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A PRIMEIRA NOITE NO FAIAL

Sábado, 29.11.14

O homem que José Pereira de Azevedo tinha à sua frente, chamava-se José de Ávila Coutinho e era descendente de Alexandre Coutinho, mais conhecido pelo Marialva, um dos primeiros povoadores da ilha. Essa a razão pela qual o povo do Pasteleiro e da Horta, sem saber muito bem porquê, chamavam àquela casa, “a casa do Marialva”.

José de Ávila Coutinho era um homem alto, elegante, já de avançada idade e muito acabrunhado por desgostos e dissabores recentes. A esposa, os filhos e os netos haviam sido atingidos pela fatídica peste que assolara a ilha e haviam falecido. José Coutinho ficara só no mundo. À maneira de Job, senhor duma paciência inquebrantável e duma bondade inexaurível, José Coutinho assistiu ao falecimento, primeiro da mulher e depois dos filhos e de dois netos. Um após outro, todos haviam sucumbido, vítimas daquela feroz e temível peste, frente à qual pouca ou nada se poderia fazer. Ficara sem família, sem alegria, sem esperança e sem vontade de viver. Sentindo que nada mais tinha que fazer na Horta, onde a vida para ele não tinha sentido, refugiara-se, como um ermitão, na casa do Pasteleiro, onde vivia só, entregue à dor e ao sofrimento. A casa não oferecia grandes condições, uma vez que, desabitada há anos, se fora degradando desalmadamente, José Coutinho sentia-se ali bem, perfeitamente isolado, sozinho, como se fosse um desterrado. Além disso e desde que ali se isolara não mais saía de casa. Simplesmente, vivia fazendo o bem, distribuindo o que ainda possuía, por quantos lhe batiam à porta.

O “Marialva” como era conhecido, recebeu José Pereira de Azevedo com uma enorme consideração e uma inusitada estima. Embora com um sorriso flamejado de dor aquele ancião calvo e de longas barbas brancas emanava doçura, encanto, dignidade e nobreza. José explicou-lhe, com palavras simples mas sinceras e humildes, o drama que o acompanhava, a razão por que abandonara o Pico e a sua presença agora ali, no Faial, acompanhado da mulher e do filho, sem ter onde pernoitar.

Compadeceu-se José Coutinho da desgraça e infortúnio dos Azevedos e prometeu-lhes que tudo se havia de arranjar:

- Muito provavelmente bateram à porta certa – comentava o velho Marialva, coçando, ao de leve o queixo - Estou para aqui só e triste, à espera que Deus me leve. A casa é grande! A comida não abunda, mas tu és novo, meu homem, poderás semear, a cultivar e colher. As casas não abundam por aqui e, a maioria delas, apesar de desocupadas, estão fechadas e seladas pelas autoridades. Mais não era de esperar, pois muitas fedem a peste e a morte. Por isso, podeis ficar por aqui, enquanto quiserdes e necessitares. É verdade que não disponho de abundância de alimentos mas partilharei convosco o pouco que tenho.

José agradeceu e por indicação do Marialva recolheu-se juntamente com a mulher e o menino, a um dos aposentos indicados. A criança chorava de impertinente e cansada. Pesava-lhe o sono e era urgente deitá-la. Pouco depois adormecia, encostada à mãe que de tanto cansaço, também não resistira ao sono.

José ficou só e acordado durante mais uns longos minutos. Levantou-se, deu uma volta pelo quarto onde, para além da velha enxerga havia apenas um pequeno armário a desfazer-se. Junto a ele José Pereira de Azevedo arrumou os cestos e os sacos que haviam trazido do Pico. De seguida assomou à janela, forrada de pequenos vidros e com umas portadas interiores já desfeitas. Em frente o Pico, na sua imponência total e absoluta. A imagem fosca, daquela espécie de triângulo de lava, espetado ali, em frente ao Faial, trazia-lhe à memória os trágicos acontecimentos dos últimos dias. Os primeiros abalos sentidos em Santa Luzia, aquela noite infernal, em que fora obrigado a refugiar-se no relento, o estrondo da madrugada do dia um e o fogo a nascer da montanha e derramar-se sobre os campos, sobre as casas, sobre tudo. Depois os momentos de aflição junto à igrejinha de Santa Luzia, o fradinho a levantar a coroa do Senhor Espirito Santo e a promessa, a promessa que todos haviam feito e que, estivesse ele onde estivesse, nunca havia de esquecer. Depois, assomava-lhe á mente, a imagem daquele velho, triste e amargurado mas generoso e caritativo, desprendido de tudo o que ainda tinha neste mundo. De que servem os bens, as riquezas, as fortunas se não temos a paz, a alegria, a felicidade de viver junto da família?

Era nisto que pensava José quando se sentou junto da mulher e do filho. Ambos dormiam, cansados do que fora aquele amargo dia. José beijou-os, implorou as graças e as bênçãos de Deus para todos, sobretudo para as vítimas da peste e dos abalos. Pouco depois adormeceu, também.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:37

O MARIALVA

Domingo, 13.07.14

O título nobiliárquico de “Conde de Marialva” foi atribuído por el-Rei de Portugal, D. Afonso V, a Dom Vasco Fernandes Coutinho, em 1440, sendo Regente do Reino D. Pedro Infante de Portugal, por aquele ilustre guerreiro se ter destacado, com bravura e valentia, nas campanhas militares no Norte de África. Dom Vasco, nascido 1385, recebeu não apenas o título de 1º Conde de Marialva, mas ainda o de 3º Marechal do Reino de Sua Majestade, Senhor da Vila de Marialva e Alcaide-mor de Trancoso. Descendia de uma linhagem nobre, sendo seu pai Dom Gonçalo Vasques Coutinho, 2º Marechal de Portugal e Senhor do Couto de Leomil.

Dom Vasco Fernandes Coutinho casou, em 1412, com Dona Maria de Sousa, filha legitimada de Dom Lopo Dias de Sousa, mestre da Ordem de Cristo. O seu filho primogénito, D. Gonçalo Coutinho, por morte do pai e porque filho primogénito, herdou o título de 2º Conde de Marialva, assim como os títulos que o seu progenitor possuía e todos os bens de família. Além disso, D. Gonçalo Coutinho pertenceu ao Conselho de El-Rei e foi Meirinho-Mor de Sua Majestade. Casou com Dona Brites de Melo, filha de Afonso de Melo, senhor de Barbacena, alcaide-mor de Évora, Olivença, Campo-Maior e Castelo de Vide e guarda-mor de El-rei D. João I, sendo sua mãe Dona Briolanja de Sousa. Dom Gonçalo, a exemplo de seu pai, também combateu nas campanhas do Norte de África, perdendo a vida na tomada de Tanger em 1464. Foi 3º Conde de Marialva, o seu filho João Coutinho que, a exemplo do pai e do avô, continuou a participar nas lutas no Norte de África, vindo também a falecer, ainda novo e solteiro, na tomada de Arzila, em 1471. Sucedeu-lhe seu irmão Francisco Coutinho que foi o 4º conde de Marialva, o único dos Marialvas que optou por não se envolver nas campanhas africanas. Casou, em primeiras núpcias, com Dona Isabel Ichoa, sendo designado por El-Rei, Senhor de Castelo Rodrigo. Por falecimento de Dona Isabel, casou com a 2ª condessa de Loulé, Dona Beatriz de Menezes. Como não tiveram filho varão, El-Rei Dom Manuel concedeu-lhes autorização para que sua filha, Dona Guiomar Coutinho, herdasse o título de 5ª condessa de Marialva e 3ª de Loulé. Dona Guiomar, no entanto, casou com o D. Fernando duque da Guarda, mas os seus filhos faleceram todos em criança, extinguindo-se assim a nobilíssima casa dos Condes de Marialva, que, no entanto, anos mais tarde, passou a marquesado, por mercê de D. Afonso VI que, em 1675, atribuiu o título de Marquês de Marialva a D. António Luís de Meneses, pelo papel importante e decisivo que teve na Revolução de 1640.

No entanto Vasco Fernandes Coutinho, 1º Conde de Marialva, teve mais dois filhos, para além de D. Gonçalo: D Fernando Coutinho, que foi o 4º marechal de Portugal e que casou em D. Joana de Castro Catarina de Albuquerque e D. Leonor Fernandes Coutinho que casou com Jorge Gonçalves Coutinho, filho Álvaro Gonçalves Coutinho, mais conhecido por “O Magriço”, e que se notabilizou como nobre, honrado e valente guerreiro, sendo um dos “Doze de Inglaterra”, episódio contado numa história narrada por Camões, no canto VI do Lusíadas, que terá acontecido no reinado de D. João I de Portugal e de Eduardo III de Inglaterra e que demonstra a típica conduta da honra e comportamento de acordo com o ideal da Idade Média

Entre os 15 navegadores portugueses, homens de bem, honrados, trabalhadores e valorosos guerreiros que acompanharam o flamengo Joss van Hurtere na sua primeira expedição à ilha do Faial havia um português de nome Alexandre Coutinho, filho de D. Jorge Gonçalves Coutinho e de Dona Leonor Fernandes Coutinho, e que, por ser neto do Conde de Marialva, passou a ser alcunhado por “O Marialva”. Joss van Hurtere, a fim de motivar aquele grupo de homens a acompanhá-lo em tão desconhecida e arrojada aventura, havia-lhes dado a entender e prometido, que os faria ricos, caso o acompanhassem na sua viagem às ilhas do Atlântico, pois a ilha que demandavam era rica em prata e estanho. Joss van Hurtere e seus companheiros desembarcaram pela primeira vez na ilha registada nos portulanos com o nome de ilha de São Luís, no areal da enseada a oeste, onde hoje está situada a Praia do Almoxarife, mas permaneceram na ilha, apenas durante um ano, altura em que, esgotando-se os mantimentos que tinham trazido, decidiram abandonar a ilha. Revoltados por não encontrarem nada do que lhes fora prometido, alguns dos companheiros de Joss van Hurtere, decidiram matá-lo. Valeu-lhe a lealdade do Marialva que o salvou, permitindo que regressasse à Flandres. Como recompensa, Hurtere levou-o consigo, no seu regresso à Flandres

Por volta de 1467, Hurtere regressou à ilha do Faial, numa nova expedição, organizada sob o patrocínio da Duquesa da Borgonha. Novamente trouxe consigo o seu fiel e leal amigo “Marialva”, juntamente com muitos outros homens e mulheres de todas as classes, origens e condições e bem assim alguns frades e tudo quanto convinha e era necessário para que se instaurasse o culto religioso na ilha. Deslocaram-se em vários navios carregados de víveres, de utensílios domésticos e de utensílios necessários à cultura das terras e à construção de casas.

Não satisfeito com o local onde desembarcara a quando da primeira chegada à ilha, Hurtere decidiu, nesta segunda vinda, contornar a Ponta da Espalamaca e desembarcar na baía de Porto Pim. Foi próximo do local de desembarque que, algum tempo depois, mandou erguer a Ermida de Santa Cruz. Para o compensar da sua lealdade, Hurtere doou ao Marialva terras e concedeu-lhe vários benefícios que fizeram dele um dos mais prósperos, ricos e importantes senhores de quantos habitavam a ilha. Quando Joss van Hurtere regressou a Lisboa para se casar com D. Beatriz de Macedo, foi ao Marialva que, provosoriamemte, entregou o governo e o domínio do Faial.

