunha-se conhecer o Norte. Na segunda tinha folga e acompanhou-a à entrevista. Na terça de manhã ela recebeu um telefonema da Câmara. Estava decidido. O lugar de Assistente Social era dela! Que se apresentasse no dia seguinte.

Abraçaram-se estonteantemente. Na quarta de manhã, antes de entrar para o turno, foi levá-la a Gondomar. Desejou-lhe sorte e abraçaram-se novamente.

Márcia era idolatrada por Júlio. Não pela beleza, embora ela fosse verdadeiramente linda, mas pela sua singeleza, pela sua simplicidade, pela sua naturalidade, por ser detentora de um espírito e verdade e de uma pureza original. Tudo nela era sublimidade, envolvência, dignidade. Amava-a e ela, decerto, que já o intuíra, que já sabia e até, muito naturalmente, se orgulharia de saber que era a eleita. Pressentira-o com uns olhos cheios de verdade e de dignidade. Apesar de tudo havia pautado sempre o seu relacionamento por uma dignidade contagiante, escondendo-se numa aparência comprometedora.

Ansioso, aguardou até à tarde. Muito antes de ela sair já estava em frente ao edifício da Câmara. O primeiro dia de trabalho correra maravilhosamente. Sem delongas abraçou-o demoradamente e regressaram a casa, enlaçados e felizes

Na madrugada do dia seguinte, o quarto do lado, tinha a persiana levantada e a roupa da cama permanecia ajeitada como tinha ficado na véspera.

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A GARREADELA

Quarta-feira, 20.01.16

Chegou à Fajã na companhia duma tia. Sublime na sua elegância, desdenhosa nos seus procedimentos, outorgante na sua solicitude, Joana, para além de bonita e elegante, irradiava simpatia, carinho e beleza. Os cabelos ligeiramente louros e soltos, rosto fino e perfumado de brancura e transparência, e os olhos de um verde acastanhado, ocultando uma timidez translúcida e uma comunicabilidade indefinida. A cobrir-lhe o corpo um vestido de chita, deixando-lhe os braços nus, o que permitia adivinhar retalhos de um corpo delicado, macio e melífluo, pese embora uma blusa de seda lhe caísse dos ombros a simular decoro. A excelência personificada.

A tia Gertrudes era dos Cedros e casara na Fajã. Conhecera o marido num abril em que o Carvalho, totalmente impedido de fazer serviço em Santa Cruz e nas Lajes rumara a ocidente, ancorando na ampla baía da Ribeira das Casas. Gertrudes regressava do Faial, onde fora consultar médico. O desembarque no Cais era precário e meticuloso. Além disso fez-se quase à boquinha da noite. Foi pelo homem que lhe deu a mão a fim de que saltasse para terra em segurança que Gertrudes se apaixonou. Sozinha, em cima do Cais, sem alguém que a ajudasse e sem saber como regressar aos Cedros, foi acolhida em casa duma família generosa. Eram os pais do Lizandro, o homem a quem se apoiara ao saltar do gasolina para terra. Deram-lhe ceia e dormida. No dia seguinte Lisandro, com beneplácito dos progenitores, acompanhou-a na longa e difícil viagem até aos Cedros, subindo a Rocha e atravessando os matos durante quase um dia. Um ano depois casaram.

Gertrudes, para além de tia, era madrinha de Joana. Desde de tenra idade que a garota se afeiçoara a ela e Gertrudes tratava-a como se fosse filha. Ao deixar os Cedros e ao fixar-se na Fajã, não podia separar-se da pequena por quem tinha tão grande amizade e a quem disponibilizava um enorme carinho. Com a anuência da irmã e do cunhado trouxe-a consigo.

Na Fajã, no entanto, Joana vivia numa monotonia rotineira, desinteressante e quase odiosa. Não conhecia ninguém. Além disso, a tia Gertrudes, muito ciosa da menina a fim de que nada lhe acontecesse de mal e não se metesse em confusões, bem a acautelava, impedindo-a de sair de casa e de se integrar em tudo o que acontecia na terra, de inesperado ou de normal. Apenas aos domingos saía para a missa. De resto, passava os dias fechada em casa, olhando por detrás das vidraças as pessoas que transitavam na rua. A princípio como não as conhecia não identificava quem quer que fosse, mas com o tempo foi-se habituando a rostos e feições que depois, em cada domingo, confrontava e confirmava à entrada e saída da igreja. Passado um ano conhecia toda a freguesia.

Foi o Carlos Salema que lhe mudou o destino. Sempre aprumado e correto, trabalhador e honesto, passava na Assomada, onde ficava a casa do Lizandro, todos os dias, de manhã e à tarde, nas idas e vindas para as terras do Outeiro Grande, do Espigão e da Cabaceira. Passava, parava e voltava a passar e a parar vezes sem conta. O Alexandre Pereira deu pela excentricidade do garrano. Revoltou-se. É que não gostava nada de o ver plantado, todos os dias, em frente à janela. Também ele apaixonadíssimo pela moça, roía-se de inveja e ameaçava, muito embora reconhecesse a vantagem do Salema. Mas, no fundo, sobrava-lhe uma resta de esperança.

- Se ela me visse… Se falasse com ela… Se lhe abrisse o meu coração… Se lhe contasse quanto a amo… Se tivesse oportunidade de ela me conhecer… Outra galo cantaria… - Matutava consigo próprio o primogénito do Pereira, à espera de um encontro com a amada enclausurada. Não sabia como. Mas qualquer maluqueira lhe havia de passar pela cabeça.

Depressa o Salema soube da cobiça do Pereira. Pegaram-se de unhas e dentes na tarde da festa da Casa de Cima, precisamente no dia em que pela primeira vez a tia Gertrudes, abrindo uma brecha no seu persistente carracismo, deixara Joana sair de casa para ir à festa. Ambos viram a moça e, com gaudo e entusiasmo, tentaram aproximar-se e meter conversa. Mas antes que chegassem junto da protegida de Gertrudes, sem que ninguém o previsse, pegaram-se, atirando-se um ou outro com unhas e dentes, como cães raivosos. O burburinho foi tal que os cabeças tiveram que parar as sortes que ainda nem iam a meio. As mulheres gritavam, as crianças tremiam de medo e os homens hesitavam desapartá-los. Uma garreadela como nunca se vira na freguesia. O Salema, de camisa rasgada, sangrava, a jorros, pelo nariz e o Pereira, nu da cintura para cima, tinha um olho negro e inchado como um coicelo.

Foi o regedor que veio por termo à peleja. Que parassem imediatamente, senão dava-lhes ordem de prisão. Iam os dois direitinhos bater com os costados na cadeia da Vila.

A bufar como cavalos depois uma corrida, a arfar como uma junta de bois após lavrar um cerrado, retiraram-se cada qual para seu lado. O Salema para a Tronqueira o Pereira para a Assomada. Mas terminada a briga começou o mexerico. Uma menina tão requintada, tão guardada, tão enfiada em casa, tão protegida pela titia, arranjava um sarilho daqueles, metia-se em tão grande alhada? Ela era a culpada de tudo aquilo. Pois não havia de ser? Havia mesmo quem jurasse a pés juntos que a vira piscar o olho ora a um ora ao outro. Era uma boa peça a menina da GertrudesUm grande coirão, era o que ela era. Uma desavergonhada que viera para a freguesia só para inrediar!

Nesse mesmo dia chegou tudo aos ouvidos da tia Gertrudes. No dia seguinte o Lizandro foi levar Joana aos Cedros, a casa dos pais e, no Carvalho seguinte, partiu para Lisboa para um convento onde tinha uma tia freira que, algum tempo depois, através uma benfeitora do convento, muito de igreja e muito religiosa, lhe arranjou emprego numa das mais conceituadas farmácias da capital.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

DIÁRIO DO ÚLTIMO DIA DO ANO

Quinta-feira, 31.12.15

Decidi que hoje me havia de levantar cedo. Ainda é noite escura mas é o último dia do ano. Revolvo-me e retorço-me na cama. Penso, imagino e sinto. Este será o último dia de mais um dos anos da minha vida. Muito lentamente adormeço. Por fim acordo e, espantada, olho o relógio. Que horror! São nove horas da manhã. Bem queria ter-me levantado mais cedo e aproveitar da melhor forma este último dia do ano. De propósito, ontem à noite, deixei levantada a persiana da janela do meu quarto. Agora entra-me um sol vivo, benfazejo e acariciador que me convida a deixar o leito. Atiro com o edredão e levanto-me de um salto. O meu corpo exala sobras do perfume do dia anterior. Lavo-me, penteio-me e renovo o perfume. Estou meio tonta ainda porque a reviver as emoções do dia anterior. O dia em que ele me veio visitar e… despedir-se. Melhor fora, pois que o dia de hoje não aparecesse com este sol, com esta claridade, com esta beleza mas que a natureza me surgisse neste último dia do ano com um aspeto mais sombrio e triste. Ele talvez nunca imaginou que, ao despedir-se, ao partir, deixasse um pesadelo e uma angústia tão grandes sobre mim.

Abro a janela. O dia está belo e maravilhoso O céu azul, o sol acolhedor, os montes serenos e discretos a ufanarem-se de um silêncio arrogante, as árvores pintadas de um verde amarelado, palpitando de alegria, os arbustos das sebes a agitarem-se, levemente, ao sopro de um vento plácido e suave, os prédios vetustos silenciosos e herméticos a contrastarem com os pequenos casebres afoitos e laboriosos. Mais ao longe vejo a torre duma igreja e ouço os sinos a badalarem num reboliço festivo. O céu, as árvores, os arbustos, as casas, o repicar os sinos, tudo me lembra o tempo em que sem cuidados nem remorsos eu brincava feliz nos pátios traseiros da casa onde nasci.

Passa tão veloz o tempo. São dez horas. Descuidei-me, postada à janela, a observar o meu mundo e esqueci-me do pequeno-almoço. Porque será que, por vezes, descuidamos tanto o nosso pequeno-almoço, que afinal é primeira refeição do dia, depois de dormirmos entre 7 e 10 horas, sem comermos nada. É fácil entender porque é que o pequeno-almoço deve ser uma refeição forte e suculenta, talvez a melhor do dia, uma vez que é aquela que nos proporcionará a energia suficiente para iniciarmos o dia de trabalho e sermos capazes de render física e intelectualmente. E isso para mim é muito importante. Sento-me à mesa rodeada de leite, cereais, queijo, sumos de fruta naturais e uma sanduíche de fiambre. Apesar de tudo comi pouco, muito pouco e não me sinto forte e capaz de iniciar com ânimo e alegria este último dia do ano.

Vou sair. Não sei para onde nem fazer o quê e, por isso, não tenho pressa. Sento-me, na sala, numa poltrona forrada de couro e olho as fotos dos meus antepassados. Alguns deles já de avançada idade, a morrerem quando o mundo lhe começava a ser pesado. Depois olho-me ao espelho. Vejo aí refletido o meu corpo belo, jovem, coberto de roupas simples e sem adereços. Nunca gostei nem de berliques, nem de adornos supérfluos ou de pinturas exageradas.

Desço as escadas e saio. São quase onze e as ruas estão repletas de pessoas e de carros. Espero os júbilos de um novo dia, como recompensa da mordaça de ontem. Luto para não me encontrar com quem quer que seja. Imagino que o vejo… Mas sei que não passa de uma fascinação, de uma brincadeira sem graça da minha imaginação, desejosa de o ver, desolada da sua ausência. Continuo a peregrinar pela rua sem saber para onde vou… Não sei exatamente para onde vou... Inadvertidamente, passo em frente ao infantário onde outrora trabalhei. Também ali o silêncio é impressionante e dominador. Ouço o respirar do sopro que ficou dele que por ali passava tantas vezes. Sem medo, continuo. Creio que as pessoas não me veem porque os cães não ladram à minha passagem. Vagueio como alguém que não sabe para onde vai.

Meio dia e meio... Regresso a casa, embora sem pressa. O pequeno-almoço foi tardio embora pouco suculento. Mas não tenho fome. Alegra-me, comove-me, alvoroça-me a ideia de que tenho sobras de ontem, embora saiba que isso me trará amargas recordações…

Uma hora da tarde. Sento-me à mesa. Em frente, a televisão traz-me notícias de um mundo triste, desolado. Enxurrada arrasta doze carros nos Açores. Dezenas de pessoas desalojadas pelas cheias. Mulher assassinada pelo companheiro deixa três filhos menores. Padrasto viola criança de três anos. Ladrões assaltam, violam e roubam idosa de 82 anos que vivia sozinha… Revoltada desligo a televisão. Foi este patê de camarão que ele mais adorou. Volto à madorna das tristes recordações. Creio até que adormeci um pouco. Tive um sonho. Caminhava de braço dado com ele, assistindo à sua coroação com meu rei e soberano. Mas ao redor as flores estavam murchas e os pássaros silenciosos. As árvores cobriam-se de negro e as janelas das casas tinham cortinados vermelhos. São as relíquias do tempo da fé pura e da paz do espírito. Sentada no meu quarto incendeio tudo o que me é útil. E dou comigo a escrever um poema na última folha de papel que me sobra…

Quando acordo já entardeceu... Tudo se aquietara ao meu redor. O vento continuava a soprar, agora mais forte, mais macio como que a enrolar-se no reboliço das folhas caídas. As nuvens haviam acordado e tapavam o sol, escurecendo o dia e antecipando a noite. E eu encostada ao parapeito da janela do meu quarto, à espera que o sino badale a meia-noite.  

Cinco e meia. A tarde desapareceu por completo. A ausência do sol escureceu tudo, por completo. A noite chegou e impôs a sua escuridão, sem que eu lhe pudesse por termo. A terra cobriu-se com um manto negro que nem a lua ajudou a desmistificar.

Dez… Onze… Onze e meia… Aproxima-se a meia-noite. No ar, um deslumbrante murmúrio, uma fervorosa reminiscência, um entontecedor silêncio. Uma chuva miudinha e adocicada cai em fios finos, suaves, deslumbrantes unindo o céu à terra. De repente, todas as luzes se apagam e todas as ilusões se desvanecem como se fossem fumo a sair das chaminés adormecidas...

Nem quis ouvir as badaladas da meia-noite, nem comer as doze passas ou beber uma taça de champanhe porque tinha a certeza que ele nunca mais voltaria…

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TURBULÊNCIA DE VENCIDO

Segunda-feira, 21.12.15

Era a moça mais linda e mais airosa da freguesia. Prócer de virtudes, branda de costumes, trabalhadora, honesta e humilde, não havia homem que não pusesse a vista nela, rapaz que não lhe catrapiscasse o olho, rapariga que não a invejasse e a maioria das mulheres desejavam-na como filha. Meiga, terna, sempre afável e solícita, as crianças adoravam-na e era estimada pelos velhinhos. Um tesouro de rapariga!

Foi o estafermo do filho do Chicória que lhe borrou a escrita.

O Lourenço do Zé da Quebrada apaixonara-se pela moça com um ímpeto louco e desmedido. Pelos vistos, apenas era, parcialmente, correspondido. Lídia senão o amava de verdade, no mínimo gostava dele. Não lhe era indiferente, o Lourenço.

Invejoso, o do Chicória apressou-se a inventar aleives e espalhar mentiras. Que fora o primeiro. Gabava-se à Praça, na Máquina, ao subir a Rocha por tudo o que era sítio. Mas não se ficava por aí, o safardana:

- Uma puta! Enrola-se com quantos há na freguesia...

Foi no dia em que foram às Lajes, às sortes, que o Lourenço lhe partiu as ventas, enfiando-lhe dois balázios no focinho. Nunca mais havia de repetir semelhante afronta, tamanha aleivosia. Mas o do Chicória, mesmo com os queixos inchados, a sangrar do nariz e a bufar veneno não se aquietou. Armaram tamanha zaragata, em frente à Camara, que só faltou tocar os sinos a rebate. O do Chicória a proclamar a desonra da Lídia e o Lourenço que dava cabo dele, que o comia vivo se continuasse com tamanhos insultos à honra e dignidade de tão virtuosa donzela. Foi o Administrador do Concelho que, ouvindo a algazarra, saiu esbaforido do seu gabinete, tentando acabar com a peleja. Como aquilo não parasse foi obrigado da dar voz de prisão aos dois.  

A notícia chegou à Fajã deturpada. O arrogante, o bruto, o malcriado que começara a briga, fora o do Zé da Quebrada. Vítima inocente e indefesa, apanhado à falsa fé tinha sido o Chicória. Era o que faltava, comê-las em seco. Tinha que se defender, o coitado. Lídia não hesitou em tomar partido. Embora nunca o revelasse, desde há muito que a sua grande paixão era o do Chicória. Escolha difícil. Hesitara centenas de vezes entre uma paixão desmedida e uma simpatia desmesurada. Venceu a paixão e, agora, tudo se clareava. O seu amado fora agredido selvaticamente, por um bruto, por um fraco, por um badameco que não prestava para nada. Muito chorosa, muito dolente, passava pela Assomada acima em direção das terras de mato, a ir dar comida às galinhas, na horta do Delgado. E o povo inteiro, perante a sua mágoa e o seu choro, rendia-se em coro, na condenação suprema do filho do Zé da Quebrada. Quem atacara à falsa fé não tinha perdão, nem complacência, nem piedade. O do Chicória, sim. Um inocente a entronizar.

Fizeram-se os proclamas, anunciou-se a data, fez-se o casamento, perante a mágoa e o desgosto do Lourenço que, ingloriamente, havia tentado impor, na freguesia, a verdade da sua inocência. Nada! A prova da sua culpa estava estampada na cara do rival. E o rapaz impotente na sua defesa sentia-se destroçado, desfeito, como se uma montanha lhe caísse em cima. Vingara-lhe a desonra que o sacripanta alastrara e agora via-se preterido. Ele, o pulha, o pelintra, o canalha vencera. E de que maneira. Atirando-se para os braços da mulher que ele amava e, cuja honra, defendera de unhas e dentes. E ela, uma ingrata, uma desagradecida, uma inocente que se deixara levar pela lábia perversa e mentirosa do tirano…

Mas não durou muito a felicidade desejada por Lídia. Alguns meses após o casamento, já despejava lamúrias junto da Benta, a vizinha da frente. Bem arrependia estava. Haviam de lhe ter amarrado os pés e as mãos no dia em que saíra de casa dos pais para a igreja, para se casar com aquele tratante. Mas agora era tarde. Havia que aguentar. Sempre quisera viver um grande amor, sentir uma paixão louca, ter prazer em estar do lado de alguém que também a amasse… Sempre sentira essa necessidade, mas enganara-se na escolha… Dali só insultos, maus tratos, abandono e desdém. Fora ludibriada pelo pelintra e agora estava verdadeiramente perdida. Era triste ver os seus olhos tão cheios de um verde puro, de ternura e de verdade mas arrasados de lágrimas, a jorrarem tristeza e dor. No seu rosto percebia-se a mágoa que lhe enchia o peito. Aquele pulha nunca percebera nem nunca havia de entender quanto ela o amava, quanto o estimava, de quanto abdicara para o escolher. Ele não a merecia, de verdade.

Lídia guardou aquela dor tão profunda para sempre. Mas continuava linda, bela, doce, nobre e digna como sempre fora, enquanto ele, o Lourenço passava os dias imerso numa dolente turbulência de vencido que, aos poucos, lhe ia definhando o corpo e destroçando a alma.

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UNIVERSITÁRIA

Domingo, 13.12.15

Era, para ambos, o primeiro ano na Universidade. Ela terminara o décimo segundo com uma boa nota, o que lhe permitira escolher curso e faculdade. Finalmente conseguia o tão desejado objetivo. Com muito esforço, com muito sacrifício, com o apoio, sempre incondicional, dos pais que viam na filha uma forma de realizar um sonho que nem um nem outro havia conseguido. Jovem, meiga, sensata, possuidora de uma maturidade impressionante, afetava e atraía quantos a rodeavam. O seu sonho era ser socióloga. Ele mais velho, mais experiente na vida, com emprego, agora suspenso, e uma licenciatura em Filosofia, optara por uma segunda, em Sociologia. Ocasionalmente inscreveram-se na mesma turma e nas mesmas disciplinas.

Foi numa das primeiras aulas de Epistemologia e Metodologia das Ciências Sociais que se conheceram. Sem o perceberem, deram por si, sentados lado a lado, na mesma carteira. A professora, ainda jovem, ostentando uma simpatia contagiante aliada a uma notável profundidade de conhecimentos, insistia com rigor:

- A Epistemologia tem como objetivo primordial o estudo da origem, da estrutura, dos métodos e da validade do conhecimento humano, por conseguinte, também é conhecida como sendo uma teoria do conhecimento e, consequentemente, está intimamente ligada com a metafísica, com lógica e com a filosofia da ciência. É, digamos assim, uma das principais áreas da filosofia e compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, permite-nos determinar se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno. É pois a Epistemologia que explica a origem do conhecimento.

De seguida fez uma pausa. Olhou os alunos, convidando-os a que pronunciassem, que dissessem o que quisessem sobre o que acabara de dizer. Fez-se um silêncio total e absoluto na sala. Eram alunos novatos, inexperientes, provenientes do ensino secundário, incapazes de abordar o tema. Perante o silêncio geral e sem que ela se apercebesse, ele levantou o braço. A professora anuiu e ele numa linguagem eloquente, clara e segura explicou:

- A Epistemologia também pode ser vista como a filosofia da ciência, uma vez que estuda não apenas a natureza, a origem e a validade do conhecimento, mas também analisa o grau de certeza do conhecimento científico nas suas diferentes áreas, com o objetivo principal de estimar a sua importância para o espírito humano. A epistemologia surgiu com Platão, embora ele, obviamente, não utilizasse esta palavra com o significado que hoje a utilizamos. Platão, sob o ponto de vista epistemológico, opunha à crença ao conhecimento. A crença é um ponto de vista subjetivo e o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A teoria de Platão diz-nos que o conhecimento é o conjunto de todas as informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Assim a epistemologia provoca duas posições ou apresenta-se em duas vertentes. Uma empirista que afirma que o conhecimento deve ser baseado na experiência, ou seja, no que for apreendido durante a vida, e a posição racionalista, que defende que a fonte do conhecimento se encontra na razão, e não na experiência. A minha pergunta é no sentido de saber se o seu estudo e a sua análise nestas aulas nos vão permitir clarifica-las.

Ela quase cegara de encanto, a ouvi-lo. Ainda não havia reparado muito bem nele. Nem ele nela. Enquanto a professora continuava as suas explicações, sussurrou-lhe baixinho, não sem antes elogiar a sua intervenção:

- Uau! Isto é que é… Não sabia que estava tão bem acompanhada…

Ele, olhando-a com maior atenção, sorriu. Tudo nela era simplicidade e beleza. Tudo nela era simpatia e generosidade. Loura, com o cabelo ligeiramente curto, a encobrir-lhe uma parte da tez. Os olhos de um azul muito límpido e cristalino. A pela muito branca, aveludada e macia. As suas palavras eram doces, puras, simples e contagiantes. Saíram lado a lado da sala e foram dar consigo, sentados num café, nos arredores. Foi ali que fizeram o epicentro duma amizade que acabava de nascer. Era ali que, todos os dias, antes do início das aulas, esperavam um pelo outro. Era ali que vinham desanuviar, ao fim da tarde, terminadas as aulas. Era ali que muitas vezes almoçavam. Era ali que passavam as tardes a estudar, quando não havia aulas.

Foi numa dessas tardes que ele se apercebeu que estava apaixonada por ela. Pela colega maravilhosa e simpática, companheira indelével. Mas também pela mulher bela, atraente, incontestavelmente desejada. Ela apercebeu-se. Não era parva e ele não era muito hábil em encobrir sentimentos. Pior. Ele também não lhe era indiferente. Não sabia como os seus destinos se haviam de prolongar. No primeiro trabalho escolar proposto, escolheram exatamente o mesmo tema e decidiram trabalhar em conjunto. Obviamente, ela sabia muito bem que em termos de benefícios, as vantagens estavam todas do lado dela. Mas não queria acomodar-se a tal. Nunca havia de servir-se do que ele sentia por ela para singrar. Abominava facilitismos. Nem era interesseira.

Foram horas e horas de trabalho, de muito esforço e de grandes sacrifícios. Tudo compensado com o prazer de estarem horas a fio, lado a lado. O trabalho mereceu os mais rasgados elogios da jovem mestra e foram objeto de discussão pública, perante a turma. Um sucesso indiscutível! Ela cada vez mais a orgulhar-se dele. Ele cada vez mais apaixonado por ela. Seguiram-se novos trabalhos noutras disciplinas e novas oportunidades de um contacto mais próximo, mais íntimo e, frequente. Ela sentia que, na sua qualidade de universitária não podia viver sem ele. Ele percebia que, como mulher, ela era a consubstanciava todos os sonhos da sua vida.

O ano escolar acabou e as férias foram, para ele, um sufoco. Mas ao primeiro seguiu-se um segundo e mais dois, com encontros e convívios cada vez mais íntimos e frequentes. Ele apaixonadíssimo ela a perceber que ele era absolutamente necessário à sua vida.

Terminaram o curso com sucesso invejável. A aproximação profissional também se consolidou. Quando a licenciatura chegou as propostas e ofertas de trabalho, para um e para outro, foram muitas. Ele, apesar de cada vez mais apaixonado, sabia que os seus destinos haviam de separar-se. E separaram-se…

Os anos passaram. A paixão foi-se diluindo no tempo. Mas o destino havia de os voltar a encontrar. Na Câmara das Caldas, onde ambos foram parar, preenchendo duas vagas que a edilidade pusera a concurso, destinadas a sociólogos e que tinham como objetivos principais, proceder a um planeamento urbano, local e regional, acompanhar e gerir a gestão e intervenção urbanística, a animação local, os agentes de desenvolvimento e a reabilitação urbana, elaborar estudos de impacto ambiental e projetos de desenvolvimento regional e local.

