PICO DA VIGIA 2
Pessoas, costumes, estórias e tradições da Fajã Grande das Flores e outros temas.
POEMAS DA ANTEMANHÃ (IV)
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Quando morrer em nós o último barco da emigração
e a ânsia das Américas perdidas;
quando os nossos olhos deixarem de voltar-se tristes
para o vapor sumindo-se na linha do pego;
quando descobrimos a força que ainda guardam nossos braços
cansados de querer abraçar as estrelas;
quando os dias deixarem de rolar sobre os dias
sem esperança nenhuma para erguer;
quando, enfim, nosso esforço de irmãos fizer brotar
uma outra vida no chão das nossas ilhas
- neste chão que ficou amorosamente esperando
os nossos corpos derrotados na aspereza dos caminhos do retorno –
então, pátria, será nosso o teu destino.
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MEDITAÇÃO SOBRE A ETERNIDADE
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Das árvores que plantei
nenhuma já me pertence
e de quase todas nem comi´
ou sequer vi os frutos.
Sempre soube que devemos morrer
e penso que é melhor
não se saber quando nem como.
E quanto ao que deixámos
não se recorde de quem foi.
Que só assim somos eternos.
P Silveira, Poemas Ausentes.
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VAZIO
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
O dia começou cheio de sol,
agora pegou chuva.
Por trás da sua vidraça,
indiferente, um gato
todo estendido dorme.
Da marcenaria lá em baixo
sobe o som intermitente
de um martelo pregando
um móvel qualquer que o mestre
quer talvez aprontar hoje,
Largo o livro que lia
e de novo olho para a rua
onde não passa ninguém.
Por cima de um muro de quintal
as folhas de uma amoreira
tremem devagar, gotejando,
O martelo já se calou.
O gato começou a espreguiçar-se.
Agora é uma frágil música
talvez de flauta de cana,
como cuada pela chuva
que já está estiando.
Ergo-me da cadeira onde lia
enfio o casaco e caminho
direito à porta da rua.
Até à Praça, ou no café,
hei-de encontrar algum amigo
para a conversa desta tarde.
Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar La
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CANÇÃO MEIO TONTA
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Este quase murmúrio
que se repete, insiste,
esta música antiga,
que tão débil, mal se ouve –
onde a escutei num tempo
que não sei bem se foi?
(E os retratos no álbum,
que ao seu soar sorriem?)
Dir-se-ia que morre
e morrendo revive
o vago som, sem corpo,
da música d’outrora.
(A caixa tem fendida
a tampa onde a pintura
figura uma menina.)
Dói-me esta pobre música.
IV - 1970
P da Silveira, Poemas Ausentes
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SABEDORIA DAS NAÇÕES
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Meu padrinho, e era padre, dizia:
quem se deita com moços pequenos
acorda… (ao modo honesto – truncado).
Mas, lida em Pérez Escrich
e poesia desse estilo,
prima Policeninha
(já lá está coitadinha)
Chamava aquilo
flores tristes.
De cada lado
seu recado.
5-VII
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ROMANCE
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
- Ti Antonho Cristove conte
aquele causo da viagem,,,
Os olhos do velho brilham.
Isso foi há tanto ano,
dantes do “navio do açucre”…
A barca do capitão Fidalgo chego
e os verdes imbarcaro.
A noite era escura e fria
e a ronda andava por perto.
Mar.
Mar para todos os lados.
E as ganhoas piando
dentro do nevoeiro.
A ilha ficou para lá do horizonte
com uma lágrima quente de saudade.
Depois…
Nas horas longas da vigia
Antonho Cristove subiu aos mastros.
Trancou baleias em todos os mares
- nas águas frias do Ártico,
no mar quente do Pacífico.
E lembra aquele raituel
que um dia virou a canoa
e matou um rapaz do Corvo.
(Sangue da baleia,
sangue do marinheiro morto
tingindo o mar.
Lágrimas de marinheiros
juntam-se ao mar.)
