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A VELHA

Segunda-feira, 22.05.17

Conta-se que antigamente, não se sabe bem onde, vivia uma vez velhinha, muito velhinha, muito agastada com os anos e as canseiras, que andava sempre a pedir esmola, alegando, junto daqueles a quem se dirigia para mendigar, que não tinha ninguém, que era muito desgraçadinha, etc., etc.

Mas o povo dizia que a velha, afinal, tinha dinheiro. A suspeita chegou aos ouvidos de um ladrão que, certo dia, enquanto a velha foi à fonte, entrou-lhe em casa. Como a velha não demorasse, surpreendeu o ladrão e este, para que ela não o visse escondeu-se debaixo da cama.

A velha porém, ao entrar no quarto, viu-lhe um pé. Pensou em gritar e pedir ajuda, mas teve medo de que ele a matasse e por isso deixou a porta do quarto aberta e ajoelhando-se em frente de um crucifixo que tinha, pôs-se de mãos postas a rezar em alta voz:

- Ó meu Deus! Quando era nova namorava um rapaz muito bonito, Depois, meu Deus, casei com ele, e quando regressámos para casa ele tirou-me o véu! Que vergonha, meu Deus! Depois tirou-me o vestido, as saias, as botas… Ai! Ai! Ai! Que vergonha! Ai! Ai! Ai! Que vergonha! - E gritava cada vez mais alto.

Os vizinhos que ouviram aqueles gritos acudiram a ver o que era, e a velha assim que sentiu gente em casa, sem mudar de posição, gritava:

- Vão debaixo da cama que lá está o ladrão!

Os vizinhos foram a ver e lá estava o homem que levou uma grande tareia. Foi assim que a pobre velha se livrou de ser roubada e morta.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A CORRIDA DOS COELHINHOS

Segunda-feira, 27.03.17

Era uma vez um grupo de coelhinhos que decidiram fazer uma corrida, subindo um alto e íngreme outeiro.

Os outros animais que presenciavam a corrida começaram a gritar, dizendo que eles estavam loucos pois nunca conseguiriam chegar ao alto daquele outeiro, uma vez que o caminho, para além de muito inclinado, era muito pedregoso

Indiferentes aos comentários dos outros animais os coelhinhos começaram a corrida enquanto aumentavam as críticas:

- Imbecis! Não vão conseguir. – Diziam uns.

- Estão loucos. Não conseguem chegar ao alto. – Acrescentavam outros.

- Não sabem os perigos que correm…

- Vão cair todos por ali a baixo…

E assim por diante…

Perante tais vitupérios os coelhinhos, uns após outros, começaram a desistir. Mas havia um que, indiferente às críticas, persistia e continuava a subida, em busca do topo do outeiro. Os outros animais bem continuavam gritando:

- Que palerma! Não vês que não vais conseguir…

Mas o persistente coelhinho continuava tranquilo, embora a arfar de cansaço, a sua subida. Nunca desistiu e, perante o espanto de todos os animais chegou, finalmente ao cimo do outeiro.

Foi então que a curiosidade tomou conta de todos. Queriam saber o que tinha acontecido e o que havia levado o coelhinho a não desistir como os seus irmãos.

Quando se aproximaram, a fim de lhe perguntar como ele tinha conseguido subir o outeiro descobriram, para espanto de todos, que ele era surdo.

 

NB - Texto inspirado numa fábula sul-americana,

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publicado por picodavigia2 às 00:05

GATO PRETO

Segunda-feira, 06.02.17

Conta-se que antigamente, como muitos outros na freguesia, havia um lavrador que, no inverno, costumava ir todas as noites ao seu palheiro deitar comida às suas vacas. Certa noite ao entrar no palheiro encontrou um gato preto empoleirado em cima do lombo de uma das suas vacas. De imediato tentou enxotá-lo mas, para espanto seu, por mais que o espantasse o gato não tugia nem mugia. Não fugia dali!

O bom do lavrador chegou-se junto dele, mas como se contavam na freguesia de muitas estórias aterradoras sobre gatos pretos, tratou-o com um certo receio. Timidamente, passou-lhe a mão no pelo, com meiguice, ao mesmo tempo que lhe dizia:

 - Sai daí que me espantas a vaca.

 E o gato, de imediato, respondeu:

 - Não saio.

O lavrador ficou de boca aberta com o que se estava a passar e ó pernas para que vos quero. Cheio de medo saiu a correr pela porta fora e foi dali direitinho à Praça contar aos homens que lá estavam sentados o que tinha visto e ouvido. Os homens riram-se dele, mas o lavrador insistiu, afirmando que o diabo estava em carne viva no seu palheiro e que ali havia bruxedo. Pelo sim, pelo não, e como o homem insistisse, os outros homens resolveram ir ao palheiro a fim de verem o que lá se passava. Cada um muniu-se de um grosso bordão de araçá.

Ao chegarem ao palheiro, mal o lavrador levantou a taramela da porta, eis que sai de lá de dentro um estranho vulto com tanta rapidez que nenhum dos homens chegou a ver o que era nem muito menos a acertar-lhe uma bordoada. E a verdade é que os homens regressaram cheios de medo às suas casas e deixaram de rir do que aquele lavrador lhes havia contado e de outras estórias que se contavam na freguesia sobre gatos pretos.

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O FRASCO DE PERFUME

Quarta-feira, 07.12.16

O Ângelo Mexim e o Amarelo eram irmãos de sangue. Nascidos e criados juntos, cresceram e casaram. Após a morte dos progenitores foram acumulando rixas, brigas e discussões como nunca se vira na freguesia. Um louvar a Deus! Questões de partilhas misturadas com ameaças de morte e de vinganças permanentes. Cada um havia de dar cabo do outro. Um ódio mortal recíproco!

Viviam pois como verdadeiros e eternos inimigos, os dois irmãos! Por toda a freguesia comentava-se, condenava-se e reprovava-se tão grande e profunda inimizade:

- Nunca tal se viu! Dois irmãos que, desde há muitos anos, não se falam, nem se podem ver um ou outro.

Não havia na freguesia memória de tão feroz e perpétuo ódio entre irmãos.

Envelheceram e o primeiro a falecer foi o Ângelo Mexim que herdara o apelido por, após o seu regresso da Califórnia, estar sempre a falar nos mexins que por lá existiam. Ele até tinha trabalhado com um mexim…

Decorria, durante a noite, o velório em casa do Ângelo. Duas dezenas de familiares, amigos e vizinhos prestavam-lhe, entre choros e soluços, a última homenagem. Para espanto de todos, pela noite dentro, entra o Amarelo. Aproximando-se do féretro, retirou do bolso um frasco de perfume e derramou-o sobre o cadáver do irmão.