No dia em que se encontraram para iniciar a sua atividade ela apareceu-lhe de aliança. Casada!

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OBSTRUÇÃO

Quarta-feira, 30.09.15

Desde um outubro morno e sonso e ela a seu lado, a frequentar as mesmas salas, a circular pelos mesmos corredores, a ter uma ou duas reuniões em conjunto, mas não se falavam. Apenas conversas informais e os cumprimentos da praxe. Muito estranhos, sempre desencontrados à espera de coisa nenhuma. Tempos livres ao relento, por ruas e livrarias. Mas chegou o novembro frio e chuvoso e meteu-se o inverno a obstaculizar passeatas, a tornar tudo mais despretensioso. Além disso, era tempo de acabar com a displicência, com devaneios curriculares e completar horários. Juntou-os a sorte! Na mesma hora, na mesma sala! E a amizade entre eles foi um ar que lhes deu. Fiados no desinteresse dos alunos, na sua generosa objeção de consciência a horas vácuas, pareciam conectados desde há muito, desde de que o mundo era mundo. Um alvoroço estonteante domou-os. Um tumulto demolidor encafuou-os. Puseram-se num aconchego íntimo, agregador e afetuoso. Sem dar ouvidos aos outros que cochichavam numa bisbilhotice intrigante e veníflua. Eles alheados, juntos no desprendimento, felizes da vida, muito aconchegados a entregarem-se em volúpias emocionais, apenas idealizadas, transformando tempos e espaços de suposto trabalho em sonhos de marasmo afetuoso, redutor de insolubilidades. Ele mais afoito e expedito, ela mais audaz e arrojada. Depressa se acacularam de miragens mirabolantes e se entrincheiraram num amor sem misturas. Era o cerco desusado duma pirâmide de desejos, o arrojo inebriante de aspirações. Lá longe Recarei jazia no marasmo da indiferença, da superficialidade.

O Natal chegou com a primeira separação, reciprocamente, dolosa. Embora certos de que o janeiro não tardaria, perante um enlevo tão profundamente gerado, esta primeira separação pareceu-lhes uma eternidade. Ele desolado no silêncio de madrugadas obscuras, ela acaçapada como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante. Apenas Recarei, saindo do marasmo, rejuvenescia provisoriamente.

Os horários em janeiro não renascem no início do mês. As primeiras semanas são de tréguas e o acerto vai-se impondo com denodada demora. Só lá para o fim do mês tudo parece renascer, retornando os contubérnios de novembro e dezembro. Em contrapartida o enlevo crescia, parecia mesmo chegar até ao céu. Que lhes aumentassem a carga horária. Só ali, juntos estavam bem. Já não ansiavam pelo intervalo seguinte, já não olhavam o relógio, nem a claridade gratificante do dia que, outrora, os cativava. Tal era o enlevo! Falavam de filhos, de projetos, de sonhos, do passado, de tudo! Ele ainda tentou uma saída conjunta, um almoço, um passeio... Uma investida. Ela que não. Sentia-se muito bem ali, lado a lado, naquele enlevo arredondado, naquela entrega virtual, sem suplício, sem tormento, sem mágoa ou mácula, toda embebida uma ternura desusada mas gratificante e bonançosa. Havia de o compensar de outra forma.

E foi numa manhã de um maio florido. Ela, despretenciosamente, encostou-se e agarrou-se a ele como se duma entrega amorosa se tratasse. De soslaio, ele ainda pode ver-lhe uma nesga do peito tumescente e fumegante. Depois encolheu-se. E ele, o palerma, a adorá-la, a controlar ganâncias num imbecil disfuncionamento. Ainda o cetro da impossibilidade o excluía de um atrevimento desmedido, complexado e ela num lisonjeiro panegírico do marido. Um herói!

Ele contorcendo-se com tamanha atrocidade cuidou que tudo ficava por ali. Mas depressa ela se refez. Nem assim se quebrava o transcendental remanso de uma hora semanal. Engoliram a desfeita e ficaram como dantes. Regressaram ao enlevo, ao acariciamento, ao sonho emocional, enquanto, ao longe, o Sol se ia desvanecendo por entre as montanhas e Recarei, pátria de origem, remanescia numa quietude transtornante.

Mas Recarei que se aquietasse! Que fenecesse entre os umbrais do desinteresse e do abandono! Queriam mais? Mas prendê-la num desprendimento absoluto, conduzi-la a uma serenidade abstraída, encaminhá-la pela vereda da doação não era fácil. O espetro da montanha, apesar de distante, meteu-se-lhes de permeio, perseguindo-os a ferro e fogo. E o fim do ano havia de atrofiar tudo por completo, trazer-lhes uma obstrução definitiva. O destino traçar-lhes-ia outros caminhos.

Ela partia, para sempre, numa caminhada definitiva desfazendo os sonhos de um enlevo curto, cerceado e estranho

Apesar de afastada, distante, talvez já o tendo esquecido, ela continua, ainda hoje e tal como ontem, postada na grelha de partida, viva, serena, meiga e doce como sempre. Via-a em delírios ofegantes, em sonhos de magia. Arquejante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais dorido, confuso, no emaranhado de sonhos opulentos.

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publicado por picodavigia2 às 00:04

A PERFUMARIA

Sexta-feira, 11.09.15

Ele passava todos os dias em frente à perfumaria onde ela trabalhava, simplesmente para a ver, observar e mirar. Mesmo contemplada de fora das vidraças, ela parecia bela, sublime, divinal. Tudo menos uma mulher simples e vulgar. Uma deusa. Se uma nesga que fosse da porta permanecesse aberta, observa-a, pormenorizadamente, na sua excelsa beleza, na sua singularidade invulgar, na sua imperial sublimidade. Um rosto branco de neve, cabelos loiros e soltos, um corpo elegante e desenvolto.

Um dia em que a porta estava totalmente escancarada e não havia nenhum outro cliente no estabelecimento, decidiu entrar. Mesmo que não comprasse o que quer que fosse havia de indagar o preço dum qualquer perfume com a denodada intenção de, simplesmente, meter conversa. E foi nesse momento, em que ela muito simpática e sorridente lhe perguntou se podia ajudá-lo, que tudo começou. Ela não era, afinal, aquela estátua fria, indiferente que até parecia desviar o olhar quando ele passava e aborrecer-se quando percebia que ele a espreitava cá de fora. Parecia-lhe ser senhora dum coração feito de confiança, cheio de ternura. Se pudesse ficaria ali, a tarde inteira a simular ver perfumes, ganancioso de respirar o ar que ela respirava, de a ver, de senti-la a seu lado, como se fosse sua. Ela também parecia simular, ficando a imiscuir-se na complexidade de descortinar os preços de caixas e frascos, a inteirar-se do que ele simulava pretender comprar e que, afinal, nada mais era do que ela própria. Ela percebia-o a dissertar sem nexo, adivinhava-lhe o pensar, descobria-lhe os desejos. E como era animosa, e a solidão em que o marido a deixara, há mais de um ano, lhe pedia convívio, partilha, entrega e doação, aceitou-o com gosto e enlevo. Por momentos, até sonhou que ele podia de ser seu.

De pouco lhes valeram os fracos murmúrios daquele simples e instantâneo enlevo. As palavras perderam-se e o seu eco dissipou-se, deixando apenas memórias e sonhos. Dias depois, um traste qualquer, gordo, pançudo, aproveitador e oportunista usufruiu da fraqueza emocional em que jazia e galgou-a. Ela tola, inocente, cega foi-lhe na conversa. Durou pouco tempo o apócrifo enlevo. E ele regressou à perfumaria a tentar aconselhar, orientar, impedir nova investida, sem o conseguir. Ela, todos os dias, umas vezes de manhã, outras à tarde, depois de fechar a perfumaria, ia até ao parque e corria, descarregando desgostos e frustrações. Ele descobriu-lhe o horário e passou a ir à mesma hora. Bem desejava saltar as lombas, atravessar a ponte e percorrer os trilhos a seu lado mas não conseguia. Ela veloz como uma gazela, parecia que de propósito circulava sempre ao contrário. Apesar de tudo, só por a ver, o parque tornava-se num éden, num paraíso, num recanto emocional mas contraditório, de encontro e de separação.

Mas verdade é que a partir de então se tornaram bons amigos. Ele a perder-se em devaneios quando a via, ela a desfazer-se em simpatias quando o encontrava. Por vezes até era ela que o descobria primeiro. Chamava, parava, conversava, estagnava. Por vezes até lhe falava do filho! E enchia o peito de ar, tanto que se orgulhava dele. Um rapagão!

Mas os tempos eram de crise e os negócios entraram em turbulência. A perfumaria não fugiu à regra. Fechou e, inexplicavelmente, ela desapareceu. Foram os correios que a trouxeram, uma vez, uma só vez… E ele, por displicência, quase passava ao lado.

A perfumaria esfumou-se, transformou-se num hediondo e mísero barranco de sonhos!

 

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A SOMBRA DAS ORQUÍDEAS

Quinta-feira, 25.06.15

Uniu-os um ocasional e imprevisível destino. Ele viera passar férias a Lisboa, a casa duma irmã que tinha residência na Travessa de Ceuta. Ela morava ali perto, na Rua do Arco do Cego.

Foi uma manhã inolvidável, na piscina dos Amigos de Vénus. O pai dela, Agapito Reboredo, era sócio do grémio e um dos membros mais destacados da direção. Ela tinha entrada gratuita e, lá dentro, gozava privilégios e regalias das quais, por nada deste mundo, abdicava. No epicentro das suas opções estavam os banhos na piscina e os bailes em dias de festa. Ele, ilhéu nativo, sedento de mar e de praia, também desejoso de banhos que a enormíssima e industrializada Lisboa lhe negava, optou pela piscina mais próxima, a dos Amigos de Vénus. Uma amiga dela que o conhecia e sabia-o açoriano informou-a. A sua estirpe, também açórica, foi motivo de aproximação. Coincidência das coincidências! A ilha era a mesma e ele até conhecia, embora vagamente, alguns familiares dela. A amizade solidificou-se. Além disso, ela soube-o deslocado, sozinho, desocupado, quase perdido na enorme urbe ulissiponense. Necessitava de alguém que o acompanhasse, que lhe ajudasse a tornar mais atrativos e aliciantes os dias que havia de passar na capital. Ela estava ali para isso. Contasse com ela.

Nadaram e mergulharam ao lado um do outro, dependuram-se no mural da piscina, com displicência e à vontade, em amena cavaqueira. Tudo nele a empolgava e ele sentia por ela uma desusada e estranha atração.

Chamava-se Marilda e era de uma beleza rara e invulgar. Olhos ligeiramente rasgados, negros, espetados num rosto acetinado, branco e macio, banhado por convulsões atraentes e dulcificantes. A boca um mito de sublimidade a abrir-se com deslumbrante suavidade, a aspersar um sorriso doce, macio e atraente. O corpo esbelto, elegante, altivo, fascinante e sedutor.

No dia seguinte voltaram às instalações do grémio. Desta feita, juntos. Por condescendência do pai ele nem precisava pagar a entrada. Era o que faltava! Voltaram à água, aos mergulhos, à conversa no mural da piscina, onde os seus corpos seminus e gelados, emocionalmente, se tocaram. Ele sentiu um enorme arrepio. Pela primeira vez sentia o aveludado, sedoso e sublime de um corpo de mulher. Nova investida por parte dela que, assim dava mostras de que o queria, de que tinha uma enorme vontade de amarfanhar para si, de o envolver, de o amar. Ele excitou-se ainda mais quando ela, talvez por acaso, talvez propositadamente, lhe encostou a coxa direita aos genitais. Foi como se um enorme abalo removesse avassaladoramente as águas calmas e sossegadas da piscina. Um frémito melífluo, alienígena e arrebatador assolou-o perturbadoramente.

No regresso convidou-o para entrar em sua casa. Que não tivesse pejo! Os pais não estavam mas havia, sempre, por ali irmãos mais novos a entrar e a sair. Aliás, sabia que os pais, à tardinha, ao regressarem do trabalho, teriam muito gosto em conhecê-lo. Tinham manifestado esse desejo, na véspera, quando lhes falara dele.

Anuiu. Foi uma tarde de encanto e de sonho! Mostrou-lhe os recantos da casa que, a partir de agora, havia de considerar como sua. Levou-o para o seu quarto e permitiu que se deitasse na sua cama. Passearam pelo jardim contíguo às traseiras do velho casarão, em desusado contubérnio. Tudo os unia, tudo os fascinava. Tudo nele a atraía, tudo nela desejava. Chegaram os pais, Foi tão deslumbrante o fascínio que o convidaram para jantar. Logo no primeiro dia! Chegou a casa, tardíssimo, com as inerentes preocupações de quem o aguardava, cuidando que se havia perdido nos meandros da gigantesca e labiríntica capital.

Voltaram à piscina no dia seguinte e em todos os outros dias. Cada vez mais unidos, mais deslumbrados e, aparentemente, mais apaixonados. Foram uns dias singulares, aqueles. Num agosto seco e nebuloso mas atrativo e sorridente. As manhãs na piscina com as águas muito quietas e, por vezes, aloiradas por uma nesga de sol que lhe entrava de sudoeste, a agitarem-se, apenas mas permanentemente, com as envolvências descomunais e transviadas que exalavam dos seus corpos, com os murmúrios silenciosos mas muito vivos e persistentes dos seus desejos recíprocos. Ao lado, a lufa-lufa da cidade, com as pessoas a zumbirem, os carros a agastarem-se e o sol a correr, como um louco, que deseja afogar-se no Tejo. Ao longe, as cadeiras do poder a estuporarem os assentos, a partirem os varões laterais, enraivecidas com o azul deslumbrante e bonançoso de cada madrugada. Desesperavam os mafarricos da ordem inócua, os pregadores da inocência camuflada, os predadores das aventuras de inocentes paixões. Senhores da inveja redutora, donos do ódio rastejante, Como serpentes esperavam, à socapa, a inocência despretensiosa da presa sobre a qual haviam de cravar as suas garras e lançar o seu veneno malévolo, horripilante, desolador e mortífero.

Era domingo. Ele ia subir ao pódio a fim de desenfrear a acutilância da sua indomável singularidade. Consagrar-se-ia com arquétipo da excelência. Temia e tremia. Foi ela quem o ajudou. O sucesso bateu-lhe à porta, transpôs os umbrais do sucesso, rondou a esfera da excelência e consagrou-se exageradamente, com a agravante de acicatar ainda mais a inveja reinante e rondante.

Ele agradeceu-lhe. Sem ela não subiria aquele píncaro. Para além de bonita, bela, sublime ela era douta, sensata, competente. Uma senhora!

Foi numa tarde em que regressaram mais cedo da piscina. O sol ainda não se esquivara mas o dia anunciava morrer morno, tristonho e embaciado. Estavam sós. Ela deu-lhe a mão e conduziu ao jardim que ficava nas traseiras da mansão. Sentaram-se muito juntos numa campânula ornada com a sombra de orquídeas gigantes. Corria uma aragem, serena, fresca e deslumbrante. Ela agarrou-se muito a ele e aos poucos foi deslizando, até sentar-se no seu colo. Os corpos colados, arquejantes, silenciosos. Sem que lhe desse tempo, sobre ele despejava algo de inédito e insólito! Cobria-o com uma dádiva, generosa e doce. Uma entrega total! Um silêncio sublime! A redoma de cristal perfumada a alecrim, onde desde há muito o haviam enjaulado, partia-se, repentinamente. O chão revolvia-se em convulsões persistentes e enigmáticas. As árvores, ao redor, balouçavam com frémitos indizíveis e a luxúria de um ou outro pássaro mais arrogante cerceava o perfume dos muros adormecidas e cobertos de limos verdes. Era a hora do silêncio eterno, etéreo e etérico.  

Ela, por fim, desfazendo aquele sopro de silêncio indomável, olhou-o enternecida e risonha. Amava-o. Amava-o desastradamente. Encandeando os olhos um no outro, regressaram ao silêncio. Uma, duas, muitas vezes. O resto da tarde, até que o sol, já frouxo e amolecido, fenecesse por completo.

Regressou a casa, louco. Uma abóboda escura, indecisa, tremenda, amortalhada de orquídeas em flor, cobria-o. O rosto afogueara-se de uma áurea, indisfarçável e denunciadora. Marilda, agora com os seus lábios sedosos, ávidos de entrega e senhores de tão doce sublimidade, não lhe saía do pensamento. Cegava-o por completo. Desejava ardentemente chegar ao dia seguinte. Não havia de esperar pelo recanto das orquídeas. A partir de agora era a piscina, o quintal, o quarto dela, o jardim da cidade que ficava mais próximo, para onde programavam passeios em fim de tarde. Agora que lhe tocara o corpo, que lhe saboreara os lábios, que se envolvera com o seu perfume, que lhe sentira o arfar dos seios e até lhe afagara o acetinado dos fémures, ela parecia-lhe cada vez mais próxima e, sobretudo, mais bela, mais atraente, mais pura, mais digna, mais sedutora. O rosto macio e acetinado esbanjava doçura. O corpo, belo e sedoso ombreava uma pureza divinal. Era verdadeiramente bela. E ousava supor que para ela, ele próprio também não lhe era indiferente, embora nunca o confessasse, antes o ocultasse com desvarios audazes e falaciosos.

Os pais não desconfiavam, ou se desconfiavam não se importavam rigorosamente nada. Num passeio a Sintra, simulou indisposição. Impunha-se regressar a casa, imediatamente. Ele havia de a acompanhar… Nem um nem outro dos progenitores se opôs e regressaram, os dois, sozinhos, como se fossem um do outro. Numa noite de sonho!

Começaram os passeios mais frequentes ao jardim da cidade que ficava perto da Arco do Cego. Era um lindo jardim com uma descomunal riqueza botânica, onde passavam as tardes, num doce enlevo, aureolado pela frescura das sombras dos arvoredos, pelo emaranhado dos seus ramos, o verde das suas folhas, o silêncio dos seus troncos ou encafuados nos labirintos das suas raízes gigantes. Por vezes regressavam ao silêncio, numa troca recíproca de beijos e carinhos. A paixão recíproca, una e indivisível avançava avassaladoramente. Ambos sabiam, mas nenhum o confessava. Sem nunca falarem, sabiam ambos que se amavam.

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publicado por picodavigia2 às 00:29

ENTONTECIDA

Quarta-feira, 22.04.15

Joana terminara uma relação muito difícil e dolorosa. Deixara-lhe marcas terríveis. Estigmas vivos. Vivera pouco mais de uma ano com Eduardo com quem casara. Desde cedo cuidava que havia descoberto que tinham varias coisas em comum. Que se amavam. Apesar de tudo, nunca se apaixonara verdadeiramente por ele, mas estava convencida de que era o homem da sua vida, o pai de seus futuros filhos e cuidava que ele também sentia o mesmo. Aparentemente, a felicidade seria plena e o amor puro, integro, perfeito. Anunciados os proclamas, preparado o enxoval e convidados os parentes e os amigos, agendou-se a boda. Simples, pequena e singela. A mãe é que nunca se aquietou com a escolha da filha. O mariola nunca a enganara. Levantara muitas suspeitas e receios. A opção da filha não lhe agradava rigorosamente nada. Alertou-a, aconselhou-a, avisou-a e, por fim, até a ameaçou. De nada serviu. A rapariga cismou que era com ele que havia de casar e casou mesmo. 

Não durou muito o himeneu. Começaram as suspeitas, propalaram-se os mexericos, instalaram-se as invejas, agigantaram-se os ciúmes, avolumaram-se as discussões. Impossível continuar aquela relação. A mãe que, na verdade, desde o início se opusera, radicalmente, a tal envolvimento, quando a filha, desolada, lhe bateu à porta, fechou-lha. Perante o desprezo e o abandono da progenitora e porque não estava disposta a ter que se cruzar com aquele sacripanta pelas ruas e vielas do povoado, Joana pisgou-se da Fajã, refugiando-se na Cuada, em casa duma tia que ali vivia sozinha. Para além de a ajudar e lhe fazer companhia, afastava-se do inexaurível cenário onde se havia gerado a sua própria infelicidade. Retirada naquele ermo, isolada entre o verde das ravinas e o sombreado dos arvoredos, muito raramente o havia de encontrar. Talvez o esquecesse mais facilmente.

Na Cuada Joana envolvia-se num silêncio perturbante, numa pasmaceira entontecedora, numa quietude impertinente. Poucos eram os habitantes daquele pequeno, mas idílico, lugar. Rondariam meia centena. Calmos, tranquilos, dóceis e trabalhadores, iniciavam as lides diárias dos campos muito antes de nascer o sol e nem o crepúsculo os obrigava a largar o trabalho. Regressavam a casa já noite escura. De manhã e de tarde as vielas do pequeno povoado eram um rio de isolamento, um fluxo de ausências inebriante. À noite, não se via viv’alma. Um deserto personalizado. Sozinha, sem amigas com quem partilhar mágoas, Joana imergia num abismo de nada, sem alegria e sem esperança, sentindo-se, apenas moralmente, obrigada a ajudar, nas simples e pobres tarefas diárias, a sua inesperada mas solícita paraninfa.

Corajoso e ávido de trabalho, vindo da Fajãzinha, o Porfírio apareceu, por esses dias, na Cuada, contratado pelo Pimentel. Olhos azulados, rosto risonho, salpicado de um misterioso encanto. Comunicativo e assombrado, emaranhava-se, com facilidade, nos mais estranhos e tétricos meandros da tristeza e da solidão, destruía, com facilidade e ousadia, bloqueios, desencantos e ensombramentos. Integrou-se facilmente, o rapaz, na pacatez monótona e rotineira da Cuada. Nada que estranhasse, por quanto a Fajãzinha que o vira nascer e que o criara, afinal não era uma grande e movimentada urbe. E tanto agradou e a ele tanto se afeiçoou o Pimentel que o fez seu fâmulo, hospedando-o em sua própria casa. Ainda nem um mês passara e o rapaz já era tratado como se fosse da família. Dócil, educado, respeitador e com uma vontade enorme de trabalhar. O que o Pimentel precisava.

Ora a casa do Pimentel, já no enfiamento da canada que dava para a Eira da Cuada e para a Fajãzinha, era paredes meias com a da senhora Gervásia, a tia de Joana, onde ela se hospedara. Cedo pois se apercebeu o Porfírio da presença de tão enigmática e deslumbrante personagem que divisava, vezes sem conta, quer por detrás das cortinas brancas das janelas da vizinha Gervásia, quer junto aos currais e pátios da casa, a limpar, a varrer, a lavar, a estender a roupa na corda e a tratar das galinhas. Sem grande ousadia e desejoso de acautelar a imagem que dele havia ter a rapariga, não se descuidou em exagerados olhares, em imprudentes atitudes. Encantado com tamanha beleza, galvanizado por tão solene elegância, tinha, contudo, uma vontade enorme de se aproximar, de lhe falar. Apetências e desejos, geralmente, cerceados, pelo medo, pela timidez, pelo receio de ser mal compreendido ou interpretado. Aquietou-se, pois, inicialmente, limitando-se a vê-la, a apreciá-la, de longe, cuidando que ela não desse por isso. Impossível! Logo de início, Joana apercebeu-se do alvoroço emocional que domava o moço, quando a via e, consequentemente, não se descuidava, nem muito menos se importava de se mostrar.

O dia de quebrar a timidez que de há muito bloqueava o rapaz, chegou numa tarde de abril em que uma abençoada galinha da senhora Gervásia decidiu saltar a parede do curral e pular para a courela do Pimentel, perante a aflição da rapariga que, na mira de apanhar a maldita, saltara atrás dela. Não podia o Porfírio ter melhor ensejo para iniciar as suas investidas. Uma corrida atrás da galinha havia de o aproximar da sobrinha da vizinha Gervásia que, de há muito, não lhe saía do pensamento. Aproveitava da melhor forma a oportunidade que a simples fuga de um galináceo lhe proporcionava. Pelos vistos, ela também o desejava. O intenso envolvimento que os unia ao correr atrás da galinha, também a denunciava-a. Seguiram-se dias de olhares mais intensos, de encontros mais frequentes, de aproximação mais emotiva. Sem galinha, sem medos, sem timidez e sem ressentimentos. Olhavam-se, viam-se, desejavam-se e conversavam, de forma, reciprocamente, denunciadora, pese embora o Pimentel, inicialmente, começasse a coçar as barbichas, preocupado com tal envolvimento. Mas pouco depois aquietou-se. No fundo, eram maiores e vacinados. E a paixoneta do garrano podia ser uma forma de o prender, de o fixar na Cuada. Talvez fosse a garantia de ele ficar por ali, ao seu serviço, durante mais algum tempo. Avançado em idade, os filhos há muito que haviam partido para a América, deixando-o só com terras e gado por cuidar. O rapaz dava-lhe um jeito do caraças. Se no início condenara aquela, aparente, investida amorosa, agora aplaudia-a incondicionalmente. A Gervásia muito agastada com achaques e maleitas, sempre metida em casa, a queixar-se de dores, é que não deu por nada.

