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BARRA OU PAU ROUBADO

Quarta-feira, 06.12.17

O jogo da Barra ou do Pau Roubado era muito comum entre a criançada. Os participantes eram divididos em dois grupos com o mesmo número de crianças, grupos, geralmente escolhidos por dois líderes. Depois delimitava-se o campo, numa rua ou no pátio da Casa do Espírito Santo de Cima ou no adro e, em cada lado, e ao meio era colocado um pau. O jogo consistia em cada grupo tentar agarrar primeiro o pau sem ser tocado por qualquer jogador adversário. Quem não conseguisse fugir ao adversário e ser agarrado, ficava preso no local onde fora tocado e parado como uma estátua, até conseguir que um companheiro da sua equipe o libertasse, tocando-o. Vencia o grupo que tiver menos participantes presos ou quem agarrar, isso era, roubar, mais vezes o pau.

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publicado por picodavigia2 às 00:37

BOM BARQUEIRO

Sábado, 17.12.16

Outro jogo a que se dedicavam as crianças, nas ruas, nos dias de festa, nas Casas do Espírito Santo, especialmente na semana que antecedia a festa, ou nos recreios da escola era o Bom Barqueiro.

Formando uma coluna, os participantes, em número variável, cantarolavam:

 

– Bom barqueiro,

Bom barqueiro,

Deixai-nos passar.

Somos filhos pequeninos

Para acabar de criar.

 

– Passarás, passarás,

Mas algum há-de ficar.

Se não for o da frente,

Há-de ser o de trás,

Trás, trás.

 

 

Eram escolhidos dois elementos para fazer de ponte. Levantando os braços, davam as mãos, abrindo-as lá no alto. Sem que os outros participantes ouvissem, cada um dos que formavam a ponte escolhia um fruto, ou uma cor, ou um lugar, ou um animal, ou um objeto, ou outra coisa qualquer. As outras crianças formavam uma fila, uma espécie de comboio dando voltas por baixo da ponte cantando:

 

Passarei, passarei,

Deixai-me passar

Porque tenho filhos pequeninos

Não mos deixam criar.

 

Ao passar mais uma vez por baixo das duas outras crianças que têm as mãos em arco a formar a ponte, a última criança da fila ficava presa e uma das duas crianças perguntava-lhe se queria ser o que uma ou a outra combinou ser mas que a criança presa desconhecia. Por exemplo:

 – Queres ser baleia ou bote?

Conforme a escolha, a criança passava para trás da que escolhera, sem que os outros soubessem o que tinha escolhido, formando uma nova fila. No fim, cada criança ficava do lado da ponte que escolhera, formando duas filas agarradas aos que formavam a ponte. Faziam um risco no chão, ficando um grupo de cada lado com a mão presa na cintura do que ficava à frente e começam a puxar. Quem pisasse o risco ou quem quebrasse o cordão, perdia o jogo, sendo que, por vezes o equilibro de forças era muito desigual, outras mais equilibrado e lá caíam todos em cima uns dos outros. Era uma festa!

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

TRINTA E UM

Quarta-feira, 17.08.16

Um dos jogos mais comuns a que se dedicavam as crianças, na Fajã Grande, na década de cinquenta, era o jogo do Trinta e um. Tratava-se de um jogo muito simples e podia ser jogado em qualquer sítio e em qualquer ocasião ou momento, uma vez que a sua prática não exigia qualquer tipo de material. Era necessário, apenas, um bom número de crianças participantes e, por isso era jogado, fora da escola, enquanto se esperava a chegada da Senhora Professora, aos domingos, antes da missa, no adro da igreja ou nas tardes solarengas do verão enquanto os nossos pais descansavam à Praça ou nas banquetas da Casa do Espírito Santo de Baixo. Quanto maior fosse o número de crianças melhor e mais emotivo seria o jogo.