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publicado por picodavigia2 às 09:48

A CASA AO LADO DA ERMIDA

Quinta-feira, 03.07.14

Situada no meio dos pequenos casebres, construídos em basalto negro e cobertos de palha, a Ermida de Santa Bárbara era um dos mais antigos edifícios religiosos da ilha do Faial, tendo sido construída no ano de 1500, por iniciativa de Pero Pasteleiro e de sua esposa, Madalena da Rosa, que pretendiam, assim, perpetuar a memória de Joss van Hurtere e de quantos com ele haviam demandado a ilha e nela se haviam estabelecido, cerca de cinquenta anos antes, fundando a povoação "de Horta". Joss van Hurtere e os seus companheiros, algum tempo depois de aportarem à ilha, haviam construído, logo ali junto ao mar, uma pequena ermida. Como não tinham nenhuma imagem de Santo da sua devoção que nela colocassem e que lhe dedicassem por padroeiro, apenas lhe colocaram uma tosca cruz de madeira no seu interior e, por isso, decidiram chamá-la de Santa Cruz. Esta ermida porém, devido à sua fragilidade e pouca consistência, foi destruída a quando da crise sísmica de 1671, que originou o Cabeço do Fogo, mediante o aparecimento, naquele sítio, de um enorme vulcão que entrou em erupção na noite da Vigília Pascal. A crise havia-se iniciado com uma série de sucessivos abalos, ao longo do mês de Setembro desse ano. Os abalos intensificaram-se em Fevereiro do ano seguinte, provocando o pânico entre a população e o desabar de muitas construções primitivas, culminando com um grande sismo, no dia 12 de Abril, a que se seguiu uma sequência de muitos outros, sentidos com mais violência nas freguesias da Praia do Norte e Capelo e que destruíram praticamente tudo o que era construção humana. Além disso, dias depois, começou uma nova actividade explosiva, que se prolongou durante 10 meses, provocando uma considerável efusão de lava basáltica a partir de duas chaminés vulcânicas que se abriram no contraforte do Cabeço do Fogo e no Pincarito. A actividade sísmica serenou no més de Maio de 1672 e, em Setembro seguinte, cessou, por completo. Após a erupção vulcânica, no entanto, sucederam-se uma série de sismos, tendo o mais violento, provocado inúmeros prejuízos e arrasado, quase totalmente, a vila da Horta. Foi então que a Câmara Municipal, além das preces públicas, procissões e outros actos de piedade e devoção que mandou promover e a que incentivou a toda a população a participar numa reunião em que se decidiu, por unanimidade, que todos se haviam de unir para pedir a protecção do Divino Espírito Santo. Essa "protecção" implicava fazer um voto solene por si e pelos seus descendentes "que em dia do Senhor Espírito Santo, todos os anos e enquanto o mundo fosse mundo, sairá sempre uma procissão solene ordenada pelos ditos oficiais da Câmara Municipal, da Igreja Matriz e se recolherá na Igreja da Misericórdia, onde se cantará missa com sermão a que assistirá o corpo da Câmara fazendo-se gastos e despesas à custa dela em acção de graças tanto pelos benefícios recebidos de não ser maior o dano que o dito fogo podia fazer como pelo mais que de todo se espera ver quieto e consumido". No lugar onde existia a ermida de Santa Cruz, foi construída, anos depois, a igreja das Angústias.

A ermida de Santa Bárbara também destruída, mas reconstruída após esta crise, apresentava-se com uma construção simples, mas diferente da primitiva, dotada, do lado direito do frontispício e paralela a este, de um campanário, constituído por uma pequena e baixa sineira, sem torre. O acesso ao campanário fazia-se por uma escada encostada à parede lateral da capela que também dava acesso à porta exterior do coro. Do mesmo lado e junto à capela-mor encostava-se a sacristia.

Pequena e singela, a ermida tinha apenas uma nave de planta rectangular, sendo capela-mor também do mesmo formato e separada da nave por arco triunfal, ligeiramente abatido, em cantaria. O frontispício era muito simples, a imitar as empenas das poucas habitações senhoriais, ali existentes, tendo ao eixo uma porta de verga recta encimada por uma pequena cornija e por cima uma janela. Rematado em forma triangular, sobre cujo vértice estava implantada um grossa e tosca cruz de pedra, a fachada terminava por uma cornija que acompanhava a inclinação das águas do telhado, Sobre os cunhais, de um e outro lado, encastoavam-se dois pináculos. A contrastar com a maioria dos casebres circundantes a ermida era construída em alvenaria de pedra rebocada, pintada de branco e rodeada de um adro murado.

A poucos metros dali ficava a casa que a velha, à entrada do povoado, indicara a José Pereira Azevedo. Era um edifício de dois pisos, de forma rectangular e com dois balcões de acesso ao andar superior, na fachada principal, que se ligavam ente si, pelo fundo de duas escadarias, no termo das quais, se tinha acesso ao edifício, através de um enorme e enferrujado portão de ferro, divido em duas metades, uma das quais estava aberta. Uma das escadarias dava acesso à cozinha e a outra à sala. Assim como o pequeno templo, a casa também era construída em alvenaria de pedra argamassada, excepto um dos balcões da fachada principal, o que dava para a cozinha, assim como a empena do lado desta, que eram de pedra negra. Era essa a Casa do Marialva.

José Pereira de Azevedo, parou junto ao portão de entrada, depôs no chão os sacos que levava aos ombros e, pedindo à mulher que o aguardasse ali, juntamente com o garoto, subiu com alguma desenvoltura os degraus que davam para a cozinha. Antes que atingisse o cimo, surgiu à porta semiaberta um homem já de meia-idade. Vestia calças de cotim cinzento, uma camisa de linho, alvíssima sob um colete acastanhado o que lhe dava um ar de senhorio, mas com um poder e grandeza aparentemente desfeitos e aniquilados pelo tempo. Esboçando um doce sorriso, dirigiu-se para José, incentivando-o de que continuasse a subir.

Ao aproximar-se do homem, José retirando o chapéu e estendendo-lhe a mão, cumprimentou-o. Depois, num razoado hesitante, explicou o porquê da sua presença ali.

O homem, desfazendo o sorriso gracioso com que assomara, inicialmente à porta e que mantivera até àquele momento, pediu-lhe que entrasse. Antes porém haviam de subir a mulher e o filho.

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publicado por picodavigia2 às 11:13

NA DEMANDA DO PASTELEIRO

Segunda-feira, 23.06.14

O trajecto entre o Porto Pim e o Pasteleiro, embora curto, foi demorado. Para além do cansaço a que arfavam, incondicionalmente, José e Madalena carregavam o peso dos seus parcos haveres. Além disso, o pequeno António, com o reboliço da viagem e a novidade de caminhar no estranho, tornara-se lânguido, birrento e choroso. Vezes sem conta, Madalena parava para encorajar o pequerrucho, incentivando-o, açulando-o, prometendo-lhe, para o alienar do tormento, uma “uma terra bonita” e “um brinquedo novo”, que ela própria nem sabia o que seria. Nesses momentos, porém, as lágrimas vinham-lhe aos olhos. É que voltando-se para atender ao filho e lhe dirigir palavras de ânimo, olhando a criança, pura e inocente, sabia que mais nada lhe poderia dar a não ser o seu intenso e enorme amor. Ao mesmo tempo, a sua dor ainda mais se acicatava, porquanto dava de caras, lá ao fundo, com a imponente montanha do Pico, enevoada e escura, a sombrear o canal, a abafar as encostas verdejantes da Criação Velha e do Monte e como que a proteger as humildes casinhas da Madalena, dos Toledos e da Abarca, por trás das quais uns pequenos cabeços obstruíam por completo a vista dos minúsculos e escuros casebres das Bandeiras e de Santa Luzia, que ela, agora apenas conservava, como uma lembrança ténue e doce.

A tarde descaía sobre a Horta. O silêncio que os rodeava, enigmático e persistente, provocava hesitações, medos e assombros. O vento soprava muito ameno, mas trazia no rastro um cheiro a queimado, a enxofre e a desalento. Ruas e caminhos continuavam desertos, apenas uma ou outra casa mantinham as portas abertas, por onde se emaranhavam alguns vultos, embrulhados em farrapos escuros, agarrados às paredes, a atiçar uma ou outra acha de lenha no lume, símbolo de uma esperança que, aos poucos, parecia fenecer por completo.

De repente, o pequeno António desatou num berreiro compulsivo, intenso e dramático. A mãe num alvoroço desgastante, colocou, de imediato, o cesto que carregava à cabeça, sobre um muro, abraçou-se ao garoto, apertando-o contra si como se fosse um boneco, confortando-o com afectos, fortalecendo-o com palavras e mimando-o com promessas. José, apreensivo, também parara a marcha lenta em que seguia, despertando do marasmo contemplativo em que se imiscuíra. Colocando os sacos no chão e cuidando que o filho se esvaía de fome, retirou do pesado cesto um caneco de leite. António bebeu-o sofregamente, parecendo, no fim, acalmar, parcialmente, a sua desolação. Colocando, de novo, o filho ao colo, a indicação do marido, Madalena de São João, muito lentamente, recomeçou a marcha. O cesto ali ficava. José mais apressado e desenvolto havia de ir colocar os sacos lá adiante, em lugar que se vissem. Depois voltava atrás e carregaria o cesto, levando-o bem lá mais adiante. Caminharia, assim, em “dois caminhos”, transportando, alternadamente, cesto e sacos, enquanto ela, Madalena, levava consigo o pequeno, exausto, cansado e, sobretudo, muito impertinente.

Algum tempo depois começaram a surgir os primeiros casebres do Pasteleiro. Eram, na maioria, construções pobres, rústicas, escuras, feitas de pedra basáltica, cobertas de colmo e palha, a comunicarem com exterior, apenas, por uma porta e por uma ou duas janelas. Não aguentado mais o desespero angustiante que o dominava, uma angústia preocupada em que submergia, José parou, colocou novamente os sacos no chão e bateu à porta de um dos casebres. Como ninguém surgisse ou sequer falasse, José voltou a bater, mais uma, duas e três vezes. Por fim surgiu uma mulher, já de avançada idade. Vestida de negro, com um bioco a tapar-lhe parcialmente a cara e que ela, com a mão esquerda, ia tentando descobrir, indagou:

- Que quereis? Se andam a pedir podem seguir o vosso caminho. A farinha que está na amassaria, apenas dará para hoje. Nada mais tenho do que pobreza, miséria e desgraça. Com as lágrimas dos meus olhos e o calor dos meus braços hei-de alimentar os meus netos que a peste lhes levou os pais. Amanhã?! Amanhã, Deus me ajudará!

José agradeceu, esclarecendo que não vinham pedir nada, nem muito menos alimentos, embora, ele, José, também não os tivesse em abundância. Que Deus a ajudasse e protegesse os seus netos, como havia de o ajudar a ele e à sua família. Apenas queria pedir-lhe que lhe indicasse um lugar, por mais humilde, pequeno e pobre que fosse, onde pudesse passar a noite com a mulher e o filho. Que ele e a mulher se amanhariam em qualquer sítio ou local, mas o menino bem precisava de umas palhinhas para dormir.