O Porfírio cada vez mais enfeitiçado procurava encontros, junto à fonte onde ela ia encher os baldes de água, ao portão quando ela regressava com uma mão cheia de couves ou quando ela própria, atrevida e denunciadora, pedia licença para ir apanhar um raminho de salsa às bandas do senhor Pimentel. Um dia houve em que, de propósito, enxotou as galinhas da Gervásia para que depois viesse a correr atrás delas para as bandas do Pimentel e caísse nos braços dele, como louca, entontecida, a pedir muitas desculpas. Mesmo se uma galinha não lhe fugisse, havia sempre ensejo para se encontrarem, correrem os dois à porfia, cada vez mais envolvidos, cada vez mais emaranhados, cada vez mais apaixonados. Ela já adivinhava, o momento do dia em que ele se levantava e saía para os campos, de enxada ao ombro e foice na mão, assim como as horas a que regressava para a ceia. Postava-se, estrategicamente, aqui ou além, a fim de que ele a visse, que a olhasse, que lhe desse dois dedos de conversa, ou, se mais apressado, simplesmente lhe desse os bons dias. Ele também não se descuidava de a procurar, de arranjar motivos para dois dedos de conversa. Logo que chegava dos campos, embora cansado de ceifar, lavrar, cavar, sachar, vinha logo postar-se sobre o muro que separava as duas propriedades. O Pimentel bem lhe descobrira a marosca:

- Andas a espreitar as galinhas da Gervásia para veres onde põem ovo?!

O rapaz não se coibia e ela aceitava-lhe, de bom grado, com prazer, os devaneios idílicos e os atrevimentos amorosos. Sobretudo aos domingos, em que o Pimentel era mais tolerante para com o fâmulo, dispensando-o das tarefas agrícolas, passavam horas a conversar, a rir, a divertirem-se no meio daquele gigantesco e descomunal silêncio. Na verdade, a Cuada apresentava-se como cenário primordial e genuíno para a vivência de tão grande e inexorável paixão. Aos poucos Joana como que ia renascendo, emergindo da letargia que inicialmente a dominava. Estava mais alegre, mais comunicativa, mais desembaraçada e, sobretudo, mais feliz. Já nem a massacrava, como outrora, o dramático passado, a dolorosa experiência matrimonial que tanto a atormentara, em tempos idos. Mas verdade é que também não sonhava com nenhum futuro. O seu envolvimento iniciava-se e terminava ali. Preferia estar assim, entontecida por aquela quietude, embebida pelo perfume daquele silêncio, como que anestesiada, a saborear, gulosamente, o sabor adocicado de cada dia que a presença dele lhe proporcionava. Sentar-se à tardinha, nas escadas do pátio, à espera, enquanto ele plissava as belgas com o arado ou desfazia os torrões com a grade, ou se vergava ao peso da enxada, carregando molhos de erva e cestos de batatas, numa azáfama desconcertante, cansativa. Tinha pena dele e desejava, ardentemente, aliviar-lhe o peso dos trabalhos, dulcificar-lhe a azáfama diária. E ele? Chegava suado, cansado, ofegante, estoirado mas vinha sempre solícito, meigo e acolhedor, ter com ela, atirar-lhe uma saudação, dizer-lhe uma graça, contar-lhe uma vivência mais divertida. Ela ria, tresloucava, encantava-se, entontecia de delírio. Eram felizes, muito felizes.

Certo dia chegou uma carta da América para o Pimentel. Trazia novidade. Grande novidade. Para o verão havia de chegar à Cuada um dos filhos. Louco de comoção, o Pimentel deu ordens rigorosas que exigiam e impunham mais trabalho, maiores canseiras que cerceavam encontros e obstruíram os devaneios a que se haviam habituado. Os trabalhos eram muitos e o tempo até à chegada do americano pouco. Havia que cobrir inhames, plantar mais uma belga de batatas-doces, pôr galinhas a chocar, engordar um porco, criar um gueixo, caiar a casa, que, nas vésperas da chegada, havia ser lavada de ponta a ponta. Uma desconsolação de corpo e alma. O americano até era bem-vindo, mas o diabo é que estava a dar cabo do que tinham de melhor. E deu!

O verão não demorou muito e o Carvalho que trazia o Gabriel, o filho mais novo do Pimentel, também não. A Cuada em peso foi esperá-lo. Uns até aos Terreiros, outros até à Eira da Cuada. E a casa do Pimentel encheu-se, de gente, de alegria, de cheiro à América. Mas passado um mês ficou deserta. O rapaz, perante a velhice e o abandono a que o pai fora votado, decidiu-se por, vender as terras e levá-lo consigo para América. O Porfírio, em lágrimas, não tanto por ser abandonado pelo patrão, mas mais por saber que seria afastado dela, foi desterrado, definitivamente, para a Fajãzinha.

Por esses dias a mãe de Joana, não contendo as saudades, veio à Cuada. Como já esquecera e já perdoara, ao regressar, trouxe a filha consigo, para a Fajã. 

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publicado por picodavigia2 às 09:41

ENTRE DUAS LÁGRIMAS

Segunda-feira, 13.04.15

Foi na segunda aula. Não pudera comparecer à primeira. Quando o professor deu os trabalhos por terminados e ordenou que saíssem, ela veio, junto dele, desculpar-se. Embora revelasse um certo nervosismo, a cara acetinada, o rosto macio e os olhos muito esverdeados e brilhantes atordoaram o mestre. Tanta beleza consubstanciada num olhar perturbaria os menos sensíveis. Era nova, bonita, alegre e de sorriso comunicativo. Revelava uma doce sublimidade disfarçada de encanto. Emanava uma elegância discreta e natural, uma beleza rara, consubstanciada na sua essência. Um êxtase! Um arrebatamento! O mestre pasmou! Embeveceu-se. A sua íntima ternura, a exuberância do seu encanto, o deslumbramento das suas palavras atiçavam-no, pela primeira vez, para um trágico beco de inquietação e perplexidade. Quase perdia a respiração.

Havia acompanhado, anos após ano, dezenas, talvez centenas de alunas, belas, atraentes, sedutoras. Mas como aquela… Nunca. Havia qualquer coisa que medrava nela e que o destronava da sua fulgurante e presunçosa dignidade de mestre. Crescia-lhe na alma uma espécie de tempestade, uma indomável turbulência que lhe toldava a serenidade, lhe ameaçava ruir o decoro e o ornava de um suplício atroz mas dulcificado. Desconhecia, porém, a grandeza e a profundidade da paixão que, momentaneamente, se lhe cravara no peito e o arrasava, petrificava e projetava para um mundo a que era totalmente alheio. Nem consciência tinha do mal inequívoco que, muito provavelmente, se havia de atrelar a tamanha loucura, nem das trágicas consequências que o desabrochar de um envolvimento, embora ainda inexistente mas previsível, lhe havia de acarretar.

Anestesiado pelo quadro que se lhe deparara, aceitou as desculpas com palavras e gestos demasiadamente comprometedores dos sentimentos que o atordoavam, e que não podia ocultar. Ela, astuta e capciosa, percebeu, reservando, em redoma dourada, os trunfos que o destino, gratuitamente, lhe disponibilizavam. Mas ao sair voltou-se e, momentaneamente, como que se arrependeu dos seus vis e desleais devaneios. Nunca havia de jogar, em seu triunfo ou provento, os dons vantajosos que lhe eram oferecidos, sem nada ter feito ou muito menos lutado para os conseguir. Ele, na verdade, revelava-se bondoso, meigo e digno. Não merecia qualquer maléfico cometimento. Até lhe doía deixá-lo ali, sozinho, emaranhado em tão malévolo suplício. Tinha consciência perfeita de que, ao afastar-se, o deixaria amofinado de angústia, de inquietação, a rondar o desespero. O mestre que o acaso lhe disponibilizara, revirava-se, sozinho, sobre um reboliço de emoções contraditórias. Subtis modificações domavam a sua mais simples expressão. Mas era um homem de decisões fortes, de oposição a tentações, perito em dignidade. Havia de transfigurar, embora muito a custo, toda aquela enxurrada de emoções, desejos e vontades. Havia mesmo de obstruir uma paixão que, eventualmente, despontava. Mas naquele momento o confronto entre a iminência de uma tremenda paixão e a excelência do seu profissionalismo acossavam-lhe o destino. Lançava-o num drástico e pérfido paradigma. O que o coração sentia sem o domar, o que a paixão lhe ditava sem o servilizar estava ali tenebroso e incerto. Arrumou, muito a custo, a secretária, enfiou alguns livros e papéis na pasta, retirou a gabardina de um cabide que havia nas traseiras da porta e saiu. Pouco depois rumou a casa, confuso, perturbado, emerso em dúvidas e remorsos. Nem uma sombra de indignidade poderia macular a sua arrebatante, credora e austera reputação de mestre.

Na manhã seguinte bateram-lhe, levemente, à porta do gabinete. Era ela! Vinha mais bela, mais sublime, mais elegante e mais perfumada. O mestre tremeu! Não... Seriam apenas amigos, partilhariam aquela amizade possível, aceitável, entre discípula e mestre, obstruída a aventuras escaldantes. Seriam escravos de um amor impossível, duma intimidade limitada, de um envolvimento inexequível. O relacionamento que as exigências profissionais lhe impunham, bloqueavam-lhes os sentimentos. Fechavam-se as portas duma intimidade frenética, luxuriante, louca. Gostavam um do outro, não apenas como mestre e discípula. Como homem e mulher. Como companheiros de jornada, parceiros de destino. E ao despedir-se, ela nem hesitou por um momento. Cumprimentou-o de beijo. Ao sentir-lhe a pele macia, o rosto harmonioso, o perfume dulcíssimo, o mestre voltou a tremer. De imediato, romperam-se todas decisões, rasgaram-se todas as cortinas, ruíram todos os diques de resguardo, que insensivelmente havia, por momentos, construído, na mira de ir afastando, como coisa conspurca, imunda e contagiosa, a paixão que crescia avassaladoramente, dentro de si e que o denunciava. Os outros é que não se compadeceram nem descuidaram. Juntando em puzzle todos os tremeliques e salamaleques que o mestre descortinava sempre que via a moça e anexando as frequentes idas desta ao gabinete, acusaram, julgaram e condenaram sem complacência. Fizeram correr de ponta a ponta da escola que aquilo era suspeito. Ali havia gato. Era por mais evidente! Pérfido, corrupto, assediador, tarado! Haviam de cuidar-se as outras. E, abruptamente, da noite para o dia, o mestre defrontou-se com o seu prestígio beliscado, excomungado, olhado com reservas. Durante algum tempo, navegou em marés de cuidados e precauções. Nenhuma atitude, palavra, gesto ou olhar que o comprometesse. Por fim, decidiu libertar-se. Que se lixassem as suspeitas e quem as lançava. Que se tramassem as condenações e os linchamentos morais. Que se fodessem os deturpadores da honra alheia. A moça estava ali, a seu lado, todos os dias. Era impossível resistir-lhe. Tinha coração de homem. Afinal, as emoções, os afetos e os sentimentos iniciais nunca se haviam desfeito. Apenas os suspendera para evitar um previsível serrabulho. Não o conseguira. Não havia continuar a mortificar-se. Era por demais evidente o que sentia. Qualquer tentativa de o esconder sairia gorada. Os outros tinham razão. Mas nada fizera que merecesse ser julgado e condenado em praça pública.

Em vez de continuar a fingir, começou a navegar numa felicidade empolgada, delirante, plena de emoções. Nas aulas, nos encontros, nas reuniões, nas visitas que ela lhe fazia empolgava-se cada vez mais. Ou da força que a aproximação dela lhe transmitia, ou da condescendência das suas atitudes, por vezes, imaginava, sentia e cuidava de verdade que ela também o amava. Isso por um lado tranquilizava-o, mas por outro empolgava-o mais e concedia-lhe um misto de excitação, de tentativas de se entregar a ela. Florescia em deslumbramento, aliava-se à transcendentalidade, navegava uma alegria perene e dignificante. Aquele ano letivo havia de ser único e inolvidável. Seria consagrado como epílogo da doçura, do encanto, do enfeitiçamento. Havia de guardar em arca e marfim um papiro com o registo da suavidade daquela ternura, da sublimidade daquele estranho envolvimento. O ano do triunfo e da glória em que quebrara, corajosamente, as invisíveis amarras que o prendiam a um estúpido estatismo amoroso. Gafado, mostraria, aos que haviam espoliado a sua dignidade, a força de se encharcar numa avassaladora paixão. Ela seria inevitavelmente sua. Não abafaria mais os rugidos das suas delirantes emoções.

Despertou. Uma estranha mudança se operara nas atitudes e nos gestos dela. À medida que o tempo passava e que ano letivo se aproximava do fim, parecia aconchegar-se mais no empolgamento dos seus encantos. Tornava mais evidente, aquela estima que o mestre cuidava ser amor. Correspondência. Enlevava-se, cada vez mais, o mestre enquanto ela como que se anestesiou-se das exigências da excelência profissional. Alienou-se do rigor científico. Navegou num mar de superficialidade cuidando que o mestre, por embevecido, dormia.

No gabinete, sobre a secretária, caíram-lhe resmas de pastas, recheadas de tratados, de ensaios e de trabalhos de pesquisa, a maioria, roçando a superficialidade e a frivolidade. Relatórios sem fim! Uns melhores, outros piores. Tinha que os ler todos. Chegou ao dela. Arrepiou-se. Instintivamente, cuidou que estaria galvanizado pela sua dignidade, pela superioridade e pela excelência que, cego pela paixão, lhe empastara. Havia de o valorizar ao máximo. Ao primitivo delírio emocional sucedeu-se um grito de revolta pungente. Não tinha memória de semelhante miséria. Só poderia ser um descuido fatal, uma imprudência alheada, a réplica dum descuido involuntário. Ela valia mais, muito mais. Entre reprová-la e o deixar-se levar pelas ondas dos sonhos passados optou por chamá-la ao gabinete. Sem se importar com os comentários dos outros que, expectantes, também aguardavam veredicto.

Sentou-a a seu lado, tentando encher-se de coragem, resistindo a todas as forças que o atiçavam em estonteante devaneio. Nunca a tivera tão perto de si. Sentia-lhe o perfume, o arfar do peito, o bafejo do respirar o refolgar da sua excitação. Por entre o degote da blusa descortinava-lhe uma nesga dos seios. Ia começar. Mas não teve coragem. Pela primeira vez, sentia-se superior, dono, senhor. E ela? Uma escrava, uma serva, uma vítima indefesa. E os outros lá fora, cochichavam, murmuravam, recriminavam, teciam vis e malévolos comentários. Alheou-se e, por fim, despindo as vestes de apaixonado, de louco, encheu-se de coragem e desabou o veredicto da verdade real. Aquilo não tinha pés nem cabeça! Era uma vergonha! Uma miséria! Revelava uma incompetência total! Absoluta! Não lhe poderia dar aval. Decerto que aquilo não era ela. Não podia ser. Descuidara-se, distraíra-se, enveredara pela frivolidade, entrincheirara-se no corredor do facilitismo, nas veredas da superficialidade. Inacreditável! Inaceitável! Inconcebível! Ela, entre um misto de desânimo e aflição. Tão cruel relatório avaliativo doía! De repente, sem que o mestre contasse ou pudesse evitar, duas lágrimas amargas, petrificadas, dolentes correram-lhe pela face amolgada. Não podia crer. Nunca se havia de perdoar. Fora o causador de tão grande e terrível sofrimento. Num misto de aflição e arrependimento, colocou-lhe o braço sobre o ombro. Ela cada vez mais debulhada em lágrimas, soluçando, recostou-se a ele. Permaneceram abraçados, num terrível e brutal silêncio, apenas entrecortado pelos soluços dolorosos e compassados que lhe saíam do peito. Pouco depois o mestre, profundamente arrependido, beijou-a. Na fronte, na face. Pediu-lhe encarecidamente que se acalmasse. Não aguentava. Ia ajudá-la, se ela assim o pretendesse. Como insistisse, ela acabou por enxugar as lágrimas e aceitar. Foram tardes e tardes, na procura contínua daquilo de que afinal ela era capaz. Melhoras, muitas. Provava-se, assim, a sua excelência em detrimento de um descuido que a complacência do mestre, porque apaixonado, lhe perdoara.

Mas quanto acordou e percebeu que chegara ao fim, que via fugir a mulher que mais amara, por quem sentira a maior paixão, desejou voltar atrás. E duas lágrimas, amargas, pérfidas, terríveis, jorraram dos seus olhos. Sentia-se inundado por uma estranha luz, que lentamente se afastava, perdendo a luminosidade, deixando escorrer, em cascata, fios leves e ligeiros, que a tornavam cada vez mais frouxa, quase irreal.

E a luz foi-se desvanecendo, dissipando, extinguindo até se apagar e desaparecer por completo.

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OLHARES

Sexta-feira, 10.04.15

O Royal Queen nem sempre abarrotava de gente. Por vezes, clareiras de ponta a ponta, mesas desertas, cadeiras vazias e espaço, muito espaço livre. Henry sentava-se sempre em frente à janela. Geralmente a ler. Tardes inteiras havia em que percorria dezenas de jornais e revistas, informando e recreando-se. Apesar de ter ao seu dispor todas as revistas e jornais do café, no entanto, muitas vezes, optava por divagar, olhando para aqui e para além, para um ou outro cliente, alguns deles, também embebidos na leitura. Outras vezes, sobretudo nas tardes de chuva, entretinha-se, simplesmente, a olhar para rua. Tinha como divertimento pessoas e carros a chapinhar na calçada por entre as bátegas da chuva.

Certa tarde em que abdicara totalmente da leitura, deu de caras com uma mulher, sentada à sua frente, a duas ou três mesas de distância e que o fixava profundamente. Desviou o olhar. Mas pouco depois tornou a voltar-se na direção da enigmática personagem. Ela mantinha-se, simplesmente, a olhar para ele, a fixá-lo decisiva e avassaladoramente. Ele a simular desconhecimento de tão estranha persistência. Ela de olhar sempre fixo. Nem disfarçava. Não tirava os olhos dele. Um olhar terno, comunicativo e profundo. Penetrava-o. Entrava-lhe pelo corpo. Derretia-o. O mais sublime olhar com que alguma vez havia sido confrontado. Parecia anestesiá-lo. Que se lixassem os jornais, as revistas e até os clássicos da literatura mundial, divulgados em fascículos suplementares por um ou outro jornal. Abdicava por completo da leitura. Que nunca mais se fosse embora aquele olhar! Que nunca mais se afastassem dele aqueles olhos! Estava fascinado. E ali ficou enquanto houve olhar. Por fim, ela, elegantemente, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou o café e encaminhou-se para a porta de saída. Ao passar em frente de Henry, dirigiu-lhe um novo olhar a que misturou um leve e doce sorriso. Saiu, deixando atrás de si um rastro de petrificação e desalento. Ele ficou só, imerso num profundo e delirante alvoroço.

No dia seguinte lá estava. Ela também. O mesmo olhar ténue, limpo, doce e profundo. Reparando com mais atenção pode verificar que era uma mulher, bela, simpática, atraente e muito interessante. Casada? Bem casada ou mal casada? Isso pouco importava. Se lhe dirigia aquele penetrante e outorgado olhar era porque o queria, o desejava. Talvez até o amasse. Henry feliz, embevecido já a imaginava a entregar-se-lhe ávida, desejosa pura e virgem. Com as mãos trémulas afagava-a, percorria-lhe todo o corpo doce e meigo. Ela respondia-lhe com doces e sublimes convulsões. Vagia em delirante e disfarçada aflição. Por fim os corpos suados, cansados, intumescidos mas delirantes e vivificados voltavam a entrelaçar-se num reboliço empolgante e por jungiam-se lado a lado, quietos, repousantes a refastelarem-se nos enigmáticos meandros duma paixão acabada de consumar-se. Henry cobria-a de beijos, de carícias, de mimos.

Voltou-a vê-la, dias de pois. Várias vezes. No Royal Queen, na rua, no Parque, à entrada do local de trabalho. Sempre o mesmo olhar a simular desejos obstruídos. Sempre a mesma dúvida sobre uma paixão oculta. Um deserto de ignorância. Nunca lhe falara. Apenas lia as inebriantes mensagens estampadas no seu profundo e doce olhar. Nem sequer sabia o seu nome. Nem nunca o soube, Chamou-a de Queen em homenagem ao local onde a descobrira, onde lhe lançara o primeiro olhar e porque, na verdade ela era uma verdadeira rainha.

A sombra do silêncio ameaçou desfazer-se, numa tarde de Outono. Aproximava-se um fim-de-semana, fútil, desinteressante, igual a tantos outros. Nos corredores do velho solar corriam vultos transparentes, apressados, como ramos de árvores acossados pelo vento em noites de invernia. Um acomodou-se. Queen! Mas assim como apareceu depressa se sumiu, deixando a doçura do seu profundo olhar, o odor do seu sorriso transparente. Dias e dias se seguiram com ela a amordaçar-lhe o destino. Simplesmente com olhares. Olhares que falavam mais do que as palavras. Olhares eternos, infinitos e transcendentes.

Mas, infelizmente, eram diálogos derrelictos, gorados. Tudo se esvaneceu como o fumo lento que em cachões esbranquiçados se evola das chaminés e se perde, para sempre, nos ares.

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LIMITE

Quinta-feira, 02.04.15

O Carvalho levantou ferro da baía das Lajes com destino ao Faial já noite escura, pese embora estivéssemos em Setembro. Havia de chegar na manhã seguinte. Albano viera passar um mês de férias às Flores. Encostado à amarra do convés entretinha-se a observar as manobras que os guindastes e roldanas da proa executavam a fim de levantarem do fundo do mar a pesada âncora que prendera o navio em frente à vila, durante várias horas. Alguns marinheiros já tinham levantado a escada e fechado o portaló, trancando-o com duas grossas cavilhas de ferro. O navio, sentindo-se liberto da pesada poita, deu duas guinadas à retaguarda, apitou por três vezes, orientou-se rumo a leste e zarpou em marcha lenta, em direção ao Faial, deixando atrás de si, juntamente com o roncar estridente dos motores, uma enorme esteira de espuma esbranquiçada. Quando, na manhã seguinte, depois de uma noite calma e tranquila, voltou ao convés, já o navio, muito lentamente, rodava a ponta da doca do Faial. Em frente, a Horta, disposta em anfiteatro, virada para a majestosa montanha, encastoada entre o Monte da Guia e a Espalamaca. O mar calmíssimo estava pejado de pequenas embarcações, onde se destacavam as lanchas que chegavam do Pico a abarrotar de pessoas, de malas e de fruta, e que pareciam afastar-se para dar prioridade ao enorme paquete que, soltando três longos silvos, seguia vagaroso, com as máquinas quase paradas e empurrado pela leveza da corrente, atrás de uma pequena lancha, com a bandeira da Capitania e que momentos antes acostara, permitindo ao piloto de barra saltar para bordo e atracar o paquete à doca. O portaló abriu-se, ligando o navio à ilha, numa espécie de ponte móvel. Albano decidiu-se por sair. Daria uma volta pela cidade, aproveitando para almoçar em terra que as refeições de bordo pouco lhe agradavam. Até Angra seriam mais dois longos e aborrecidos dias, com paragens obrigatórias e demoradas no Cais do Pico, nas Velas e na Praia da Graciosa.

Assim como Albano, a maioria dos passageiros que viajava no velho paquete rumava à Terceira. Por isso, depois do navio ancorar, na enorme baía, lada a lado com o Monte Brasil, a confusão no portaló e corredores anexos era grande. Padres de redingote e assinalados no cocuruto com a tonsura, seminaristas já vestidos de fato preto e cabeção, estudantes abraçados às namoradas, soldados fardados com bivaque e com botas de cordões entrelaçados até meia perna, empregados de mãos a abanar, doentes amparados por familiares e até uma velhinha, com o rosto muito pálido, enrolado num lenço de merino e transportada numa maca. Muito a custo, com uma mala em cada mão, Albano conseguiu aproximar-me do portaló, na tentativa de apanhar a primeira lancha. De repente, mais lhe parecendo uma miragem do que uma visão deparou-se na presença da mais bela mulher que alguma vez vira. Os cabelos louros, sedosos, presos por uma enorme prisão, deixavam-lhe cair uma pequena madeixa solta, sobre a testa. O rosto, branco, fino, macio, aveludado, sublime, de uma beleza invulgar. Os olhos de um azul pouco claro mas doces, maviosos, cativantes. Um sorriso angélico, puro, jovial, a emergir de entre dois lábios ligeiramente ondulados, afoitos, perfumados com uma deliciosa e inebriante ansiedade. Uma deusa! Uma esfinge! Postada mesmo em frente ao portaló, revelava uma inócua e imperiosa vontade de seguir para terra. Ao seu lado um homem e uma mulher cumprimentavam o imediato que, gentilmente, lhes disponibilizava a oportunidade de serem os primeiros a desembarcar.

Albano estarreceu. A muito custo tentou perfurar entre aquele amontoado de gente na tentativa de também seguir na primeira lancha e, sobretudo, de observá-la melhor, segui-la de perto, descobrir quem era. Não conseguiu. E a visão que momentos antes o deslumbrara, ao descer as escadas do portaló, perdeu-se entre as sombras enigmáticas e frias das torres da igreja da Misericórdia e dos telhados das Casas Alto das Covas e do Lameirinho. Na segunda lancha conseguiu vaga. Desembarcando no cais, entregou as malas a um bagageiro e dirigiu-se, apressadamente, ao edifício da Alfândega. No momento em que entrava ela saía. Durante os dias e meses seguintes nunca mais a viu. A imagem dela, no entanto, perseguia-o dia e noite. Não o deixava…

Foi num encontro de escritores e poetas que ela lhe surgiu pela frente. Nem podia acreditar. Cumprimentaram-se, conviveram, conversaram como se fossem amigos de há muito. Ele não se contendo, falou-lhe na viagem do Carvalho, em setembro último, durante a qual, estranhamente, nunca a vira e do desembarque, na baía de Angra, onde, pela primeira vez, se apercebeu da sua presença, junto ao portaló. Que sim, que se lembrava perfeitamente dessa viagem e que, também, o tinha visto. Quando o navio, no regresso, ancorara nas Velas. Os pais haviam-na recompensado, por ter terminado o curso, com um périplo pelas ilhas dos grupos central e ocidental. Uma viagem no Carvalho até às Flores e Corvo! Tanto sonhara com aquele passeio! Infelizmente, havia-se transformado em cinco dias de pesadelo e de angústia. Passara muito mal durante quase toda a viagem. É verdade que adorara conhecer todas as ilhas, incluindo as do grupo ocidental, mas passara muito mal, durante quase toda a viagem. Aquele balançar do navio, aqueles cheiros horríveis, aquela mistura de pessoas e animais haviam-na transtornado muito. No regresso apenas se levantou do beliche quando o barco ancorou nas Velas. Lembrava-se que era aí que o tinha visto. Quando seguia para terra. Ele estava debruçado sobre a amarra do convés da primeira. Aproveitou a oportunidade para visitar a única ilha em que na ida não conseguira desembarcar. Depois, com um discurso doce, meigo, sensato e profundo descrevia as belezas de cada ilha. Albano ouvia-a, extasiado, embevecido. Parecia-lhe um sonho. Estar ali sentado ao seu lado, ouvindo-a, olhando-a, sentindo o seu respirar. Por fim, não se contendo, arriscou:

- E das Flores? Gostaste?