O jogo começava do seguinte modo: um dos participantes, geralmente por vontade própria ou designado por sorteio era escolhido para contar, pausadamente, de um até trinta e um, com os olhos bem tapados num determinado local, que deveria ser conhecido de todos os participantes e, junto do qual, no chão havia sido desenhado um pequeno quadrado e colocado um pedaço de pau ou um simples focho. Enquanto este jogador contava os outros participantes escondiam-se, cada um onde pudesse, procurando os esconderijos mais ocultos e esconsos, que evitassem que fosse visto pelo jogador que contava mas que permitisse ver a movimentação do mesmo. Ao chegar a trinta e um o jogador que contava terminava com a expressão trinta e um, barbas de pirum, não aparece nenhum. Só então destapava os olhos. Após a contagem, se visse algum jogador que ainda não tivesse encontrado esconderijo, proferindo o nome, riscava, de imediato, o mesmo nome com o pau, no sítio onde este fora colocado. Em seguida tentava encontrar cada um dos outros jogadores escondidos e ao avistar ou descobrir cada um, gritava o seu nome e corria a riscá-lo com o pau. Se alguma dos jogadores que se haviam escondido conseguisse chegar junto do pau antes dele e riscar o seu nome sem ser visto por aquele que está procurando, o jogador em causa seria obrigado a contar de novo. Nessa altura, todos os jogadores que ainda estavam escondidos eram chamados a aparecer. O jogo repetia-se com o mesmo contador até que este conseguisse descobrir o esconderijo de todos os participantes e riscar os seus nomes. Só então era escolhido outro jogador para contar, recomeçando todo o processo do jogo outra vez.

Com o mesmo nome também existia um jogo de cartas em que ganhava ou empata quem fizesse trinta e um, ou ficasse em ponto mais próximo a eles que o contrário. Neste jogo, distribuíam-se três cartas a cada jogador que, de seguida, pode pedir as que julgar necessárias para se aproximar dos trinta e um pontos. Se uma carta pedida ultrapassar os trinta e um pontos, o jogador sai de jogo. Trata-se de uma variante de um outro jogo, o Sete e Meio.

Talvez, por isso a expressão trinta-e-um significa significava «embrulhada, zaragata ou desordem». É que, por vezes, os jogos, especialmente os de cartas, são ruidosos, conflituosos e podem dar lugar a embrulhadas, zaragatas e desordens.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

PASSARÁS, PASSARÁS

Terça-feira, 23.06.15

Um dos vários jogos que as crianças da Fajã Grande, na década de cinquenta, faziam era  Passarás, Passarás. Era durante os recreios da escola, enquanto se esperava pela Senhora Professor, aos domingos, antes da missa e depois da Catequese. Era também e, sobretudo, nas Casas do Espírito Santo, nas noites de Alvoradas, nos dias das Festas e nos Domingos entre a Páscoa e o Pentecostes que as crianças aproveitavam para fazer este jogo em espaço coberto.

O jogo era simples mas implicava um bom número de crianças, sempre a rondar a dezena. Reunia-se o grupo dos interessados em participar e escolhiam-se duas crianças. Estas, sem que o grupo de crianças participantes da brincadeira soubesse, escolhiam aleatoriamente dois nomes de objetos, plantas de frutas, flores, animais, etc. – e cada uma guardava o nome escolhido. Depois posicionam-se em pé, uma de frente para a outra e, de mãos sobre os ombros uma da outra, formando uma espécie de ponte ou arco que serviria para aprisionar, à vez, cada um dos outros participantes. Estes formavam uma fila, com as mãos colocadas nos ombros do parceiro de jogo imediatamente postado à sua frente. A criança que ocupava o primeiro lugar da fila puxava as outras e passava por baixo do arco, formado pelos braços dos outros dois, enquanto iam cantarolando:

 - Passarás, passarás, mas algum há de ficar. Se não for o da frente, há de ser o de detrás.

A última criança da fila ficava presa entre o arco formado pelos braços dos dois primeiros participantes e devia responder a pergunta feita em muito segredo, a fim de que os outros não ouvissem:

- Queres pau ou pedra? (por exemplo, ou outro par de dualidades, havendo o cuidado de, na escolha se evitarem nomes mais cobiçados pelos participantes).