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ENSEADA DE CRISTAL

Domingo, 04.12.16

Açoriana de nascença emigrou muito nova para os Estados Unidos, acompanhando os pais, numa estranha e descodificada aventura, porém, não se esquecendo nunca de que os Açores eram a sua terra e as Flores a sua ilha. Nascida debaixo de rochas, embalada entre os murmúrios das brisas matinais, alimentada com a seiva dos incensos e das faias, saltitando sobre as rochas negras dos baixios, mantém-se, ainda hoje, uma verdadeira açoriana dos sete costados. Com o rosto ao vento, traz no olhar o murmúrio das ribeiras e nas veias corre-lhe o ancestral sangue dos avós. Teima em manter os cabelos soltos, ao vento e a embrenharem-se nos meandros das ribeiras e nos valados dos grotões. Mantém a alegria de viver e segura, nas palmas das mãos, a infinita ternura das manhãs de primavera. Herdou a frescura dos regatos e guardou, em silêncio, o suave vaivém das marés. Dos primórdios do povoamento da ilha houve nome e agarrou-se à vontade de crescer, de se tornar vibrantemente enternecedora, em terra alheia. Fez seu lema a vontade de mudar o mundo. Mas a sua maior herança foi a estonteante viagem que fez, atravessando mares e oceanos, balouçando-se sobre as ondas, embalando-se nos alucinantes gritos dos vulcões. Brincou com as conchinhas da praia, procurou grilos em luras, saltou à corda, rolou o arco e sujou o rosto com terra ressequida. Correu por canadas e veredas, a pé descalço, subiu montes e outeiros e espreitou, de madrugada, o nascer do Sol. Brincou com bonecas de trapo e cabeça de loiça, construiu cadeirinhas de junco, porquinhos de batata-doce e sentou-se à janela a observar o voo titubeante das gaivotas. Ao sol e à chuva foi levar os bois ao pasto, alimentar o porco no curral e juntar, na cerca, os ovos das galinhas. À tardinha, misturava o seu canto com o dos tentilhões a respigarem os trigais e sentava-se, ao serão, no escuro da cozinha a ouvir as estórias da avó. No fim dava-lhe as boas noites e adormecia no seu regaço.

Voltava ao mar sempre que queria e banhava-se nas suas águas, transformando-se numa espécie de sereia reluzente. O bafo das marés acariciava-lhe o corpo e os caranguejos lambiam-lhe o suco das feridas. O mar era de lã e a água tinha perfume de alecrim. Deitou-se em praia deserta e, numa manhã de bruma cerrada partiu. Partiu para uma terra longe e distante mas que decidiu nunca ser sua.

Tornou-se mulher, senhora e dona. Recheou-se de poucas palavras e fez do silêncio o baluarte da sua defesa. Mas o que nunca se apagou e jamais se apagará da sua memória é apenas o mar e aquela pequena enseada mítica e de cristal, onde, em criança, misturava o seu corpo, meigo e doce, com a doçura fresca da água.

 

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A LEI DA FORÇA

Terça-feira, 15.11.16

Conta-se que antigamente vivia na Ponta, no lugar do Outeiro um homem que tinha muitos filhos. O homem era pobre e nada tinha de seu, pelo que, para sustentar os filhos tinha que arrendar terras a meias, estabelecendo contratos mediante os quais devia entregar aos donos das terras metade do que nelas produzia. Mas como a família era numerosa o homem gastava tudo o que produzia no sustento da mulher e dos filhos, pelo que deixou de entregar aos proprietários das terras o que lhes cabia por direito.

Como não pagava aos senhorios, estes foram à Vila, queixar-se ao Juiz que, chamando o homem à sua presença, decidiu tirar-lhe todas as terras e entregá-las aos verdadeiros donos.

O homem, descontente e desesperado com a decisão do Juiz, resolveu armar-se e armar os seus filhos com foicinhos, enxadas e varapaus e assim partiram todos para Santa Cruz na demanda do tribunal, fora do qual organizaram tamanha revolta e fizeram tão algazarra que o Juiz, temendo o pior, foi obrigado a alterar a sua decisão, conseguindo o homem de novo a posse das terras e os donos nada podendo fazer, pois o homem ameaçara que também se havia de armar juntamente com os seus filhos, uns valentes rapagões, frente às suas casas.

Mas consta também da estória que algum tempo depois todos os donos das terras, acompanhados de familiares e amigos se apresentaram em frente à casa do homem, armados da mesma maneira e fazendo ainda uma maior algazarra e uma mais grandiosa revolta do que a que ele fizera com os filhos junto ao tribunal. O homem teve medo, meteu a mão na consciência e, daí em diante, com a ajuda dos filhos, passou a cumprir com rigor todos os contratos de arrendamentos de terras que trabalhava mas não lhe pertenciam.

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NA CANADA DO MIMOIO

Segunda-feira, 31.10.16

Por toda a freguesia já ia uma falação medonha. Na máquina, à saída da igreja, nas alvoradas do Espírito Santo e até à Praça, não se falava noutra coisa: “O coirão da Cremilde do Saavedra andava metida com outro homem”. Certinho como dois e dois serem quatro! Com quem era é que não se sabia.

E nunca se ficou a saber, ou melhor, foi apenas o Zé da tia Mariquinhas que o ficou a saber.

Certa tarde, em que ia levar uma moenda ao moinho de Tio Manuel Luís, o Zé de tia Mariquinhas decidiu, para encurtar caminho, atravessar pela Canada do Mimoio, uma sinuosa vereda que ligava a Fontinha à Ribeira das Casas. Qual não foi o seu espanto, quando, logo a seguir às primeiras voltas, num sítio mais recôndito, mas em plena Canada do Mimoio, deu de caras com o Simões engalfinhado na Cremilde que gemia e gritava que nem uma gata em cio.

Aflito e confuso, o Zé, muito educadamente, apenas pediu licença para passar e seguiu o seu caminho, enquanto os outros, muito nervosos e receosos do que os havia de esperar como castigo de tão ousada leviandade, em vão se tentavam esconder mais junto à parede.

Soube-se, algum tempo depois, que as investidas à Cremilde haviam  terminado, mas o que o nunca se soube foi que era o Simões a por os cornos ao Saavedra. É que o Zé da Mariquinhas, por muitos defeitos que tivesse, possuía uma grande virtude: a de nunca contar a quem quer que fosse o que via ou ouvia por aqui e por ali.

Sorte teve o Simões que assim se livrou das más-línguas, dos arrufos da mulher e, sobretudo, de uma valente sova do Saavedra.

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A BUGRA

Domingo, 23.10.16

Há muitos anos chegou à Fajã Grande uma mulher estranha que não se sabia muito bem de onde vinha, nem muito menos qual a sua origem. Talvez tivesse sido abandonado por algum navio de piratas num qualquer recanto da ilha. No entanto, pelos traços fisionómicos, pela maneira de falar e pela forma como se vestia, cuidava-se que seria de origem indiana. Chamava-se Jurema mas todos a conheciam pela indiana e não era cristã, pois nunca participava nas cerimónias religiosas nem sequer entrava na igreja.