Adorara. Era, sem sombra de dúvida a mais bonita. Deslumbrara-se com a imponência das cascatas naturais, com a graciosidade das lagoas, com a beleza das flores e com o verde dos montes e vales. Também apreciara muito a pacatez das freguesias, a simplicidade e simpatia das pessoas, enfim, deleitara-se com tudo. Percorrera toda a ilha e, obviamente, fora à Fajã Grande. Ele podia orgulhar-se de ter nascido num dos mais belos recanto dos Açores.

- E - acrescentou com um sorriso mavioso – eu conheço todas ilhas. Em tempos idos já visitei São Miguel e Santa Maria.

A tarde decorreu sublime, maravilhosa, delirante. Nem se aperceberam do passar do tempo. Terminaram os trabalhos. Despediram-se. Albano dificilmente acreditava no que lhe acontecera. Enlevado, até então, por sentimentos recíprocos de excelência e sublimidade que saboreara com encanto e enlevo, retorcia-se, agora numa mágoa profunda, num suplício tremendo. Nunca se sentira assim. Apetecia-lhe regressar ao início da tarde. Estar ao lado dela, sempre. Era sobretudo a maneira doce e meiga com que o tratara, o carinho com que o envolvera, a alegria que sentia por estar a seu lado, que o intrigava. Ela amava-o? Esta interrogação desfazia-o. Aniquilava-o. Regressou ao quartel, deitou-se, dando ordens para que não o incomodassem. Estava doente, muito doente. No dia seguinte não se levantou, não se alimentou, nem abriu a janela do quarto. Aquele encontro desfizera-o, aniquilara-o por completo. Dois dias depois, muito a custo levantou-se. Dominava-o uma perturbante e dolorosa angústia.

Surgiram reencontros. Infelizmente, momentâneos e raros. Seguiram-se dias de calma, tranquilidade e, sobretudo, de esperança. Umas vezes encontravam-se, conversavam. Outras viam-se de longe. Ela no Fiat azul, ele a subir ou a descer a Miragaia.

Um dia decidiu tolher-lhe os passos. Descobriu onde morava, que chegara a casa e bateu-lhe à porta. Do cimo do saguão que dava para o hall de entrada, ela, não se mostrando admirada, parecendo até que o esperava, que contava com ele, saudou-o com enorme alegria. Conduziu à sala, passando uma parte da tarde em alegre convívio. Não viera a coisa nenhuma. Ela, adivinhando-o, nem lhe perguntou ao que viera.

E foi no sarau da festa de São João que voltou a encontrá-la. Inicialmente rejeitara convites que o comandante lhe disponibilizara. A ele e a todos. Não tinha nem queria ter amigos a quem os entregar. Nem se lembrou que ela estivesse interessada. No dia seguinte encontrou-a na rua. Falou-lhe da festa, Para espanto seu, ela confessou que adorava ir. Ele emudeceu. Bem que poderia ter guardado os convites. Dois. Um para ela outro para a avó. Desesperou. Havia de os arranjar, custasse o que custasse.

Regressou a casa e procurou o comandante. Deparou- com duas desistências. E na tarde do dia seguinte esperou, ansiosamente, pelo Fiat azul. De novo, meiga, sorridente e bela como nunca, assomou no cimo do saguão. Convidou-o a subir. Tão grata que lhe ficava. Não tanto pelos convites mas, sobretudo, por ele estar ali. A mãe apareceu mas retirou-se de imediato. Para além de muita pressa não queria incomodar. A Jerónima havia de servir um chá com biscoitos.

A tarde foi doce e envolvente. Falaram, riram, sentiram-se um para o outro. Nem por nada deste mundo faltaria ao sarau. As luzes, as cores, os sons haviam de revesti-la duma áurea de sublimidade, cobri-la com um manto de excelência, orná-la com o resplendor da sua beleza. Ela fitava-o com atenção, olhava-o com carinho, sorria-lhe com doçura, enlevava-o com amor. Foi a noite mais envolvente de todas as noites, a noite de que nunca mais haviam de esquecer-se.

Trucidou-a dias depois, a predição da partida. O incontrolável e inconcebível limite de tão profunda relação. Ele, enfiado num casulo de indiscernimento, embora muito a medo, anunciou-lhe que partia, num destino incerto, nebuloso e indefinido. Consubstanciava, desta forma, a ridícula rejeição do destino que só haviam delineado, de que eram donos e que só eles conheciam. Ela revoltada, sentida, estigmatizada, retorquiu com mágoa:

- Na próxima semana, também parto, definitivamente. Para Londres.

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RESPEITO

Domingo, 29.03.15

Eram colegas de profissão e trabalhavam na mesma empresa. Ele mais velho, mais experiente, mais conhecedor. Chamava-se Jerónimo, ia fazer quarenta anos e era um homem vivido, sabedor e comunicativo. Apesar de abalroado por uma ténue calvície, encastoado num corpo franzino, acachapado e pouco desenvolto, revelava uma inebriante simpatia, olhos claros, rosto sereno embora um pouco cerdoso, intercalado com bátegas de um débil e, por vezes, inseguro sorriso. Era um homem de vontade segura, decidido nas suas atitudes. Umas vezes um pouco tímido, outras, excessivamente meticuloso. A impressão geral que dele se tinha era a de que, quando se solicitavam os seus préstimos, desdobrava-se em atenções excessivas, em cuidados demasiados, em preocupações prementes. Ajudava os mais fracos, aconselhava os mais novos, tentava alegrar os mais tristes. Ela mais nova, sem experiência, embora muito inteligente e estudiosa. Havia terminada a licenciatura e fora colocada, como estagiara, na empresa onde ele trabalhava. Foi decidido que havia de ser ele a orientar-lhe o estágio. Natália, para além de simpática e atraente, era uma jovem inebriantemente bela, elegante e delicada. Aplicava-se ao trabalho com afinco, empenhava-se no exercício da sua atividade com dedicação revelando uma enorme vontade de aprender, de singrar com êxito, profissionalmente.

Quando a viu pela primeira vez Jerónimo dos Santos já sabia que iria ser sua estagiária. Não apenas se deslumbrou como também se ufanou-se, em demasia. Não se importava nada de ser o responsável pelo estágio de quem quer que fosse. Conhecia, em profundidade os meandros da sua profissão, tinha um acervo de experiência e de conhecimentos muito grande e gostava de os partilhar. Era considerado como um dos melhores e mais competentes trabalhadores da empresa. Além disso, orientar estágio enriquecia-lhe o currículo e aumentava-lhe o ordenado no fim do mês. Mas ter como estagiária uma jovem bela, terna e meiga como Natália era um orgulho. Fascinava-o ainda mais. Era bem mais agradável trabalhar ao lado duma mulher jovem, bela e bonita. Havia de privar com ela dia a dia, trabalhar a seu lado, partilhar dificuldades, problemas laborais, envolver-se em tarefas similares. Havia de estar com ela em cada momento, não apenas nas horas de trabalho e nas reuniões mas também nos momentos de descanso, nas pausas para o almoço e para o lanche. Haviam de tornar-se grandes e verdadeiros amigos.

Feitas as apresentações, traçadas as metas pretendidas, elaborados os horários de trabalho e as horas de acompanhamento, selecionadas as estratégias mais adequadas ao sucesso da nova estagiária e iniciado o trabalho, Jerónimo passou a considerar Natália não como uma estagiária e aprendiz mas como uma colega, uma profissional. Natália, que inicialmente encarara o estágio com algum medo e apreensão, respirou de alívio. Jerónimo facilitava-lhe ao máximo os trabalhos e estudos. Apoiava-a com carinho, orientava-a com ternura, acompanhava-a com amor, incentivando-a nos momentos de desânimo, ajudando-a reparar as falhas, valorizando os seus méritos, transformando os seus fracassos em vitórias. Natália sentia-se feliz, realizada. Em casa não cessava de proclamar e bem dizer as atitudes bondosas e os gestos de carinho do seu orientador. A mãe, apreensiva, bem a avisava. Que tivesse cuidado! Um homem mais velho, com atitudes tão carinhosas, íntimas talvez, podia muito bem ser lobo com pele de cordeiro. Que se cuidasse! Que se afastasse. Ela que não. Ele era tão bom, tão delicado, tão terno e tão meigo e, sobretudo, tão respeitador, sem nunca tomar uma atitude de que pudesse suspeitar. Não poderia nunca duvidar das suas atitudes, do seu carinho, da sua bondade. Queria-lhe como um pai!

Na empresa, Jerónimo e Natália envolviam-se cada vez mais. Nos corredores, já se comentava, à boca baixa, os excessos de tão íntimo e profundo relacionamento. Jerónimo, ao tomar conhecimento, através duma colega que jurava que apenas lhe queria evitar problemas, ficou mais atento, mas não se desviou dos seus habituais procedimentos. Era a sua forma de ser e nada havia feito que o denunciasse. Nenhuma atitude o comprometia. É verdade que se afeiçoara muito à garota, que lhe queria muito e até, no seu íntimo, desejava-a com mulher. Bela, atraente e meiga atraía-o em cada hora e em cada momento. Quando distante, o fantasma da sua imagem perseguia-o, persistentemente. Mas na presença dela, quando a tinha a seu lado, nos momentos e nas horas de trabalho, apesar de quase perder a respiração, evitava toda e qualquer atitude que o denunciasse. Ajudava-a, apoiava-a, fazia tudo por ela mas sem nunca se comprometer. Natália nunca percebeu que, encoberta entre toda aquele carinho, dedicação e ajuda, havia um grande amor, uma enorme paixão. Continuava, simplesmente, a sentir por ele um grande carinho, uma nobre estima e um sentido agradecimento. Apreciava-o como profissional e sobretudo como homem, sem no entanto o amar de verdade. Jerónimo sabia-o e isso doía-lhe. Encapuzava-se com o manto de um terrível dissabor, refugiando-se numa espécie de fortaleza de silêncio indestrutível, que, emocionalmente, os separava. No seu íntimo contorcia-se de dor, por vezes de raiva, como um condenado. Fazia tudo por ela, desfazia-se em cuidados e preocupações. E a resposta? Apenas estima, consideração, respeito e amizade. Sim! Ela tinha, por ele uma grande amizade e um profundo respeito. Disso não duvidada. O que o trucidava e, por vezes, quase aniquilava era a certeza de que a sua enorme paixão não era nem nunca seria correspondida. Alçapremado num sonho delirante e ousado, caía, vezes sem conta, como um pássaro atingido por um tiro de espingarda. Ela desbaratava-o com uma ligeireza de quem se não impressiona perante nenhuma forma de inocência. Descartava-o sem pejo. Talvez ignorasse ou nem sequer percebesse quanto ele a amava. Para cúmulo, não se coibia de, na sua presença, proclamar um rosário de loas, uma litania de laudes e referências contínuas ao seu namorado.

Mas a matilha dos delatores aumentava, intensificava-se, ganindo com mais insistência. Chegou ao pondo de um pequeno grupo, mais íntimo, não se conter. Mesmo na presença dela disparou. Atirou-lhe de chofre o anátema de assédio. Aquilo não era só profissionalismo. Havia pormenores, atitudes, procedimentos que o denunciavam. Ele descartou-se com a destreza do costume. Ela emudeceu. Não tivera coragem para lhe defender a honra, em público. Mas, no aconchego da intimidade, continuava a confiar nele, respeitá-lo como sempre. Nenhuma palavra, nenhuma atitude, nenhum gesto, jamais, o denunciara. Mas defendê-lo, em público, tornava-se arriscado, pese embora fosse um dever, uma obrigação de que se coibia. Que mais não fosse, havia coisa mais curial, prova mais clara do que continuar ao lado dele, a dar-lhe crédito, aceitação. Era a prova mais evidente de que acreditava na sua inocência.

Mas para Jerónimo o mais preocupante e dramático era o aproximar-se o fim do estágio. Uma esperança havia-o domado durante muitos meses. Agora porém esfumava-se. A empresa não aceitava estagiários. Para além do incerto, ficariam separados. Separados para sempre.

Foi um dia de grande mágoa aquele em que Natália partiu. Encerrava-se, num ápice, o supremo gozo de um ano de convivência, de companheirismo. Envolveram-no dissabores amargos, mágoas dolentes, silêncios profundos. Ela ficava-lhe eternamente agradecida. A promessa de nunca mais o esquecer conjugava-se com a incerteza de se voltarem a encontrar. Nada mais. Um agradecimento selado com um terno e meigo abraço. Do tamanho do mundo.

Na fumaça da separação, Jerónimo viu-a depois, apenas duas vezes. Uma a imiscuir-se entre rajadas de barbárie, outra na doce companhia da mãe. Tinha muito gosto em conhecê-lo e, sobretudo, em agradecer-lhe quanto tinha feito pela filha e, sobretudo, pelo respeito com que sempre a obsequiara.

- Respeito!? – Repetiu Jerónimo, em voz baixa.  E afastou-se, cabisbaixo.e

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VIL INDIFERENÇA

Terça-feira, 24.03.15

Ricardo amava Aurora desde de criança. Sem ser uma paixão profunda, uma desmedida loucura, sentia por ela um encanto maravilhoso, uma admiração deslumbrante, um amor sublime. Conheciam-se desde a escola primária. Cresceram, aprenderam, estudaram lado a lado. Ele a admirá-la, a contemplá-la, a amá-la num silêncio magoado. A conter-se, a fechar-se, a esconder os sentimentos. Enfiado no casulo da sua timidez, perseguia-a, seguia-lhe os passos, auscultava-lhe os desejos, antevia-lhe os sentimentos. Ela forte, destemida, alvoroçada, espraiando-se em cometimentos fúteis, adivinhava-lhe os sentimentos, retribuindo-lha com uma vil indiferença. A conviver com todos, sem, no entanto, se entregar a nenhum. Isso, para além de o intrigar, obrigava-o a fechar-se ainda mais, a ocultar-se em sombras mistificadas, a perder-se em desertos de silêncio. Por vezes aparentava querer fugir dela. Por outras simulava afastar-se. Mas não. Queria sim, estar com ela, envolver-se nas suas vivências, partilhar os mesmos espaços, respirar o mesmo ar, talvez moldar-lhe os sentimentos. Ela não percebia, ou melhor, fingia não perceber. Talvez até o julgasse um crápula, um perverso que, simplesmente, pretendia assediá-la. Por isso, em resposta, parecia desfazer-se em desinteresse contínuo, em desatenção permanente. Por vezes rondava a indiferença. Uma verdadeira e vil indiferença. Perdida, entre divertimentos e brincadeiras parecia olvidar os tempos de outrora, marginalizando-o, retirando-lhe, em absoluto, a vontade de querer estar a seu lado, o direito de se aproximar dela, de se tornar companheiro, de se integrar no seu quotidiano. Para Aurora, Ricardo tornara-se uma espécie de ténue brisa, desfeita pela ousadia com que, persistentemente, pretendia toldar-lhe os passos, envolvê-la em cometimentos ousados, depravados. Havia de encaminhá-lo a esquecer os primórdios do seu relacionamento. E foi assim que novos amigos vieram abalroar-lhe o destino. Os seus padrões sentimentais e afetivos alcandoravam-na a um patamar muito alto. As suas atitudes acediam a um mundo de sonhos, de deslumbramento. O seu instinto parecia segredar-lhe que jamais voltaria a sentir o que ele cuidava que ela havia sentido. Ele, cada vez acabrunhado, mais derreado, mais abalroado pelo seu afastamento, mais aniquilado pelo seu aparente desprezo, pela sua enigmática frieza.

Foram meses e anos a construir esta espécie de indiferença simulada. Ele a tentar, a querer impor-se, a desejá-la. Ela a fugir, a afastá-lo a outorgar-lhe, com recompensa, indiferença. Simplesmente indiferença. Por vezes, o empenho dela em desmoronar-lhe os sonhos era tal que o ambiente que os rodeava se tornava quase insustentável. Outras atingia limite.

Aurora era uma mulher forte, afoita e corajosa. Sem ser bonita era bela, sem ser elegante era atraente, sem ser deslumbrante era corajosa. Era enfática, lutadora, sacrificada. Enigmática e, por vezes, contraditória. Caminhava na dúvida mas cheia de certezas. Chorava de alegria e sorria com a tristeza. Acreditava quando ninguém mais acreditava, sonhava quando mais ninguém sonhava, esquecia quando alguém a lembrava. Módica em palavras extravasava de emoções. Escondia-se na sombra dos sentimentos e manifestava-se no encobrimento das atitudes. Parecia assenhorear-se de um suave e enigmático deslumbramento. Vivia com empenho desmesurado e dignidade excessiva, apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das deceções que a rodeavam. Era uma mulher de sonho.

Caminharam, lado a lado, meses e anos pontuados de encontros vácuos, inócuos sem qualquer envolvimento físico. Muitas vezes sem uma palavra, sem um gesto, sem uma atitude. Depois, um afastamento inusitado durante o qual, ela, sem se dar conta, foi esquecendo o que percebera e o que sabia que Ricardo sentia por ela, enquanto ele no deserto da ausência sonhava com aquele corpo forte, túmido, deslumbrante e, terrivelmente atraente. Ele cada vez mais preso ao capricho duma paixão irreal, ela reduzindo-o a um simples, banal e desinteressado amigo.

O tempo passou deixando-lhes marcas indeléveis. Nela aumentando o deserto do esquecimento, da indiferença, nele diminuindo o fulgor da paixão, do amor. Às vezes Aurora tinha dúvidas. Do que significou para si tanta indiferença e os estilhaços caídos sobre Ricardo. Depois recuava e tentava ressarcir-se. Umas vezes tarde de mais, outras, sem ele saber. Um dia quis o destino que se reencontrassem. Foi na festa do Patrocínio. As ruas cheias, a igreja a abarrotar. Depois a procissão, a filarmónica, o arraial e o jantar de encerramento para o qual ambos foram convidados. Nenhum sabia da presença do outro. Estavam sós. Parecia que ao redor, ninguém os conhecia. Sentaram-se juntos â mesa. Um em frente do outro. Conversaram, falaram, mandaram às urtigas bloqueamentos, desertos e indiferenças. Só então Aurora se apercebeu de que, em tempos idos desperdiçara a excelência da paixão que emanava dele. Agora, olhava-o enternecida. Afinal, no fim de um longo percurso partilhado mas desértico, tinha começado a sentir que, verdadeiramente, o devia ter amado desde sempre. Desde os primórdios. Como ele a amava. Enfim! Chegara, na verdade, a hora, de perceber quanto ele a amava, quanto a queria, quanto a desejava. Ele empertigado na excelência dum sonho que afinal parecia tornar-se real. Foi uma pausa longa na indiferença. Um pacto de trevas no esquecimento E se nem a amizade, no passado, parecia uni-los, ela agora navegava no deslumbramento duma paixão comum, recíproca.

Mas, inacreditavelmente, sem que o esperassem e muito menos desejassem, uma densa e escura cortina de fumo desdobrou-se sobre o jantar da festa do Patrocínio, separando-os para sempre, tornando ainda mais terrivelmente assustadora, quiçá definitiva, aquela vil indiferença com que ela, desde sempre, excetuando aquela noite, o obsequiara.

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ENCONTROS

Domingo, 22.03.15

Foi num julho sem aulas e sem sol. Os placards enchiam-se de cartazes, anúncios e avisos. Punham a escola viva, fresca, desassossegada. Em polvorosa. Professores empurravam-se e acotovelavam-se na tentativa de descobrir e decifrar as tarefas que, por decisão irrefutável do Conselho Diretivo, lhes tinham sido atribuídas e lhes haviam de preencher os dias enquanto aguardavam o almejado agosto, recheado de férias, de descanso e de dias amarelados. Era segunda-feira. Ele aguardava sereno, despreocupado, atrás dos últimos. Aceitava com desfastio qualquer lengalenga trivial que lhe traçasse o destino. Um abalroamento desinteressante a que já se habituara, em anos anteriores. Ela, entre os primeiros da frente, aflita, nervosa, preocupada em saber não apenas o que lhe caberia em sorte mas também os parceiros de tão fúteis tarefas. Perfilava-se na emergência de um dececionante desencantamento. Uma preocupação exageradamente desmedida, desajustada, ingénua e vácua. Não lhe apetecia rigorosamente nada ser emaranhada nalguns daqueles aberrantes e inúteis dinamismos. Muito menos partilhar efémeras e simuladas jactâncias pedagógicas, aliar-se a bajuladores, misturar-se com fiéis servidores, enfim, perder tempo ou imiscuir-se em futilidades. Infelizmente, não se podia excluir daquela lírica empreitada. Os nomes passavam, as tarefas atulhavam-na, as folhas esgotavam-se. No último canto da grelha - Álvaro Belchior, Solange Franco e Sofia Pinto:

- Sortuda! Ficas sozinha com o Belchior! A Solange Franco pisgou-se. Forjou uma escapadela… Vai para uma formação…

Durante os dois anos que ali tinham estado juntos, pouco haviam convivido. Horários trocados. Ela sempre expedita e apressada, pouco conversadora e pouco dada a funçanatas. Ele experiente, desinquietado, por vezes, tímido. Mas cedo dera por tão cativante presença, a que, estranhamente, nunca se aliara. Há muito que a via, que a admirava que sonhava com uma oportunidade de estar com ela, de sublimar a sua presença. Agora, inesperadamente, unia-os o destino. Juntava-os a ocasionalidade. Era justamente a altura de se ressarcir do deserto criado, de lhe dizer tudo o que de há muito sentia e que ela, por certo, não imaginava.

Agendaram, frugalmente, o horário da manhã seguinte. Ele regressou a casa incapaz de a tirar do pensamento. Tivera sorte. Aguardava, com ansiedade, as vivências, os trabalhos dos dias seguintes. Apetecia-lhe perpetuá-los por todo o verão.

- Às dez! – Repetira ela, com um doce sorriso e uma profunda convicção. – Às dez! Não te esqueças.

E ficou-lhe, na ideia, um ténue presságio de que ela também estava feliz por saber que o seu nome tivesse ficado no canto daquela página, ao lado do dele e sem a Solange.

Para além de simpática e atraente era muito bonita. De pele morena, cabelos sedosos e olhos acastanhados, impunha-se sobretudo, pela sua singularidade, pela sua ternura, pela sua sensibilidade. Ao seu lado, como que tímida e desencorajada, ainda o impressionava mais. Os buraquinhos cravados em ambas as faces quando esboçava um sorriso e a inocência do seu olhar davam-lhe um ar de criança grande. Os seios, finamente cobertos por uma leve blusa, pareciam outeiros de virgindade. O corpo, macio, fino, acetinado aureolava-se duma dignidade vertiginosa. Toda ela consubstanciava uma pureza invulgar e inaudita.

Imiscuíram-se nos trabalhos que o cabeçalho do último canto da grelha lhes impusera, com alegria, prestígio e brilho. Em três dias tudo pronto… Na tarde do último dia, como lhes sobrasse tempo, tiraram uma pausa para o lanche. Ela desabafou:

- Tinha sido tão bom trabalhar com ele e só com ele!

Ufanou-se! Aquilo dito por ela, com tamanha convicção e sinceridade, arrasava-o. Estilhaçava-lhe o coração, açudava-lhe o instinto. Como a agradecer-lhe colocou-lhe a sua mão direita sobre a esquerda dela. Estremeceu. Uma estranha energia fluía do seu corpo, atormentando-o em dulcificado sentimento. Amava-a, de verdade e ele também não lhe parecia ser indiferente.

Foi com muita mágoa e grande dor que se despediram… Até um setembro longínquo. Pelo meio, havia que atravessar um agosto moroso, infinito. De saudade.

No início de setembro ela regressou trazendo um enorme e doce abraço misturado com uma trágica notícia. Aguardava colocação e as probabilidades de não ficar por ali eram muitas. Caíram numa mágoa recíproca. Avassaladora. Ao drama da separação juntava-se o infortúnio do incerto. Separados, viveram dias negros, obscuros, dramáticos. Por fim veio a melhor das piores notícias:

- Fora colocada, sim senhor, mas a mais uns cinquenta quilómetros!

Ele sufocou! Agora que se conheciam, que se amavam, que se queriam tanto um o outro, o destino, perverso e pérfido, separava-os. Apetecia-lhe pedir destacamento. Seguir-lhe as peugadas. Ela bem o tentava demover de tão atroz cometimento. Nas idas ou nas vindas, havia de parar, haviam de encontrar-se, reparando os estigmas da separação. Mas isso seria pouco, muito pouco. Sabia muito bem que era o fim do princípio com que tanto sonhara. Era um destino cerceado pela inacessível presença dela. Os projetos delineados no julho da descoberta, da destruição das sombras e das hesitações abalroavam-se, agora, por completo, deixando-os, estarrecidos, num abandono desditoso e prematuro.