A opção escolhida implicava que a criança presa ficasse atrás daquela que escolhera aquele nome, naquele jogo. A fila continuava a passar debaixo do arco formado pelos braços, ficando sempre presa a criança e que era colocada mediante a escola que fizera. Mas isto tinha que ser feito em muito segredo para que os outros ainda não presos, desconfiassem. No fim e após serem presos todos os participantes, ganhava a criança que tivesse maior número de participantes na sua fila.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

MINZIM, MINZIM

Sábado, 19.07.14

Um interessante e original jogo realizado pelas crianças, na Fajã Grande, era o “Minzim, Minzim”. O jogo consistia em colocar as crianças sentadas num banco, ficando uma a orientar o jogo. O objectivo era descobrir qual seria a última a sair do jogo, depois de todas as outras serem sucessivamente eliminadas.

Para tal o orientador, batia com a mão uma parte do corpo de cada um, enquanto pronunciava cada sílaba da seguinte cantilena;

 

Minzim, Minzim,

Casou, casou.

Por causa de ti,

Cáscadam.

Minderlim,

Triclá

Um fora.

 

Era o que fosse tocado na altura em que o orientador pronunciava “fora” que era eliminado, até ficar só um, o vencedor que passava a próximo orientador.  

Os adultos ou as crianças mais velhas, por vezes faziam este jogo com os mais pequeninos. Neste casa cada criança ia perdendo, sucessivamente, a boca, o nariz, um olho, uma mão, etc.

 

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publicado por picodavigia2 às 19:03

A CABRA-CEGA

Sábado, 31.05.14

Embora não sendo típico, nem muito menos exclusivo da Fajã Grande, um dos jogos a que se dedicava a ganapada, nos anos cinquenta era a Cabra-Cega e que tinha lugar geralmente dentro de casa. Era jogado sobretudo nas Casas do Espírito Santo, por alturas das festas e nas noites das Alvoradas, uma vez que estas casas amplas, contendo um espaço livre, com poucos obstáculos a fim de que ninguém se pisasse.

Reunido o grupo de crianças intervenientes no jogo, era escolhida uma para ser a cabra-cega. Colocava-se um lenço a tapar-lhe os olhos, sendo testada de que, de facto não via nada. De seguida, um dos mais crescidos, obrigava-a alguém a dar algumas voltas, rodopiando sobre si própria. Depois pedia-se-lhe que tentasse tocar ou segurar as outras crianças participantes. A criança que a Cabra-Cega conseguisse tocar ou segurar primeiro, passava a se a Cabra-Cega. A norma tem que ser combinada antes, se é só tocar ou tem que agarrar. A brincadeira deve ser realizada em um espaço pequeno e livre, com poucos obstáculos para que não haja acidentes e machucados.

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publicado por picodavigia2 às 17:37

O JOGO DO LENÇO

Quinta-feira, 06.02.14

Umdos jogos colectivos mais praticados pela criançada, na Fajã Grande, nos anos cinquenta, era o “Jogo do Lenço”. No entanto, uma vez que exigia um bom número de participantes - cerca de uma dúzia – este jogo era realizado, geralmente, nas festas, sobretudo por altura das do Espírito Santo, neste caso, não apenas no dia da festa, mas também durante a semana que a antecedia, antes e depois do cantar das “Alvoradas” e da “Folia”, e até nos domingos que mediavam entre a Páscoa e o Pentecostes, enquanto se aguardava o acompanhamento da coroa do Espírito Santo que durante todos esses domingos era levada, em cortejo, solene, para a igreja paroquial, na hora da missa. No entanto, sempre que houvesse disponível um espaço amplo e, sobretudo, se a garotada disponível perfizesse o número de jogadores exigível, o jogo do lenço imperava.