Certo dia o Chico de João Dias aproximou-se do padre vigário, que paroquiava a freguesia havia um bom rol de anos, insurgindo-se contra o cristianismo, alegando que não havia direito que assim como existe um Deus do sexo masculino também não existisse uma deusa fêmea o que afinal não era novidade neste mundo, pois era sabido as deusas eram aceites por muitas outra religiões, cujos fiéis acreditavam na existência de entidades celestiais do sexo feminino-:

- No mínimo, o cristianismo devia pelo menos acreditar existem anjos e anjas. – concluía o Chico

O reverendo exasperou e exaltou-se e como sabia que o Chico andava sempre a meter conversa e feito de amores com a indiana retorquiu:

- Foi ela, a bugra que te meteu isso na cabeça, não foi?

- Foi sim senhor, mas ela não se chama Bugra. O seu nome é Jurema…

O reverendo virou-lhe as costas resmungando: “Pedaço de asno e grande paspalho. Para além de tolo és ignorante!... E concluiu: - Nem sequer sabe que bugra significa herética.”

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UM QUARTO PARA O MEIO-DIA

Terça-feira, 27.09.16

O Dr. Valadão Júnior era um dos mais ilustres e conceituados advogados da cidade de Angra e da ilha Terceira. Além disso distinguira-se como político e intelectual tendo exercido entre outras funções, as de secretário do governo civil e de governador civil interino do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo. Era estimado e respeitado por todos os angrenses. A sua simplicidade e humildade granjeara-lhe a simpatia de toda a população da ilha Terceira. A sua sabedoria e excelência profissionais haviam-lhe obtido a fama de advogado brilhante, com larga clientela nas comarcas de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória. Além disso ainda mais angariou a admiração e o apreço do povo quando, apesar do seu posicionamento no campo conservador, apoiou a opinião popular a favor da independência secular das irmandades do Divino Espírito Santo contra a vontade da hierarquia da Igreja Católica, liderada pelo então bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, de assumir o seu controlo e de impor regras ao seu funcionamento. Era também conhecido pelo seu ar graçola, com observações imediatas e pertinentes plenas de jocosidade.

Conta-se que certo dia, ao subir a rua da Sé, na direção do Alto das Covas foi literalmente abalroado por um polícia fardado que descia a rua, em sentido contrário. Ao aperceber-se da incauta atitude do agente da autoridade, reprendeu-o, dizendo-lhe:

- Ó senhor guarda, tenha mais cuidado. Então anda na rua a estorvar nas pessoas…

O polícia, muito aflito, desfazendo-se em desculpas esclareceu:

- Senhor Doutor… É que eu ia a correr atrás de um miúdo que me insultou…

- Então, o que lhe disse o miúdo, que tanto o faz correr?

- Senhor Doutor… Eu estava ali parado em frente à Sé. O garoto aproximou-se e perguntou-me as horas. Eu disse-lhe que tinha ali um relógio, que olhasse e visse. Mas ele disse-me que não sabia ler as horas. – Fez uma pausa e continuou. – Então eu disse-lhe que faltava um quarto para o meio-dia… E sabe o que ele me disse, Senhor Doutor?

- Não, homem. Claro que não sei. Diga lá o que lhe disse o garoto.

- Ele disse-me, com licença da palavra, que ia cagar e que quando fosse meio-dia eu ia comer… Está a ver, Senhor Doutor…

O Doutor Valadão levantou o braço esquerdo, olhou o relógio de pulso e com a maior calma do mundo, retorquiu:

- Ó senhor Guarda pode ir mais devagar… É que ainda faltam dez minutos.

 

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FREI COMILÃO

Segunda-feira, 26.09.16

Conta-se que antigamente vivia na ilha das Flores um frade que percorria toda ilha, saltando de freguesia para freguesia, de lugar para lugar, com a denodada intenção de pregar a palavra de Deus e rezar pelos fiéis da localidade em que se encontrava, fosse ela uma das vilas ou um pequeno e esconso lugarejo. Mas o frade pelos vistos era um grande comilão e andava sempre esfomeado, pelo que estava sempre muito mais disposto a comer do que para rezar ou pregar. Ao dirigir-se a uma localidade qualquer que ela fosse prometia que havia de rezar por todos em troca de comida, mas esta havia de lhe ser dada antes da reza e da prédica. Mas tanto comia em casa de uns e outros que chegando ao fim do dia já pouco tempo e força de vontade tinha para a reza e, muito menos dispunha de disposição pata fazer as pregações. O povo, sentindo-se ludibriado, chamava-lhe Frei Comilão.

Quando o bispo ou alguém a seu mandato visitava a ilha ou quando os ouvidores das vilas o encontravam era repreendido por aquele e por estes mas não se emendava, o trapaceiro, apenas retorquia:

 — Muito comer, pouco rezar e nunca pecar leva a alma a bom lugar.

Um dia chegou à Fajã Grande, que nesses tempos era ainda uma pequena localidade, e os habitantes, conhecendo os hábitos do frade, propositadamente, resolveram matar uma vaca e preparar um grande jantar, mas, para castigar o frade, não o convidaram nem lhe disseram nada. Haviam mesmo de o impedir de lá ir.

 Este porém, que para coisas de tal espécie devia ter um sexto sentido, percebeu a astúcia dos seus irmãos na fé e, antecipando-se, apresentou-se no local onde estavam a assar o boi, sem que ninguém o visse. Quando o povo chegou para a comezaina, ficaram todos muito desapontados! É que o frade a saborear um belo e apetitoso bofe assado, com um apetito devorador, elogiava o povo e agradecia-lhe aquela generosa atitude, pois fazia de conta que cuidava que faziam aquilo para lhe agradecer as suas rezas e pregações. Então subindo a um púlpito, por ele improvisado, já de barriga bem cheia, repetia com a calma habitual:

 — Muito comer, pouco rezar e nunca pecar, leva a alma a bom lugar.

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OS TRÊS FIGOS

Quarta-feira, 10.08.16

Conta-se que certa vez um homem da Fajãzinha teve que se ausentar para Santa Cruz. Nesses tempos estas viagens faziam-se subindo a rocha da Figueira e atravessando os matos. Ao passar à Cova da Pedra viu uma mulher ao longe que lhe acenou:

“Que me quererá ela?” - pensou o homem, encaminhando-se na sua direção.

Quando chegou junto da mulher ela tinha um pano estendido com uma grande quantidade de figos passados em cima e disse-lhe para tirar quantos quisesse.

O homem tirou apenas três fgos, mas desconfiado meteu um no bolso e deu os outros dois ao cão que, de imediato, os comeu. Depois retomou o seu caminho. Ao descer a Ventosa lembrou-se dos figos e meteu as mãos aos bolsos, mas não encontrou o figo que ali guardara. Porém, no seu lugar tinha uma libra em ouro.

Muito arrependido por ter tirado apenas três figos, imediatamente, pôs-se a correr, voltando ao local onde encontrara a mulher, a fim de tirar mais figos. Muitos figos. Mas, para grande tristeza e desespero seu, a mulher já lá não estava. Furioso, o homem matou o cão, a fim de lhe tirar do estômago os figos que ele comera e que supostamente também se haviam transformado em libras de ouro. Mas nada encontrou no ventre do pobre animal que estrebuchava com dores, acabando por morrer. Meteu a mão ao bolso para agarrar a única libra que cuidava ter, mas nada mais encontrou no bolso do que um figo já apodrecido e mal cheiroso.