A velha, apontando para a única rua que atravessava o pequeno povoado de um extremo ao outro, disse-lhe:

- Estás a ver aquela casinha branca, ao lado da igrejinha de Santa Bárbara? É a casa do Marialva. Bate aquela porta, talvez ele vos arranje um lugar para dormirem.  

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publicado por picodavigia2 às 11:11

NO FAIAL

Quinta-feira, 19.06.14

Foi esta a Horta que José Pereira de Azevedo encontrou, quando chegou ao Faial, juntamente com a mulher e o filho e onde, a sua vida, não foi fácil. Impedido de entrar no porto da Horta, a quando da sua chegada do Pico, devido aos anunciados contágios provocados pela peste, o batelão em que viajara, juntamente com a mulher e o filho, desde o Lajido até à Horta, fora deslocado para a baía de Porto Pim, situada a este do Monte da Guia, na parte ocidental da vila e onde se ultimavam as obras da nova e moderna Bombardeira que substituíra o antigo Reduto da Patrulha, uma espécie de forte, com uma muralha anexa. Este forte conjuntamente com os de São Sebastião, Creta, Santa Cruz, Bom Jesus e Lagoa constituíam a robusta estrutura defensiva da vila e da própria ilha. As autoridades marítimas haviam questionado a razão da sua entrada no Faial, informando-o de que a situação, na ilha, era dramática. A peste continuava a alastrar-se, o número de pessoas atingidas aumentava assustadoramente, de dia para dia, e a assistência aos contagiados era quase nula. Mas voltar para o Pico tornava-se de todo impossível e Madalena nunca o havia de aceitar. Fixar-se, para já, ali na ilha, num lugar isolado, fora da vila, onde a peste ainda não tivesse grassado, era a solução mais viável para o pesado estigma que carregava José Pereira de Azevedo.

Saltando do batelão para terra com desenvoltura, ajudando a mulher que transportava um cesto à cabeça e ao colo o pequeno António que adormecera durante a viagem e carregando aos ombros dois sacos e duas pequenas cestas, transportados de palanca e que continham os seus parcos haveres, José Pereira de Azevedo chegou, finalmente a terra firme. O forte de Porto Pim começava a erguer-se, ali, numa curiosa modernidade, constituído por uma bateria elevada sobre o extradorso de uma abóbada de dois compartimentos, a que acedida por uma escada de três lanços e com o terreiro, ainda a abarrotar de pedregulhos, paus, tábuas, vigas temões e vestígios de argamassa, a abrir três canhoneiras onde as peças de artilharia, ainda posicionadas sobre o último lance e o pátio superior da escada, permaneciam inertes, à espera do posicionamento que lhes facilitasse e lhes desbloqueasse o seu débil e quase inerte funcionamento.

De seguida, informou-se junto de um sargento da guarda costeira sobre os locais da ilha ou dos povoados pertos da vila e do mar, mais seguros, a evitar contágios e transmissões da famigerada peste, sendo-lhe dito que ali para os lados do Pasteleiro havia sítio mais protegido. Pelo menos, dizia-se à socapa, que muitas pessoas oriundas das várias freguesias da vila e até de fora, ali se tinham refugiado, antes de serem atingidas pelo fatídico contágio, evitando, assim, contactos com infectados. Ele próprio, António Ramos, sargento da guarda costeira, ao serviço de Sua Majestade El Rei D. João e da defesa da ilha, ali se havia refugiado com a família.

Encaminhou-se, pois, José Pereira com a mulher e o filho na direcção do local indicado, caminhando para o lado oeste da vila, atravessando ruas desertas e caminhos despovoados, carregando aos ombros, ele, os dois pesados sacos de serapilheira, onde Madalena, ainda em Santa Luzia, arrumara algumas roupas e os agasalhos julgados necessários para eles e sobretudo para o filho. Ela, por sua vez, com o pimpolho encavalitado em cima de uma das ancas e apertando-o fortemente contra o seu próprio corpo, carregava à cabeça um cesto, com alguns utensílios domésticos e uns nacos de bolo, o pouco que contavam para, nos primeiros dias, alimentar o pequeno António, na esperança de que sobejasse algo para eles próprios.

O Pasteleiro constituía um dos mais importantes lugares dos subúrbios da pequena vila. Fora ali, entre a Baia da Horta e a Enseada de Porto Pim, que, nos primórdios do povoamento da ilha, se havia estabelecido Joss van Hurtere, no longínquo ano de 1467, fundando o sítio de Santa Cruz, que mais tarde dera origem à povoação "de Horta", em homenagem ao seu primeiro habitante. Aos poucos, o povoado foi-se desenvolvendo, crescendo e prolongando, paralelo à baía, até aos contrafortes da Espalamaca, lá para os lados da Conceição. Com o crescer e o desenvolver da vila para este, o lugar do Pasteleiro, que herdara o seu nome do negócio do pastel que por ali se havia desenvolvido em grande escala, decrescera de grandiosidade, de importância e de prestígio. Agora era um pequeno lugar de casas escuras, basálticas, muitas delas ainda cobertas de colmo e de palha e com portas e janelas sem vidraças, no meio das quais se destacava algumas já de alvenaria, uma outra com vestígios de antigo paço senhorial e a ermida de Santa Bárbara, construída anos antes, em substituição da de Santa Cruz, o primeiro edifício religioso construído no Faial e mandada erguer em memória do desembarque dos primeiros povoadores. Nela haviam sido sepultados Joss van Hurtere e sua esposa, Beatriz de Macedo.    

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publicado por picodavigia2 às 20:52

A VILA DA HORTA

Quarta-feira, 11.06.14

A Horta, no início do século XVIII, apesar de possuir o estatuto de vila desde 1498, através de foral concedido por el-rei D. Manuel I, era uma pequena povoação, plantada na orla sul da ilha do Faial, voltada para montanha do Pico. Embora, nessa altura, já fosse constituída por três paróquias - Conceição, São Salvador e Angústias - a vila resumia-se a um núcleo populacional centrado entre a fortaleza de Santa Cruz e o Porto-Pim, que se prolongava ao longo de uma enorme rua, paralela à baía, sobre a qual a vila se debruçava e que se estendia até à igreja da Conceição, lá para os lados da Lomba do Pilar, a noroeste da baía, já quase nos contrafortes da Espalamaca. Aí se estabelecera, desde há muitos anos, o centro administrativo da vila e era aí também que se situava a igreja da Senhora da Conceição, construída em substituição de uma outra destruída a quando de um ataque à ilha, por corsários ingleses. Esta igreja, uma vez que a freguesia da Conceição constituía o maior e mais importante núcleo populacional, era a mais importante da vila e junto a ela, iniciava-se a construção de uma alta e imponente torre, encimada por um gigantesco relógio.

A vila era circundada por uma baía à qual estava anexo um enorme e importante porto, onde entravam e donde saíam todo o tipo de embarcações de feitio e tamanhos diversos, desde naus, galeões, caravelas, brigues, escumas, patachos, bergantins, escaleres, até às fragatas de guerra, armadas com peças de artilharia ligeira, com três mastros, de velas redondas e usadas, apenas, em missões de defesa, escolta e de reconhecimento. Por ali se escoavam muitos dos produtos que a ilha produzia, nomeadamente trigo, pastel, urzela, laranjas e vinho, este produzido e vindo do Pico, em pequenos batéis que, depois de carregados nos “rola-pipas” de Santa Luzia e das Bandeiras, da Barca, do Calhau, da Candelária e do Guindaste, atravessavam o canal entre Faial e Pico, batéis estes que também acarretavam madeira e gado.

Arrasada pela peste bubónica que ali alastrara no início do século e com muitas das suas igrejas e dos seus monumentos destruídos, quer por crises sísmicas, quer por ataques da pirataria e saques de corsários, a Horta, no início do seculo XVIII, tentava reconstruir-se, levantar-se das cinzas, erguer-se do nada. Por outro lado a chegada de algumas ordens religiosas à ilha, nomeadamente os Jesuítas, os Franciscanos e os Carmelitas, beneficiando de alguma riqueza armazenada no Brasil, iam aos poucos, com a colaboração de um ou outro mecenas, construindo as suas igrejas e os seus conventos, enquanto a vila aguardava por também reedificar os seus palácios, reerguer os seus monumentos e até restaurar muitas das moradias dos seus habitantes.

Os frades Franciscanos, precisamente no virar do século, haviam terminado a construção da Igreja da Senhora do Rosário ou de São Francisco e o convento anexo. Este, porém, passara por muitas vicissitudes ao longo dos anos, sendo frequentemente enfraquecido por terramotos, incendiado por corsários ingleses e, anos mais tarde, destruído, quase totalmente, por um forte temporal. A sua reconstrução era urgente e imperiosa. As obras de restauro da igreja estavam terminadas, mas agora iniciava-se a reconstrução do convento.

Por sua vez as obras de construção da igreja e do convento da Senhora do Carmo, sob a égide dos frades carmelitas, estavam prestes a concluir-se, estando já a igreja aberta ao público. A construção do convento anexo iniciara-se no século anterior, por influência de D. Helena de Boim, esposa do então Capitão-mor Francisco Gil da Silveira. Após a construção de uma capela que foi dedicada à evocação de Nossa Senhora da Boa Nova, D. Helena de Boim, decidiu criar ali um hospício, com o fim de alojar os frades da Ordem dos Carmelitas que escalavam o porto da vila em viagem de ida e vinda para os Estados do Brasil e do Maranhão, uma vez que a Horta se havia tornado um ponto de paragem para os missionários que viajam de e para o Brasil e Ásia. Para prover o convento, D. Helena de Boim viria a doar todos os seus bens à Ordem dos Carmelitas, que nos terrenos junto à capela, dera início, no final do século XVII, à construção de um mosteiro, e mais tarde à Igreja de Nossa Senhora do Carmo que lhe está anexa.

O convento dos frades Jesuítas, junto a uma igreja mandada erigir por estes e já terminada, também estava a ser construído nesta altura. Fora mandado edificar por D. Francisco de Utra de Quadros, Capitão-mor do Faial, e sua mulher, D. Isabel da Silveira. Além disso, ainda continuavam a realizar-se as obras de restauração da Ermida de Santa Cruz, sob as ordens do Bispo de Angra.

Tudo isto, ligado a uma agricultura próspera e florescente, onde pontificavam como culturas dominantes o trigo e o pastel, faziam com que a vila de Horta, no início do século XVIII crescesse e fortificasse e se desenvolvesse, pese embora existisse pouco comércio e quase nenhuma indústria. Era também graças à sua localização, que a vila começava a prosperar, sobretudo como porto de escala de importantes rotas comerciais transatlânticas.