Para além do espaço, o único material necessário era, apenas, um simples lenço da mão, que, preferencialmente, estivesse limpo, ao qual era dado um nó, para que este assentasse no chão, no lugar pretendido, quando fosse atirado pelo jogador que o transportava. Todos os jogadores, excepto um, formavam uma grande roda, dando as mãos uns aos outros, com o rosto, obrigatoriamente, voltado para o interior do círculo. O jogador que ficava de fora, que não fazia parte da roda, pegava no lenço e correndo por fora da roda, circulava ao redor mesma, numa marcha acelerada. Quando bem quisesse e entendesse, deixava cair o lenço atrás de um dos jogadores, por ele escolhido, e que fazia parte da roda. Havia, no entanto que ter em conta uma importante estratégia, a fim de que o objectivo do jogo fosse mais eficientemente atingido: convinha que o lenço fosse deixado cair atrás daquele jogador que lhe parecesse estar mais distraído. É que assim, eventualmente, conseguiria alongar o tempo entre o cair do lenço e o conhecimento desse facto por parte do jogador em causa. Os outros não o podiam avisar de que o lenço estava caído atrás dele. Quando este jogador, atrás de quem era deixado o lenço, se apercebia de tal facto, então largava as mãos dos vizinhos, abandonava a roda e corria atrás do jogador que lhe deixara o lenço, até o apanhar. Se o conseguisse, entregava-lhe o lenço, sendo o jogador apanhado obrigado a continuar a sua tarefa, enquanto o outro, triunfante, regressava ao seu lugar na roda. Caso contrário, isto é se o jogador demorasse na apanha do lenço ou não corresse o suficiente para atingir o objectivo do jogo – agarrar o que lhe deitara o lenço, - este jogador iria ocupar o seu lugar na roda, enquanto ele, o derrotado, ficava como que condenado a um suplício ou castigo, isto é, teria que ser ele, agora, a circular ao redor da roda, a deixar cair o lenço atrás de quem quisesse e corresse até não ser apanhado por um terceiro, quarto ou outro jogador, atrás de quem ia deixando cair o lenço.

Ufanavam-se de vitória, aqueles jogadores que ao terminar o jogo, não tinha sido “obrigados” a circular ao redor da roda, com o lenço, pois sempre que o lenço lhe tivesse sido colocado atrás, apanhavam todos os que ali os haviam deixado.

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publicado por picodavigia2 às 12:05

O JOGO DAS PEDRINHAS

Segunda-feira, 20.01.14

Um dos jogos mais populares entre a criançada, na Fajã Grande, nas décadas de quarenta e cinquenta, era o Jogo das Pedrinhas. Embora comum a ambos os sexos, o Jogo das Pedrinhas, talvez porque os espaços em que se realizava circundavam, geralmente, as proximidades das habitações, era praticado, sobretudo, pelas meninas, que para tal se muniam, de cinco pequenas pedras, preferencialmente, lisas e arredondadas. As pedrinhas, geralmente, eram adquiridas na altura do jogo, mas havia jogadoras mais exímias, qualificadas e experientes que possuíam conjuntos de pedrinhas, que guardavam bem guardados, mantendo, assim, as mesmas pedras sempre que jogavam, cuidando que se habituavam melhor e se adaptavam mais facilmente ao jogo, o que lhes traria maior qualidade, mais rigor e competência, obtendo assim, melhores performances e resultados de excelência. Muitas raparigas havia que, até se davam ao luxo, de treinarem sozinhas para depois se desforrarem nas adversárias.

A segunda tarefa consistia na escolha do local do jogo, que necessariamente devia ser uma superfície lisa, que podia ser o chão de casa, um pátio ou balcão, por vezes até um simples degrau de escada cimentado ou a soleira duma porta.