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A GAMELA

Sábado, 11.06.16

Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com as pernas trémulas que já nem conseguia andar. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher, derramando a comida sobre a roupa e pelo chão. Transudava sopa na toalha e, quando, afinal, acertava com a colher na boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos. Metia dó.

O filho e a nora com quem vivia achavam que aquilo era uma porcaria e ficavam com nojo e com vergonha quando o velho comia diante de alguém. Enraivecidos, obrigaram-no a fazer as refeições fora da mesa onde comiam, colocando-o num canto da cozinha, levando-lhe a comida numa tigela de barro. Além disso davam-lhe pouca comida, alegando que assim ele espalhava menos. O pobre do velho lá do canto, bem olhava para a mesa cheia e abundante, como que a implorar mais comida, com os olhos cheios de lágrimas. Mas eles não se comoviam e assim continuaram, até que um dia, as mãos do velho tremeram tanto, tanto que ele deixou a tigela cair no chão, desfazendo-a em cacos. O filho e a nora ralharam muito com ele e, no dia seguinte, foram a uma feira comprar uma gamela de madeira muito pobre e barata, destinada a porcos, onde, a partir de então, colocavam a comida para que o velho comesse.

O casal tinha um filho, ainda criança que observava e via tudo com atenção.

Certo dia os pais do menino reparam que ele se entretinha a construir, às escondidas deles, um objeto de madeira muito estranho. Admirados perguntaram-lhe o que estava fazendo, se estava brincando com aqueles toscos pedaços de pau

O menino respondeu:

- Estou fazendo uma gamela, para que um dia, quando eu crescer o pai e a mãe comam nela.

O marido e a mulher compreenderam. Olharam-se um ao outro em silêncio durante algum tempo e começaram a chorar. De imediato foram chamar o velho e, a partir de então passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho, por vezes, deixava cair comida da boca, não o repreendiam nem diziam o que quer que fosse, antes o ajudavam com muito carinho, respeito e amor.

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SOPRO ROUFENHO

Sexta-feira, 12.02.16

Acossado pela forte ventania, o enorme portão de madeira carcomida baqueava como se tivesse o diabo no corpo. Era o fim do dia e noite avançava escura, tristonha e ameaçadora. Sobre a montanha, nuvens muito bem desenhadas e definidas, misturadas com o vento de sudoeste, anunciavam que a calma e a tranquilidade dos dias anteriores tinham o seu fim.

Um vulto vestido de negro, veloz e destemido, aproximou-se do portão, prendeu-o com grossas correntes – não fosse o diabo do vento acabar por dar cabo dele – e subiu a escadaria que separava o portão da porta da sala, num ápice.

A sala era enorme, esconsa e enigmática. Das paredes pendiam quadros de vultos antigos. Homens de rosto tristonho, dominado por grandes bigodes, tez negra e alguns aureolados por uma enorme e desalmada calvície. Sobre as cómodas pagelas de santos, imagens, oratórios e vasos de flores murchas. O piso era assoalhado e nas janelas encastoavam-se vidros toscos. Num dos cantos uma estante repleta de velhos calhamaços e, ao lado, um sofá. Pendurado sobre este, na parede, um quadro com uma foto de bebé. Ao lado da sala havia um quarto com piso de tacos, pequeno mas muito iluminado. A dividir um enorme corredor e do outro lado três quartos enormes mobilados com camas antiquíssimas. Todos os quartos, para além das camas tinham penteadeiras, guardas roupas e uma ou duas cadeiras. Na extremidade do corredor, oposta à cozinha, havia uma outra sala com um sofá e duas poltronas e que seria a sala de visitas. Saindo do último quarto e virando para a esquerda situava-se a cozinha, enorme, esconsa e vetusta. Num cantinho ficava o fogão, noutro a pia e a geladeira. No centro uma mesa de dois metros, ladeada por imponentes cadeiras. O piso da cozinha era um azulejo todo quadriculado, desenhado de cor vinho alternado com um amarelo clarinho. Logo à frente, a casa de banho, o único lugar onde era tudo novo, pois tinha sido construído recentemente a substituir uma antiga nitreira que existia junto da casa. A cozinha tinha uma varanda com uma porta toda ela envidraçada. Da varanda descia uma escadinha que dava acesso a um quintal, ao fundo do qual ficava a lavandaria muito abandonada e sem uso.

Foi nesta casa que o vulto vestido de negro entrou. Divorciara-se no dia anterior. A casa, agora abandonada, pertencera outrora aos avós e mais tarde a uma tia que fizera as obras da casa de banho mas que, pouco tempo depois, emigrara para a América.

Ali nada mais existia do que o sopro roufenho do vento.

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SOPRO ROUFENHO

Sexta-feira, 12.02.16

Acossado pela forte ventania, o enorme portão de madeira carcomida baqueava como se tivesse o diabo no corpo. Era o fim do dia e noite avançava escura, tristonha e ameaçadora. Sobre a montanha, nuvens muito bem desenhadas e definidas, misturadas com o vento de sudoeste, anunciavam que a calma e a tranquilidade dos dias anteriores tinham o seu fim.

Um vulto vestido de negro, veloz e destemido, aproximou-se do portão, prendeu-o com grossas correntes – não fosse o diabo do vento acabar por dar cabo dele – e subiu a escadaria que separava o portão da porta da sala, num ápice.

A sala era enorme, esconsa e enigmática. Das paredes pendiam quadros de vultos antigos. Homens de rosto tristonho, dominado por grandes bigodes, tez negra e alguns aureolados por uma enorme e desalmada calvície. Sobre as cómodas pagelas de santos, imagens, oratórios e vasos de flores murchas. O piso era assoalhado e nas janelas encastoavam-se vidros toscos. Num dos cantos uma estante repleta de velhos calhamaços e, ao lado, um sofá. Pendurado sobre este, na parede, um quadro com uma foto de bebé. Ao lado da sala havia um quarto com piso de tacos, pequeno mas muito iluminado. A dividir um enorme corredor e do outro lado três quartos enormes mobilados com camas antiquíssimas. Todos os quartos, para além das camas tinham penteadeiras, guardas roupas e uma ou duas cadeiras. Na extremidade do corredor, oposta à cozinha, havia uma outra sala com um sofá e duas poltronas e que seria a sala de visitas. Saindo do último quarto e virando para a esquerda situava-se a cozinha, enorme, esconsa e vetusta. Num cantinho ficava o fogão, noutro a pia e a geladeira. No centro uma mesa de dois metros, ladeada por imponentes cadeiras. O piso da cozinha era um azulejo todo quadriculado, desenhado de cor vinho alternado com um amarelo clarinho. Logo à frente, a casa de banho, o único lugar onde era tudo novo, pois tinha sido construído recentemente a substituir uma antiga nitreira que existia junto da casa. A cozinha tinha uma varanda com uma porta toda ela envidraçada. Da varanda descia uma escadinha que dava acesso a um quintal, ao fundo do qual ficava a lavandaria muito abandonada e sem uso.