Mas todo este desenvolvimento foi abalado, cerceado e quase destruído com a trágica epidemia que se abateu sobre a ilha, entre os anos de 1717 e 1718. Nesta altura grassou em toda a ilha do Faial uma terrível epidemia que causou muitas mortes. Em Novembro de 1717 morreu grande parte dos moradores dos Cedros e de outras freguesias incluindo as da vila. Inicialmente as vítimas atacada pela peste eram atingidas por febre temporária e expectoração sanguinolenta, a que se seguia uma febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam entre os 3 e 5 dias. Esta peste era de tal maneira contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho o pai; a caridade desaparecera por completo e os doentes morriam abandonados e sós, por vezes nem sendo sepultados. Os que não eram atingidos faziam procissões e preces públicas. A assistência médica era nula e a peste estendia-se aos animais que por sua vez a transmitiam, com muita frequência, aos humanos.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:26

A FUGA

Sábado, 24.05.14

À medida que os dias passavam, José Pereira de Azevedo ia-se sentindo cada vez mais inconformado e mais indeciso relativamente ao seu futuro e ao da sua família. A mulher, Madalena de São João, não cessava de o recriminar por uma apática pasmaceira em que ele se ia envolvendo dia após dia e da qual, aparentemente, não conseguia libertar-se. Vezes sem conta lhe atirava à cara que a sua vida, ali em Santa Luzia, no meio daquela calamidade seria insustentável, quase sem nada e o seu destino incerto e o seu futuro imprevisível. Além disso, por um lado, os abalos, embora mais pequenos e mais espaçados, tinham voltado a fazer-se sentir, assustando e amedrontando tudo e todos e, por outro, o manto de lava destruidora que, evadindo-se da montanha, cobrira o chão quase por completo, demoraria a desfazer-se e a tornar aráveis os campos outrora tão férteis e as vinhas, antigamente, tão produtivas. José Pereira Azevedo ouvia aquele martelar contínuo da voz da sua consorte, calado e pensativo. Sabia muito bem que ela tinha razão, mas tinha receio de o confessar. Sabia muito bem que não tinha nada e mesmo que quisesse voltar aos campos para trabalhar não o podia fazer. Também não poderia ficar por ali, ao relento o resto da sua vida, à espera de que a lava se transformasse em terra fértil e em campos produtivos. Havia que refazer a sua vida, que reconstruir a sua casa e os seus campos, que criar de novo tudo aquilo que tão tragicamente perdera. Mas a Madalena tinha razão: não seria ali.

A mulher causava-lhe grande preocupação e constantes consumições. Madalena não cessava de insurgir contra aquela situação e de se revoltar contra aquela pasmaceira. Cheia de medos e temores, a esposa de José Pereira de Azevedo como que ficara traumatizada com os terríveis efeitos daquela tremenda crise e das consequências que sobre eles se haviam feito sentir. Intransigente, pertinaz, causticada pela dor e ancorada a uma enorme e permanente angústia, Madalena pedia-lhe, persistentemente, que partissem, que fugissem dali, onde nada os prendia, para além do amor à sua terra. É verdade que iriam para um sítio desconhecido, estranho, onde não conheceriam ninguém, onde nada possuíam mas onde haviam de construir tudo, como se estivessem novamente a começar, do nada, a sua vida. Mas afinal não era isso também o que lhes aconteceria se ali ficassem, sujeitos a novos tremores, a outras erupções, talvez mais violentas e mais danosas?

- Então – concluí Madalena – ter nada por não ter nada, antes viver e recomeçar a nossa vida num sítio calmo e sereno, onde, ao menos, a terra seja mais segura.

Foi esta insistência intransigente da mulher, o futuro do filho e o persistente consciencializar-se das condições de vida de que ali usufruía que levaram José a tomar uma decisão. E no primeiro batelão que encostou no Lajido, na ponta de André Gonçalves, no porto que aí existia e onde habitualmente se carregava madeira e gado que o Pico produzia enviava para outras ilhas, José Pereira de Azevedo, tomando a mulher e o filho e partiu para o Faial, na demanda de um futuro incerto e imprevisível.

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publicado por picodavigia2 às 11:44

SEM NADA

Domingo, 11.05.14

Nos dias seguintes, o corregedor de São Roque, o edil e muitas outras autoridades representantes da municipalidade percorreram toda a freguesia de Santa Luzia, desde das Bandeiras até Santo António, para se certificarem dos prejuízos e fazerem o levantamento das maiores necessidades, bem como o rol dos que tinham sido mais atingidos pelas terríveis consequências de tão trágica calamidade.

Feitos os registos e anotadas as mais patentes situações de prejuízo material, verificou-se que, afinal, o rol era bem maior do que se esperava. É verdade que não morrera ninguém e o número de feridos também era quase nulo, mas a quantidade de pessoas afectadas pelas consequências da tragédia era muito grande, os prejuízos materiais eram enormíssimos e nem tinham sido todos contabilizados. Muitas casas haviam sido destruídas, inúmeras famílias haviam ficado sem gado, sem campos e sem vinhas e grande parte da população não tinha onde dormir, nem algo para comer. Muitas pessoas tinham ficado rigorosamente sem nada.

Aos apoios vindos do Cais e de São Roque chegaram outros vindos da Horta. Eram barcaças carregadas de agasalhos e mantimentos, a atravessar o canal e a contornear a parte norte da ilha, da Madalena até Santa Luzia. Aí encostavam aos rola pipas que haviam escapado à torrente de lava, onde homens de calças arregaçadas até aos joelhos, enfiados na água, os esperavam, na tentativa de amarrar os barcos e descarregar por ali a cima, com a maior urgência possível, tudo aquilo que as embarcações traziam e que era tão necessário para minguar as agruras e satisfazer as necessidades de quantos haviam sido atingidos por tamanha calamidade.

Entre o enormíssimo número de desalojados que haviam ficado sem nada, encontrava-se José Pereira de Azevedo. Sem casa, sem terras, sem gado e sem família, José Pereira de Azevedo, a mulher e o filho, não tinham onde dormir, nem sequer como se alimentar. Nos primeiros dias foram-se acomodando nos improvisados abrigos trazidos de São Roque e da Horta. Mas tinham que partilhá-los com outras famílias, amontoando-se e escarrapichando-se uns sobre dos outros, sem condições, sem sossego e, sobretudo, sem esperança. As crianças, os velhos e os doentes, apesar de serem sempre os primeiros a serem atendidos, eram rigorosamente os mais afectados e os mais desprotegidos. A comida também rareava e a pouca que existia e era distribuída, vinha sobretudo dos lados de Santo António e São Roque e só se conseguia obtê-la depois de horas e horas em fila, à espera de vez. José Pereira de Azevedo não se queixava e até considerava que, apesar de tudo, aquilo até era uma dádiva de Deus, que no meio de tão grande aflição, de tão eminente perigo, os havia protegido e salvo, através da sua infinita bondade. Para ele e para a mulher o sacrifício nem era demasiado… Mas para o filho, sobretudo para o seu menino… A criança não podia viver naquelas condições.

Alguns habitantes de Santa Luzia já haviam partido para Santo António, São Roque e até para outros lugares mais distantes, onde tinham familiares. No entanto chegavam notícias desagradáveis, desanimadoras e muito alarmantes. Noutras localidades do Pico, sobretudo do lado do Sul, nomeadamente em São João e em São Mateus haviam sido sentidos abalos semelhantes aos verificados em Santa Luzia. Também ali as bocas da montanha se haviam aberto e lançado jactos de lava sobre as encostas, encharcando de fogo e de destruição toda a zona entre estas duas freguesias. Dizia-se mesmo que grande parte da freguesia de São João, incluindo a igreja, havia desaparecido.

Estas notícias assustavam e preocupavam sobretudo Madalena de São João. E quando José, consciente da sua situação, da sua desgraça, lhe propunha abandonar Santa Luzia e fixar-se noutra freguesia do Pico, Madalena contrariava:

- Para outra freguesia? Para, amanhã, nos acontecer o mesmo? Nem pensar! Ou ficamos aqui ou a sair, vamos para outra ilha, para uma ilha onde não haja nem abalos, nem vulcões, nem esta lava destruidora.

- Mas essa ilha existe, Madalena! Essa ilha existe! – Repetia José, vezes sem conta, em voz baixa, como se estivesse a sonhar.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A MUNICIPALIDADE

Domingo, 04.05.14

Desde da segunda metade do século XV que o povoamento dos Açores se havia consolidado, fixando-se em todas as ilhas uma população activa, trabalhadora, que aos poucos se ia adaptando às precárias e difíceis condições de vida das ilhas, aos rigores climatéricos, às crises sísmicas, tentando edificar, dia a pós dia, um património agrícola, habitacional, artístico e cultural, notável, grandioso, específico e único. Embora pacífico e ordeiro o povo açoriano necessitava duma estrutura governativa que, sobretudo, o defendesse dos ataques exteriores, nomeadamente dos corsários e dos piratas e que o ajudasse no tempo de crises e de calamidades. Por isso, a partir da segunda metade do século XV estabeleceu-se, nas ilhas, uma estrutura governativa de cariz senhorial, com o objectivo de assegurar e manter o efectivo governo das ilhas, confiado ao seu donatário, que nelas se fazia representar pelos seus capitães, também chamados capitães-donatários, a quem competia a governação das capitanias em que o arquipélago, à semelhança de outras parcelas do país, fora dividido. Paralelamente, seguindo a forte tradição municipalista portuguesa, as ilhas foram rapidamente estruturadas em concelhos, com os seus órgãos municipais a assumirem boa parte da condução da governança e administração local. O poder real era representado por um corregedor, que percorria as ilhas em correição, verificando o cumprimento das leis por parte das câmaras e dos capitães-donatários. Paralelamente, o poder espiritual e a organização religiosa das ilhas dos Açores, como das restantes terras do além-mar português, começaram por estar sujeitas à jurisdição espiritual da Ordem de Cristo, exercida pelo vigário “nullius” de Tomar, que mandava visitar as ilhas pelos seus representantes, os chamados bispos de anel. A partir de 1514, com a criação do bispado do Funchal, o arquipélago passou para a jurisdição da nova diocese madeirense. Até que, a pedido de D. João III, rei de Portugal, o papa Clemente VII criou o bispado de São Miguel, mas faleceu antes da bula respectiva ter sido expedida. No ano seguinte, o recém-eleito papa Paulo III pela bula “Aequum Reputamus” erigiu o bispado de São Salvador do Mundo, criando a diocese de Angra do Heroísmo e ilhas dos Açores, dando-lhe por catedral a igreja do mesmo nome, na cidade de Angra.

No entanto e com o passar do tempo, o poder dos capitães foi-se apagando, sobretudo, devido ao isolamento imposto pela irregularidade das comunicações marítimas e teve como principal consequência permitir que o verdadeiro poder recaísse no âmbito municipal, apenas moderado pela intervenção do corregedor. Daí resultou uma ampla autonomia local, com cada Município a depender apenas do distante poder senhorial e real, sem qualquer dependência em relação quer às outras ilhas, quer aos municípios vizinhos. Esta situação de autonomia municipal apenas foi interrompida durante o governo filipino, após o qual as ilhas açorianas voltaram à sua antiga forma de administração, assim se mantendo durante mais de um século sem alterações significativas.

A freguesia de Santa Luzia pertencia ao Concelho de São Roque, desde sempre sediado no lugar do Cais do Pico, criado por carta de Foral, datada de 10 de Novembro de 1542 por ordem do rei Dom João III. Essa a razão pela qual o tenente Alçada de Melo, representante do capitão do donatário, o corregedor de São Roque, o edil e muitas outras autoridades representantes da municipalidade se desvelavam em cuidados para assistir e ajudar a população daquela freguesia, gravemente afectada por aquela infausta e cáustica tragédia.