De seguida iniciava-se o jogo, começando este por um etapa inicial que tinha como objectivo sortear a ordem de saída de cada jogador ou jogadora. Para tal, cada participante, à vez, colocava as suas cinco pedras na palma da mão e, dando uma volta com a mesma, tentava apanhar o maior número possível de pedras com as costas da mão, fazendo o gesto contrário para ver quantas pedras, finalmente, conseguia apanhar com a mão depois da segunda volta, terminando assim a sua jogada. Caso houvesse empate, relativamente ao número de pedras conseguido, o jogo continuava até que um jogador conseguisse apanhar o maior número. Depois iniciava-se, propriamente, o jogo, em que normalmente não participavam mais de três jogadores. O jogador que vencera a etapa inicial juntava as suas pedras e as dos restantes jogadores, atirava-as todas ao ar, num gesto igual ao rito inicial, tentando apanhar o maior número possível, depois de as virar sobre as costas da mão. No entanto, neste revirar das costas da mão, o jogador tentava apanhar o número de pedras que mais lhe conviesse, naquele momento do jogo. Assim se apanhasse três pedras perdia a jogada, se apanhasse um número ímpar de pedras retirava apenas uma, mas se conseguisse capturar um número par, ganhava metade desse número. Todas as pedras ganhas eram retiradas, imediatamente, do jogo, sendo guardadas pelo jogador que as ganhava. Essas pedras chamavam-se “bezerras”. Caso o jogador apanhasse do chão qualquer número ímpar de pedras (excepto três) ganhava apenas uma “bezerra”. Continuando o jogo, o jogador vitorioso, atirando uma pedra ao ar de cada vez, ia aos poucos juntando do chão todas as que lá estavam, uma por uma, ou um número par de cada vez, sendo que nunca podia nem apanhar três ao mesmo tempo, nem deixar três ou uma na mesa. Se deste modo conseguisse apanhar todas as pedras do chão, ganhava uma “bezerra” e por cada número par que juntasse ganhava metade desse número em “bezerras”. Sempre que falhasse ou simplesmente se ao juntar uma pedra tocasse noutra, perdia o direito de continuar a jogar. Por isso, de seguida, o jogador que ficara em segundo lugar na fase inicial, adquiria o direito de jogar, utilizando todas as pedras ainda em jogo, procedendo de forma idêntica, seguindo as mesmas regras e tentando conquistar o maior número possível de “bezerras”. O mesmo faria, quando perdesse, o terceiro jogador e, mais tarde, o quarto, se o houvesse. Se no final desta espécie de primeira volta ainda sobrassem pedras não “bezerras”, o jogo continuava numa segunda ou mais voltas, até que os jogadores conseguissem transformar toadas as pedras em “bezerras”. Para se ganhar “bezerra” uma das duas últimas pedras, deviam atirar-se ao ar, rodar e apanhar, simultaneamente, as duas. A conquista da última pedra era a consagração final: atirava-se a pedra e antes de a apanhar o jogador vencedor, beijava as pontas dos dedos, como que a agradecer o sublime e agradável sabor da vitória.

O vencedor do jogo era, obviamente, o jogador que no final do jogo conseguisse maior número de “bezerras”. Seguiam-se outros jogos, sempre com as mesmas regras, escrupulosamente cumpridas, apurando-se no fim um vencedor absoluto.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

O JOGO DO PIÃO

Quarta-feira, 13.11.13

Embora conhecido e praticado em todas as regiões e localidades do país, o jogo do pião era um dos mais populares e típicos a que se dedicava a ganapada da Fajã, nos anos cinquenta. Curiosamente, na Fajã, não se jogava ao pião durante todo o ano, mas sim e apenas numa época concreta e específica que coincidia mais ou menos com a Primavera ou, mais concretamente, com as semanas que decorriam ente o domingo de Páscoa e o do Espírito Santo. Era a denominada «época do pião». Nessa altura não havia criança, rapaz e, muitas vezes, até homens que não arranjassem o seu pião, com a respectiva fieira, para uma valente e porfiadíssima jogatina. Depois era treinar, treinar e preparar-se para lutas disputadíssimas e grandes desforras. Mas o jogo do pião tinha as suas regras, as quais eram escrupulosamente respeitadas por todos os jogadores, não apenas no que dizia respeito ao desenrolar dos jogos, mas também relativamente ao formato, feitio, volume e qualidade do pião, à agudeza do bico e até ao tamanho da fieira. Os piões, geralmente, eram feitos por carpinteiros ou outros curiosos da Fajã, mas também se podiam comprar nas lojas, vindos do Faial ou de S. Miguel, preparadinhos com fieira, embora neste caso, geralmente, fosse necessário substituir-lhes o bico, porque o original não era dotado de grande qualidade penetrativa, nem muito adequado para as nicas. Os piões, normalmente, eram feitos de madeira de buxo, rija como ferro. Tinham um diâmetro, aproximadamente, entre cinco e dez centímetros, tinham uma cabeça no lado superior, à volta da qual se iniciava o enrolar da fieira e, no outro extremo, um potente bico em ferro.