Foi nesta casa que o vulto vestido de negro entrou. Divorciara-se no dia anterior. A casa, agora abandonada, pertencera outrora aos avós e mais tarde a uma tia que fizera as obras da casa de banho mas que, pouco tempo depois, emigrara para a América.

Ali nada mais existia do que o sopro roufenho do vento.

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A VIÚVA E O ENFORCADO

Sábado, 09.01.16

Era uma vez uma mulher considerada muito honesta. Quando o marido faleceu, fez por ele os maiores prantos que alguma vez se ouviram, chorou tanto de dor como nunca nenhuma viúva chorara e, não se contentando com as cerimónias fúnebres comuns que as outras viúvas mandavam celebrar nos funerais dos maridos, mandou fazer cerimónias solenes presididas pelo bispo, mandado vir da sede da diocese. Como era costume nesse tempo, o marido foi enterrado no adro da igreja da freguesia onde viviam e a mulher, cheia de dor, ali ficou a chorar, dia e noite, junto à sepultura do marido sem querer comer, nem afastar-se daquele lugar.

Aconteceu, por aqueles dias, terem ali perto enforcado um facínora, criminoso, para guarda do cadáver do qual, o juiz mandou colocar ali de sentinela, um soldado. Este ao ver a mulher muito chorosa e sem comer, junto da sepultura do marido, compadecido da sua grande mágoa, ofereceu-lhe a sua ceia e obrigou-a a que comesse, para não morrer à míngua. De seguida, persuadiu-a também a que se envolvesse num ato amoroso com ele. Esconderam-se entre umas árvores e o soldado descuidou-se da sua obrigação de vigiar o corpo do condenado. Vieram então os parentes deste e furtaram-no. Vindo depois o soldado, e não o encontrando, temendo um pesado castigo, veio lamentar-se junto da viúva, a qual o consolou e lhe resolveu o problema, tirando o corpo de seu marido defunto da sepultura, pelo qual havia feito tantos prantos e chorara com tanta dor, e deu-o ao soldado que assim o pôs na forca no lugar do facínora que havia sido condenado por vários e graves crimes praticados.

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A TARTARUGA

Sexta-feira, 09.10.15

Conta-se que há muitos, muitos anos, numa determinada terra vivia um pescador pobre e humilde. Certo dia, como sempre, partiu para o mar no seu pequeno barco e lançou a rede. Algum tempo depois, sentindo-a muito pesada, cuidou que já a teria cheia de peixe. Decidiu então recolheu-a e, qual não foi o seu espanto ao ver que não trazia peixe, mas embrulhada nela vinha uma enorme tartaruga. Vendo-a muito aflita o pescador teve pena dela, até porque de pouco lhe serviria e salvou-a, desembrulhando-a da rede e deitando-a, de novo, para o mar. A tartaruga ficou muito comovida com a atitude e quis recompensa-lo. Para isso virou-lhe o barco fazendo com que o pescador caísse ao mar. O pescador, não conseguindo regressar para dentro do barco, encavalitou-se sobre o casco da tartaruga e esta levou-o consigo para um reino maravilhoso, existente no fundo do mar. O pescador ficou ali durante algum tempo.

Embora vivesse muito feliz naquele reino, o pescador começou a sentir saudades de sua terra natal e, sobretudo, da sua família e dos seus parentes e amigos. Pediu, então à tartaruga que o deixasse voltar para terra. A tartaruga anuiu o seu pedido, mas quando ele partiu deu-lhe uma arca forrada de ouro, como presente, com a recomendação de que só a abrisse num momento em que se sentisse muito aflito.

O pescador partiu carregando a arca mas, ao chegar à terra onde vivera, não a reconheceu e, pior do que isso, não encontrou nenhum dos seus familiares ou amigos, uma vez que todos estes já tinham morrido e ainda soube que há centenas de anos, naquela terra, tinha desaparecido, no mar, um pescador com o nome precisamente igual ao seu.

Muito triste e desolado o pescador foi sentar-se sobre um rochedo, à beira do mar, na esperança de reencontrar a tartaruga, mas desesperou-se porque esta demorava em aparecer. Começou, então, a sentir uma aflição enorme. Nesse momento abriu a arca que a tartaruga lhe oferecera. Ao fazê-lo, todos os anos começaram a passar para ele que depressa envelheceu e morreu.

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A PEREIRA

Quarta-feira, 07.10.15

O Rodrigo, chegado à Califórnia há poucos dias e hospedado em casa dos tios Barbosa, indignava-se, veementemente, com os telefonemas diários e contínuos que fazia a tia Bárbara, a dona da casa. A cada hora, a cada momento, pegava no telefone e chamava a Pereira. Depois lá continuava num inglês muito revezado:

- Give me naine, sikse, tree, naine, for, ou, for…

E logo a seguir lá vinha a enxurrada:

-  À melhé , comé que are you? Yesterdei cóllade mi a Maria do Gervásio to say caquele sana babicha do Jose do Oiteiro, bote a niu automóvele. Bat hi gaba-se que it is tope of gama. Shua que hi is um vain da merda. Tere are pouco mais the tu days reached here and already tote que tem mundos e fundos. To me it small a esturro. May be the brother in law who gave him the moni… E o tei home, comé que vai? You já foste a Sana Cruz? Its a tauzinho bem pequenino….

O Rodrigo pasmava! Pouco falava inglês mas dava para perceber que aquilo nem chinês era. Mas o que mais o intrigava era a Pereira. Quem seria aquela Pereira com quem a tia Bárbara tanto conversava. Talvez a Irene Pereira, casada com o Inácio Tadeu que tinha vindo há uns anos para a América e morava em Vallejo, ou a filha do António Pereira, radicada em San José… Talvez uma amiga de outra freguesia das Flores ou de outra ilha açoriana…

Certo dia em que o visitaram os primos Silveira, não se contendo, perguntou ao Gonçalo:

- Sabes quem é aquela senhora Pereira, com quem a tia Bárbara tanto conversa todos os dias.

O Gonçalo, dando uma enorme gargalhada, explicou:

- Não é nenhuma mulher com esse nome. A Pereira que ela chama é a operare ou seja a telefonista a quem ela pede o número do telefone da pessoa com quem quer falar…

 

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PROVA DE AMOR

Quinta-feira, 20.08.15

Conta-se que há muito, muito tempo, numa determinada terra vivia um rapaz belo e jovem que se apaixonou por uma rapariga, também ela muito jovem e de grande beleza. Sentindo que estavam apaixonados um pelo outro, o rapaz decidiu ir pedir a menina, ao pai, em casamento.

O pai cuidando que ainda eram muito jovens, de que ele não teria meios para a sustentar a mulher e aos filhos que viessem a ter e que tudo entre eles poderia ser uma ilusão, perguntou ao moço:

- Que provas podes dar para te poderes casar com a minha filha?

- A única prova é a do nosso amor um pelo outro! - Respondeu o jovem.