Restava-lhes apenas cravarem, reciprocamente, as imagens de um no outro, e de tal modo se aquietarem, disfarçadamente, inundados no resplendor da esperança de novos e frequentes encontros:

- Sempre que possível!

- Não! Sempre! Sempre! Mesmo quando impossível.

Ela sorriu e partiu triste, muito triste.

Foi pelos Santos que ela lhe telefonou. Propunha-lhe um almoço, a sós. Ela vinha mais doce, mais meiga, mais ternurenta, mais bela e, sobretudo, mais apaixonada.

No enlevo em que ficara, nem atinou com o local. Foi ela que sugeriu. Aceitou de bom grado. Mais do que o repasto agradou-lhe a presença dela. Mais atraente, mais sensível, mais alegre, mais sublime, mais amorosa. Ela própria também desejara muito aquele encontro. Admirava-o, regozijava-se com a sua presença, ufanava-se da sua amizade, amava-o. Os minutos reservados ao almoço tornaram-se escassos e a tarde sumiu-se depressa. Despediram-se, com mágoa, arquitetando novos encontros. Perto da nova escola. Se pudessem aproveitar um furo, um resto de tarde, quiçá uma manhã livre…

E, na verdade, seguiram-se repetidos encontros. Frugais e breves, mas ternos, meigos e muito desejados. No mesmo café, na mesma mesa, no mesmo canto, no mesmo deslumbramento. Pena estarem-lhes cerceados os sonhos, os desejos, a vontade de entrega recíproca. Quando um silêncio intempestivo, contemplativo não os domava, falavam de tudo. Era sempre ela a começar, como no dia em que viram os seus nomes juntos, num dos cantos do placard da escola. Por mais que desejasse, nunca ele se atrevera a dar o primeiro passo. Só quando ela quebrava a soturnidade ele extravasava num contentamento desmedido, novo e puro.

Era outra vez julho. Mas não havia mais nenhum placard cheio de cartazes, a anunciar as tarefas que lhes haviam de preencher os dias enquanto aguardavam o mais terrível agosto de sempre, o agosto da separação definitiva, seguido de muitos outros agostos, setembros, todos os meses do ano, definitivamente, vazios de encontros.

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RUE LAMARK

Quarta-feira, 18.03.15

O comboio das oito era um caos, uma babel. Carruagens havia onde não cabia mais um cabelo. Nem sardinha dentro de lata. Homens, mulheres, jovens e crianças, uns com destino ao emprego outros à escola, amontoavam-se, apertavam-se, acotovelavam-se, empurravam-se na tentativa de ganhar uma nesga de espaço que lhes permitisse viajar com algum desafogo. Impossível! Ao sufoco e ao congestionamento aliavam-se a indignação e os protestos. Mas nada havia a fazer. Era correr, empurrar, puxar, agarrar, escapulir, na mira de conseguir um lugar, mesmo que fosse de pé, agarrado a um varão ou preso aos barrotes das portas. Em dias de feira tudo piorava. Um martírio, um tormento. As carruagens apinhavam-se e até pareciam rolar mais lentas, carregadas com aquele amontoado de pessoas, a que se juntavam cestos, sacos, malas e muitas outras bugigangas. O comboio deslizava, imerso numa espécie de turbilhão, arrastado, vagaroso, quase morto, a matutar como um imbecil, aos solavancos, sobre os carris, atirando ao ar rolos de fumo enegrecido, intercalados com gemidos roufenhos.

Era na viagem das oito que Eduardo viajava todos os dias. Levantava-se, vestia-se, lavava-se à pressa e corria para a estação na demanda daquele inferno. Um turbilhão a que, com muito custo, se fora habituando. Atrasar-se, impossível. Só de verão havia um pouco mais de espaço e um ou outro assento vago. De resto, aquela inconcebível e hedionda barafunda.

Numa manhã, porém, atrasou-se e deu de chofre com a carruagem em que tentava, a todo o custo viajar, cheia que nem um ovo. A abarrotar pelas costuras. Tentou entrar, sem sucesso. Um valente empurrão e a porta, automática, rígida, implacável, a fechar-se. Trancada a sete ferros! Incapaz de se reabrir. De dentro um sorriso meigo, doce, compreensivo, do tamanho do mundo. Um sorriso de compaixão que lhe veio anestesiar a angústia da perda. Na manhã seguinte apressou-se, esperou na gare e deu de caras com ela, a mulher do sorriso da véspera. Que a desculpasse, que tinha feito o possível e o impossível a fim de que a porta não se fechasse... Esforços inúteis. Nessa manhã, foram dos primeiros a entrar na carruagem da frente. Sentaram-se lado a lado.

Era uma mulher bela! Acompanhava cada frase que proferia com um sorriso de ternura, invulgar e cativante. Chamava-se Isaura, Isaura Nogueira. Fontenelas, por casamento. E para espanto de ambos, trabalhavam no mesmo hospital. Nunca se haviam cruzado, obviamente. Ela fora transferida, uma semana antes, para o Santa Eulália. Trabalhavam em serviços diferentes, mas lado a lado. Regozijaram-se. Haviam não só de viajar juntos mas de conviver em muitos momentos, muitos dias. Todos os dias. Riram como loucos.

No regresso do primeiro dia não viajaram juntos. Mas Isaura não lhe saiu do pensamento. Durante toda a noite. Na manhã seguinte, lá estavam, na gare, bem cedo, à espera um do outro, cumprimentando-se de beijo como se desde há muito se conhecessem e fossem grandes amigos.

Os dias e os meses foram fluindo e consolidando uma amizade sólida, gigantesca e tremendamente deslumbrante. Enquanto aguardavam o comboio, durante as viagens, à hora do almoço, nos momentos de pausa do trabalho. Não havia nada nem ninguém capaz de os separar. Mantinham-se lado a lado, numa comprometedora comunhão de sentimentos, num fascinante partilhar de emoções, num recatado comungar de intimidades. Isaura deslumbrava-se com a pacatez de atitudes dele, com os valores que defendia, com os sentimentos que o domavam. Mas quem mais se empolgava em tão inebriante contubérnio era ele. Admirava-a física e moralmente. Fascinava-se com o elegante perfume do seu corpo, encantava-se com a doçura do seu sorriso, confundia-se com a sua dignidade de mulher, a sua postura, a sua verticalidade, numa palava: ela atraía-o. Avassaladoramente. Isaura era uma mulher de sonho. Um encanto, um deslumbramento. Idolatrava-a. Desejava estar, permanentemente, com ela, sonhava com a sua presença dia e noite, amava-a apaixonadamente. E, em boa verdade, ele também não lhe era indiferente.

Um dia em que saíram mais cedo, rumaram ao shopping mais próximo. Dali a casa dela, um triz. Era um apartamento pequeno, decorado com gosto, ladeado por um exíguo terraço ao lado da cozinha. A sala repleta de fotos. Dos pais, dela, quando criança e quando jovem. Fotos do filho, do casamento e uma, apenas uma, do sacripanta do marido. Homem de negócios e de muitos relacionamentos. Alguns a cravarem-lhe amargos estigmas. A convivência entre eles já passara por melhores momentos. O biltre ausentava-se dias, semanas a fio e, o pior, é que isso já não a incomodava.

Era quase noite quando Eduardo abandonou o apartamento e voltou a casa. Estava feliz mas confuso. Mais. Dominava-o um estranho e duvidoso arrependimento. Fora ingénuo, inseguro, talvez tímido. Podia tê-la abraçado, beijado, possuído. E ela? Rejeitá-lo-ia? Permanecia imerso numa dúvida monumental e tormentosa. Com um crápula daqueles a desprezá-la, talvez até ousasse vingar-se. O facínora tinha cara de cabrão. A cabeça ardia-lhe, atulhada, confusa. Talvez tivesse sido melhor assim. Poupá-la a um leviano atrevimento. A uma ousadia irrefletida. Caso contrário, poderia ter posto termo à enorme amizade que os unia. Desesperado meteu-se no duche e deixou a água escorrer-lhe pelo corpo, reavivando-lhe as estranhas sensações daquela tarde. Embora ela não estivesse ali presente, sentia a fusão íntima dos seus corpos a unirem-se numa sublime-me pulsão. Sem a ter amou-a como se a tivesse. Entregou-se em sonho! Na manhã seguinte, lá estava ela, na gare, à espera dele, com o suave sorriso de sempre, deixando-o imaginar que afinal ela talvez o tivesse possuído da mesma forma como ele a possuíra durante o banho da noite anterior.

Seguiram-se dias de enlevo, empolgantes e resplandecentes. Estar na presença dela, partilhar um momento que fosse, era, para ele, uma sensação algo divina, tal o enorme bem-estar que ambos sentiam, quando se encontravam. Ela também se aventava cada vez mais. Só quando floresceram os primeiros murmúrios entre colegas, ela decidiu aquietar-se, chamando-o para uma conversa séria, fria. Sabia muito bem o que ele sentia por ela. Ele não sabia disfarçar. Mas havia de cuidar-se. Não devia manifestar-se de forma tão contundente e denunciadora. Já se comentava à boca cheia. Haviam de moderar o seu relacionamento. Pulhas! Que não o abandonasse, agora. Inevitavelmente não poderia viver sem ela. Imoral? Mas imoral para quem? Onde estava a imoralidade de ser abalroado por uma avassaladora paixão? Sem ter culpa. Há sentimentos que nos devoram e que não podemos domar. Ela a tentar demovê-lo. Ele num mar de dor e sofrimento.

Dobrado o cabo das tormentas, tudo se reavivou. Apesar dele, nos primeiros dias, muito a custo se encafuar, mais cuidadosa e disfarçadamente, nos meandros daqueles encontros cada vez mais cativantes e envolventes. Mas não conseguiu. Ao fim duma semana, tudo se reavivou e voltou a resplandecer. Meses depois um amigo emprestou-lhes a casa. Não estavam sós. Foi um banho na piscina da luxuosa mansão que permitiu a Eduardo ver e apreciar-lhe o corpo esbelto, acetinado, macio, suavemente bronzeado. Cresceu o fascínio. Aumentou a paixão, aureolada com o sofrimento de saber que ela, afinal, não era sua.

Isaura conhecia-lhe os sentimentos, adivinhara a paixão que ela própria lhe despertara. Sentia-se lisonjeada. Era uma mulher alegre, divertida. Adorava festas e convívios. O sacripanta já lhe propusera o divórcio. Mas ela, em vez de se dilacerar, libertara-se mais. Divertia-se à brava. Extravasava, enquanto ele se fechava cada vez mais no casulo da sua timidez. Maldito divórcio! Enquanto a ela lhe permitia reconquistar a liberdade perdida, exorbitando em devaneios e farras, deixava-o a ele, numa profunda e dilacerante letargia. Sofria com as loucuras que a domavam, com as estravagâncias em que se envolvia. Sensível ao sofrimento dele e a quanto isso lhe trazia de amargo e doloso, Isaura como que se deixava abalroar por uma inequívoca loucura. Sem que ninguém o pressentisse decidiu partir para longe. Emigrar. No início do novo ano seguiria, definitivamente, para Paris. Afastados, ele havia deixar desmoronar, lentamente, a loucura que o perseguia, a paixão que o subjugava.

Eduardo estarreceu! Não podia acreditar! Entrou numa medonha depressão, com laivos de loucura misturados com raiva. Os dias, para ele, tornaram-se negros, o tempo desajustado, o trabalho fútil, a vida sem sentido. Ela apercebendo-se de iminente derrocada, dum colapso brutal, bem o tentava acalmar. Haviam de falar, de ver-se pelo Skype. Além disso, Paris estava cada vez mais perto. Os low cost da Ryanair haviam de a trazer. Talvez o levassem até lá. Mas ele não se continha. Nada o aliviava da sua mágoa, do seu desalento. Simplesmente, lhe pedia, repetidamente, que não fosse, implorava-lhe, ardentemente, que ficasse.

Mas Isaura não se demoveu da sua decisão. E numa tarde fria, negra, asquerosa e degradante partiu. Eduardo chorou, amargamente, a tarde inteira. Ainda lhe telefonou, uma última vez, a tentar demovê-la. Nada. Nas noites e dias seguintes, entre sorvos de amargura e tragos de sofrimento, a imagem dela perseguia-o, aniquilando-o, destruindo-o por completo. Não se contendo, meses depois rumou a Champ d’Ór, à Rue Lamark, unindo-se a ela num longo e profundo abraço. Regozijaram-se, envolveram-se e regressaram, por um dia, às vivências empolgantes das viagens de comboio e das pausas de trabalho no Santa Eulália. Eduardo, tímido voltou a hesitar. Recuou, transformando o que poderia ser uma entrega amorosa, quiçá definitiva, numa simples visita, num vulgar encontro de amigos. Tudo efémero, a exigir um segundo encontro, dois meses depois. Partia, desta feita determinado, plenamente convencido de que o mais sublime e inebriante havia de acontecer. Seria o início da vivência com que há tanto sonhara.

Eduardo, na verdade, ia decidido. Profundamente persuadido. As mensagens e os telefonemas trocados, desde há muito, revelavam que ela também o amava. Chegara o momento. Foi mais fácil encontrar o 1324 C da Rue Lamark. Era a segunda vez que por ali vagueava. Tocou a campainha. Nada. Voltou a tocar. Nada. Apreensivo, tocou mais uma, duas, três vezes. Por fim chegou a voz dela. Sonolenta, confusa e, aparentemente, apreensiva. Que esperasse. Dez minutos. Iria arranjar-se e descer. Que aguardasse no café, em frente.

Eduardo achou estranho! Amedrontado, perplexo, entrou no café. Esperou dez, vinte, trinta… Mais de uma hora. Por fim ela desceu, mas não vinha só.

 

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ALVOROÇO

Sábado, 28.02.15

Olhos grandes e esverdeados, a quererem engolir o mundo. Cabelos serpenteados e loiros a desafiar o vento. Boca acetinada a desenhar-se em sorrisos sublimes e um rosto ligeiramente moreno, perfumado a alecrim e a poejo, a confundir-se com o despertar das madrugadas florescentes. Corpo esbelto, elegante no andar, radiosa no trato, de fina sensibilidade ao exprimir-se, numa palavra – uma doçura.

Dera-lhe cabo da inocência o estafermo do José do Grotas, ao catrapiscar-lhe o olho. Era ela ainda muito nova. Ele? Um pulha! Barba por fazer, bigode espesso a cair-lhe da cara. Um barra botas mal-amanhado! Já fizera vinte e aguardava as sortes. Por certo que havia de ficar dentro e bater com os costados no Faial ou na Terceira. Pelo menos uma dezena de meses, talvez dois anos, havia de por lá ficar. O diabo era se fosse mobilizado para o Ultramar.  

E do ano dele foram todos apurados! No Carvalho de maio marchou para a Terceira. Assentou praça no Castelo de São João Batista, no Monte Brasil.

Ao princípio ela sentiu falta dele e, no dia do embarque, até chorou. Afeiçoara-se ao magano, apesar dos mexericos pouco abonatórios que sobre ele corriam na freguesia. Mexericos são mexericos… Mas do estatuto de malandro, de grandessíssimo preguiçoso é que não se livrava. O pai a ceifar, a mondar, a lavrar. Cestos e molhos às costas a cada hora do dia, a trabalhar como um mouro e o filho da manha, sentado à Praça, a falquejar, de cigarro na boca. Um sem não fazer nada! A tropa havia de o meter na linha… Ai se havia.

Passado algum tempo, no entanto, os estigmas da separação cicatrizaram. Cada Carvalho trazia uma carta e levava outra. Não fazia ideia de quando regressaria. Era tempo de guerra e, muito provavelmente, depois da recruta em Angra, seguiria para as Caldas, fazer a especialidade. Depois seria o que Deus quisesse… Mas decerto que o seu destino era Angola ou a Guiné.

Ela, Eulália, apesar de desolada, sem o amar muito, possuía contudo uma fleuma de confiança. Ocupava o tempo ajudando a mãe nas lides da casa, uma demão ao pai nas semeaduras, algumas tardes de costura junto da Tia Bernarda que a ensinava com paciência e sabedoria. Com mais quatro horas, duas de manhã e duas à tarde, na máquina, a assentar o leite, ia passando os dias. Aos poucos, a amargura e a tristeza iniciais foram-se desvanecendo. Foi-se diluindo a dor no lento esquecimento do filho do Grotas. Aos domingos ensinava catequese, cantava na capela e enfeitava a igreja. Passada meia dúzia de meses já não sentia a sua falta. Havia Carvalhos em que ela não recebia carta. No seguinte, pagava-lhe com a mesma moeda.

No verão chegou à freguesia, de férias, o Ilídio Salgado. Andava a estudar Medicina em Coimbra. Os pais e os irmãos haviam debandado para a América. Anuíram em deixar o rapaz em Portugal. Não queriam que ficasse com o curso a meio. Havia de formar-se e depois decidiria. Médico feito, talvez continuasse na terra que o vira nascer, talvez se fixasse no Continente, ou então juntar-se-ia a eles nos States, onde, decerto, também teria uma carreira brilhante. Um orgulho para os pais. O diabo era onde havia de ficar, durante as férias de verão. Foi o compadre Jesuíno que, de imediato, se prontificou. O rapaz havia de se hospedar em sua casa, havia de tratá-lo como um filho. E não se falava mais no assunto. Era verdade que a sua casa era pequena. Mas mesmo ali ao lado, paredes meias, morava a Tia Bernarda. Tinha um casarão enorme e vazio. Vivia praticamente sozinha. O marido e uma única filha haviam morrido há muitos anos, no desastre do Corvo. Não se importaria nada de o rapaz lá pernoitar. Sempre a queixar-se de doenças e achaques, havia de aproveitar a presença do futuro médico. Comida e roupa lavada eram por conta da sua Josefa, muito escoimada e uma excelente cozinheira.

Já de avançada idade, a tia Bernarda ainda cirandava sozinha durante o dia, mas à noite precisava de quem lhe fizesse companhia. Aquela maldita guerra de Angola levara-lhe o sobrinho de peito. Eulália fora a eleita para o substituir. De noite, apenas, porque de dia Bernarda Lisandra ainda se amanhava muito bem sozinha.

O futuro médico, não se fez rogado, nem se incomodou nada em ir dormir a casa da tia Bernarda, nem coisíssima nenhuma. Ia lá aborrecer-se… Nem pensar. Além do mais, a velhota levantava-se cedíssimo. Podia dormir até às tantas. Além disso sabia que a senhora Bernarda, desde pequenino, lhe manifestara sempre muita afeição e carinho. E na primeira noite, logo após uma opípara ceia em casa do seu anfitrião, lá foi, saindo pela porta da cozinha que desembocava no balcão da tia Bernarda. Sem o esperar, deu de caras com Eulália. A moça ao primeiro relance ruborizou. Germinavam ainda recordações e amizades de infância. Na escola, na catequese e na festa da Senhora do Carmo. Acrescia que ele, agora, estava mais forte, mais belo, mais homem. Ela também estava diferente, muito bonita. Poder-se-ia dizer que encarnava a suprema beleza. Alvoraçados, perturbados e, aparentemente, nervosos, pouco falaram. Mas nos dias seguintes, nas horas em que ele percebia que ela andava por ali, a janela do senhor Jesuíno era um nicho estuante. E ela, vezes sem conta e sem precisão nenhuma, muito generosa e muito solícita, vinha, durante o dia, a casa da tia Bernarda, simplesmente para saber se ela precisava de alguma coisa. Se a janela do senhor Jesuíno estava deserta, Eulália demorava-se na entrada, nos degraus, no pátio, à porta, onde quer que fosse, até que ele aparecesse. Ele não se fazia rogado. Adivinha-lhe a presença e postava-se à janela. Ela também exagerava ao simular encobrir os seus sentimentos. Não se coibia. Sabia que ele a queria ver. Desejava, também, ser vista. E vê-lo. Sobretudo vê-lo. Também nela se enraizara um supremo deslumbramento. Queria mostrar-se à luz do seu olhar, bela, ditosa, atraente. E não precisava de se esforçar muito. Era-o por natureza.

A tia Bernarda, apesar da sua provecta idade, reparou que a moça, era agora muito mais devota de sua casa. Regozijou-se sem perceber o verdadeiro motivo de tal mudança. Visitava-a durante o dia, adorava limpar-lhe os pátios, sacudir-lhe os capachos, estender-lhe os cobertores à janela e, sobretudo, chegava bem mais cedo, ao serão. Até os pais estranharam! Mal ceava, pisgava-se para casa da tia Bernarda numa precipitação desusada. E de manhã ficava no quarto, tanto tempo quanto podia, enquanto a pobre da tia Bernarda, madrugadora por natureza, caminhava na demanda de uma mancheia de couves, de uns garranchos de lenha, dumas maçarocas de milho. Ela, Eulália a cirandar da cozinha para a sala, ansiosa, a tentar perceber se ele vigilava. Ele acordado, a ouvir-lhe os passos e a imaginá-la na sua elegância deslumbrante. Manhãs e noites a fio. Ela ansiosa por persenti-lo, ele desejoso de a contemplar.

Finalmente, numa manhã dourada de sol encontraram-se. Ela erguera-se cedo. Fora e voltara. Ele em férias não tinha horas. Levantava-se quando queria. Saudaram-se com palavras triviais. Trocaram olhares recheados de emoções. Geraram, sem o perceber, uma cumplicidade amorosa recíproca. Na manhã seguinte a conversa prolongou-se e, à noitinha, ele perseguia-lhe os passos. Ela demorava a caminhada. Aguardava entrar, esperando por ele, de forma a acompanhá-lo, como se fosse uma casualidade. Certa noite, a tia Bernarda, mais por cortesia do que por vontade, foi deitar-se. Deitava-se cedo! Deixou-os na sala, com as paredes repletas de fotos antigas. Ilustres antepassados. Ele de imediato se declarou apreciador de tais preciosidades. Ela orgulhosa de lhas mostrar. De lhe explicar quem eram… Aos anos que haviam vivido… Nesse vai e vem os seus corpos tocaram-se. Uma, duas, várias vezes. De propósito. Por vontade dele e aquiescência dela. Nessa noite quase não adormeceram.

Seguiram dias de encontros, diálogos e até pequenos passeios. Um fascínio! Um alvoroço! Mas um inesperado falatório rebentou quando a Pintassilga deu com os dois sozinhos, enfiados no Caneiro do Porto, no banho e não teve papas na língua. Ela, pelos vistos, não sabia nadar e o gajo, no dizer da Pintassilga, para a ensinar, punha-lhe as mãos por baixo. Parecia que lhe apalpava tudo.

Ameaçada pelos pais, que consideravam aquilo de ir tomar banho para o Caneiro do Porto, com um estranho, não ficava bem a nenhuma menina, muito menos a quem tinha o namorado ausente, Eulália aquietou-se, enquanto ele, manifestava ganas de dar cabo do estupor da Pintassilga. E o pior foi quando as suspeitas daquela cabrona chegaram aos ouvidos, primeiro do compadre Jesuíno e, depois, aos da velha Bernarda. Jesuíno, inicialmente preocupou-se. Se os pais soubessem, o que haviam de pensar? Mas depois aquietou-se, iluminado pelo ditado popular ó vizinha acautele a sua galinha que o meu galo é solteiro. E não se incomodou mais com coisíssima nenhuma. Mas tia Bernarda, sim. Ficou muito nervosa e entrou num dilema tremendo. Gostava tanto daquele menino que por nada do outro mundo o punha fora de casa… Mas se os pais proibiam a rapariga de ir lá pernoitar, o que seria dela, sobretudo nas noites longas do inverno? E se acontecia uma desgraça. Experiente e sensata, resolveu mandar às urtigas o diz-se diz-se e vai de bendizer e proclamar em alto e bom som, a bondade do menino Ilídio e o respeito que ele tinha pela sua sobrinha. Depois, era uma questão de estar mais atenta. Sabia muito bem como eram os verdores da juventude.

Depressa se esqueceram as suspeitas da Pintassilga que também não era boa bisca. Além disso, agosto caminhava a passos largos para o fim e o Carvalho era no princípio de Setembro.

No verão seguinte Ilídio poi passar as férias à América e, quando dois anos depois, regressou a casa do compadre Jesuíno, Eulália já tinha partido com os pais, também para a Améria.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:52

MARCAS DO PASSADO

Segunda-feira, 23.02.15

Danila era muito jovem, bonita e decidida nos seus anseios e aspirações. Não vivia acorrentada ao passado mas, também não o esquecia, nem se iludia com a deslumbrante fragrância dos seus sonhos. Acreditava, sim, no futuro. Num futuro que ela própria havia de construir sem olvidar as marcas e os estigmas que o passado lhe deixara. Sabia que nunca havia de eliminar aquele pedaço da sua vida que, no meio de uma ou outra alegria, lhe trouxera tantos dissabores e a carregara de dor, de sofrimento e de sacrifício. Sofrera até à exaustão!

Em pequenina irradiava simpatia e aspergia confiança. Novos e velhos deslumbravam-se a vê-la correr pelas ruelas e veredas, saltitar por muros e barrancos espargindo uma alegria deslumbrante, um contentamento fulgente, um encanto maravilhoso. Cabelos compridos e soltos ao vento, rosto alongado, sorriso mavioso e dois olhos verdes, a brilharem como pérolas. Durante a meninice e a mocidade contagiava de fascínio quantos dela se aproximavam e com ela conviviam. Alta, airosa, corpo elegante e desenvolto, impunha-se pela delicadeza dos seus modos, pela sinceridade das suas palavras, pela honestidade dos seus atos. Qualquer coisa de invulgar a dominava. Qualquer coisa de singelo a possuía. Qualquer coisa de especial a preservava. Cedo se tornou mulher. Bela, atraente, desejada. Além de ser bonita, era alegre, comunicativa, modesta, engraçada no falar. Era também muito sensata e estimada por todos. Ninguém a difamava, ninguém lhe apontava um defeito. Os rapazes olhavam-na com respeito e enlevo. As raparigas com um misto de admiração e inveja.