Chegada a época do pião todos se preparavam, não apenas mandando fazer um pião, procurando, entre os arrumos, o da época anterior, ou comprando um novo. Era necessário também arranjar uma boa fieira, pois a sua qualidade influenciava, em parte, a eficácia da actividade giratória e impulsiva do pião. Fieiras boas eram as obtidas de antigos fios de pesca, sobretudo os que vinham da América. Depois era treino, muito treino, para aperfeiçoar a pontaria e para por o pião a rodar e a «dormir», não apenas no chão, em superfície lisa, mas até pegando-lhe do chão para a palma da mão, sempre a «dormir” ou até atirá-lo ao ar e apanhá-lo e pô-lo a girar na palma da mão sem ter que, antes cair ou sequer tocar no chão. Os mais habilidosos até o punham a girar ou a «dormir” em cima de um ombro, passando-o depois para outro, sem o pião nunca parar ou ir ao chão. Havia jogos ou concursos que tinham como objectivo que cada qual demonstrasse maior qualidade, destreza e habilidade no jogar do seu pião.

Mas o principal jogo era o das «nicas» ou «ferroadas». Um grupo ilimitado de jogadores predispunha-se a jogar. Era escolhido o pião que havia de ser a primeira vítima. A escolha geralmente era feita através de um atirar colectivo de todos os piões e o pião que “caísse” mais cedo, isto é, que parasse de girar em primeiro lugar, seria aquele que iniciaria o jogo, colocando-se, parado no chão, à espera que os outros, mediante a agilidade e destreza dos seus donos, o nicassem. O pião era colocado, solto e sem fieira no chão, enquanto os restantes jogadores, lhe tentavam dar uma nicada ou ferroada com o bico do seu. E era cada uma! O primeiro pião a falhar a nicada substituía imediatamente o que estava no chão, passando a ser a vítima, enquanto o outro se preparava para nicar. As nicadas, por vezes eram tão fortes que chegavam a inutilizar o pião vítima, rachando de uma ponta à outra. Mas isso fazia parte das regras do jogo que todos eram obrigados a aceitar, embora cada qual ficasse bastante triste e desolado ao ver o seu pião desfeito, rachado ou, simplesmente nicado.

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publicado por picodavigia2 às 00:09

A CACINA

Quarta-feira, 25.09.13

A “cacina” era, antigamente, um dos jogos de cartas mais populares na Fajã Grande. Devido à sua nomenclatura deduz-se facilmente que teria sido um jogo trazido da América por tantos fajãgrandenses que, clandestinamente, demandaram a terra do Tio Sam, muitos deles fugindo da ilha nas baleeiras que ali paravam, sobretudo nas baías e enseadas da costa oeste, junto à foz das ribeiras, a abastecerem-se de víveres ou, também, por tantos outros que emigraram na legalidade para aquele continente, sobretudo, para as bandas da Califórnia. Uns e outros geralmente regressavam e, juntamente com algumas águias, muitos “candys” e um ou dois baús com roupas vistosas, traziam muitos usos, costumes e vocábulos americanos.

O jogo da “cacina” tornou-se bastante popular por ser muito simples, de regras fáceis e por poder ser jogado apenas por dois ou também por quatro mas, neste caso, formando dois pares.

Jogava-se com todas as cartas do baralho. Cada jogador recebia, do dador, quatro cartas, sendo viradas outras tantas sobre a mesa de jogo, com a face voltada para cima. O jogador que não dava as cartas ou que se lhe seguia era o primeiro a jogar, podendo juntar qualquer carta igual à que tivesse na mão ou, com excepção das figuras, somar as da mesa e juntá-las com uma de mão com o total da soma, por exemplo, se estivesse um cinco e um dois na mesa o jogador podia juntar as duas cartas com um sete. Podia ainda empalhar, ou seja, se estivesse um cinco na mesa e o jogador tivesse na mão um três e um oito, podia jogar o três, empalhando-o sobre o cinco, para na jogada seguinte o juntar com o oito. Esta jogada, porém, era arriscada, dado que se o jogador adversário estivesse atento e se tivesse um oito na mão podia antecipar-se e juntar as cartas ou se tivesse um ás e um nove, podia jogar o ás sobre o oito, somando ao oito do cinco e três mais um e anunciar nove, recolhendo na jogada seguinte, todas as cartas com o nove que possuía. As últimas cartas eram recolhidas da mesa pelo último jogador a juntar um par.