O pai da menina apesar de gostar da resposta, cuidou que não chegava. O amor é efémero. Hoje podiam amar-se e amanhã odiarem-se. O amor implica sacrifícios, limitações, por vezes até desavenças e conflitos. Por isso perguntou-lhe:

- Quantos dias serás capaz de ficar em jejum para conseguires que te autorize a casar com a minha filha.

- Sete, - respondeu o jovem sem pensar. – Ficarei sete dias sem comer nem beber, a não ser água, se essa for a sua vontade e se isso for o que exige de mim.

Quando a notícia se espalhou toda a gente ficou admirada e louvou a coragem do jovem e o enorme sacrifício de que ele seria capaz de fazer para casar com a jovem. Já mais se vira tão grande paixão.

O pai da rapariga ordenou, então, que se desse início à prova. Colocaram o rapaz num velho casebre e alguns homens ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado por quem quer que fosse Apenas água lhe era servida.

A rapariga, também apaixonada de verdade, temendo que o rapaz poderia morrer, chorava e implorava ao pai que terminasse aquela loucura, aquela prova terrível e desumana. Mas o pai não lhe dava ouvidos. O tempo foi passando e certa manhã, a filha pediu ao pai:

- Já se passaram quatro dias, meu pai. Não o deixe morrer.

O pai não aceitou os seus rogos e pedidos e esperaram até ao último dia. Todos ficaram tolhidos de espanto, porque quando abriram a porta do velho casebre o rapaz estava são e saudável como se tivesse sido muito bem alimentado durante todos aqueles dias. Todos ficaram muito contentes, mas quem mais se alegrou foi a jovem por quem o rapaz estava apaixonado e por quem fizera tão grande sacrifício.

Passado algum tempo casaram e consta que viveram muito felizes. Mas apenas e só os dois souberam quem era a velhinha que todas as noites, ludibriando os homens que estavam de vigia ao casebre levava uma bela cestinha cheia de víveres para alimentar o rapaz.

Em todas as histórias em que há jovens apaixonados deveria haver sempre uma velhinha misteriosa.

 

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A FERRADURA

Segunda-feira, 10.08.15

Era uma vez um rapaz muito preguiçoso e pouco obediente aos pais.

Certo dia o pai precisou de ir à vila e decidiu levar rapaz consigo. A viagem era longa e cansativa. Não tinham dinheiro e nada levaram para comer. Ainda nem haviam chegado a meio do caminho e o rapaz começou a lamentar-se porque, para além de cansado, morria de fome. O pai que caminhava, indiferente às lamentações e queixumes do filho, a determinada altura viu uma ferradura no chão. Parou, voltou-se para o filho e pediu-lhe que a juntasse:

- Era o que faltava, - respondeu o mandrião com altivez, - baixar-me e juntar uma porcaria duma ferradura velha, cheia de ferrugem e que já não presta para nada.

O pai não respondeu. Baixando-se, juntou a ferradura e meteu-a no bolso, enquanto o rapaz continuava a lamentar a fome que sentia, arrependendo-se de acompanhar o pai em tão cansativa caminhada.

Finalmente chegaram à vila. O pai dirigiu-se a um ferreiro que na sua forja transformava o ferro velho em belas peças de metal, e vendeu-lhe a ferradura. Com o dinheiro foi a uma padaria comprar um enorme pão. De seguida, partiu-o em grossas fatias que foi deixando cair no chão, de maneira que não se sujassem. O rapaz, morto de fome, a cada fatia que o pai deitava ao chão, baixava-se logo para a apanhar, comendo-a sofregamente. Já saciado, interrogou o pai:

- Por que fez isto, meu pai? Porque não me deu as fatias para a mão em vez de as deixar cair no chão?

O pai retorquiu:

- Se me tivesses obedecido e se tivesses baixado para apanhar a ferradura não terias que te ter curvado tantas vezes para apanhar o pão de que tanto necessitavas.

O rapaz compreendeu a lição e, a parir daquele dia, tornou-se mais obediente e trabalhador.

 

NB - Inspirado no conto “São Pedro e a Ferradura”, in Contos Populares e Lendas, J. Leite de Vasconcelos.

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INOCENTE E CULPADO

Segunda-feira, 03.08.15

Conta-se que há muitos, muitos anos, um homem bom, honesto e muito crente em Deus foi injustamente acusado de ter assassinado uma mulher. O homem foi levado à presença do juiz, a fim de ser julgado, temendo os familiares e amigos que fosse condenado à forca. O homem, no entanto, apesar de saber que tudo iria ser feito para que fosse condenado em vez do verdadeiro homicida, homem muito rico e poderoso e amigo do juiz, mantinha uma calma e uma tranquilidade muito grandes.

O juiz sabia muito bem que o homem estava inocente, mas querendo encobrir o verdadeiro culpado, preparou-se para a sentença que havia de levar o pobre homem à morte na forca, simulando um julgamento justo.

Assim e durante o julgamento, o malévolo juiz fez uma proposta ao acusado, pedindo-lhe que provasse sua inocência.

O homem tomando a palavra, com uma serenidade que impressionou todos os presentes disse:

- Meritíssimo juiz: eu sou um homem pobre e simples mas crente e temente a Deus e, por isso vou entregar a minha sorte nas mãos do meu Criador. Se o meritíssimo juiz assim me autorizar vou escrever num pedaço de papel a palavra inocente e noutro pedaço a palavra culpado. Vossa excelência sorteará um dos papéis e aquele que sair será o veredicto.

- Deus decidirá o teu destino. - Determinou o juiz. – Mas serei eu a escrever os papéis.

O juiz preparou os dois papéis, mas em ambos escreveu a mesma palavra, culpado e dobrou-os muito bem, a fim de esconder o que neles estava escrito. Assim não existia nenhuma possibilidade do acusado não ser condenado, livrando-se da forca. Estava decididamente declarado culpado e condenado.

O juiz levantou-se, aproximou-se do réu, colocou os dois papéis sobre uma mesa e ordenou-lhe que escolhesse um. O pobre homem ficou pensativo durante alguns segundos e, de seguida, aproximou-se confiante da mesa. Com grande tranquilidade pegou um dos papéis e rapidamente o colocou na boca, engolindo-o. Os presentes reagiram surpresos e indignados.

- O que fizeste?! – Exclamou o juiz - E agora? Como vamos saber qual o teu veredicto?

- É muito simples, senhor doutor juiz, - respondeu o homem. - Basta abrir o outro pedaço. Saberemos assim que eu engoli o contrário.

Consta que o juiz declarou, imediatamente o homem inocente.

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O POTE RACHADO

Domingo, 14.06.15

Conta-se que uma humilde e bondosa velhinha possuía dois potes. Todos os dias, saía de casa com eles suspensos, um em cada um das extremidades de uma vara que ela carregava, de palanca, às costas. Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito e são. A velha dirigia-se a uma fonte e enchia-os de água. De seguida caminhava na direção da sua casa, onde chegava, ao fim de uma longa caminhada, com o vaso são sempre cheio de água enquanto o rachado chegava apenas meio, uma vez que derramava muita água durante a caminhada.