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publicado por picodavigia2 às 18:54

O DIA SEGUINTE

Domingo, 27.04.14

O dia seguinte ao da tremenda catástrofe amanheceu sombrio, escuro com um tempo ameaçador. O vento soprava de Noroeste, o mar revoltara-se e embravecera subitamente e, sobre o Faial pairavam umas nuvens cinzentas, sinistras, prenunciadoras de aguaceiros. Era evidente que, mais tarde ou mais cedo, havia de chover.

A ameaça de chuva, no entanto, consubstanciava uma ambivalência, aparentemente, intrigante. Por um lado se chovesse seria benéfico, pois a chuva enviada por Deus como que serviria para limpar, para lavar e até para arrefecer todo aquele manto de lava, aquele pantanal de fogo que no dia anterior correra em catadupa por ali abaixo, que ainda fumegava, deixando um pestilento cheiro a enxofre e a carne queimada e deixara marcas atrozes, aterradoras e indeléveis, por aqui e por além, no solo. Por outro lado, porém, a chuva não era bem-vinda, antes pelo contrário, até era indesejada, pois seria uma autêntica desgraça, uma verdadeira tragédia. É que para além de trazer o frio consigo, a chuva não seria condescendente com ninguém, a todos molharia. Na realidade os abrigos eram poucos e a maioria das casas havia sido destruída por completo. Quase todas as habitações, sobretudo as mais débeis e pobres, haviam ruído e até a própria capela de Santa Luzia também sofrera prejuízos enormes, arrasantes, destruidores e irreparáveis, pondo em causa todo o seu interior, nomeadamente, a imagem da padroeira, as alfaias litúrgicas, os altares e até o sacrário onde se guardava o Santíssimo Sacramento. Apenas a coroa do Divino Espírito Santo que Frei José das Cinco Chagas havia retirado do altar e colocado sobre uma mesinha, fora da porta do templo, escapara àquela tremenda e avassaladora catástrofe.

Por volta do meio-dia a previsão confirmou-se. As nuvens escuras e carregadas de água que haviam amanhecido sobre o Faial, durante a manhã, tinham-se deslocado, muito lentamente, na direcção do Pico. Parecia que haviam parado ali mesmo, por cima de Santa Luzia, para dentro em breve se abrirem, despejando águas diluvianas por ali abaixo. Com as casas destruídas, a lava a devastar tudo e, agora, com a chuva a alagar o pouco que sobrara, não havia sítio onde o povo se abrigasse e protegesse, nem migalha com que se saciasse a fome. Sobretudo as crianças e os mais idosos sofriam em demasia.

A meio da tarde, no entanto, começaram a chegar carros de bois, carroças puxadas por cavalos e mulas carregadas de géneros alimentares, de roupas e agasalhos diversos, vindos de Santo António, do Cais do Pico e, sobretudo, de São Roque. O povo destas localidades, apesar de também atingidas por fortes tremores de terra, e as próprias autoridades municipais, sob as ordens do tenente Alçada de Melo, representante do capitão do donatário, sediado na vila das Lajes, haviam recolhido e angariado alimentos, roupas, cobertores, remédios, desinfectantes, chás e mezinhas. Vinham ali trazê-los distribuindo-os pelos doentes, pelos velhos, pelas crianças e sobretudo pelos mais necessitados. Juntamente, também um grupo de fradinhos, sediados num convento, construído uns anos antes e localizado no povoado do Cais do Pico e que pertenciam à Ordem dos Frades Menores, para ali se dirigira a prestar auxílios, a trazer conforto, a fortalecer os ânimos. Na madrugada do dia seguinte chegaram do Faial alguns barcos também carregados de géneros alimentares e de barracas feitas de pano de serapilheira e de peles de animais, destinadas a abrigar os que haviam ficado sem habitação.

José Pereira de Azevedo, a mulher e o filho passaram a primeira noite ao relento. Enrolados em grossos cobertores e em sacos de serapilheira, alguns cheios de lã, de palha, de erva ou de feno. Os pais, com o calor dos seus corpos, foram protegendo o pequeno António do vento, do frio, da chuva e dos rigores matinais.

A meio da manhã e depois de convencer Madalena de São João a permanecer ali, junto às paredes da pequena ermida, José Pereira de Azevedo decidiu ir dar uma volta, no sentido de verificar como haviam ficado os seus parcos haveres: duas pequenas terras de trigo, outras tantas de vinha e, lá mais no alto, uma de incensos e faias. O medo e o terror dominavam-no como se fosse um pássaro ferido, sem comida e sem ninho. Sabia que a lava se havia escoado para os lados das Bandeiras com mais intensidade e aí fizera os mais graves prejuízos. E os seus receios tornaram-se reais. Todas as suas propriedades haviam sido totalmente destruídas pela lava incandescente que no dia anterior a montanha expelira.

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publicado por picodavigia2 às 08:46

O MILAGRE

Sexta-feira, 18.04.14

Fez-se um silêncio enorme, enigmático, perplexo, inexplicável e quase incompreensível, que durou alguns minutos. Apenas se ouvia o roncar tremendo dos trovões a misturarem-se com o ciciar deslizante da lava efervescente e os latidos dos cães, também eles em enigmática aflição. O povo, interiorizando as palavras de Frei José das Cinco Chagas, como se quisesse fixá-las para sempre na memória de todos, gravá-las em letras incorruptíveis no coração de cada um, rezava, implorava, meditava e suplicava a protecção do Divino Espírito Santo, aguardando que as suas fervorosas e humildes preces chegassem junto ao trono do Altíssimo. Os momentos eram silenciosos, longos, doridos e amargos. O tempo, tingido de angústia e sofrimento, demorava e, como que se transformava-se numa eternidade

Muito a custo se passaram algumas dolorosas e angustiantes horas, após as quais, para espanto de todos, aqueles terríveis e fortíssimos tremores começaram a diminuir de intensidade e a ouvirem-se como se fossem apenas um eco. Ao mesmo tempo aquele rio de lava incandescente e destruidor, que descera ininterruptamente pelas encostas da montanha, como que parecia, agora, menos intenso e, aos poucos, o imensurável manto de lava que se havia derramado sobre toda aquela zona, entre Santa Luzia e Bandeiras, parecia ir adquirindo uma cor mais amarelada, mais escura e mais estranha.

Ao meio dia já nem o eco daqueles tenebrosos e aterradores trovões secos se ouvia, a torrente de lava parecia ter-se escoado por completo e o chão desde há muito que não tremia. Um Sol sereno, quente e acariciador desceu sobre a parte sul da ilha, envolvendo-a com um manto doirado. O vento começara a soprar mansamente de Oeste e o mar tornara-se tranquilo e mais azulado. Um misto de perplexidade e alegria como que começava a inundar os ânimos de quantos até então se encontravam exaustos e prostrados no pequeno átrio da ermida. Um a um, os habitantes de Santa Luzia, que até então haviam permanecido deitados, ajoelhados, prostrados, enrolados em cobertores e em sacos de serapilheira, iam-se levantando, na expectativa de que aquele, afinal, ainda não seria o último dos dias de suas vidas. O espectro do medo, do terror e da morte ia-se desanuviando, estranha e lentamente, como um amanhecer de verão que, aos poucos, se ia clarificando. O povo tímido mas expectante, começava a acreditar num milagre. O Senhor Espírito Santo viera em seu auxílio. Salvara-o.

Frei José das Cinco Chagas havia colocado a coroa do Divino Espírito Santo, sobre uma pequena mesa à entrada do templo. O velho ermitão permanecera toda a manhã, de joelhos, debruçado sobre a mesa e com a cabeça reclinada sobre os braços, em profunda e convicta oração.

De longe começavam a chegar ao largo fronteiriço à igreja homens e mulheres, vindos do Lajido, dos Arcos, do Meio Mundo, da Miragaia, do Cachorro e até das Bandeiras, que se juntavam à multidão, aglomerada no largo, em frente à ermida, contando e narrando factos extraordinários. No Cachorro, todo a zona envolvente à ermidinha da Senhora dos Milagres, construída há pouco mais de trinta anos, fora poupada pela lava. A enorme e caudalosa torrente destruidora, ao chegar junto da ermida, por intercessão de Nossa Senhora, Mãe de Deus, afastara-se dela, deixando-a intacta assim como todas as casas ao seu redor. Mais acima havia um boi a pastar num campo, que também poupado à fúria avassaladora da torrente. Ao redor tudo tinha sido destruído. Aquele boi estava a ser criado para ser oferecido ao Senhor Espírito Santo. Lá para os lados do Meio Mundo um outro campo cujo trigo havia de ter o mesmo destino, também não fora atingido pela lava incandescente. Estas e outras narrações passavam de boca em boca e iam chegando aos ouvidos de todos, ao mesmo tempo que os ia animando, revitalizando, enchendo de força e coragem e sobretudo e de um estranho sentimento de fé e confiança - algo de sobrenatural pairava sobre todos, uma força estranha e divina protegia-os. O Senhor Espirito Santo, em cuja força e poder haviam confiado, salvara-os.

E quando ao fim da tarde, o povo reunido começava a partir dali, na possível demanda dos seus lares, na quase certeza de que tudo passara, cada um dos que ali haviam permanecido o dia inteiro, ia sentindo dentro de si e acreditando convictamente que só um milagre, um grande milagre da força e do poder do Divino Espírito Santo os havia salvo. Por isso mesmo, todos sentiam dentro de si aquela força incrível - o vínculo que os unia na promessa que conjuntamente haviam feito e que todos haviam de cumprir e transmitir aos seus filhos e aos seus netos para que a cumprissem para sempre e jamais esquecessem aquela promessa que ajoelhados diante da coroa que Frei José erguera e com que os abençoara, haviam feito ao Divino Espírito Santo.

E transitando em grupos, pelas ruas, às escuras, com destino a lugar nenhum, entoavam cânticos de louvor ao Divino Espírito Santo:

“Ó Senhor Espírito Santo

Nós rogamos com clamores

Mandai que nesta terra

Não haja mais tremores.

 

Glória ao Pai, nosso criador,

E ao Filho que por nós s’imolou,

Glória ao Espírito Santo Divino

Que com a Sua força nos salvou.

 

Os pecados são a culpa

Da terra tanto tremer

Eu vos prometo, Senhor

Nunca mais vos ofender.”

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publicado por picodavigia2 às 19:39

A PROMESSA

Domingo, 13.04.14

O povo, cada vez mais assustado, mais aflito e mais oprimido com aquela estranha e aterradora catástrofe, não arredava pé de junto da ermida edificada em memória da sua padroeira, Santa Luzia. A manhã continuava a crescer em claridade, em medos, em gritos e em alvoroços loucos, imagináveis. O fogo continuava a deslizar, imparável e demolidor, pelas encostas da montanha, na direcção do mar, com uma velocidade vertiginosa, com uma veemência indomável e com uma persistência implacável, soterrando vinhedos, destruindo campos, desfazendo caminhos e atalhos, ameaçando os pequenos casebres, transformando a extensa encosta entre Santa Luzia e as Bandeiras, num autêntico mar de lava sulfúrica, vermelha e incandescente. Já havia casebres soterrados, os mais pobres, os mais pequenos, os mais distantes, os construídos no sopé da montanha, do lado que dava para as Bandeiras, mas que se sabia já haviam sido abandonados. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria tresmalhado, louco, num alvoroço incontrolável, tentando fazer tudo sem fazer coisa nenhuma. Procuravam-se refúgios, mas não os havia.