Contrariando os pais, Danila não quis frequentar a universidade. Ficou-se pelo décimo primeiro incompleto. Cedo enveredou pelo mundo do trabalho. Primeiro numa tipografia, depois, num stand de automóveis e, mais tarde, numa escola de condução., onde conheceu Gervásio, filho do gerente e que ali trabalhava como instrutor. Julgaram-se apaixonados. Daí ao casamento foi um triz. Algum tempo depois uma filha. Linda como a mãe.

Cedo, porém, Danila sentiu a fragilidade da sua harmonia conjugal. A gravidez inesperada obrigara-a, por parte dos pais, a um casamento apressado e pouco solidificado. Gervásio, inacreditavelmente, não só mantinha como até cultivava todos os vícios e leviandades de solteiro. E não eram poucos. Saídas noturnas, dormidas fora de casa, gastos excessivos em festas, farras e noitadas. Tinha direito a divertir-se, cuidava ele. Ela em casa com a filha, noites seguidas. Muitas vezes lavada em lágrimas. Ele na boémia. Conciliar estas duas formas de vida, simplesmente impossível e inaceitável. Sentia-se ludibriada. Perante o carracismo dele - nem saía de casa nem mudava de vida - foi ela a abandonar o lar. Divórcio litigioso e o tribunal a entregar, a ele e aos pais dele a custódia da filha. Um sufoco. Quase ensandeceu.

Mas o fulgor da sua meninice e o arrojamento da sua juventude haviam de renascer e toldar-lhe de luminosidade a esperança. Ressurgiu de entre lágrimas e estigmas. Sobre os seus erros havia de construir a solidez do seu futuro. Sobre as amargas cicatrizes do passado havia de edificar a nobreza da sua dignidade. Depois de muita luta o tribunal aumentou-lhe o tempo em que lhe era permitido ter consigo a filha e, mais tarde, outorgou-lhe, por completo a sua custódia. Vencera! Alugou casa, conseguiu novo emprego, comprou carro e, o mais importante de tudo, reencontrou André.

Desde há muito que se conheciam. Muitas vezes passava em frente ao stand onde ela trabalhava. Olhavam-se e admiravam-se, sem falarem. Ele, mais audacioso, um dia decidiu entrar. Aproveitou a companhia de um amigo que comprara um Ford. Havia também de comprar um. Não sabia quando. Falaram, conversaram, riram e ficaram amigos. A partir de então, muitas vezes, ao passar em frente ao stand, entrava, conversavam, riam e sonhavam. Num dia de forte chuvada, ela encontrou-o pelo caminho. Parou, deu-lhe boleia e levou-o a casa.

Passado algum tempo, no entanto, deixou de a ver. Admirado, vezes seguidas, passava em frente ao stand. Mas nada. Um dia, dois dias, muitos dias. Entrou a informar-se. Que já não trabalhava ali. Arranjara um lugar na Bom Condutor.

Foram meses a atravessar o deserto. Finalmente quebrou-se o silêncio. Quando soube que ela casara com aquele tratante, o filho do dono da escola, sufocou. Sentia-se culpado sem ter culpa. Ela, aparentemente, colocara uma tremenda ilusão sobre a sua dignidade. Novamente um deserto. Agora mais doloso e sem oásis. Via-a apenas de longe. Acompanhava-lhe o destino. Inicialmente parecia que enlouquecera de felicidade. Não demorou muito o êxtase do vigor inicial. Aos poucos começou a derrocada. Ele, Gervásio para um lado, ela, Danila para o outro. Não andavam juntos, não saiam juntos. Parecia que nem se falavam. Percebia-se que o fosso aumentava. Substancialmente. E de que maneira. E André, inadvertidamente, sentiu uma pequena alegria, uma espécie de vitória, quando, ao fim de quatro anos, soube que aquela imprudente loucura abortara. Que o castelo que ela imprudentemente construíra, se desmoronara. Estavam, finalmente, separados. Mais tarde arrependeu-se. Quando a encontrou ferida, desfeita, trucidada por uma solidão tremenda. Tentou redimir-se, adocicando-lhe as marcas terrivelmente destruidoras que esse passado horroroso lhe deixou. O sofrimento dela comoveu-o e galvanizou-o numa exagerada tentativa de lhe prestar ajuda. Mas era tarde, muito tarde. O sofrimento dela não era só de lágrimas As marcas da dor calejaram-na e deram-lhe força, coragem e discernimento. Sobretudo discernimento. Agora era senhora do precioso dom de escolher, de aceitar, mas também de recusar, de dizer não. Tornara-se insensível. Mas também lhe haviam ressurgido forças que a faziam ser ela própria. Só amizade. André era simpático, atraente, bom companheiro, mas simplesmente só podia ser amigo. Ele insistia. Ela contrariava. As razões que apresentava eram sempre as mesmas: as terríveis marcas que os quatro anos de casada lhe haviam deixado. As marcas. Sempre as marcas. Aquelas terríveis marcas entravam-lhe pelos ouvidos dentro, destruindo-lhe os sonhos. Aniquilando o amor que sentia por ela.

Danila, porém, nunca soube da grandiosidade desse amor. Nunca o percebeu. Aquelas terríveis marcas do passado haviam-na impedido. Para sempre.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:20

SUPLÍCIO

Sexta-feira, 20.02.15

Era no café. Único no bairro. Por volta da uma e meia, que ela entrava para o serviço às duas menos dez. Todos os dias. Nunca falhava. À hora habitual, lá estava. Entrava, serena, solitária e deslumbrante. Olhava ao redor e sentava-se. Sempre na mesma mesa. Lá ao fundo, de onde, sem se movimentar, observava todas as outras mesas, de modo muito especial, a que ficava defronte da janela, onde ele se sentava. Também todos os dias. Também à mesma hora. Também sempre na mesma mesa. Também de modo a observar todas as outras mesas, de modo muito especial aquela lá ao fundo, do lado oposto, onde ela se sentava.

Sem se conhecerem e, sequer, sem se aperceberem, quando menos esperavam, estavam a olhar um para o outro. No início, um olhar de relance. Apenas olhavam, distraidamente, ou talvez não. Quando perceberam que olhavam um para o outro com maior insistência, quando sentiram que os seus olhos se cruzavam e continham uma inebriante e profunda mensagem, ela começou a desviar o olhar. Mas apenas e somente quando se apercebia que ele estava a olhar para ela. Quando ele se distraía ou quando de propósito desviava o olhar, ela, de imediato, voltava a fixá-lo. Passados alguns dias, semanas, talvez meses, perderam o pejo. Ela começou a olhar para ele, subtilmente. Ele para ela, descaradamente. O tempo a correr e o que inicialmente era um simples olhar, a transformar-se num tremendo fascínio. Recíproco. Delirantemente sublime. Do fascínio à paixão foi um triz! Sólida e gigantesca paixão. Amavam-se. Não havia dúvida. O café a arrefecer sobre a mesa, o açúcar a derramar-se fora da chávena, o olhar distante, a fuga simulada dela aos olhares desejados dele, a persistência dele em olhar para a ela, a inquietação e o sufoco de ambos quando um chegava tarde… Tudo os denunciava. Tudo se refletia numa cumplicidade recíproca. Se ele ainda não chegara ela esperava, ansiosa, quase aflita. Se ela se atrasava, ele empertigava-se, inquietava-se, quase desanimava. Depois, o murmúrio da timidez dela, a denúncia do atrevimento dele. Por fim o diálogo dos olhares. Sempre o diálogo dos olhares. O dela, levemente, esperançoso, o dele, exageradamente, reconfortante. Afinal, apesar de afastados, distantes, dispersos, estavam muito perto. Unidos. Só o amplo e, por vezes, vazio, espaço do café e os sorrisos maliciosos do empregado os separava. Detestável, o muro plantado à sua frente.

Ela era nova. Ele andaria nos quarenta. Ela era bela, suave, elegante e, aparentemente, tímida. Ele forte, alegre destemido e, exageradamente, expansivo. A sua íntima inquietação perturbava-os e a sua inconformada incerteza confundia-os. Entendiam-se um ao outro sem se ouvirem. Ouviam-se um ao outro sem falarem. Falavam sem palavras, sem murmúrios, sem silêncio. Falavam sem falar. Ouviam sem ouvir. Entendiam-se de verdade. Cresciam-lhes na alma sentimentos verdadeiros, puros, profundos. Sonhavam com o encanto duma palavra, com a sublimidade dum encontro, com o enlevo duma entrega, com a ternura de um abraço, quiçá com a magia de um beijo. E no entanto, nada mais do que aquilo. Aquele inquebrantável cristal de gelo, E o tempo de cada café, porque nada mais havia para além duma chávena de café, a evaporar-se, rápido e fulgurante, como um raio ou uma rajada de vento. Nenhum tivera a ousadia de se levantar, de se dirigir e de se aproximar da mesa do outro. Ele, amofinado de angústia, a despejar desejos. Ela aureolada de timidez, a esmiuçar anseios. Profundamente enleados. Cada um no seu canto.

E assim permaneceram, dias, semanas, meses, talvez mais de um ano. Conservando-se distantes, mas muito pertos, silenciosos mas ouvindo-se reciprocamente, hesitantes mas envolvendo-se um ao outro. Em comunhão plena. Passava-lhes pelos olhos um relâmpago de magia. Entonteciam sob a chama da esperança. Colavam-se um ao outro, como se a razão da sua proximidade fosse verdadeira e a condescendência dos seus destinos vindoura.

Um dia, sobre ele desabou um desânimo brutal Uma temporal terrível! Uma catástrofe descomunal! Ela, simplesmente, não apareceu. Um dia, dois dias, três dias. Muitos dias. Desolador. Ele quase feneceu, definhou mesmo. Pior. Não havia forma de reagir. Começou a miná-lo uma angústia profunda, desoladora, mortal. A tristeza em que jazia e a loucura em que se emaranhara minavam-lhe o peito, retiravam-lhe as forças, outorgavam-lhe um desânimo telúrico, uma inquietação demolidora. Passava os dias deitado numa relutância bastarda, numa indefinição tremedal, numa obstrução plena do encanto, da solicitude e da esperança, em que navegara, nos tempos em que se sentava na mesa do café, junto à janela.

Foi uma amiga de sempre, obcecada pelo infortúnio, que veio romper tão opaca frouxidão. Referia-se a ela como se a conhecesse de sempre e em plenitude:

- Uma cabra! Uma sem vergonha. Meteu-se com o patrão e destruiu-lhe a família.

Destruida, desfeita, vingava-se, com injúrias, aleives e difamatórios. Já não lhe bastava ver a sua casa a arder… ateava fogo à de outros. Ele, num sufoco, quase perdido, defendeu-a. Impossível. Continuava a ouvir a megera como se as palavras lhe furassem a carne como farpas pontiagudas. A recalcada insistia com palavras cada vez mais frias, carregadas de ódio e de desprezo. Mas há muito que lhe olvidara a voz. Só se lembrava da sublimidade dos olhares que ela lhe dirigia no café. Depois afastou-se, a tentar esquecer tudo quanto, na sua amargura, a infeliz ali despejara. Nunca acreditaria em tão torpes e vis suspeitas. A ternura daquele olhar sobrepunha-se a tais vitupérios, desfazendo chagas, quebrando as terríveis amarras a que aquela denúncia o tentava prender.

Foi num shopping que algum tempo depois a encontrou. Pálida, macambúzia, olhou para ele e sorriu. Sorriu como nos tempos do café. Mas menos ousada. Esteve quase a aproximar-se, a falar com ela, mas limitou-se a responder-lhe com um acenar de cabeça. Vendo-a de perto pode observá-la a melhor. Era linda! Os olhos acastanhados transbordavam ternura. Os lábios, embora um pouco trémulos, emanavam uma aquiescência sublime. O rosto moreno exalava uma dignidade nobre e dulcificada. O sorriso como sempre. Terno, meigo e comunicativo deixava emergir, mesmo que ela o tentasse impedir, serenidade e alegria.

Mas uma estranha mudança parecia ter-se operado na sua alma. Transparecia-lhe no rosto, misturada com a ternura, uma dolente nostalgia. Estava triste, bastante triste e isso não conseguia disfarçar. Uma dor profunda parecia ter-lhe nascido e estar crescer-lhe no peito. Talvez o arrependimento do erro cometido? Talvez a aceitação pacífica e humilde da injustiça que desabara sobre ela? Talvez a consciência dolente do aviltamento injusto?

Ele não sabia. Pior. O estranho suplício da ignorância havia de desabar-lhe em cima, domando-o, desfazendo-o aniquilando, tornando-o, definitivamente, incapaz de algum dia vir a saber.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:09

A MANHÃ DO DIA SEGUINTE

Segunda-feira, 16.02.15

Todos os anos, no verão, chegavam à freguesia muitos visitantes. Uns vinham do continente, outros do Faial ou da Terceira, alguns de São Miguel e muitos, a maioria, da América. Quase todos eram antigos habitantes. Uns haviam partido há muitos anos, outros há pouco. Mas todos regressavam de visita, para matar saudades, para mostrar aos filhos ou netos as belezas da terra onde haviam nascido e, no caso dos americanos, geralmente para pagar uma promessa ao Senhor Espírito Santo.

Um verão houve, em que entre outros, chegou à freguesia um casal vindo de Lisboa. Visitavam a terra dos seus avós. Pela primeira vez. Hospedaram-se na casa de uns parentes e vinham acompanhados duma filha. A menina devia rondar os vinte anos. Chamava-se Elizabete, nome muito esquisito e estranho na freguesia. Elizabete era muito bonita. Rosto macio, alvo de neve a esboçar, permanentemente, um delicioso, meigo e ternurento sorriso. As faces eram rosadas e os olhos esverdeados. O cabelo muito sedoso e quase louro. Prendia-o na nuca com uma enorme prisão, acentuando-lhe um cariz juvenil, pleno de graciosidade. O seu corpo, o seu andar, todos os seus movimentos se envolviam, permanentemente, num manto de simplicidade, fluidez e elegância. Muito delicada e comunicativa, sorria a quantos com ela se cruzavam, mesmo que lhe fossem totalmente desconhecidos. Resplandecia alegria, irradiava elegância e beleza e falava com toda a gente. Sem vaidade, sem orgulho. A rapaziada da freguesia não se continha! Entrou num frenesim, não disfarçando olhares, desejos e vontades. Numa palavra, encantaram-se com a menina. No entanto quem mais se empolgou e fascinou com Elizabete foi o filho do João Cambado, o Bernardo.

Bernardo era um pobre diabo! Tinha tudo para ser desafortunado e infeliz. A natureza dotara-o de uma fealdade telúrica, duma hediondeza profunda. Um Quasimodo sem corcunda! Além disso, coroara-o uma calvície prematura e enraizara-se-lhe uma acentuada falta de visão, corrigida, parcialmente, com uns óculos de ares redondos e lentes grossíssimas que lhe tornavam os olhos minúsculos, quase invisíveis. Para atenuar as limitações visuais, colocava, frequentemente as mãos sujas e gretadas sobre os olhos e assim ficava, por momentos, a olhar fixo para o que quer que fosse, numa tentativa de descortinar melhor o que pretendia ver. A casa uma lástima e a família um desmazelo. O pai um pobretanas que não tinha onde cair morto. Não tinha terras e quase não trabalhava para fora, que ninguém o queria, nem a dias nem muito menos de empreitada. A mãe uma desleixada que nem da casa ou das roupas cuidava. Viviam numa miséria aberrante. Sustentava-os a caridade dos vizinhos e algum alqueire de milho que o rapaz conseguia ao dar dias para fora. Mais pela generosidade de quem o contratava do que pelo trabalho que produzia. De resto, pão de milho rijo que nem um corno, por vezes bolorento, migado num café de favas era cardápio diário em casa do Cambado. Pai e filho a pingar lama, mãe a cramar das aduelas e a casa que nem se poderia entrar. Um louvar aos céus!  

Certa tarde, porém, ao regressar a casa, Bernardo decidiu passar frente à casa onde moravam aqueles senhores do continente que tinham uma filha muito bonita. Vira-a, dias antes no arraial da Casa de Baixo e ficara fascinado. No momento em que passava, Elizabete surgiu à janela. Viu-o e sorriu. O mais belo sorriso que Bernardo, apesar da sua genética cegueira, alguma vez vira. Mais se fascinou e mais se empolgou pela rapariga. Não se conteve e foi desabafar com o Câncio. Estava apaixonado.

- Quem é a feliz contemplada? – Indagou o Câncio, com ar de gozo.

Ao princípio embatucou. Mas como o Câncio insistisse, muito envergonhado lá desembuchou. Ui! Que sortudo! E ela, e ela?

Mas o Câncio não era de se calar com o que quer que fosse, muito menos com tão deslumbrante segredo do Cambado. Um cesto de penas de galinha atiradas do cimo da Rocha, em dia de vento, não se espalhariam mais depressa. No dia seguinte toda a malta a meter-se com o palhoco do Bernardo.

Ele envergonhíssimodo. Vermelho que nem um pero. Uma chacota como nunca se vira.  

Mas nem por isso o Bernardo acobardou e, apesar, dos risos, dos gracejos e até dos insultos de alguns dos mais velhos, continuava a passar, sempre que podia, em frente à casa onde morava Elizabete. Contentar-se-ia em vê-la de longe, em saber que ela estaria perto de si. Por vezes, enganava-se. Confundia-a com outras mulheres, quando de mãos sobre os olhos, como se fossem palas a evitarem-lhe o sol, olhava apalermado para qualquer sítio onde cuidasse que ela estivesse.

Ela, no entanto, continuava a aparecer à janela, a andar por aqui e por ali. A lançar-lhe, na sua inocente simplicidade, sorrisos atrás de sorrisos. E ele, tentando alienar-se da chacota de que era vítima, começava a cogitar em qual seria a melhor forma de se aproximar dela, talvez de lhe entrar pela porta dentro, a fim de a ver melhor, de a observar de perto. Encheu-se de coragem. Um punhado de maçãs da horta do Rosa. Apanhar do caminho não é roubar. Além disso, não eram para ele. Eram para ela. Muito a medo, lá foi, com as maçãs. Ao lusco-fusco e pela porta da cozinha para que os ui monços não o vissem. Ninguém havia de fazer pouco dele. Bateu, esperou um pouco e ficou lívido. Era a mãe. A menina não estava. Numa segunda tentativa foi mais feliz. Levava-lhe uns cachitos de uva… Sabia que ela estava. Tentou entrar. Aproximou-se, mas a voz entupiu-se, o rosto avermelhou-se e corpo tremia-lhe. Ela muito aflita sem saber o que dizer ou o que fazer.

Nos dias seguintes amainou, pese embora soubesse que não conseguiria aproximar-se dela. Contentava-se em vê-la de longe, de saber onde ela estava. Depois, lá lhe foi batendo à porta, vezes sucessivas. Três cachos de uva, uma cestinha de batatas-doces e até dois ovos que a vizinha Glória oferecera à mãe. Não entrava. Tinha vergonha. Além do mais, ela nem o convidava para entrar. Sempre fora da porta, sempre sem grandes conversas, sempre com agraciamentos e um não se havia de ter incomodado. Por fim aquele sorriso que, desde a primeira vez que a vira, o cativara. Podia ser pobre, tosco, cegueta, mas tinha coração. Ai se tinha! Gostava dela! Amava-a de verdade. Uma paixão infinita e incontrolável como nunca tivera. Mas era uma existência negra a sua. Sabia que ela nunca havia de o amar e sabia que o verão estava a chegar ao fim, e ela, em breve, havia de regressar a Lisboa. Nunca mais a veria. Só lhe restava esta mágoa, este desgosto!

Quando na primeira noite depois de ela partir, ao deitar sobre aquele amontoada de casca de milho, coberto com uns cobertores avermelhados e muito sujos, os olhos toldaram-se e grossas lágrimas perderam-se nos negrumes dos cobertores. Lá fora a noite escurecera por completo. Um nevoeiro denso, incomodativo que de tarde cobria apenas meia rocha, agora descia molhado sobre o povoado. Com ele viera um vento suave, quase impercetível. Fora da porta ouviam-se vozes. Mais distante o roncar emperrado do motor de um automóvel. Ao longe o silvo de um navio. Navegava à deriva. Sem mastros, sem velas, sem luzes e sem marinheiros. Transportava um único passageiro. Reconheceu-a. Era ela. Num ímpeto tresloucado lançou-se ao mar. Começou a esbracejar como se nadasse com quantas forças tinha, na mira de alcançar o navio, de a salvar. Impossível! Ondas altivas e alterosas impediam-no de nadar e uma bruma negra e densa não lhe permitia enxergar o que quer que fosse. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam-no por completo. Tremia dos pés à cabeça. Apesar de içado do meio de ondas alterosas tremelicava gemia, suspirava e aos poucos parecia que se perdia, por completo, no meio daquele enorme turbilhão. De repente, uma mulher de uma beleza rara e invulgar mas de mãos enormes, muito peludas e cheias de rugas impedia-o de se afogar. Aos poucos a escuridão desvanecia-se por completo. A chuva, também amainava. A mulher das mãos grandes e peludas partira. Bernardo acordou, sobressaltado. Era o início da manhã do dia seguinte.

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publicado por picodavigia2 às 09:55

A JORNALISTA

Sexta-feira, 13.02.15

Foi num congresso de jornalistas que se conheceram. Ele do Informar, ela da conceituada revista Presente. Dias antes, Jacinto Belchior telefonara à redação da Presente. A ideia era saber se a revista estaria presente no congresso e, em caso afirmativo, quem a representaria. Era crucial. Muitos jornais e revistas já se haviam associado, em ordem a se unirem, na apresentação e aprovação de algumas medidas importantes para o jornalismo a que a Federação e o Governo se opunham. Que sim, que a revista faria jus ao seu nome. Estaria presente e far-se-ia representar pela jornalista Eduarda Borges.

Jacinto Belchior foi o primeiro a comparecer no hotel, aguardando, com impaciência, a chegada da colega. Sentado no hall de entrada, entretinha-se a observar dezenas e dezenas de congressistas que, à medida que iam entrando, se dirigiam à mesa do secretariado a fim de oficializar a sua acreditação. Muitas mulheres eram-lhe desconhecidas e era entre estas que procurava Eduarda Borges. Mas nada. Por momentos, cuidou que não seria capaz de a identificar, face aos elementos que lhe tinham fornecido. Esperou mais algum tempo. No seu pensamento trespassavam imagens diversas, confusas, indefinidas. Por fim, já cansado de tanto esperar, dirigiu-se à mesa do secretariado. Por feliz coincidência, precisamente no momento em que a representante da Presente recebia uma pasta com a documentação e o crachá.

Eduarda Borges já não era muito nova mas era possuidora duma beleza estonteante e duma graciosidade demolidora. Andaria nos quarenta. Morena, de semblante jovial, cabelo ondulado, olhos grandes e plenos de graciosidade. Falava com uma desenvoltura desusada, era senhora duma comunicabilidade avassaladora e, além disso, possuía um currículo invejável. Uma mulher distinta, uma jornalista notável. Os seus textos semanais na Presente, sobre os mais polémicos temas da atualidade, eram de um rigor acentuado e duma clareza impressionantes. Cativavam os leitores. Fundamentava as suas opiniões, confrontava, sem receio, as dos outros e formulava sínteses com clareza, rigor e determinação sobre os mais diversos e mais polémicos temas da atualidade.

Recebeu a prestabilidade do colega do Informar com alegria. Que lhe desculpasse o atraso. Havia de o ressarcir do tempo perdido. Depois ria, atirava-lhe frases cheias de sentido, galhofas de bom gosto, numa palavra envolvia-se com ele com se há muito tempo se conhecessem.

Jacinto Belchior ficou fascinado. Na companhia dela, o congresso seria muito mais alegre, vantajoso, benéfico, talvez mesmo mais divertido. Sim porque ficar três dias ali encurralado, a maior parte do tempo a ouvir larachas e coisas sem importância, seria uma chatice. Assim trocariam ideias, discutiriam propostas diversas, envolver-se-iam na discussão dos temas com mais entusiasmo e, sobretudo, com maior utilidade. bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que se conhecessem. Na verdade envolveram-se, lado a lado, no debate de alguns dos temas do congresso como jornalismo e sociedade, diagnóstico do jornalismo no país, jornalistas em defesa do trabalho e da democracia, o poder feminino nas redações, sensibilização da opinião pública para a degradação das condições de trabalho dos jornalistas e as suas consequências para a liberdade de imprensa e para a qualidade da democracia, o problema da formação, etc. etc.. Enfim uma panóplia de problemas que nunca mais acabava. Mas um congresso não se faz só de sessões, de debates e fóruns. Após os trabalhos havia que desfazer o cansaço, derrubar o entorpecimento, dar largas à diversão. Eram jantares longos e demorados, noitadas em bares, passeios pela cidade. Ela sempre ao lado dele como que a protegê-lo, a ajudá-lo, a aconselhá-lo e até, uma vez, uma única vez, a impedi-lo que bebesse de mais. Uma maravilhosa companheira! Um delicioso enlevo!

No regresso a casa Eduarda pediu-lhe boleia. Tinha vindo com um amigo que seguira viagem e agora não tinha como regressar. Deixasse-a onde lhe fosse mais conveniente. Depois havia de se haver. Era o que faltava. Havia de a ir levar a casa. As reuniões e os debates, no último dia, prolongaram-se mais do que era esperado, pelo que partiram já tarde.