Naturalmente que o vaso perfeito andava muito orgulhoso, ufanando-se do seu poder e de ser capaz de ajudar a sua dona, enquanto o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir trazer apenas metade da água que deveria trazer.

Certo dia, depois de durante dois anos, refletir sobre a sua própria amarga derrota, o vaso rachado, enchendo-se de coragem, disse à sua dona:

- Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até a sua casa... Por isso ando muito triste e desgostoso.

A velhinha sorrindo, respondeu:

 - Já reparaste nas lindas flores que nascem somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de algumas flores na beira do caminho do teu lado e todos os dias, quando regressávamos da fonte, eras tu que, derramando a água, as regavas. Durante dois anos apanhei as flores que ali nasciam para enfeitar a minha casa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa.

O vaso rachado encheu-se de alegria. Só então percebeu que mesmo as nossas mais estranhas limitações e os nossos maiores defeitos podem sempre transformar-se al algo de muito útil e proveitoso para os outros.

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O CEVADA

Domingo, 17.05.15

Antigamente, na Fajã Grande, poucos eram os que escapavam â fúria agressiva de serem contemplado com um apelido. Pôr um apelido em alguém, antes que mais, tinha como objetivo primordial humilhar, espezinhar e apoucar, pelo que, a maioria das vezes eram resultantes de uma inveja gritante. Além disso era uma bizarra forma de gozo ou divertimento. Por isso, punha-se um apelido a este e àquele por tudo e por nada. Por coisa nenhuma. A maioria das vezes herdavam-se os apelidos de pais e avós. Foi o meu caso. Herdei “Chinelo” de meu pai, simplesmente porque ele, antes de adoecer, andava sempre descalço. Certo dia, à tardinha, após lavar os pés antes de se deitar, resolveu vir sentar-se à Praça. Com objetivo de não os sujar, a fim de não ter que os lavar outra vez, apresentou-se à Praça, areópago fajãgrandense da crítica, do mexerico e da má-língua, calçando uns chinelos velhos que eram pertença da minha avó Maria de Jesus. Foi tiro e queda! Para além de gozado e apoucado, ficou logo alcunhado pelo “Chinelo”, epíteto de que os descendentes haviam de herdar. Mas não fiquei por aqui em termos de herança de apelidos. Também fui presenteado com o de “Cevada”, este por herança materna, pois fora atribuído a meu avô, José Batelameiro, um depurativo de Bartolomeu, uma vez que o avô dele e meu trisavô se chamava Bartolomeu Lourenço Fagundes, que por sua vez era neto de um outro Bartolomeu com o mesmo nome tenente de um dos fortes que existiam na Fajã Grande naquela altura

Sempre me intrigou a razão de ser deste estranho apelido, até porque o cultivo da cevada na Fajã Grande era quase nulo. Apenas se comprava cevada já moída para juntar ao café, à chicória ou até às favas.  Minhas tias, ou por ignorarem ou por vergonham, também não desvendavam o mistério. Só mais tarde descobri o enigma. Meu avô, como a maioria dos jovens da freguesia, quando jovem emigrara para a Califórnia, trabalhando por aqui e por acolá. Às tantas foi apanhado com um saco de cevada às costas. Nada de anormal se a cevada não fosse roubada. Mas a verdade é que, pelos vistos, não teria sido ele a roubar a dita cuja e nem sequer sabia que era roubada. O roubo era da responsabilidade do “bossa” para quem ele trabalhava. A prová-lo é o facto de ele nunca ter sido preso, nem sequer julgado. Mas lá que ficou com apelido, ficou e eu herdei-o necessariamente.

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AS POUPANÇAS DO MATIAS

Sábado, 16.05.15

Conta-se que, antigamente, numa determinada freguesia do Pico, havia um fulano chamado Matias. Como trabalhava longe e, naquele tempo, faziam-se todas as deslocações ao redor da ilha pé, Matias vinha a casa apenas de oito em oito dias, pernoitando, durante a semana, no local de trabalho, aproveitando as noites para algumas aventuras e florestias, pouco recomendadas a um pai de família.

Ao regressar a casa, a mulher, ao apreciar meticulosamente aquilo que cuidava ser de seu uso exclusivo, achando-o em degradadas condições para quem se devia ter poupado e descansado uma semana, reclamava aos quatro ventos:

Matias, Matias! Isto não são poupanças de oito dias.

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A COBRA

Quarta-feira, 25.03.15

Conta-se que numa certa aldeia de Portugal, uma rapariga foi beber água num ribeiro. Ao beber a água engoliu, sem se aperceber, uma cobra pequenina. A cobra permaneceu viva no estômago da rapariga e, à medida que foi crescendo, a barriga da rapariga ia aumentando.

O pai, ao notar que a barriga da filha aumentava, cuidou que ela estava grávida. Furioso decidiu levar a rapariga para um monte, onde a abandonou, a fim de que as feras a devorassem. Muito triste e assustada, cuidando que ia morrer, a rapariga rezou a Nossa Senhora, pedindo-lhe que a ajudasse e a livrasse da morte. A Virgem Maria ouviu as suas preces e apareceu-lhe, ordenando-lhe:

- Vai para casa e diz a teu pai que ponha uma caldeira com leite a ferver ao lume e que te debruce sobre o leite a ferver e o que tens dentro de ti, sairá.

A rapariga regressou a casa e o pai, acreditando nela, fez o que Nossa Senhora lhe tinha dito. Ao debruçar-se sobre o caldeirão com o leite a cobra saiu-lhe e saltou para dentro do leite.

Acrescenta a estória que o pai em agradecimento a Nossa Senhora mandou construir uma capela no local onde a Virgem apareceu à menina.

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O DECEPADO

Quinta-feira, 12.03.15

Conta-se que D. Garcia, Governador do Castelo da Penha Garcia, raptou, numa certa noite de tempestade, Dona Branca, figura de grande beleza, filha do Governador de Monsanto. Este ficou furioso e perseguiu D. Garcia durante meses, até que o apanhou. A justiça impunha para estes casos de rapto de donzelas a pena de morte. Mas o Governador de Monsanto condoído por causa da filha decidiu punir publicamente D. Garcia, tendo substituído a pena capital pela amputação do braço esquerdo. Segundo reza a lenda a figura do decepado, continua ainda, no alto das torres, vigiando e olhando o morro sobranceiro de Monsanto.

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A CORDA

Sexta-feira, 23.01.15

Conta-se que na igreja duma pequena aldeia, certo dia, estava um padre a pregar um sermão. Dirigindo-se, emotivamente, aos fiéis, para que estes tivessem consciência dos pecados que haviam cometido e deles se arrependessem, através da confissão, a fim de obterem o perdão de Deus, a dada altura, entre outras, proferiu a seguinte exortação:

- Acorda, pecador!

Entre os fiéis que enchiam o templo, havia um velhote que se confessara uns dias antes. No entanto, durante o sermão dormitava. Despertando do sono, precisamente, na altura em que o padre proferiu aquela frase, logo exclamou em voz alta e para espanto de todos os presentes:

- A corda? Já a fui entregar ao dono, Senhor Padre!