José Pereira de Azevedo, tentando evitar os gritos de raiva e de dor da mulher e o choro inocente mas prolongado e intenso do filho, ainda mal acordado e sem perceber o que se passava, tentou aproximar-se do centro da freguesia, do pequeno largo contíguo à igrejinha, onde permanecia a maioria do povo, uns dentro da ermida outros fora, mas todos invocando, incessantemente, a protecção de Deus, através da intercessão da sua padroeira, a Gloriosa Virgem e Mártir Santa Luzia.

Mas também ali, como em toda a parte reinavam a aflição, o desespero, a angústia e um medo medonho e gigantesco. De perto e de longe chegavam murmúrios e lamentações. É que aquele fogo misterioso, saído do interior da terra, de instante para instante, avançava mais ameaçador, mais temeroso, mais indomável. Já destruíra muitos campos, atingira muitos currais matando ovelhas e cabras, aniquilando prados, ardendo florestas, vinhedos, aproximando-se, cada vez e mais, das casas, sobretudo das que ficavam mais distantes do centro do povoado. O ar tornava-se quente e sufocante e o cheiro a enxofre e a queimado aumentava assustadoramente. O fogo, correndo cada vez mais na direcção do mar, por onde passava, parecia converter e transformar tudo em pedra de lava ardente.

Quando José Pereira de Azevedo, acompanhado da mulher e do filho, chegou ao largo fronteiriço à ermida de Santa Luzia o dia já começava a clarear e, do lado de São Jorge, soprava um vento forte e seco que atiçava ainda mais a lava incandescente que, assustadoramente, parecia ameaçar toda a ilha. Aqueles abalos, aquela espécie de trovões secos e assustadores que se haviam sentido naquela noite e nas anteriores, no entanto, haviam parado ou pelo menos já não se ouviam com tanta intensidade. Agora era o fogo e apenas o fogo que assustava e destruía tudo por onde passava.

Aglomeradas junto aos umbrais da pequena ermida homens, mulheres e crianças rezavam, oravam, pediam perdão e suplicavam a protecção divina. O vigário Francisco Dias já havia terminado a missa. Do átrio de entrada da pequena ermida, juntamente com Frei José das Cinco Chagas, dirigia aos fiéis palavras de paz e tranquilidade, incitando-os ao arrependimento, pedindo-lhes que suplicassem o perdão divino, garantindo-lhes que Deus era pai de misericórdia e que havia de ter compaixão de todos os seus filhos. Que todos se arrependessem dos seus pecados porque a misericórdia e o perdão de Deus eram infinitos.

Passaram-se algumas horas que pareceram anos. O povo a chorar, a gritar, a rezar, a suplicar perdão e auxílio e o fogo a jorrar do centro da terra como se fosse sangue vil e destruidor, que, implacavelmente, caía como castigo sobre aquele povo bom, simples, humilde e temente a Deus.

Seriam umas dez horas, quando abalos maiores e mais assustadores voltaram a fazer-se sentir ao mesmo tempo que a torrente de lava se tornava maior, mais ameaçadora, mais intensa, mais destruidora e mais mortífera. O povo já não tendo forças para continuar a implorar, a pedir e a suplicar, ajoelhou massivamente como se fosse levado por uma força estranha, misteriosa e sobrenatural. Muitos prostravam-se por terra. Cuidava-se que era o fim de todos e de tudo! Um homem, apenas um homem, no entanto, se mantinha em pé, firme e solene, porque crente e confiante em Deus, apesar de velho e alquebrado pelo tempo, pelos anos e pela pobreza – Frei José das Cinco Chagas. Ao ver o povo prostrado, silencioso e perplexo, entrou no templo e, dirigindo-se a um dos altares, retirou dele a coroa do Divino Espírito Santo, que ali estava, permanentemente, rodeada de círios e de flores, exposta à veneração dos fiéis, trazendo-a, solenemente, até ao exterior do templo, enquanto com a sua voz trémula e rouca, entoava o “Véni Creator Spiritus”.

Terminado o hino, erguendo bem alto, nos seus braços trémulos, a coroa de prata, símbolo do Paráclito, e abençoando com ela o povo ali presente, exclamou em tom de grande convicção:

 - Meus irmãos: Tenhamos fé no Espírito Santo Divino e confiança no Seu amor por nós. Hoje, dia 2 de Fevereiro de 1718, nós todos, habitantes desta freguesia de Santa Luzia, do Pico, aqui reunidos, em momento de tão grande aflição e agonia, apesar de sujeitos a este enorme e temível castigo, confiamos na bondade e no amor de Deus, por isso mesmo, prometemos solenemente ao Divino Espírito Santo que se ele fizer cessar estes temíveis tremores e afastar de nós este fogo aniquilador e não nos destruir, se o Divino Espírito Santo nos salvar desta tormenta, todos, mas mesmo todos nós e os nossos filhos e os filhos de nossos filhos e todos os que hão-de habitar esta terra sacrificada de Santa Luzia, nos anos vindouros, prometemos solenemente todos os anos, enquanto o mundo for mundo, no dia da festa de Pentecostes, com o trigo das nossas terras, amassar e cozer pão, muito pão e distribuí-lo por todos os pobres e por quantos dele necessitarem para saciar a sua fome. Assim o havemos de fazer sempre em louvor do Divino Espírito Santo, como fizeram os nossos pais e os nossos avós desde que aportaram a esta ilha do Pico e a todas as outras ilhas dos Açores.

Foi então que se ouviu, subindo ao céu, um grito uníssono, espontâneo, sincero e crente:

- Assim o prometemos e assim o faremos, pelos séculos dos séculos. Amén!

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publicado por picodavigia2 às 08:20

UMA TRAGÉDIA BRUTAL

Segunda-feira, 07.04.14

Atónitos, desesperados, aflitos e tresloucados, homens e mulheres velhos e crianças assistiam àquela gigantesca maré de fogo que, abrupta e intensiva, se escoava da montanha, em ondas avassaladoras, pelas encostas sobranceiras à freguesia, em direcção ao mar. Por onde passava, aquela torrente de lava incandescente deixava um rastro de destruição, queimando, sufocando, abrasando tudo, ao mesmo tempo que, do cabeço de Cima e do Cabeço de Baixo, continuavam a cair, como que vindos do Céu, revoadas de trovões e estrondos sucessivos e aterradores. Parecia o dia do juízo! Muitos acreditavam que o mundo havia de acabar mesmo ali, naquele dia, naquela hora, naquele momento, debaixo daquele fogo abrasador e terrível, emerso das entranhas da terra.

Perplexos, apavorados e entontecidos com o ribombar daqueles trovões secos e aterrorizados com aquela imparável torrente de lava, homens, mulheres, velhos e crianças, de joelhos, rastejando pelo chão, ao relento da madrugada, imploravam a clemência, a compaixão, a misericórdia e a bondade divinas, ao mesmo tempo que pediam perdão a Deus pelos seus pecados, gritando em altos berros, anunciando a todos, os delitos que haviam cometido, misturando as suas vozes com o aterrador ribombar dos ruídos que emanavam da montanha, cada vez com mais veemência e com os roufenhos rugidos do mar, até então adormecido, mas que aos poucos se fora revoltando e embravecendo, numa espécie de tentativa fingida e frustrada de se opor aquela espécie de ira e de ódio que a montanha vomitava e expelia por ali a baixo. Era um fogo terrível, incandescente, vermelho, cada vez mais assustador que se escoava pelas encostas, como se fosse um rio de lava, deslizando na direcção das casas, dos campos, dos currais das vinhas, das hortas e do mar. Um verdadeiro inferno! Uma tragédia brutal, uma calamidade nunca vista até então.

A manhã, no entanto, embora sombria, começava a clarear por entre um alvoroço louco, incrível e desmesurável. O fogo descia cada vez com mais veemência e intensidade na direcção do mar e começava a atingir alguns casebres, os mais pobres, os mais pequenos, construídos no sopé da montanha, do lado que dava para as Bandeiras. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria de um lado para o outro, sem fazer coisa nenhuma, tentando procurar os familiares desaparecidos.

De perto e de longe chegavam murmúrios e lamentações. A imparável torrente de lava incandescente e desmedida já destruíra muitos campos, desfizera muitas vinhas, atingira muitos currais, matando muitas ovelhas e cabras e já chegara às primeiras casas. Havia muitas zonas ao redor dos subúrbios da freguesia, do lado das Bandeiras, já totalmente cobertas de lava. No ar começava a sentir-se um estranho cheiro a enxofre e a carne queimada.

Porém, no largo fronteiro à pequenina ermida de Santa Luzia, a torrente de lava ainda não chegara, parecia mesmo que dali se afastava, escoando-se pelos terrenos mais distantes, situados entre Santa Luzia e as Bandeiras. Junto à pequena igrejinha de Santa Luzia já se aglomerara muita gente. Era lugar, aparentemente, mais seguro e um sítio de súplicas a Deus e preces à padroeira. Ali, o povo de joelhos, juntamente com o vigário e com Frei José das Cinco Chagas, ermitão de grandes virtudes, que por ali se havia refugiado desde há muitos anos, vivendo sozinho num humilde casebre no sopé da montanha, rezava, pedia, implorava e suplicava a protecção divina. Deus, por intercessão da Virgem e Mártir Santa Luzia, a sua querida padroeira, em hora de tão grande angústia e em momentos de tão excessiva aflição, havia de os aliviar de tamanha e brutal tragédia. Alguns entravam na ermida e, percorrendo-a de joelhos, imploravam, por intercessão da sua padroeira, a misericórdia e o perdão divinos, enquanto outros visitavam as doze estações da via-sacra. Por sua vez, os que ficavam fora do templo faziam Rogações, dando voltas à pequena igreja, cantando a Ladainha de todos os Santos. O vigário, Francisco Dias, paramentado com as vestes roxas celebrava missa votiva “In die cataclismus”, invocando a protecção da Virgem e Mártir Santa Luzia. Mas muito povo ou porque não coubesse na pequena igreja ou porque tivesse receio de ali entrar, permanecia no exterior, rezando preces emotivamente fervorosas dirigidas à misericórdia de Deus e manifestando o arrependimento dos seus pecados e o firme propósito de emenda, manifestados com o coração contrito.

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publicado por picodavigia2 às 17:47

UMA MADRUGADA INFERNAL

Sexta-feira, 04.04.14

A noite embora permanecendo escura e fria, aproximava-se da madrugada. Aqueles trovões secos, terríveis e temíveis, que a todos assustava e horrorizava, agora eram mais espaçosos e sobretudo bem mais fracos. José Pereira de Azevedo, cuidando que o pior já passara e temendo que o frio da noite lhe engelhasse o filho, decidiu regressar a casa, com a mulher e o pequeno António. Era outro conforto, embora a segurança fosse quase nula. A mulher, inicialmente, manifestou determinada recusa, mas por fim cedeu. Não havia de ficar sozinha, ali ao relento, e o marido em casa com o filho. Foi sobretudo o argumento, teimosamente sustentado pelo marido de que o frio da noite iria fazer muito mal ao pequeno, que a demoveu da sua persistente teimosia. Regressaram os três a casa. Primeiro adormeceu o menino e, algum tempo depois, de tão cansado que estava, o pai. Madalena de São João, nervosa e temendo o pior, manteve-se acordada.