Antonho Cristove
tripulante de todos os veleiros
correu todos os oceanos,
conheceu os portos todos,
soube a fúria dos tufões
e as calmarias do Golfo.
… e ficaram marcadas no corpo
raivas de capitães americanos,
de capitães açorianos,
de capitães de Cabo Verde…
A ilha sempre dentro em si
e a esperança de voltar.
Uma fuga em cada porto
e outra barca em que embarcar…
Mulheres de toda-a-gente
nas quatro margens da Terra…
Companheiros de aventura,
há tanto tempo os perdeu:
águas do mar os levaram,
terra da terra os cobriu.
Ti Antonho Cristove conta a sua vida
e os seus olhos descurados
olham ainda p’ra o mar
num jeito de quem navega
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PROBLEMAS
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Dizem que chá de erva-cruz
é bom remédio para as bichas.
Mas para quem rima dor
sempre com puro e excelso amor.
- Que o Mariano d’Arruda
neste transe lhe acuda
e ponha lá estupor.
(Tamanho medo…
- Ai que fedor.
O sol para a chuva,
os canários fritos
e o sumo da uva.
Quando eu me for daqui
quem se lembrará de mim?
Pedro da Silveira, Quatro Dos Poemas de Chá de Margaça. 8 - VIII
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HOMENAGEM A PEDRO DA SILVEIRA
A Câmara Municipal das Lajes das Flores vai homenagear o autor, poeta, investigador histórico e literário, tradutor e etnógrafo fajãgrandense Pedro da Silveira através de um conjunto de atividades, que decorrerão de 14 a 16 de Maio, e que contam com a participação de personalidades que se destacam a nível regional, nacional e internacional pelo papel preponderante que têm na área da literatura.
Os convidados visitam nesta quinta e sexta-feira as Escolas de Santa Cruz e das Lajes, em iniciativas que visam promover o gosto pela leitura, escrita e pela literatura açoriana. Ainda na sexta-feira haverá a apresentação do livro “Marta de Jesus (a verdadeira)” de Álamo de Oliveira e uma tertúlia sobre Pedro da Silveira, Roberto Mesquita e Alfred Lewis que pretende salientar a importância dos vários poetas e escritores da nossa ilha.
O próximo sábado será um dia inteiramente dedicado a Pedro da Silveira, sendo descerrada na Fajã Grande uma placa em sua homenagem e tendo lugar no Museu Municipal a sessão solene onde serão interpretados e musicados poemas de Pedro da Silveira por Nina Soulimant, José Agostinho Serpa e Isabel Mesquita. Será também apresentada uma breve performance de declamação de poemas seus e, para marcar o final deste conjunto de eventos de homenagem, será servido um porto de honra a todos os presentes.
Estas diversas atividades inserem-se nas comemorações dos 500 anos do concelho das Lajes e contam com o patrocínio da SATA, que através do seu apoio permitiu a realização do evento com a presença de tão ilustres convidados.
Recorde-se que Pedro da Silveira foi um dos grandes poetas açorianos do século XX e deixou uma marca cultural profundamente impressiva. Este multifacetado autor fajãgrandense ilustrou a literatura açoriana – que defendeu frontalmente como teórico, historiador e crítico, até contrariando alguns meios intelectuais do Continente – foi também um dos seus mais persistentes e criteriosos divulgadores, tendo-se dedicado ainda a importantes recolhas de literatura oral.
Pedro da Silveira foi autor de várias obras de poesia, entre as quais se contam «A ilha e o Mundo», «Sinais de Oeste», «Corografias», «Poemas ausentes» e «Fui ao mar buscar laranjas», o primeiro volume da sua obra completa. Com uma vasta colaboração dispersa por jornais e revistas nacionais e estrangeiras, Pedro da Silveira foi ainda autor de duas antologias de poetas açorianos, sendo que no prefácio de uma das quais – «Antologia de poesia açoriana – do século XVII a 1975» – ensaia uma tentativa de autonomia da literatura açoriana das restantes literaturas de expressão lusófona.