Consta que, tendo-se confessado uns dias antes, o velhote, entre os pecados enumerados, terá referido o de ter roubado uma corda a um agricultor seu vizinho. No entanto, antes de lhe dar a absolvição, o confessor tê-lo-á aconselhado a devolver ao dono a corda que roubara.

 

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A GALINHA ESTOUVADA

Terça-feira, 20.01.15

Era ma vez uma galinha que, apesar de parva como são todas as galinhas, diferenciava-se de todas as outras por ser muito estouvada. Saltava da cerca com facilidade, pulava para os currais dos vizinhos, depenicava as sementeiras e punha os ovos onde bem queria e entendia. Numa palavra, nunca parava em ramo verde. Pior do que isso, para além de comer os seus ovos ainda depenicava e dava cabo dos das companheiras.

Certo dia, a dona farta de tanta leviandade e tanta estroinice que punha, permanentemente, o galinheiro em alvoroço que até parecia contagiar as outras galinhas, até então sempre mansas e submissas, resolveu enterrar, no meio do curral, uma estaca a que prendeu uma corrente com um suevo a meio, à qual amarrou a galinha por um dos pés. Assim o mundo da galinha, outrora tão grande e amplo ficou reduzido a um pequeno círculo onde ela, mesmo esticando o pé, podia chegar Ali, permaneceu dia e noite, meses a fio, cacarejando, ciscando, comendo, dormindo e pondo os ovos. De tanto andar, de tanto ciscar, de tanto depenicar formou-se, ao redor da estaca um círculo perfeito e muito bem delineado.

Passado algum tempo, a dona, cuidando que a galinha já se tinha emendado das suas estroinices e estravagâncias resolveu soltá-la, deixando-a livre. Reparou, então, que ela, apesar de solta, não saía do círculo que ela própria havia desenhado durante o seu cativeiro. Só circulava dentro do seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora mas não tinha coragem suficiente para se aventurar a ir até lá. E assim foi até ao fim dos seus dias.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:37

SALTO NA BURRA

Segunda-feira, 12.01.15

Meus irmãos mais velhos, dedicadíssimos às atividades agrícola e pecuária que não apenas lhe garantiam a subsistência como também lhe permitiam amealhar alguns troquitos, em determinada altura, decidiram comprar uma burra. Era uma enorme mais-valia para os seus carregos e tarefas. A bicha aliviava-lhes as cargas e ainda a montavam nas suas idas e vindas para os campos mais distantes do Pocestinho e dos Lavadouros. A burra era forte, mansa e afeiçoara-se a eles, cumprindo ordens e adquirindo hábitos que só eles conheciam.

No verão seguinte, ao regressar de férias, fascinou-me a burra. E num dos primeiros dias decidi-me por um passeio a cavalo. Pretendia iniciar-me numa inédita aventura de cavalgar no lombo da jumenta. Mas a famigerada era teimosa que nem um burro e sonsa como um touro. Além disso, tinha hábitos que eu desconhecia.

Soltei-a do palheiro, trouxe-a para o caminho e tentei saltar. Impossível! A burra era muito alta e eu de perna curta. Mudei de plano. Aproximei o estafermo de um muro que havia em frente da minha casa. Eu a puxar para a frente ela para trás. Quando a consegui aproximar do muro, coloquei-me em cima dele e zás. Atirei-me de rompante para o dorso do animal. O que havia de passar pela cabeça da maldita, enquanto eu jimpava pelos ares, para me encavalitar? Aproximar-se do muro, como, pelos vistos, era seu hábito. Só que eu, como já impulsionara o corpo com a força que julgava necessária para atingir-lhe o lombo, fui estatelar-me quase inconsciente, do outro lado, sobre o pedregulho da calçada.

E enterraram-se ali os meus sonhos de cavalgar toda a sela.

 

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A TERRA DO SOL POENTE

Segunda-feira, 03.11.14

Era uma vez uma terra, uma freguesia se quisermos ser mais precisos, que em tempos idos, apesar de pobre, todos os dias se enchia de Sol, de pessoas e de felicidade. Os seus moradores trabalhavam muito, sachavam, mondavam, cortavam, cavavam e lavravam os campos e tudo crescia, florescia, amadurecia e surgiam belas colheitas, pese embora, por vezes, ventos, tempestades e salmouras as tentassem destruir, pois aquela terra ficava perto do mar e era assolada, frequentemente, por fortes ventanias vindas do norte. Naquela terra, apesar de pobre, humilde e muito sacrificado, o povo vivia em paz, amor e felicidade. O Sol acordava todas as manhãs, surgindo, destemido, lá por detrás dos matos e só se ocultava à tardinha, quando amarelado e fulvo parecia que era engolido pelo horizonte. E os habitantes daquela terra, todos os dias, à tardinha, sentavam-se às portas das suas casas, postavam-se às janelas, acocoravam-se num descansadouro ou desciam até à beira-mar para ver o pôr-do-sol, na terra do Sol Poente.

Um dia, porém, começaram a chegar nuvens escuras àquela terra. Primeiro uma, depois duas e, finalmente, muitas e ainda mais e mais. E o Sol, que era a vida daquela terra, desapareceu, para nunca mais aparecer e, consequentemente, nunca mais se pôr. Nunca mais houve pôr-do-sol na terra do Sol Poente.

Aos poucos, a escuridão, o desalento e a tristeza invadiram aquela terra. Muitos habitantes partiram para terras distantes. Outros, os mais velhos, partiram para a eternidade.

É verdade que chegaram novos habitantes, mas não perceberam, não entenderam e, sobretudo, nunca foram capazes de compreender, sentir, apreciar e viver a beleza, a simplicidade e grandiosidade daquela terra, simplesmente porque nppunca viram o pôr-do-sol, naquela terra do Sol Poente.

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BOM DIA, SENHOR

Segunda-feira, 27.10.14

O sorites é um tipo de silogismo ou um raciocínio lógico composto por uma série de proposições encadeadas e ligadas entre si de maneira que o predicado de uma se torne o sujeito da seguinte, e assim até se chegar à conclusão, que tem como sujeito o sujeito da primeira e como predicado o predicado da última proposição, imediatamente anterior à conclusão.

Como todos os silogismos, o sorites também pode ser falacioso e induzir-nos em erros gravíssimos, nas conclusões que deles tiramos.

Como exemplo desta enorme possibilidade de erro através do recurso ao sorites, o meu professor de Filosofia, no 6º ano, exemplifica com a seguinte estória:

Um fulano cruzou-se na rua com um desconhecido e saudou-o nestes termos:

- Bom dia, senhor

O desconhecido era filósofo. De imediato, recorrendo ao sorites, raciocinou e concluiu:

- Bom dia, senhor!

Senhor dos Passos,

Passos do concelho

Conselho de ministros,

Ministros da guerra,

Guerra da França,

Da França vêm os meninos.

Os meninos bebem leite,

O leite vem vacas,

As vacas tem cornos.

Este tipo chamou-me corno!

 

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