Cada jogo valia onze pontos assim distribuídos: 3 pontos por maior número de cartas (mais de vinte e seis), 1 ponto por ter mais espadas (sete ou mais), 1 ponto por cada ás, 1 ponto pelo “lou” (dois de espadas) e 2 pontos pela “big cacina” (dez de oiros).Cada jogador que conseguisse deixar a mesa vazia fazia um “sweep” e, por isso ganhava um ponto extra.

Ganhava o jogo o jogador ou par que primeiro obtivesse trinta pontos, os quais, após cada partida, iam sendo marcados numa tabuinha com dois carreiros paralelos de trinta furos, através de dois pequenos pauzinhos. O jogador que numa jogada não pontuasse “ia à figueira”.

Minha avó era uma jogadora “viciada” no jogo da “cacina”. Jogava com grande habilidade, enorme competência e, sobretudo, com tal concentração que sabia todas as cartas que saíam bem como as que ainda estavam por sair, o que lhe permitia uma enorme vantagem sobre os adversários.

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publicado por picodavigia2 às 13:35

CALHAU DAS LAPAS

Sexta-feira, 20.09.13

Um dos jogos, simples e inocente, que se fazia na Fajã Grande. Quando era criança era o célebre “Calhau das Lapas”. Quantas vezes, na nossa infância, acompanhávamos as pessoas mais velhas, sobretudo as mulheres, em momentos de carência alimentar, a ir até à beira-mar, saltar de pedra em pedra, de calhau em calhau, geralmente, lutando contra a braveza do mar, para apanhar um “punhadindo” de lapas, pequeninas, mas saborosas e tenrinhas, com que se haviam de fazer umas tortas, ou, se a apanha fosse generosa, haviam de ser guisadas em molho Afonso ou com pão de milho esmiolado. Ficávamo-nos na memória aquela luta quase titânica entre a pequenez humana e a sua força limitada e a imensa, gigantesca e temerosa robustez daquele mar enorme, infinito, capaz de tudo levar e destruir. E enquanto víamos as pessoas a avançar e encolher-se naquele e vai-e-vem das ondas, naquele escapulir à fúria do mar que rebentava nos laredos, sonhávamos e gravávamos no pensamento aquelas imagens de luta, de entrega e de abnegação, superando a agressividade das ondas.

Depois em casa, nas horas vagas, brincávamos ao “Calhau das Lapas”. Um de nós, para tal escolhido, fazia de calhau. Pondo-se de gatas no chão, colocava a cabeça sobre os braços de maneira que obstruísse a visão. Os outros, ao redor, imaginavam-no um enorme calhau, à beira-mar, carregadinho de lapas que tentavam apanhar. Para tal tinham que focar no calhau e em cada toque apanhavam uma lapa. Só que o jogador de gatas era calhau mas também era mar, bravo, furioso, a tentar agarrar quantos o ousavam demandar. Por isso, logo que sentia alguém tocar-lhe, enfurecia-se e levantando a cabeça e os braços tentava a agarrar e levar consigo os que tiravam as lapas do calhau, prefigurando assim uma árdua e trágica luta entre o homem e o mar. O jogo terminava quando o mar levasse todos os que apanhavam lapas, isto é quando o jogador que simulava calhau apanhava os outros jogadores. Claro que o jogo continuava com um outro jogador a fazer de calhau.