A sua poesia manteve sempre uma forte ligação ao solo açoriano e de modo muito especial à fajã Grande, não deixando, porém, de dialogar cultural e poeticamente com «as ilhas todas do Mundo». Foi um dos promotores da elaboração da «Enciclopédia açoriana» e preparava uma «História da literatura açoriana» quando faleceu. Integrou, até 1974, o conselho de redação da «Seara Nova», tendo sido até 1992 funcionário da Biblioteca Nacional, da qual foi diretor dos Serviços de Investigação e de Atividades Culturais.
Dados retirados dos “sites” da Câmara Municipal das Lajes e do Forum Ilha das Flores
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SAUDADE
(PEDRO DA SILVEIRA
Onde estará agora a que ficou no cais
Quando eu parti?
Tinha o olhar cheio de lágrimas
E com o lenço abanava,
Os garajaus tinham chegado há pouco
Com o seu coro de alegres pios.
Na terra um ar todo de festa:
Era o Verão anunciado.
Um fio de fumo fluía da chaminé do vapor,
A sereia apitou o último adeus
- e vim-me embora.
Cada vez mais longe a terra fugia-me,
Fugia-me… e a noite
Era aquele lenço branco
Escurecendo nos meus olhos.
……………………………………………………..
Onde estará agora
a que deixei no cais e o lenço dela
a despedir-se?
Lisboa, 19-III-44
Pedro Silveira Fui ao Mar Buscar Laranjas
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VILA DAS VELAS, SÃO JORGE
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Nesta ilha, sobre a ponta extrema
Onde o sol acorda
habitou Willen van der Haaghe.
(Tempos revelhos, flamengos
Da Aventura.
Em paz descansem. Deixemos disso:
Genealogias sepultadas.)
Gosto duma paisagem assim:
Áspera,
Dura,
Varonil,
- bela!
Nos olhos das mulheres há ainda
A nostalgia das campinas rasas
De além do Passo de Calais.
Pedro da Silveira Diário de Bordo.
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PAISAGEM (COM BICHOS)
(PEDRO DA SILVEIRA)
Só as aves não sabem
Que este lugar é um ermo
Só as queirós e o vento
Desconhecem que é triste.
Uma cabra, metódica,
Roça os olhos das silvas.
Pedro da Silveira in Poemas Ausentes
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LEMBRANÇA DE SAN MIGUEL-O-ANJO
Na igreja da Fajã Grande, na década de cinquenta, ainda existia uma imagem de São Miguel-o-Anjo. Tratava-se de uma pequena escultura em talha dourada, com pintura semelhante à Senhora do Rosário e que se dizia ser muito antiga, tendo pertencido à ermida, construída em 1755 e que antecedeu a atual igreja. Representava o arcanjo São Miguel, empunhando numa das mãos uma espada e na outra uma balança. Estranhamente esta imagem não estava exposta à veneração dos fiéis, encontrando-se guardada, juntamente com a Senhora da Soledade, numas arrecadações que existiam por detrás do altar-mor, junto às escadas do camarim. Muito provavelmente em anos anteriores estaria na igreja e nela se inspirou o poeta fajãgrense, Pedro da Silveira para escrever o seguinte poema, dedicado a Armando Cortes-Rodrigues e Diogo Ivens.
Lembrei-me agora de ti,
San Miguel-o-Anjo de espada ferrugenta e capacete emplumado
De quando eu ia com meu pai à missa de domingo.
Tu não falavas nunca com os meninos da tua idade,
Nem rias quando olhávamos para ti;
Os teus beiços ficaram sempre mudos
Ao meu apelo insistente de criança.
Abismados em não sei eu pensamentos de nuvens,
Teus olhos nunca se abriram para a vida
Que a minha ingenuidade de seis anos te quis dar.
Todos os dias a pesar pecados
Na balança velha do céu…
San Miguel-o-Anjo da minha infância,
Esquecido da vida num canto escuro da igreja,
Nem tu talvez existes já…
Outras vozes acordaram nos meus dias
E chamaram a outros caminhos
O menino que eu era contigo.