Não tardou muito! Seriam umas seis horas da madrugada, quando José Pereira de Azevedo, pese embora tivesse adormecido poucos momentos antes, acordou sobressaltado com um enorme, terrível e monumental estrondo. Ao seu lado a mulher, que, antes, na velha enxerga de pragana se havia voltado e revirado, vezes sem conta, sem pregar olho, contara bem, muito bem. Dezasseis vezes! Dezasseis vezes durante aquela madrugada infernal, a terra tremera em horrendos abalos, seguidos de grandes estrondos. O último, porém, aquele que acordara o marido, já quase madrugada, fora o maior, o mais horroroso, o mais tremendo, o mais demolidor. Parecia que a casa, a montanha, o mundo lhes desabava em cima.

Há noites e noites, que era aquele martírio sobressaltado, aquele susto contínuo, aquela maldição permanente. Quase não pregavam olho e se adormeciam, era como um passar por brasas, para logo acordar com um estrondo maior do que o anterior. O pequeno casebre de pedra negra e solta dos Azevedos, só por milagre do Divino Espírito Santo ainda lhes não caíra em cima. Em muitas casas da freguesia, algumas mesmo ali, ao lado, já não havia pedra sobre pedra.

Tresloucada e aos gritos, antecipando-se ao marido, Madalena saltou da velha enxerga num ápice e agarrou-se ao corpo do pequeno António, que dormia, ali ao lado sobre um tapete de palha, enrolado em grossos cobertores de lã, como que a impedir que as pedras que rolavam das paredes vacilantes caíssem sobre o filho. Depois agarrando-se e amparando-se ao marido, com o garoto muito embrulhado e muito aconchegado ao seio, saíram, os três, atónitos, assustados, porta fora.

Ainda não amanhecera por completo mas a madrugada, apesar de escura, parecia clarear com as revoadas dos trovões secos e com os estrondos sucessivos e aterradores, vindos das encostas da montanha. Atónita, apavorada e entontecida com o ribombar daqueles trovões secos, toda a população, temendo o pior, saíra para o relento da madrugada. Dos casebres ao redor, novos e velhos, homens e mulheres gritavam em alto berreiro, confusos e apreensivos, tentando encontrar um outro familiar que havia permanecido no interior dos velhos casebres.

De repente e por entre o escuro da madrugada e o cada vez mais aterrador ribombar dos ruídos, uma enorme clarão. Começava, lá no alto, entre a montanha quase invisível e o firmamento adormecido, um fogo terrível, vermelho, assustador que se escoava como se fosse um rio, na direcção das casas, dos campos, das hortas, das vinhas e do mar. Um verdadeiro inferno! Parecia que o mundo acabava naquele momento, ali sem salvação ou redenção possíveis para ninguém. O terror era geral e o pânico indomável. Cada qual procurava, sem proveito, os seus familiares.

A manhã até parecia que se clarificava com aquele fogo estranho e pavoroso, por entre um alvoroço louco e imaginável. O fogo descia cada vez com mais veemência, pelas encostas sobranceiras ao povoado, na direcção do mar e começava a atingir os casebres mais pobres mais pequenos, construídos no sopé da montanha, do lado das Bandeiras. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria sem fazer coisa nenhuma, tentando procurar os familiares desaparecidos. Era um alvoroço tresloucado, uma gritaria inaudita, um desassossego nunca visto. Parecia que a abóboda celeste se havia transformado numa enorme bola de fogo que caía sobre a ilha, aniquilando-a e destruindo-a por completo.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:29

UMA NOITE DE TERROR

Domingo, 30.03.14

José Pereira de Azevedo deitou a mão à taramela da porta de casa já noite escura. Na cozinha, mais atónita do que atarefada, a mulher segurava, no regaço, o pequeno António, num berreiro aflitivo, angustiante e pouco habitual. No lar, entre duas pedras toscas, fumegava um lume frouxo, a definhar-se de instante a instante e como que a deixar a cozinha envolta em penumbra. Sobre o lume, um caldeirão de ferro negro e tisnado, prestes a suspender a cozedura.

Deste há muito que Madalena de São João, numa aflitiva agonia, desistira de atiçar o brasido com uma acha ou sequer com um garrancho. Aguardava com uma ansiedade desmesurada e uma aflição desmedia a chegada do marido. Por isso, mal ouviu o barulho do levantar da taramela da porta da cozinha, que dava para um pequeno pátio exterior, agarrou ainda mais o filho, apertou-o ao peito com maior intensidade e veio postar-se frente à porta, ao mesmo tempo que o marido a abria:

- Credo, homem! Que te demoraste tanto! E eu aqui, numa aflição tão grande! Numa agonia por ele, por mim e por ti! Ainda há pouco, tudo voltou a tremer! Sentiste? Parecia que a casa vinha abaixo… E eu aqui… Sozinha, com ele ao colo… Cheia de medo, sem saber onde me esconder, para o proteger! Agarrei-o, debrucei-me sobre ele! Se a casa desabasse, se estas paredes caíssem eu havia de o proteger e o Senhor Espírito Santo havia de fazer o milagre de salvar o nosso menino.

José arrumou num canto da cozinha o alvião e o foicinho que trazia ao ombro, limpou as mãos num pano amarelado, suspenso da borda de um lava mãos de ferro, arrumado junto do lar, pegou no filho ao colo e abraçou-se a ela, na tentativa de a acalmar. Talvez a sua presença transmitisse tranquilidade ao filho e permitisse à mulher recuperar o ânimo perdido.

Na realidade, Madalena de São João, sentindo a presença reconfortante do marido, calou-se, por uns minutos. Também o menino, vendo ali o pai e, sentindo os seus braços a envolver-lhe o corpito, pareceu aquietar-se um pouco. José sabia que todas as palavras que proferisse naquele momento seriam uma farsa em que ela não acreditaria, mas arriscou:

- Também não foi tanto assim, mulher. Foi grande, foi um grande abalo de terra, é verdade, mas os da semana passada foram bem maiores. – E sentindo que a mulher ia acalmando enquanto o ouvia, acrescentou com mais convicção: - Deus teve piedade de nós. Protegeu-nos e protegeu a nossa casa. Cuidei que isto já tinha acalmado… E há-de acalmar, Deus é pai de misericórdia - e com gestos de carinho e blandícia tentava distrair o pequeno António que, de imediato, estendeu os bracitos vacilantes na direcção da mãe, a querer, também, encavalitar-se no colo dela.

A arfar cansaço e suor, José, aconchegando a si o pequeno, sentou-se num banco, junto ao lar. O lume que a mulher agora se entretinha a reanimar, iluminava-lhe o rosto tisnado de sol, que o filho fixava com ternura.

De repente, um outro abalo, mais forte, mais vertiginoso, mais abrupto, mais terrível, mais apavorante e mais ameaçador do que todos os que durante aquele anoitecer, até então se haviam feito sentir. Seguiu-se um forte estrondo, que acometeu com enorme violência o velho casebre. Madalena expeliu um grito de horror, de aflição e de angústia, ao mesmo tempo que invocava a protecção divina. José, procurando manter uma calma que não tinha, tentava, sem proveito, proteger com o seu, o corpo do filho. Fora um abalo fortíssimo e demorara uma eternidade. Algumas das frágeis paredes do velho casebre começavam a ruir. José Pereira de Azevedo, aconchegando mais o pequeno ao colo, deitou o braço sobre os ombros da mulher e, empurrando-a, à sua frente, saiu de casa, numa correria louca e numa aflição inexaurível.

Na realidade, desde há alguns dias que abalos muito fortes, tremores de terra assustadores, estrondos tão espantosos que pareciam trovões secos, se haviam feito sentir, não apenas, em Santa Luzia, mas também ali ao lado, nas Bandeiras e em muitos outros lugares e freguesias do Pico. Uma tragédia terrível que atormentava e punha em alvoroço as populações. Muitas pessoas já pernoitavam na rua, algumas casas já haviam ruído quase por completo. O medo e o terror haviam-se apoderado de todos.

Aquela noite porém estava a ser a mais trágica, a mais sinistra e a mais desoladora. Uma noite de terror permanente! A pior de sempre! Já iam em mais de meia-dúzia o número de abalos sentidos, desde o anoitecer. Alguns com uma intensidade fortíssima e uma duração prolongada e assustadora.

As ruelas circundantes ao casebre de José Pereira de Azevedo, ao lado da pequena ermida de Santa Luzia, embora fosse Inverno e a noite estivesse muito fria e escura, estavam cheias de gente, de medos, de desânimos, de preces e de súplicas ao Altíssimo. A aflição, o medo, a angústia, o desespero apoderavam-se de todos. Amparando-se e confortando-se uns aos outros, novos e velhos, homens e mulheres, jovens e crianças, numa prece comunitária, imploravam a misericórdia e a compaixão divinas, pediam, publicamente, perdão pelos seus pecados, ao mesmo tempo que se iam enrolando com cobertores de lã, a fim de se protegerem do frio.

Há noites e noites que era aquele martírio sobressaltado, aquele susto contínuo, aquela maldição permanente! Tudo havia começado quase no início do ano e já íamos a seis de Fevereiro. Toda a população vivia num enorme angústia. Todos estavam apavorados e cheios de medo. Quase não pregavam olho, durante a noite, e se adormeciam, era com um passar por brasas, para, logo a seguir, acordarem com um estrondo maior do que o anterior. A pequena casa de José Pereira de Azevedo e os outros casebres de pedra negra e solta, espalhados por aqui e por acolá, ao redor da pequenina ermida, só por milagre do Divino Espírito Santo ainda não haviam ruído por completo.

 

Estávamos nos primórdios do século XVIII, mais concretamente no início de Fevereiro do ano de 1718 e não apenas a freguesia de Santa Luzia mas quase toda a ilha do Pico vivia num medo e numa angústia permanentes desde há algumas semanas assoladas por abalos de terra, constantes, permanentes, pavorosos e aterradores.

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publicado por picodavigia2 às 10:15

RENASCIDA DA LAVA

Quinta-feira, 27.03.14

O povoamento do local onde hoje se situa a freguesia de Santa Luzia do Pico, remonta, muito provavelmente, aos primórdios da chegada dos primeiros povoadores à ilha montanha, neste caso oriundos do Faial e enviados por Joss Dutra que “estando à sua janela, vendo esta ilha do Pico, mandou um barco de gente para a povoar”. Fê-lo, no entanto, Joss Dutra, algum tempo depois de Fernando Álvares Evangelho, já ter entrado na ilha, pelo sul, saltando “em terra onde se diz o penedo negro, e com ele um cão que trazia”.