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publicado por picodavigia2 às 16:19

O CALHAU DAS LAPAS

Quarta-feira, 11.09.13

O Calhau das Lapas era um jogo ou brincadeira a que as crianças se dedicavam, outrora, na Fajã Grande. Era jogado ou praticado geralmente numa casa velha ou de arrumos ou dentro da própria casa, na cozinha ou até na sala, também chamada casa de fora, nos dias de chuva ou quando um ou mais dos participantes estavam doentes ou convalescentes, estando, num e noutro caso, impedidos de brincar na rua ou proibidos de o fazer. Em tais ocasiões, irmãos, primos ou amigos, por solidariedade com o doente ou convalescente, optavam por brincadeiras e jogos dentro de casa.

Neste jogo o número de participantes era ilimitado – quantas crianças estivessem juntas e o quisessem fazer, quantas jogavam e era praticado conjuntamente por crianças de ambos os sexos. Uma delas, por vontade própria ou para tal escolhido pelos outros, fazia de calhau, simulando ser uma enorme pedra do baixio, estando totalmente coberta de lapas e situada à beira mar, no sobe e desce da maré e no vaivém atrevido e perigoso das ondas. Para imitar um calhau o jogador devia pôr-se de gatas no chão e ajoujar-se com o rosto deitado sobre ambos os braços para que os olhos ficassem tapados, impedindo-o de ver. O calhau movimentava-se repentinamente, à socapa e com grande rapidez sempre que alguém dele se tentasse aproximar para apanhar uma lapa, simbolizando assim a força e a braveza das ondas do mar assim como a subida da maré. Cada um dos outros participantes devia aproximar-se sorrateiramente e tentar apanhar a maior quantidade de lapas possível, o que conseguiria tantas ou quantas vezes conseguisse tocar ao de leve no calhau. Vencia o jogo o jogador que apanhasse o maior número de lapas escapando à fúria do calhau, evitando assim ser capturado pelas supostas e bravias ondas do mar ou o jogador que fazia de calhau, caso conseguisse apoderar-se de todos os participantes.

O jogo repetia-se quantas vezes se quisesse sempre com um outro jogador, rotativamente, a fazer de Calhau das Lapas.

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publicado por picodavigia2 às 20:25

O BURRINHO DO LAMÉ

Quinta-feira, 13.06.13

Muitas eram as brincadeiras e os jogos, individuais e colectivos, que fazíamos em criança, na Fajã Grande, sobretudo para ocupar da melhor forma as tardes de domingos e feriados.

No top dos jogos colectivos figurava “O Burrinho do Lamé”. Bastava que alguém convocasse a malta miúda e era uma correria louca e imediata para o adro da Casa do Espírito Santo, local estrategicamente apropriado para tal: - Vamos brincar ao Burrinho do Lamé.

O jogo em si era simples e fácil, tendo como objectivo principal que todos os participantes evitassem, da melhor e mais astuta forma possível, figurar como burro, durante o jogo.

Os participantes, em número indeterminado, sentavam-se todos na soleira da porta e degraus circundantes, enquanto o líder do grupo, que orientava o jogo, ocupava um lugar numa banqueta que havia no lado oposto, depois de escolher quem ele muito bem entendesse para figurar de burrinho no início do jogo. Vergava-lhe então a cabeça sobre os seus joelhos, tapava-lhe os olhos com as suas próprias mãos, colocando-lhe de seguida o traseiro em condições de levar uma pequena palmada. Do outro lado alguém se levantava, normalmente por indicação do líder (porque todos queriam vir) e vinha bater ao de leve no rabiosque do suposto burrinho, voltando de seguida ao seu lugar, sem ser visto por aquele. Destapava-se o burrinho que de imediato era obrigado, a fim de perder o seu ocasional estatuto de asno, a tentar identificar o agressor. Pegava-lhe então às cavalitas, não fizesse ele papel de burro, apresentando a sua carga ao líder, que o interrogava do seguinte modo:

- O Burrinho donde vém?

- Venho do Lamé, - respondia o burro.

Se tivesse acertado no seu agressor, este passaria de imediato a fazer de burro, enquanto o chefe confirmava:

- Deita cá que é.

Se não acertasse ouvia: - Vai por lá que não é. – e continuaria, assim carregadinho para lá e para cá  até encontrar o agressor, o que por vezes se tornava muito difícil.

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publicado por picodavigia2 às 13:53





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