Hoje, San Miguel-o-Anjo da minha infância,
Menino santo de pau insensível à vida,
De ti em mim persiste só
A vontade que eu tinha de gritar à tua indiferença
Que deixasses de ser santo
E viesses cá para fora brincar comigo
Nas poças da beira-mar.
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MOMENTO
(PEDRO DA SILVEIRA)
A baía, o Monchique o outeiro, as casas…
Batidas do vento as canas são vagas verdes.
Mas o que eu vejo não é a paisagem, bela ou feia.
O que eu vejo
são estas mulheres vestidas de preto,
o rosto escondido num lenço preto,
as mãos deformadas de cavar a terra.
Novas, velhas, sem idade.
Sem culpas nem pecados
Resignadas.
Pedro da Silveira
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O MAR, SEMPRE
(PEDRO DA SILVEIRA)
Água: mar: lonjura…
Sangue e força
da vida!
Meu caminho às avessas,
desaguado em terra.
Não reneguei.
Hei-de tornar.
Pedro da Silveira in fui ao mar buscar laranjas
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MOMENTO
(PEDRO DA SILVEIRA)
Abre-se a manhã como uma concha.
Orvalho, aromas, o sussurro
das marés quebrando longe.
Súbito uma voz
desamparada canta.
E um pessegueiro entorna sobre mim
a ternura rosada dos seus ramos.
Pedro da Silveira
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VOLTO ATÉ QUANDO
(Pedro da Silveira)
Mais uma vez estou aqui.
O mesmo mar de outrora,
azul e cor-de-cinza.
Violácea a paisagem.
E esta paz de espelho velho.
Desde menino vagabundo,
desde menino indo e tornando…
Longe,
aqui me desejando;
Aqui,
longe e mais longe
o pensamento navegando.
Vagas, calai-vos!
Vagas,
deixai-me em paz!
Querer poder ficar e não poder pensá-lo.
Pedro da Silveira Arte Poética
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MEMÓRIAS (IV)
8
Todo dourado
parece que me fita
o peixe na redoma,
9
E porque tudo é memória,
como a rapa-da-pedra
deslembremos.
10
Basta-me este mínimo verde
e a casa diante do mar.
- Bates coração?
Pedro da Silveira in Poemas Ausentes
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FINDA
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Não ser mais do que um cisco de terra, mas terra viva
poeira
e aragem.
Ter um casaco feito de estrelas e sóis vagabundos
e um pouco de dia nascido dentro do coração.
Pedro da Silveira Poemas Ausentes
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MEMÓRIAS (III)
(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
6
Um gato: os seus olhos
minando a noite.
Não perguntam, defendem-no.
7
“Há – tu disseste –
sinais de ilhas no teu olhar.”
Sei só que me tornei nómada.
Pedro da Silveira in Poemas Ausentes
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MEMÓRIAS (II)
(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
4
A água do poço, quieta.
E uma eiró que desliza
para a treva do fundo.
5
Na calma azul do dia,
um pessegueiro florido.
Eterno e efémero.
Pedro da Silveira in Poemas Ausentes
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FOTOGRAFIA
(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Sentados na banqueta (sempre a mesma) da praça
falam do tempo,
das suas dores também.
Quando um que não veio não virá nunca mais
os que estão entreolham-se,
cada um à espera que o outro seja quem diga.
Os que passam murmuram:
- Lá estão eles, os velhos.
Pedro da Silveira in Poemas Ausentes
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DÍSTICO
(PEDRO DA SILVEIRA)
Todas as distâncias são a mesma distância,
ir ou vir o mesmo, se ninguém nos espera.
(de Corografias, Perspectivas & Realidades, 1985)
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UMA AVE
(PEDRO DA SILVEIRA)
Uma ave, no vento,
e o grasnido
da ave.
Que alegria lhe desata
Nos nervos
O vento!
Mais que sentido,
visível
o vento.