No entanto só quase dois séculos depois, em 1617, esta localidade foi elevada à categoria de freguesia, sob a invocação de Santa Luzia, tendo, durante os anos anteriores pertencido e estado dependente da vizinha freguesia de Santo António. Durante esses anos, nos finais do século XVI e a expensas de um dos seus habitantes, Vicente Pereira Furtado, foi construída uma ermida dedicada a Santa Luzia. Tratava-se de um templo pequeno, pobre e coberto de colmo que, apesar de tudo, serviu de igreja paroquial durante vários anos, situando-se, junto ao altar-mor, o túmulo do seu fundador.

Foi desta modesta ermida, destruída em 1718, a quando da crise sísmica e eruptiva que destruiu praticamente tudo o que era construção humana e cobriu a terra com uma espessa camada de lava, escoada em grande largura e por uma extensão de nove quilómetros, até ao mar, que nasceu a actual igreja paroquial de Santa Luzia. Porém a construção deste templo, já com a categoria de igreja foi lenta e por fases, dadas as dificuldades económicas existentes. Em 1800 voltou a ser reedificado, obtendo então, ao que parece, a fisionomia actual, embora sem as torres. Só em 1844 é que se procede à construção de uma das duas torres assimétricas que possui e só em 1876 é que foi pintado o retábulo do altar-mor e construída a outra torre.

Na ermida primitiva celebrou-se durante muitos anos, no início do povoamento, o culto pagão de oferenda dos olhos de animais, acompanhado por uma prece causada pelo medo de perder a visão. Possivelmente e porque a maioria das oferendas seriam olhos de galos, essa celebração ficou conhecida por Festa dos Galos. Mais tarde este culto terá sido “baptizado” pela igreja, dedicando o templo a Santa Luzia, padroeira dos oftalmologistas e dos que têm falta de visão.

A freguesia de Santa Luzia do Pico estende-se desde o interior da ilha até à orla marítima e é composta por várias localidades, como o Canto do Mistério, os Mistérios de Santa Luzia, os Fetais, o Lajido do Meio, o Meio Mundo, a Miragaia, a Ponta da Baixa, a Ponta Negra, a Rua de Cima, o Lajido, os Arcos e o Cabrito, localizados estes últimos, junto ao mar. É nestes lugares mais próximos do mar que existem várias ermidas como é o caso da Ermida de Nossa Senhora da Pureza, cuja construção recua ao século XVII, a Ermida da Rainha do Mundo edificada no mesmo século e a Ermida de São Mateus da Costa, construída no século seguinte.

 Além destas construções, a marca humana na paisagem da freguesia é ainda possível ver-se no Império do Divino Espírito Santo e em muitos outros edifícios que se evidenciam, pela sua grandiosidade arquitectónica.

Em Santa Luzia localiza-se uma das Zonas da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, neste caso a Zona Norte, onde ao longo de muitos séculos se produziu um dos mais famosos vinhos Verdelhos dos Açores, que era exportado para a Europa continental, chegando a ser servido à mesa dos czares da Rússia. Este vinho tem o segredo da sua qualidade nas lavas negras, onde a pedra de cor preta era fortemente aquecida pelo calor do Sol, dando assim origem a um vinho licoroso, elevando-lhe o teor alcoólico.

A história desta freguesia é profundamente marcada por duas erupções vulcânicas, uma ocorrida no século XVI e uma outra nos princípios do século XVII, mais precisamente em 1718. Esta última erupção teve grande violência, tendo procedido à expulsão de grandes quantidades de lava, cujos rios, em alguns casos, chegaram a percorrer distâncias de nove quilómetros até atingirem o mar, entre o Porto do Cachorro e o Lajido, matando pessoas e animais, destruindo casas e campos, desfazendo tudo o que até aí havia sido construído e edificado pelo homem. Dos que sobreviveram uns decidiram reconstruir de novo e sobre a própria lava, aquilo que o infortúnio lhes havia retirado, outros, talvez porque totalmente aniquilados nos seus bens e nos seus haveres, decidiram partir. Um deles chamava-se José Pereira de Azevedo.

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publicado por picodavigia2 às 16:07

BOLOS DE VÉSPERA PARA TODOS

Segunda-feira, 24.03.14

O amplo largo fronteiro à assimétrica igreja de Santa Luzia do Pico estava a abarrotar de pessoas, de conversas e de açafates repletos de bolos de véspera, assinalados com chavões e cravejados de flores. Um espectáculo de cor, de aromas e de simplicidade. Aguardava-se a chegada do pároco que havia de percorrer um a um, os quatro corredores, ao lado dos quais se dispunham os açafates, ordenados e arrumados em cima de bancos, como se fossem gigantescos grãozinhos de milho, semeados em regos paralelos, a germinar nos campos, por entre a terra húmida e fortalecida.

A tarde estava sombria e, do lado de São Jorge soprava um vento húmido, aguerrido e dominador. Cuidava-se mesmo que podia chover. Essa a razão por que o “mordomo” da festa e os seus colaboradores haviam equacionado a hipótese de colocar os açafates no salão paroquial, contíguo à pequena capela que ostentava, no frontispício branco, uma coroa granítica, preta, sobrevoada por uma pomba da mesma cor. Paradigmáticos símbolos do Divino Espírito Santo, nas ilhas açorianas! Mas o tempo aparentava melhoras e o povo preferia ver, observar de perto, sentir e presenciar toda aquela celebração em louvor da Terceira Pessoa da Trindade, ali ao ar livre, entre a montanha e o mar, entre o fogo e água, com o céu a servir-lhe de resguardo.

Não tardou muito e o pároco surgiu, lá do fundo, emergindo da igreja, paramentado de alva branca e estola vermelha, acompanhado de um acólito a segurar-lhe a caldeirinha da água benta e o hissope com que o pão havia de ser aspergido. À frente dois foliões, com tambor e pandeireta – pum-pum, pum-pum – trem-trem, trem-trem – entoavam loas ao Paráclito. O pequeno cortejo aproximou-se dos açafates. Os foguetes ribombaram e o povo fez silêncio. Encharcando o hissope que o acólito lhe apresentava na água da caldeirinha, o pároco, percorrendo os corredores delineados entre os açafates, dirigia preces a Deus, ao mesmo tempo que atirava respingos de água benta sobre o pão. O povo, silencioso, benzia-se. Alguns, mais crentes, bichanavam orações. Terminada a bênção de todos e de cada um dos açafates, o pároco, despojando-se das vestes litúrgicas, retirou-se, enquanto a filarmónica do Cais, entoava, com solenidade e mestria, o Hino do Espírito Santo. Muitos dos presentes acompanhavam os acordes musicais e os solos dos clarinetes, das trompetes e dos cornetins requintados, cantarolando em voz baixa: “Alva pomba que meiga, aparecestes, ao Messias no Rio Jordão…”

O bar, ali ao lado, que, em respeito religioso pelo divino, havia parado durante a bênção, ressuscitava, agora, o reboliço inicial das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas e dos copos de vinho, perfumado com o negro enxofre da lava basáltica, onde as vides haviam germinado. Foguetes ribombavam em uníssono com o repicar dos sinos. O apinhado de gente cada vez mais volumoso aguardava, expectante e ansioso, a hora de “receber o pão”.

Dezenas, centenas, milhares de bolos de véspera, assinalados na parte superior com os chavões dos que os haviam ofertado, enfeitados com flores multicolores, passavam, agora, das mãos dos distribuidores para as de todos os que ali, pacientemente, haviam aguardado o momento mágico, transcendente e emocional, em que recebiam aquela dádiva do Divino, oferecida pelo humano.

- Ó sinhô, - explicava Ti Manuel da Silveira, ao mesmo tempo que com a mão direita ajeitava a aba do chapéu de feltro a tapar-lhe o cocuruto e estendia a esquerda para receber uma véspera. – Ó sinhô, isto é um costume muito antigo. Foram os nossos antepassados, há muitos, muitos anos que fizeram esta promessa. E pode acreditar que enquanto houver gente nesta freguesia, esta promessa há-de ser cumprida todos os anos. Lá isso há-de... – Depois apontando lá para os lados da montanha, que se ostentava tímida e enevoada: – O sinhô está a ver ali em cima aquele cabeço, e um outro mais além e ainda outro? Pois são sete, ao todo, veja bem, sete e olhe que de todos eles, há muitos, muitos anos, saiu muito fogo, lava pura, vinda de dentro da terra e que deslizou por aqui a baixo, a correr para o mar como se fosse um rio e destruiu isto tudo. Casas, animais, vinhas e campos, tudo… Tudo, o fogo levou. Ficaram poucos, mas foram esses que, naquele momento de enorme agonia, fizeram esta promessa: “Se o fogo parar, os que escaparem hão-de dar pão aos pobres e a todos os que demandarem esta terra, neste dia, enquanto o mundo for mundo, em louvor do Senhor Espírito Santo”.

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publicado por picodavigia2 às 20:44

SWAP

Quinta-feira, 04.07.13

A Export Tudkepod Campanny é uma empresa portuguesa cuja actividade é a exportação de alguns produtos nacionais: galochas de homem e senhora, ferraduras de cavalo, ganchos para a apanha de cracas, pinhas para acender lareiras, calços de janela, pinças para depilação, pegas para tachos, atacadores, palitos, copos de plástico etc e que optou por ter as suas receitas, em dólares e as dívidas em euros, corrigidas umas e outras por juros pós-fixados. Esta empresa quer trocar o "risco cambial" (relativo à variação do dólar) pelo "risco de juros pós-fixados", ou seja, seu objectivo no contrato de swap é de se proteger contra riscos cambiais, conseguindo, obviamente, ganhos mais elevados.

Por sua vez a empresa chinesa Chó Peg Chui é uma empresa retalhista, estabelecida há alguns anos em Portugal, e que tem como objectivo importar produtos chineses, a fim de os vender no nosso país, tais como, bonés, calções de praia e biquínis, soutiens e cuecas senhora, pastilhas elásticas, balões, carrinhos, isqueiros, portas chaves, guarda-chuvas, pisa-papéis etc. Ao contrário da Export Tudkepod, esta empresa optou por ter as dívidas atreladas ao dólar e as receitas, em euros, que assim são aplicadas no mercado e remuneradas a uma taxa de juros. pós-fixada. Esta empresa quer justamente o oposto acima referida: trocar seu risco referente à variação da taxa de juros pelo risco cambial.

As duas empresas optaram por estabelecer um contrato recíproco, com intermediação de uma instituição financeira, para fazer a troca swap Save waste and prosper, ou seja uma "permuta" de operações em que há troca de posições quanto ao risco e rentabilidade, pois o objectivo deste negociate é proteger ambas as empresas de uma eventual escalada das taxas de juro.

O "Swap" ou “troca” é uma transacção financeira em que duas partes concordam em trocar fluxos de pagamentos ao longo de um período, de acordo com uma regra predeterminada. Uma "swap" geralmente é utilizada para transformar a exposição (risco) de mercado associada a um empréstimo ou obrigação realizados com base numa moeda ou taxa de câmbio (termos fixos ou taxa flutuante) para outra

É assim que um leigo em finanças, entende o que é um swap, mas interroga-se, permanentemente: Para além das empresas, acima referidas quem mais beneficia e quem é prejudicado pelos contractos swaps?

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publicado por picodavigia2 às 23:26





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