Teria talvez passado uma hora de viagem quando resolveram parar para comer qualquer coisa. Falaram, riram, conversaram e desabafaram. Aquela carta que meteram debaixo da porta do quarto dele. Uma vergonha! Há pessoas que vêm aos congressos para isto! Esquece, rasga. Aquele dar nas vistas do Primeiro de Dezembro! E as imbecilidades do presidente. Metia dó. Começava a admirá-la cada vez mais. A segurança das suas opiniões era, deveras, convincente, a serenidade das suas palavras conciliadora, a clareza das suas atitudes fascinante. Os seus diálogos eram sábios, as suas ideias úteis, os seus escritos atrativos. Sentia-se fascinado e ela percebeu-o. Pudera ele, ali, em pleno restaurante, pegar-lhe nas suas mãos e havia de levá-las à boca para as beijar. Talvez ela não reagisse negativamente. Hesitou.

Fizeram o resto da viagem em alegre cavaqueira. Ela falava, ria e ouvia-o com atenção. Por vezes até lhe parecia querer aconchegar-se no seu ombro. Chegados à porta da sua casa, convidou-o a entrar. Ele embasbacado, hesitou. Ela percebendo o embaraço, adiantou de imediato:

- Talvez seja melhor não. Já é muito tarde.

Seguiram-se dias, semanas de silêncio! Não se continha. Arrochado pelo suplício da sua ausência, definhava. Fora um fraco! No restaurante, na viagem e sobretudo à porta de casa dela. Agora ressuscitava. Nenhum temor havia de o entupir quando estivesse na presença dela. Telefonou-lhe a combinar encontro. Gostava de a ver… de conversar. Tinha muito gosto, mas ela engenhosa e determinada, marcou encontro num café, longe de sua casa. Tudo veio à baila. Ecos do congresso, recordações dos convívios noturnos, o último artigo que publicara, projetos futuros, problemas da classe… Tudo, menos o que ele pretendia. Seguiram-se outros encontros. Sempre no café. Sempre sobre jornalismo. Dias e dias enfarruscado em encontros monótonos, sempre iguais, mas plenos de emoções. Bastava-lhe que estivesse na sua presença. A arfar ânsia, mas a nadar em enlevo. Era hora de mudar de estratégia. Convidou-a a visitar o Informar. Um dia levou-a ao jornal, apresentou-a ao diretor e teve a distinta lata de a propor como colaboradora. Referenciou-a como uma excelente jornalista. Os seus escritos atraíam leitores. O jornal ganharia com a colaboração dela. O diretor acabou por aceitar. Teria à sua disposição uma coluna semanal.

Durante quase um ano Eduarda Borges visitava com alguma frequência as instalações do Informar. Jacinto Belchior esperava, ansiosamente, a sua chegada e acompanhava-a com enlevo, enquanto ela ali permanecia. Trabalhavam lado a lado. No fim, apenas um café em conjunto, às vezes um lanche. Sentia que ela adorava a sua companhia mas percebia que todas as demais hipóteses, para além duma amizade recíproca, estavam arredadas. Apenas uma miragem indecisa, ténue.

Certo dia o diretor chamou-os ao seu gabinete. Achava que profissionalmente se completavam. Considerava-os capazes de orientar um projeto de formação de jornalistas. A ideia agradou-lhes. Para além da valorização que tal projeto lhes havia de trazer a todos os níveis, para ele era uma excelente oportunidade de a encontrar com mais frequência, de estar com ela mais vezes, de partilhar dias, talvez noites. A proposta não podia ser melhor. Orientar um curso de formação de jornalistas implicava um trabalho conjunto, quase diário. Decerto que se aproximariam muito mais, emocionalmente. E aproximou. Sobretudo a ele que de dia para dia mais se fascinava, mais se enlevava, mais se apaixonava.

Certa tarde, após mais um encontro de trabalho, ele levou-a até à porta de casa. Com o mesmo à vontade com que o fizera na noite em que regressavam do congresso, ela convidou-o para entrar. Ele aceitou. Subiram. Sentado na sala, o filho via televisão.

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publicado por picodavigia2 às 10:26

O SOPRO DO VENTO

Terça-feira, 10.02.15

Em pé, no cais povoado de vultos em constante corrupio, esperava-o, olhando o oceano deslumbrantemente infinito. O Sol começava a espalhar-se sobre o casario em aguarela matinal, perfumada com o bafo dos incensos e das faias, ornada com o verde dos canaviais e o amarelo das giestas em flor. Um bando de gaivotas, em voos frenéticos e ciosos, derramava uma estranha melodia.

Não demorou muito e o Ilha Azul encheu a baía com um enorme buzinão, pondo as gaivotas em alvoroço. Um eco roufenho, mas possante e decidido, encastoou-se nos contrafortes da encosta. Depois, aos poucos, como um estertor dolente, foi-se diluindo pelos montes e escarpas circundantes, até se perder no horizonte. Como uma onda a desfazer-se no areal. Finalmente o ferry encostou ao cais e, ajudado por uma infinidade de cabos, guinchos e roldanas, abriu os enormes portões. Saíram pessoas e carros. Ele, na véspera, avisara-a de que faria ali uma curta escala. Gostava de a ver. Era imperioso encontrarem-se. Ela anuiu, com agrado.

Com destreza, desenvencilhou-se entre os primeiros passageiros, desabando, sobre ela a memória embevecida de um passado muito distante mas bem vivo. É verdade que haviam atravessado um terrível e longo muro de silêncio. Agora, por momentos, redimiam-se. Derrubavam-no, incrédulos, incapazes de dizer o que quer que fosse, para além do trivial. Uma pequena multidão, ao redor. Uns festejavam a alegria da chegada, outros aguardavam, impacientes, o embarque. Dentro em breve, teria que regressar ao Ilha Azul. Ela voltaria a estar só. Por detrás das rugas e dos cabelos esbranquiçados ficar-lhe-ia, mais uma vez, estampado no espírito o sabor amargo de um novo deserto.

Fora há muitos anos. Uma irmã dela, colega dele na universidade, aproximara-os. Depois, enquanto se abreviava a amizade da colega, agigantava-se a paixão por ela. Não era muito alta, nem deslumbrantemente airosa, mas consubstanciava um misto de ternura e de encanto. Atraía-o, fatalmente. Rosto macio, olhar doce, sorriso encantador. Uma beleza original e pura refletida na fluidez da sua essência e, sobretudo, no esplendor do seu caráter. Reinventava-se em cada momento, resplandecia em cada determinação, exaltava-se em cada atitude. Mulher menina perdia-se no que procurava e envolvia-se no que desejava. Era gota de água, orvalho, tormenta, enxurrada. Um mar de desejos, um oceano de entregas. Tudo e nada. Ele, refugiado no seu casulo, sempre tímido, hesitante, à espera do incerto, do indefinido. Encobria o bafo da paixão com o escapulário da inocência. Diante dela, refugiava-se, como um búzio, no seu esconderijo de lava. Cerceava tentativas, desmantelava aspirações, desfazia desejos e assolava paixões. Um tolo!

Um dia, porém, mandou às urtigas as hesitações. Ergueu-se em herói. Transformou-se em guia de uma longa subida. Por entre veredas sinuosas e escarpas íngremes subiram até ao cume de um pequeno outeiro. Lado a lado. A subida iniciou-se com determinação. Caminhavam como se não tivessem medo. Deslizavam por entre o soluçar do vento, arrastados pelo arfar de um contentamento disfarçado de cansaço. Primeiro o amarelado dos fetos, dos silvados, dos choupos a enfeitiçá-los. Depois o avermelhado dos tufos secos, seculares a tolher-lhe os passos. Alguns quase míticos. Ele conhecia na perfeição aqueles andurriais. Explicava-lhe o simbolismo de cada pedregulho, o misticismo de cada tufo e despertava-a para beleza da paisagem envolvente. Finalmente, já no alto, o verde das pastagens, o cheiro fresco da alfombra, a quietude das paredes circundantes, o reforço do ar puro da pequena montanha. Unia-os um ar envolvente, fresco e conciliador. E o cimo do pequeno outeiro, metamorfoseado em cúpula do mundo, a presenteá-los com uma vista maravilhosa. Aquém os telhados e frontispícios do casario do pequeno povoado, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito. E quando, no regresso, após a descida, atravessavam impávidos e destemidos o povoado, uma pequena multidão, aparentemente adormecida, como que acordou, erguendo-se contra ele, num contínuo vomitar de afrontas e insultos. Ela enfureceu.

- Canalha! Bando de invejosos! Corja de vadios!

Que não se incomodasse. Nada o afetava. E no domingo seguinte visitava-a, cada vez mais impaciente com a instantaneidade de cada encontro, com o aproximar-se do desmoronamento de cada sonho. Mas continuava entupido nas suas decisões, ancorado nos seus preconceitos. Grande palerma! Podia arrancar-lhe um beijo, um abraço, um carinho sequer. Mas nada! Era aquela estátua estratificada de desejos, corrompida de medos, aboborada de temores. Pouco depois ela partia, levando consigo a pérfida esterilidade das entregas de que haviam abdicado. Ele por medo, ela por compaixão. Agora e mais uma vez, mergulhavam numa separação que nem a um nem a outro agradava. Desfazia-os. Quase os amortalhava. De longe, apenas ecos dos sonhos vividos. Às vezes, um postal, uma carta, raramente um telefonema, a libertá-los do torturante pesadelo que o afastamento lhes causava.

Um dia decidiram subir ao céu! Quebraram amarras, destruíram grilhões e ele prometeu visitá-la. Ela esmerou-se em preparativos. Havia de o receber como um príncipe. Não fossem as bocas do mundo e ele havia de ficar na sua casa, dormir ao seu lado. Partilhariam momentos de intimidade. Mas não. Sucumbiu! É que, mais uma vez, foi trazido pelo sopro do vento norte, forte e intempestivo. Havia de atiçar labaredas descomunais. Indomáveis. Ele, açudado por um envolvimento desusado, vinha excitado. Ela estranha, confusa, mas disposta a tudo. Simulou doença e recebeu-o no leito. Comprometedora simulação que o atirava para bem junto dela. Que se sentasse na beira da sua cama, que enxugasse a cara com a sua toalha, que lavasse os dentes com a sua escova… Que a beijasse, que a amasse. Que fizesse tudo o que desejasse. Estranha hesitação a dele. Olhando-a, fixamente, apenas sonhou possuí-la como se de facto a possuísse.

Saíram na mira do almoço. Pela rua abaixo, mais uma vez, enlaçados pelo sopro do vento norte, agora mais calmo e sereno. Partilhavam uma cumplicidade íntima e recíproca. Ele nervoso, inquieto, a braços com desejos confusos, que se recusavam a sair-lhe do pensamento e ela, indignada, a aceitar com raiva aquela hesitação, aquele inequívoco desperdício de uma oportunidade que jamais voltaria. Seguiram-se três dias de sonhos desperdiçados, de esperanças atiradas ao ar, de decisões adiadas. Sustentavam, em vão, uma luta contra forças que eles próprios haviam cultivado, um inexplicável embate entre dois seres que sabiam que se amavam, mas não o queriam dar conhecer um ao outro. E assim ficariam a sonhar, de olhos cravados no infinito.

Agora que o ferry se afastava, com um buzinão ainda mais roufenho do que o que emitira à chegada, ela voltou a sentir um novo sopro de vento, uma enorme lufada de ar a toldar-lhe o rosto. Mas era um ar quente, amorfo e pestilento Estava só.

 

 

 

 

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publicado por picodavigia2 às 00:23

MAIO MORNO

Sábado, 07.02.15

Não havia nas redondezas mulher mais esbelta e perfeita. Uma brasa! Aspergia amor, bondade e encanto, à mistura com um pouco de melancolia e amargura. Uma doce harmonia! A rapaziada do lugarejo ajoelhava-se à sua passagem, ao vê-la, os pássaros entoavam cantos mais alegres, o mar, toldado, a marulhar contra os rochedos, ao senti-la quedava-se e até a lua parecia ficar de sentinela a noite inteira, à sua espera, somente, para iluminá-la. Altiva e sublime, desenvolta e graciosa parecia que se ufanava-se do enlevo que sabia movimentar-se ao seu redor. Um hino à natureza!

Do rosto, aparentemente, amargo, transpareciam uns olhos grandes e envergonhados, uma boca rasgada, um sorriso inibido e um ar crespado. O cabelo caia-lhe espesso sobre a tez, cobrindo-a, parcialmente. Revelava, contudo, uma serenidade de costumes, uma ousadia de deslumbramento, um certo ar de menina inocente e pura.

E dela mais nada sabia o Crespo, a não ser que todas as tardes ia buscar os filhos ao infantário, aos sábados de manhã frequentava o mercado de fruta e, de vez em quando, visitava uma amiga que morava numa rua, junto da igreja. Nem o nome. Por isso e como o seu semblante lhe trazia à memória uma velha amiga de juventude, alcunhara-a com o mesmo nome – Cassilda.

E a apócrifa Cassilda, num ápice, tornou-se a senhora do seu destino, a dona do seu pensamento, a destruidora da sua quietude. Turvava-se-lhe o espírito quando a encontrava, palpitava-lhe o coração quando a via, desmaiava de deslumbramento quando a sentia perto de si. Os encontros que, intencionalmente, programava e premeditava, apesar de parcos e momentâneos, pareciam eternizarem-se. Persistente e sonhador, imperava-lhe na mente que um deles, um dia, havia de transformar-se em momento diálogo. Havia de arranjar maneira de meter conversa, de se envolver em partilha de sentimentos. A sua vontade era ouvi-la, o seu desejo escutá-la, saborear-lhe a presença, numa troca recíproca de emoções. Uma única palavra que fosse…

Foi num sábado, no mercado. Esperou que ela aviasse as compras. Seguia, atentamente, os seus passos, acompanhava os seus movimentos. Estava prevenido para o assalto. Uma lata de salsichas bastava para lhe ir no encalce, na caixa. Mal ela se posicionou na fila, à espera de vez, ele atrás, imediatamente atrás. Tão atrás que, com a mão esquerda, roçou-lhe, levemente, as costas. Sentiu um arrepio. Parecia que um raio lhe entrara pelo corpo dentro. Ela sentindo-o, voltou-se e sorriu, suavemente. Ele pediu desculpa e, juntando à socapa um pacote de café que ficara por ali, aproveitou:

- Isto não é seu?

Que não, que não era dela. Agradeceu-lhe com um novo sorriso e saiu apressada. Bem lhe apetecia atirar a lata de salsichas para os quintos dos infernos e correr atrás dela, segui-la até a casa. Ao menos saberia onde morava. Mas o quê!? A mocita da caixa demorou uma eternidade e ela desapareceu.

Foi uma tarde de setembro que a trouxe de volta. Chovia como Deus a dava. Quando o Semedo, displicentemente, entrava no café da Praça, deu de caras com ela, sozinha. Melhor oportunidade não lhe poderia ser oferecida. Ajustou-se na mesa ao lado, de forma que a visse e que fosse visto por ela. Por onde começar. Hesitou e voltou a hesitar. Por fim, prevendo que ela estava prestes a levantar-se, disparou ao acaso:

– São horas de ir buscar os filhotes?!

Ela, simplesmente, assentiu com a cabeça, levantou-se e saiu deixando, em cima da mesa, a chávena vazia e, ao lado, uma moeda. Apeteceu-lhe pegar na chávena, lambê-la… mas o empregado chegou primeiro.

Enquanto ela ali estivera, observara-a minuciosamente. Parecia-lhe uma mulher triste, talvez sofredora. O marido, ou lá com quem vivia, sim porque se tinha filhos alguém lhos havia feito, devia ser um perfeito crápula, um misantropo, uma palerma de alta qualidade, pois nunca a acompanhava. Sempre sozinha, como se não tivesse ninguém. Depois aquele ar amargo, talvez mesmo triste, aquela aparente solidão, aquele constante olhar para algo perdido. Tudo o confundia e atormentava.

E foi no auge de um sacrílego tormento que o Semedo despertou. Raios! Havia de a encontrar um dia, de estabelecer conversa, de lhe dizer tudo o que lhe ia na alma, do que sentia por ela, de quanto a amava…

Passaram, dias e meses. Nada! Ela sempre sozinha, sempre de ar triste e acabrunhado, a resplandecer beleza e graciosidade. O Semedo a desfazer-se entre programações de encontros, passagens por onde cuidava que ela andaria, tentativas, na maioria frustradas, de se deparar com ela, no mercado, à saída do colégio, na rua da igreja. Falas mansas e parcas e uma chusma de desejos, uma avalanche de sonhos. Mas nada. Apenas, de vez em quando, a via. Ela sempre igual. Atirava-lhe um sorriso, um bom dia, umas falas mansas, umas frases curtas. Diálogos de ocasião. Nada mais para além da frustração e do desespero com que voltava a revestir-se. Despejava tantos esforços em vão, o Semedo.

E foi num maio morno, chuvoso, sem flores e sem alegria. Num maio tolo, desalmado, despido de sol, daqueles que não deixam saudades. Ele, mais uma vez no mercado de sábado, emerso num enorme eirado de esperança. Desesperado. Num desassossego desestabilizador. Vem? Não vem? Talvez viesse…

E veio. Ao lado um gorila, barbudo, tinhoso, pançudo e ascoso. Um bicho do mato. O mundo nunca parira tal monstruosidade. Um espantalho de tentilhões ao seu lado era um príncipe. Tivesse vergonha, o tratante, de se por ao lado de tamanha beldade. Apetecia-lhe ir aos queixos, partir-lhe o focinho, pôr-lhe a cara num coicel. Mas o pior é que ela, a apócrifa Cassilda, parecia que andava vidradinha no estafermo. Tudo segredos, tudo sorrisos, tudo alegria. O pulha tinha-a enfeitiçado. Tantas loas lhe cantara, o safardana, tantas juras lhe fizera, o mariola, tantas promessas vãs, tantas aldrabices e outras tantas mentiras e a pobre caíra como uma papalva nas garras do infame. Ela, uma virgem inocente e bela. Ele um canalha asqueroso e perverso.

Saiu desolado, o Semedo. Aguardou que eles também saíssem, na tentativa de os seguir. Mas, no emaranhado dos vultos que entravam e saíam, perdeu-lhes o rastro. Que fossem para os quintos dos infernos. Ela também. Como enfrentava dia e noite um mostrengo daqueles? Como fora embrenhar-se com um cara de cu daqueles. Um turbilhão imenso de revolta assapava-lhe o pensamento. Desfazia-o. Aniquilava-o. Não podia fazer nada.

Calou-se muito calado, virou-lhes as costas. Dois meses depois, revoltado, partiu para a América.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:40

COMO UMA DEUSA

Quinta-feira, 05.02.15

Quando entrou na sala, pela primeira vez, ostentava um modelo de perfil, aparentemente, austero, ríspido e altivo mas ornava-se duma beleza estonteadora, duma elegância deslumbrante e dum porte gracioso. Uma deusa a substituí-la não se manifestaria com maior esplendor.

Lúcia era uma bela mulher. Tinha um corpo perfeito e esbelto, um olhar profundo e comunicativo, um sorriso terno e mavioso, uma postura nobre e fascinante, embora se adivinhasse nas suas atitudes e nos seus gestos uma estranha e desconcertante melancolia.

Nascera numa família muito modesta onde nem pai nem mãe foram alfabetizados. Apesar de tudo, olharam sempre de bom grado para a ambição da filha em querer estudar e haviam-se empenhado, com excessivo zelo, na sua formação, proporcionando-lhe a obtenção de um curso universitário. Ela reconhecia o sacrifício dos pais e ficara-lhes imensamente grata, mas optara por abandoná-los, emancipando-se ainda muito nova. Eles não compreenderam e, pior, nunca lhe perdoaram esse devaneio. Consideravam que a sua obrigação era ajudá-los e ampará-los, agora que o rolar dos anos lhes pesava, perene em achaques e maleitas. Na Universidade, Lúcia conheceu Rodrigo, filho de um poderoso industrial. O rapaz pouco se interessava por estudar e cedo se empenhou na senda empresarial do progenitor. Foi um namoro longo e prolongado, com avanços e recuos. Por fim e depois de muita hesitação, casaram. Lúcia tornou-se rica, passou a viver numa bela vivenda, com todo o conforto com que sempre sonhara. Mas não amava Rodrigo, de verdade. Empenhava-se, melancolicamente, no sacrifício de um amor parco que tinha como recompensa o excesso de conforto quotidiano em que vegetava. Na verdade, para ela, as excelentes condições de vida que o marido lhe proporcionava, justificavam uma aceitação, mesmo amarga, daquele casamento.

Na escola onde agora lecionava todos a respeitavam, porque a todos cativava. Mas era o Silveira, o colega que a recebera e acompanhara desde o primeiro dia em que ali chegara, que mais lhes despertava a atenção. Era uma amizade, verdadeira, transparente e desinteressada, pese embora já tivesse percebido que o Silveira não se ficava só pela simples amizade. Sabia muito bem que ele a apreciava de forma desmedida e exorbitante, cativado e encantado pela sua beleza. Isso lisonjeava-a. No primeiro dia em que a vira, solitária, sentada num banco, de perna elegantemente alçada, fora sentar-se junto dela. Deslumbrado e sem saber como iniciar o diálogo saiu-se com esta:

- É dos Açores? Disseram-me que estava cá colocada, este ano, uma colega açoriana.

Ela, percebendo a marosca, abanou a cabeça com um sorriso e ele, pedindo desculpa fez simulada intenção de afastar-se. Ela que nada havia a desculpar. Podia ficar e sentar-se à vontade. Foi um tempo deslumbrante para o Silveira, o que se seguiu. Ela a procurar a aproximar-se em cada hora e em cada momento, a jurar que fora o único que se aproximara no primeiro dia, que a recebera com amizade, que lhe dedicara um momento de carinho. Nunca havia de o esquecer. Ele deslumbrado e embevecido.

E, no fim do ano foi com muita satisfação que ele soube que ela continuava na escola. Dobrado um agosto dolente, um verão de saudades, a escola era um mar de serenidade e consolo. Mudara-se tudo. Uma colega nova havia de se lhes juntar. Três! Uma amizade, profunda e verdadeira, a delas. E o Silveira sempre, babado, embevecido, a acompanhá-las para aqui e para acolá. Muito de conversas, muito de segredos. Agora, porém, mais afastado da Lúcia. Era forçado a partilhá-la. E ela, de dia vpara dia, a emaranhar-se mais e mais com a nova amiga.

Foi num dia primaveril, cheio de sol e bonança, que a Lúcia faltou. Há dias que a ideia de faltar lhe obcecava o espírito. Avisara os amigos do tiro. Nem um nem outro estranhou. Era normal. O marido ausente no estrangeiro há quase um mês. A abarrotar de saudades, ia esperá-lo ao aeroporto. Quis o destino que amiga recebesse um telefone do marido. Também ele estava no aeroporto, juntamente com a Lúcia. Se não estranho pelo menos curioso. Decidiu pôr-se à alerta. Recorreu à própria memória, onde não foi difícil relembrar meia dúzia de episódios, aparentemente normais, mas sub-repticiamente comprometedores para lhe demonstrar que ali havia gato. Oh! Se havia. E num ápice despejou todas as suas dúvidas e suspeitas sobre o Silveira. Ele que não. A Lúcia era senhora de uma nobreza de carácter, de uma dignidade de costumes que nunca havia de trair, de forma tão vil, uma amiga. Mas do Silveira, cada vez mais embeiçado por ela, tudo menos mexer-lhe na honra. Enfeitiçado, não via um boi! Destemida e arrojada tornou-se mais astuciosa. Simulou conversas, proporcionou escorregadelas, desvendou enigmas. Nada lhe escapava. Dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. Era claro como água. Estavam envolvidos e desde há muito. Hesitou! Como havia de proceder? Senhora dos seus passos, seria fácil apanhá-los em flagrante. Mas isso nunca. Preferiu a alternativa de alargar os olhos a outros recursos Somente aquém do aceitável, não do humilhante, do indigno e muito menos do arruaceiro. De resto, não se sentia já com força anímica para grandes façanhas que lhe atribuíssem o galardão de vítima. Optou por confrontá-los, num encontro a três. O Silveira ainda se ofereceu para estar presente, na qualidade de amigo e confidente de ambas. Seria o mediador. Nem pensar. Uma coisa é a amizade outra as questões com terceiros.

Apertados por terrível arrocho, confessaram. Primeiro ele. Canalha! Ela ainda teve a distinta lata de lhe atirar à cara o seu relacionamento com o Silveira. Mas aquilo era uma ignomínia. O Silveira não era para ali chamado. Depois as desculpas do costume. Nada. Não havia nada! Não era o que ela pensava. Mas como arrocho se avolumasse e o marido começasse a descoser-se cada vez mais, ela começou a meter os pés pelas mãos, a definhar. Mas num impulso final reergueu-se e ressuscitada, imponente e arrogante confessou. Tudo acontecera muito rápido e quando lhe quis confessar, já era tarde. Agora que se aviesse. Seriam um para o outro.

Embrulhada num manto de tristeza, veio de novo aninhar-se junto ao Silveira e despejar-lhe quanto ódio lhe ia na alma. Não tanto pelo marido, um pulha, já não novato em semelhantes proezas. Ela sim, a amiga que a enganara. Era dela que sofria a maior ofensa da sua vida. E ele, o Silveira, havia de cuidar-se…

Mas não se cuidou o Silveira. No seu íntimo, estranhamente, continuava a ver a Lúcia como a amiga de sempre, como uma deusa que deveria adorar. À medida que ia pondo na balança as justificações dos seus desejos contra uma traição a que era alheio, o Silveira via a mesma Lúcia que vira pela primeira vez, senhora dum corpo perfeito esbelto, dum olhar profundo e comunicativo, dum sorriso terno e mavioso, dona de uma postura nobre fascinante. Uma espécie de deusa que ostentava um perfil austero, ríspido e altivo e que, permanentemente, se ornava duma beleza perturbante, duma elegância aliciante e dum porte gracioso.