Pedro da Silveira [Diário de Bordo]
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TALVEZ UM DIA
(PEDRO DA SILVEIRA)
Talvez um dia a minha poesia seja
simples e natural
como um corpo de mulher abrindo-se ao amor.
Poesia simples, sem ódios nem revolta.
Poesia que fale
Só de cousas belas.
...E, liberto talvez do sonho antigo de evadir-me,
não me perturbará mais a presença longínqua
dos transatlânticos passando.
Ai,
Simples e natural
Como uma canção de berço.
(de A Ilha e o Mundo, 1952)
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MENINA COM PAPAGAIO
(PEDRO DA SILVEIRA)
Ainda na sua mão
que lhe dirá o barbante
de como se vê o mundo
com os olhos do vento?
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MEMÓRIAS
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
À memória de António Dacosta que, pintor e poeta, sabia
de sereias e tritões como meu avô José Laureano
1
Perdi os nomes da inocência.
A ignorância
Continuo a aprendê-la.
2
Tinem campainhas
No azul novo da manhã.
Vacas a caminho das relvas.
3
A mesa está .posta. Come
Como quem beja
O pão duro da vida
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MEMÓRIA VAGA
(PEDRO DA SILVEIRA)
Era um vapor que passava
e o seu rasto na água.
Era uma ave suspensa
no redondo do céu.
Era a tarde e a sua
luz esmaecente.
E eram as nossas mãos
que se uniam
em silêncio.
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MALDIÇÃO SOBRE A ETERNIDADE
A António Osório
(Pedro da Silveira)
Das árvores que plantei
nenhuma já me pertence
e de quase todas nem comi
ou sequer vi os frutos.
Sempre soube que devemos morrer
E penso que é melhor
não se saber quando nem como.
E quanto ao que deixámos,
não se recorde de quem foi.
Que só assim somos eternos.
Pedro da Silveira, Poemas Ausentes,
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ELEGIA, QUASE
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Defronte da minha janela
o vento agora embala
as flores lilases das jacarandás.
A tarde cai, cansada
e não sei porquê
de repente lembrei-me
que foi numa tarde como esta
sob uma brisa morna
que nos dissemos adeus.
No entanto não recordo
se havia flores ou simplesmente
era a tarde, sem paisagem nenhuma.
O que ainda sei é o teu vulto
emoldurado no sol –
e depois a casa
onde já não vive ninguém.
Tantas casas desertas
e tantos rostos para sempre inencontráveis.
Pedro da Silveira, Poemas Ausentes
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À MARGEM DE UMA BIOGRAFIA DE RIMBAUD
(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)
Saído da Batávia fugido, desertor procurado
do exército colonial holandês,
Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, de vinte
e dois anos de idade e francês de nação,
que não sei se viajou como passageiro
ou (pagando assim a passagem) matalote engajado
do cliper inglês que aceitou trazê-lo para a Europa
e que fez, passado o Índico, escalas no Cabo
e Santa Helena e a Ascensão e o Faial,
em que aportou em não achei que dia
do começo de Outubro de 1876;
Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, já dito,
vagabundo, poeta (ainda?),
não escreveu que se conheça
tão-pouco uma carta à família em que conte
como era a Horta naquele tempo.
E também, infelizmente, nenhum dos três
jornais que havia na pequena cidade ship-chandler
deu notícia que ele a visitava (ou visitara)
nem de modo indirecto denunciou a sua passagem por lá,
por exemplo relatando alguma desordem
na Rua Velha ou na Rua do Mar.
se bem que acolhendo as musas, os jornais da Horta
normalmente evitavam (quanto possível)
trazer nomes de criaturas como as Paciências,
a Cordeira, as Blicas, a Aparquinha, a Madraça,
criaturas afinal tão filhas de Deus como o poeta Rimbaud,
que, calem-se ou digam-no hipotéticas inéditas crónicas,
foi a casa de alguma delas,
sabedor decerto do preço em boa conta
dos seus rimiformes predicados.
Pedro da Silveira Poemas Ausentes