- Como uma deusa!...

 

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publicado por picodavigia2 às 00:44

A FUGA

Sexta-feira, 30.01.15

A Bernarda era a rapariga mais bonita da freguesia. Não havia homem que, ao vê-la atravessar as ruas ou vielas do pequeno povoado, elegante e desenvolta, não a desejasse. Ela porém, apesar de sempre generosa e solícita para com todos, repelia piropos lascivos e repudiava galanteios maliciosos. Umas vezes enchia-se da raiva e apetecia-lhe atirar-lhes à cara umas valentes bátegas de insultos, outras cuidava que o silêncio e o desprezo eram a melhor arma contra tais afrontas Mas sempre firme nos seus sentimentos de rejeição, alheia aos ultrajes e ignomínias daqueles crápulas, seguia adiante, como se nada fosse. Ficar presa a emoções negativas e de revolta não conduziam a coisa nenhuma. Era um desperdício. Aquela cambada não merecia sequer o seu desrespeito. O único, na freguesia, que granjeara a sua simpatia e lhe despertava uma enorme afeição fora o Júlio Moleiro. Foi junto à aba de uma das altivas e hirtas paredes que delimitam os caminhos do Batel que se encontraram a sós, pela primeira vez. Foi aí que ela se declarou. Afirmou, sobre jura, que o amava-o e era com ele que havia de casar. O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Sabia bem o que sobre ela se dizia, recordava os olhares lascivos dos que estavam sentados à Praça e que, ao vê-a passar, desembuchavam um rosário de lérias e galanteios maledicentes. Além disso, dizia-se à boca cheia pela freguesia, que ela se havia envolvido com o José Castro, carpinteiro de profissão, e que este já a fora pedir aos pais. Ele que sim. Ela que não. Grande mentira! Puro aleive. Mexericos não faltam nesta terra. Estavam roídas de inveja as que haviam inventado tal despautério. E logo ela, com um canalha daqueles que desgraçara a filha do Timóteo. Nunca havia de ter sequer uma nesga da sua amizade, muito menos a plenitude do seu amor. Era a ele e só a ele que ela amava. Era unicamente ele que ela queria. Fez-se silêncio. A chuva a cessar e um sol brilhante e primaveril a ressurgir, desenhando um emblemático arco-íris, na Rocha da Ponta.

Bernarda de Lemos era muito jovem. Andava pelos vinte e cinco anos. Era loura e tinha os olhos azuis, mais brilhantes do que estrelas do céu quando disfarçadas de pérolas. O rosto bem delineado, de faces macias e a tez coberta por uma madeixa de cabelos sedosos, desleixadamente penteados. Para além de um olhar terno e meigo, possuía um sorriso inebriante e comunicativo. Um deslumbramento! No entanto, o que Júlio mais apreciava nela era aquele seu ar imponente, altivo, destemido e elegante, permanentemente, enlaçado com uma ternura desenvolta e descomplexada. De porte deslumbrante e andar expedito, aspergia simpatia, aureolava-se em dignidade, sorria com ternura. As suas palavras, embora parcas mas comedidas, saíam-lhe da boca límpidas, quentes e solenes. O seu pensamento era cristalino e puro e as suas atitudes e vontades pautavam-se pela hombridade, pela honradez e pela dignidade.

O segundo encontro, menos parco em hesitação mas mais lauto em ousadia, aconteceu para os lados do Areal, numa tarde de outono. Ele na ceifa do restolho do trigo, ela de cestinha no braço, com meia-dúzia de ovos, vindos de um curral que o pai possuía, à beira-mar, onde esgravatava e debicava uma dezena de galinhas. Ele mais tímido e indeciso do que da primeira vez. Ela mais desenvolta e ousada. Falava-lhe com todo o respeito, e, tão certo como dois e dois serem quatro, amava-o. Não, havia dúvidas nenhumas a tal respeito. Amava-o e muito. Animou-se o rapaz. Da sinceridade que aquelas palavras revelavam não podia duvidar. Ele também a amava. Nos últimos meses Bernarda não lhe saía do pensamento, nem por um segundo. Pensava nela noite e dia. Deslumbrava-se quando a via, enlouquecia se a sua ausência era prolongada. Queria-a só para si e, por isso, irritava-o a forma como os outros a olhavam, como se referiam a ela, os piropos malévolos que lhe atiravam, as mentiras que diziam a seu respeito.

Mas naquela tarde, não. Naquela tarde, aureolada por um sol outonal, ela estava ali presente, junto dele. Sua, só sua. Talvez por isso, parecia-lhe mais doce, mais meiga, mais atraente e, sobretudo, mais sincera. Entrelaçado entre as pavias de restolho, tinha-a tão perto de si como nunca, o que lhe permitiu reparar melhor nela e apreciar com maior esplendor, a doçura do seu olhar, a ternura dos seus lábios, a elegância divinal do seu corpo. Mas a sua presença, ali a seu lado, também lhe trazia um pânico, tremendo e gigantesco, que lhe despertava os mais íntimos afetos. Primeiro uma espécie de tição de fogo, um vulcão a despertá-lo. Depois um raio invisível a digladiar-lhe o peito, um calafrio medonho a desfazê-lo por completo. Queria falar mas não tinha palavras, queria abraçá-la mas não conseguia, queria possuí-la mas não tinha força. Ela, ali tão perto, à sua frente, meiga, sublime, aberta, disposta a ouvi-lo, capaz de o aceitar. Sentia o seu respirar, ouvia o bater do seu coração, recebia o halo da sua entrega. Ele nada. Uma vela apagada, uma flor murcha, um diadema sem brilho.

Perante a indecisão dele e num ímpeto de justificar o injustificável, de o libertar de complexos e inseguranças, Bernarda abriu as mãos e mostrou-lhas. Estavam ásperas, doridas, secas e, consequentemente, incapazes de o abraçar. Júlio, sem perceber o enigma daquela obstrução, ao ver-lhe as mãos naquele estado, no seu íntimo condoeu-se. Não entendia como um corpo tão suave, meigo e aveludado possuía umas mãos tão rugosas carregadas de tanta dor, de tanto sofrimento. Procurava, no seu íntimo, uma palavra que fosse mas não conseguia dizer nada. Ela também não. Ficaram os dois estáticos, inquietos, gerando um silêncio de tal modo profundo que, apenas, lhes permitia ouvir, com clareza, os rugidos roufenhos que assolavam o interior das suas almas. Um silêncio inexplicável e sem sentido que lhes obliterava evocações dilacerantes Um silêncio que lhes permitia olhar, ver e compreender a impossibilidade da sua paixão.

Um denso nevoeiro se formava, agora, entre ambos, O sol caíra de vez e sumira-se no horizonte. A lua, no vazante, tentava delinear-se no céu brumaceiro, muito vaga, esparsa. A mancha negra da Rocha, desde as Águas ao Curralinho definia-se emanando um negrume estonteante e vertiginoso, que parecia tornar a tarde mais escura. O mar, revolto, retorcia-se em extensas ondas que, ao chegarem junto à costa, se desfaziam nos rochedos do baixio, produzindo um rugido roufenho e vesano, desenhando rastros de espuma que ora se encolhiam ora se alastravam, numa tentativa frustrada de galgar a terra. De cima, do alto das Courelas, chegava um rumor abafado de vozes humanas. Das encostas do Pico ecoavam murmúrios alegres e frenéticos de pássaros em cio.

Não houve mais tempo. Nem naquele fim de tarde nem em nenhum outro. Tantos sonhos perdidos, tantas lágrimas derramadas, tanta confidência dispersa. Cada dia, para Júlio, transformava-se num império de desespero. Para Bernarda, num desmoronar de sonhos.

E numa manhã Bernarda partiu, em direção a uma América distante, longínqua e indefinida. Uma América da qual nunca mais voltou.

Todas as manhãs Júlio sentava-se, sozinho, sobre um maroiço do cerrado do Areal, onde já não havia restolho de trigo e onde a tivera à sua frente, pela última vez. Dali, olhava o mar azul e infinito, na direção do horizonte. Sabia muito bem que era naquela direção que ficava a América, onde cuidava que ela estaria escondida, talvez perdida.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:17

O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Terça-feira, 27.01.15

Aproximou-se da borda do velho batel e vomitou pela quinta vez. O Faial ainda ali, bem perto. As Flores, a milhas. Uma noite infinita à sua frente. Cambaleava, entontecido. Fez um esforço de recuperação e voltou à cadeira que, anteriormente, ocupara. Embora ardesse em enjoo, tentou acalmar os nervos e dormir. Só pela noite dentro o conseguiu. Quando acordou, o sol projetava-se em arco-íris sobre as Flores coberta, a norte, por uma chuva miudinha e persistente. Enfim! Depois duma intrigante viagem, entre o constante marulhar do oceano e a ronçaria do velho batel, chegava ao seu destino.

Oficial de pedreiro, oriundo de Vila Franca do Campo, esperava-o a gigantesca tarefa de erguer um templo em honra de São José, debaixo daquelas rochas, envoltas, permanentemente, em brumas e nevoeiros. Ali ficaria encurralado, invernos a fio, verões atrás de verões, impedido duma fuga até à ilha natal, simplesmente, a ver crescer, a passo de caracol, aquela obra monumental, à espera de que lhe chegasse o fim! Dessa, sim! Depois de pronta, dela havia de ufanar-se! Pela primeira vez, abdicara dos pequenos casebres de pedra negra, de Ponta Garça e da Ribeira das Tainhas, a fim de se dedicar a uma obra gigantesca, histórica. Nado e criado naquela que foi, durante o primeiro século de povoamento açoriano, a mais importante povoação da ilha de São Miguel, nela se fixando as principais instituições oficiais, como a Alfândega e a Ouvidoria, de onde o epíteto de "primeira capital micaelense", vagueava, sempre que lhe apetecia, à Lagoa, a Ponta Delgada, por vezes, até à vizinha ilha de Santa Maria. Mas ali, entre mar e rochas, estava numa espécie de jaula, preso como um condenado, sujeito ao isolamento, à solidão.

Não demoraram muito as agruras deste sufoco. Enganara-se. Por sorte ou por destino celeste, em frente ao enorme cerrado, onde se desenhavam os alicerces do novo templo, uma pequena casa, de pedra negra, ombreiras de tufo avermelhado, coberta de palha, mas de portas e janelas sempre abertas. Ela, a dona, a Júlia, sempre meiga, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre disposta a vir trazer um velho jarro de barro cheio de água, fresquinha e apetitosa.

Júlia era o de que mais belo e atraente havia no povoado. Júlia era uma mulher ainda jovem, duma beleza rara aliada a uma bondade extraordinária e a uma generosidade inédita. Além disso era uma mãe extremosa, uma esposa dedicada, sempre pronta a ajudar o marido nas lides agrárias e nas sementeiras. Embora, aparentemente, imbuída de uma ar sério e de uma postura sóbria, Júlia era divertida, afável, enfim, um belo exemplo de virtudes e de dignidade. No entanto, o que mais, estranhamente, a caracterizava era o facto não apenas saber ler e escrever mas, sobretudo, ser possuidora duma cultura invulgar. Fora o vigário que, quando criança, a iniciara nas letras, despertando-lhe um interesse inusitado pela leitura. Quando jovem devorou, num ápice, quantos livros o vigário possuía na sua pequena biblioteca, desde os velhos manuais de teologia e das vidas de santos até aos mais interessantes clássicos da literatura mundial.

Foram os Miseráveis de Victor Hugo, a última novidade que o vigário adquirira, um excelente livro, daqueles que se leem duas ou mais vezes que moldou o coração de Júlia e a tornou extremamente sensível ao sofrimento dos outros. Era uma extensíssima narrativa, um romance interessantíssimo que Júlia devorou em menos de um mês e onde a ficção se envolvia com a história, com a filosofia, com a moral, com a religião. Narrava a vida de Jean Valjean e de variadíssimos personagens que com ele enriqueciam a narrativa, testemunhando a miséria e a pobreza da sociedade francesa da altura. Júlia leu-o três vezes. Leu-o e assimilou, na perfeição, a mensagem.

Enquanto isso, as paredes do novo templo iam-se erguendo lentamente. João Rodrigues, apesar de tolhido pelo cansaço, a abarrotar de calor e de sede, deslumbrava-se com a figura enigmática de Júlia que, apesar de, inequivocamente, o perturbar, aliviava-o mais do que a frescura da água do cântaro que ela trazia para lhe matar a sede. Um gesto inebriante de ternura, o dela. Um reconfortante auxílio para ele, que simplesmente ao vê-la estremecia e meneava como se fosse a chama duma vela acicatada pelo vento. Inicialmente, apreciava-a como mulher atraente, bela, generosa e solidária. Mais tarde, passou a vê-la como amiga solícita, íntima, sincera, desinteressada com quem partilhava tristezas, alegrias, solidão e conforto. Por fim um enorme tufão, vindo não sabia de onde, moldou-lhe a alma e atirou-o para uma paixão incontrolável, desmedida, infinita. Amava Júlia como nunca amara ninguém. E agora? Estava encurralado num beco do qual dificilmente sairia. E ela? Também o amava? Não sabia. Uma dúvida tremenda destruía-o, minava-o, assolava-o por completo. A porta sul do templo já se erguia destemida e arrogante, mas a obra emperrava num contínuo e desmesurado insucesso. Como o constante rugido do vento norte, em noites de invernia, amedrontava-o a enorme paixão que por ela sentia. Mais. Aniquilava-o, desfazia-o por completo. É verdade que as visitas e encontros se sucediam, mas eram rápidos e vagos, balanceados entre um sorvo de água, uma conversa incompleta, um olhar de compaixão, um desejo infinito de a possuir, de a amar. Mesmo quando ausente a sua imagem trespassava-o, turvando-lhe o olhar, entontecendo-lhe o espírito, apertando-lhe o coração.

Os dias passavam, ora amargos a quando da ausência dela, ora dulcificados com a sua presença. A fachada principal do templo já tomava forma e a torre sineira delineava-se, firme e altiva como que perfurando os ares, como que unindo a terra ao céu. Ele cada vez mais apaixonado, mais louco, mais desfeito não tanto pelo cansaço da obra mas, sobretudo, pela incerteza duma paixão, cuja correspondência era uma enorme indefinição. A sua alma sentia-se, em cada manhã, inundada de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com cada gole de água fresca que ela lhe oferecia e que fruía com uma esperança inusitada. Abandonado à casualidade de frugais encontros saciava mais a agrura da paixão da alma do que a funesta sede do corpo. Era feliz, mergulhando apenas na esperança de mais um sorvo de água fresca que as visitas dela lhe proporcionavam. Se pudesse, ao menos, exalar, sequer, um pequeno afluxo de quanto lhe ia na alma, atingiria a plenitude. Mas pelo contrário, sempre que ela se aproximava com um ar de aparente indiferença, ele afrouxava, desfalecia, sucumbia perante a força do descalabro de mais uma visão.

Se algum dia ela não aparecia, invadia-o um silêncio profundo, uma mágoa lúgubre, um entorpecimento estranho. Nos dias em que ela sorridente e feliz, se aproximava de cântaro apoiado na cintura, João Rodrigues tentava em vão encontrar no instinto confuso dos seus sentimentos, na profundidade da sua paixão, a força necessária para abrir a sua alma e anunciar o seu sufoco. Subitamente, obstruía-se-lhe a voz, como se estivesse sob um pesado alçapão, uma laje basáltica, semelhantes às que agora alçava nas roldanas e muito a custo colocava nos degraus interiores da torre sineira.

Uma sascadela tremenda! Uma pedra enorme tricara-lhe o ombro, entrando-lhe na carne viva, provocando-lhe uma enorme ferida. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto., espargindo um grito de agonia. E foi a dor que lhe trouxe a coragem. Na manhã seguinte, quando Júlia, depois de muito hesitar, lhe bateu à porta do velho casebre, confessou, sem lhe dar tempo de retorquir ou sequer de se opor. Com quanto ímpeto pôde, lançou-se-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Uma paixão do tamanho do mundo. Amava-a, com nunca amara ninguém. Pensava nela todo o dia, toda a hora, todo o momento e a sua imagem acompanhava-o durante a noite inteira. Quando a encontrava ele sentia-se na presença duma deusa. Feridas dolorosas lhe causavam a sua ausência. Eram farpas duras que lhe rasgavam o peito. Erguia-a, como soberana, no seu quotidiano. Impunha-se como senhora do seu destino. Adorava-a, como deusa, em cada momento. Soluços escarlates esmagavam-lhe o rosto. Ela, apática, indiferente, como se nada fosse.

Passada a turbulência da inédia confissão, João Rodrigue enxugou duas lágrimas que lhe corriam dos olhos e olhou-a. Então?! Como não recebesse qualquer resposta, recuou solitário à leviandade da sua ousadia. Mas era tarde. Ainda esperou, ansioso, uma derradeira resposta, uma reação final. Nada. Por fim, Júlia, com uma normalidade arrepiante, esclareceu. Sabia, desde há muito. Os seus gestos, as suas atitudes, os seus olhares, as suas palavras… Tudo o denunciava. Sabia muito bem que ele vivia sob um sufoco, enfeitiçado com a diabólica loucura duma paixão que nunca havia de ser correspondida, paixão que o cegava e lhe perturbava o entendimento, que o impedia de ter consciência dos seus gestos, das suas atitudes. A verdade, porém, é que ela não o amava, nem nunca haveria de o amar. Apreciava-o muito, tinha por ele uma enormíssima amizade. Nada mais.

João Rodrigues insistiu, continuou a despejar sobre ela quanto lhe ia na alma. As palavras, porém, fugiam-lhe. Hesitava e voltava a avançar de novo. O peito ardia-lhe, a cabeça já lhe andava à roda e parecia-lhe não sentir o próprio corpo. Envergonhado, desejava que aquele momento nunca tivesse existido. Mais duas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto num sofrimento sem limites. Ela, insensível, fria, como se nada fosse. Condenava-o, recriminava-o, tentava afastá-lo.

Num ímpeto, João Rodrigues afastou-se. Ela fora muito clara: Não se importaria de continuar a visitá-lo, de acompanhá-lo, mas somente como amiga. Se pudesse até dava uma volta ao mundo na sua companhia, mas não o amava e, por certo, nunca havia de amá-lo. Como um náufrago no alto mar, João Rodrigues percebeu que a salvação só lhe viria do acaso. Afastou-se, desesperado, angustiado, a abarrotar de sofrimento e angústia. Apenas ouvia o silêncio sepulcral e aterrador das pedras que amontoadas em frente à fachada do templo aguardavam que as colocasse lá bem no alto, onde haviam de permanecer, silenciosas, para sempre.

 

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RITA E TEODORO

Sábado, 24.01.15

Nasceram quase no mesmo ano. Ele nos fins de Maio, ela em meados de Fevereiro do ano seguinte. Como se isso não bastasse, os progenitores eram vizinhos. Os dele, no fim da Assomada, os dela, no início da Fontinha. Ambos crianças lindas, airosas que o povo em peso mirava com olhos raiados de inveja. Inevitavelmente, queriam os seus assim. Apesar de tudo cresceram separados. Apenas a escola primária os uniu. Uniu e desuniu. O pai dela há muito que decretara desprezo ao dele e as mães haviam-se desavindo desde muito novas. Circulava nas veias dos progenitores de ambos um travo amargo e crispado de indiferença.

Acabadinhos de sair da escola primária, quis o destino que ambos marchassem para outra ilha. Ela para o Faial, ele para a Terceira. Viagens de férias desencontradas, destinos impostos premeditadamente, apenas se viam de longe. Ela numa caminhada até ao Cimo da Assomada, em demanda do galinheiro. Ele a pavonear-se pela rua Direita como se fosse um lord.

Numa tarde, de agosto, porém, tudo mudou. Ela a ir à casa da senhora Benedita, a costureira-mor da freguesia, onde ele, na qualidade de vizinho predileto passava manhãs, tardes e por vezes até noites. Viram-se, reviram-se e olharam-se como nunca se tinham olhado, beneficiando do beneplácito da irmã da senhora Benedita, a Cremilde, muto incentivadora de namoricos e defensora de folguedos e jactâncias juvenis. Desfizeram-se bloqueios, quebraram-se cadeias, colaram-se destinos. Um sufoco inebriante para ela, um alvoroço demolidor para ele. Segue-se que daí a nada corria falatório gigantesco e polvoroso pela freguesia. Que Deus nos acudisse! Um alvoroço mexeriqueiro como há muito se não vira. Por último encheram-se os ouvidos dos progenitores. Os dela encolheram os ombros. Tanto se lhes dava como não dava. Os dele, um descalabro a que era preciso por cobro.

A Rita, assim era o nome dela, é que, com o aval dos progenitores, não se importou nem quis saber de mexericos. Estava-se marimbando para o que dela diziam. Muito senhora do seu nariz, altiva e descomplexada, com resposta sempre na ponta da língua, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava Assomada acima em direção à terra onde esgaravatavam e debicavam meia dúzia de galinhas e um galo, como se nada fosse. Se achasse necessário e oportuno até dava troco a um ou a outro. Além disso, aspergia graciosidade a garota e, revestindo-se de uma simpatia contagiante, estrebuchava-se em alegria e contentamento. O povo inteiro, incrédulo, rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho. Ele sim, o Teodoro, sobretudo na opinião dos mais velhos, mais experientes e mais sabedores era o velhaco, o bandalho, o atrevido que a devia deixar em paz. Passava a vida ao deus dará, sem fazer a ponta dum corno. Que pouca vergonha! Perdidinho de todo, cheio de mania, um caganita daqueles! Um pobretanas que não tinha onde cair morto, mas que muito dava que falar. Ai se dava! Ainda bem que o Carvalho de setembro se aproximava. Havia de o levar de vez e deixar a freguesia em paz!

Ela, porém, não compartilhava tão vis impropérios, antes, ao ouvi-los, remanescia triste, chorosa, na ânsia de um olhar de perdão, mesmo que fosse de longe.

Partiram! Primeiro ele, depois ela. E o silêncio regressou ao povoado, evaporando murmúrios. Lá longe, de ilha para ilha, apenas uma carta, simples, pequena, concisa, sem deslumbramento. Para ela era intrigante o parco manifestar-se dele. Para ele era desgastante a separação dela. Apenas sonhavam nicas de esperança, como se fossem gotas de chuva saídas de nuvens escuras, deslizantes, sem destino.

Vieram outros verões e o Carvalho a despejá-los, à vez, em Santa Cruz. Nunca os juntara, o maldito. E os ecos sedentos de um grande amor, apenas, a perderem-se nos contrafortes do Outeiro. A senhora Benedita, com o beneplácito da Cremilde, a propósito de aprovar um vestido ou consertar uma bata, ainda ia abrindo, juntamente com uma gateira da porta, uma nesga de esperança. Mas eram encontros frugais, silenciosos, de todo infrutíferos. As ruas cada vez mais desertas e as janelas e varandas cada vez mais fechadas. Até as próprias marés de agosto, tanto ao gosto de um e de outro, se embraveciam, impedindo-os de se banharem no esplendor duma glorificação a valer. Ele mirara-lhe o corpo sedento, meigo e acastanhado mas que estava destinado a permanecer-lhe, apenas, como imagem indelével mas distante. Ela, obcecada pela hesitação que dele parecia emanar, permanentemente, entrelinha-se a entrelaçar desejos e construir castelos de embevecimento.

Foi pela festa da Senhora da Saúde que lhe pareceu que tudo havia de clarificar-se. Ele, finalmente, havia de se declarar, talvez de a beijar, de terminar com aquele sufoco, inaceitável e incompreensível. Mas para isso haviam de ser eles, sozinhos, a pôr cobro àquele amontoado de prémios, bugigangas diversas de pouca utilidade mas, regra geral, bastante vistosos e apelativos, que a ganapada, no domingo anterior, juntara pela freguesia. No reboliço da azáfama, ele mais afoito e experiente, mas mais desleixado e maleável, ela mais sensível e delicada, mais cuidadosa e sensata na escolha, na seleção e no arranjo. Tudo desenvencilhado em diálogos de circunstância, emoções contidas, desejos refreados, a arfar uma inusitada mas recíproca cumplicidade. A obstrução era rainha, numa ternura desmedida, num envolvimento desejado, a esquecer um passado proscrito, amordaçado. Centenas de quadradinhos de papel eram cuidadosamente enrolados, uns após os outros, simetricamente, num insigne e deslumbrante cuidado. O epicentro do desvelo rasgava-se frenético como se fosse uma onda a vir e voltar, tímida, temerosa, talvez mesmo ofegante. E no emaranhado do acerto, despejavam-se, apenas, desejos conciliadores, alvoroçava-se, às escondidas, a unanimidade, convertendo-a numa espécie de ternura sufocante, num simulado desembocar de contrição. Nada mais do que o reparar dos erros, o repor das falhas, o reconstruir de aparência e o acrescentar de sentimentos. Ele, inexplicavelmente e de uma maneira cobarde, atirava ao ar um amontoado gigantesco de desejos. Ela, ansiosa e expectante, repelia os brados estridentes dos estigmas em que ele a envolvera. Uma hesitação dominadora substituía a obstrução inicial e tornava-se rainha.  

E quando a noite, madrasta e perversa, desfazia a magia telúrica e profunda da quermesse da Senhora da Saúde, ela emaranhava-se, alvoroçada, numa aventura, insegura, fútil e destruidora.

Ele partiu no Carvalho seguinte e não mais voltou.

 

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