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A SENHORA DO PRANTO

Segunda-feira, 29.05.17

 

Conta-se que por volta do ano de mil quinhentos e vinte, um rapazinho andava a guardar as vacas no sítio da Lazeira, na freguesia de S. Pedro do Nordestinho, na ilha de S- Miguel, nuns terrenos muitos próximos do mar.

De repente, o pastorzinho teve uma visão deslumbrante - Nossa Senhora estava ali, à sua frente, vestida de branco, entre fina cortina de névoa, pairando dois ou três palmos acima do chão. Logo a criança ajoelhou e começou a rezar à Virgem, Mãe Deus, a oração que a sua mãe lhe ensinara:

- Avé Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…

Ainda não terminara quando ouviu a voz da linda Senhora que lhe dizia:

- Vai à Vila e convida todos os que encontrares a virem amanhã a este local, onde se reunirão sete cruzes. Se no caminho te aparecer uma bicha de boca aberta, não temas, pois é o símbolo da peste que acometerá Ponta Delgada e se espalhará por toda a ilha. Nesse dia, quando aqui estiver muita gente e rebentar uma trovoada, cavem a terra e espalhem-na por cima das pessoas e não tenham medo. Quero também que neste local levantem uma ermida a Nossa Senhora do Pranto e, se tudo isto fizerem, não terão nem a peste nem os tremores de terra, pois eu intercederei por vós junto do meu Filho.

De imediato, desfez-se a visão e o pastor correu para a Vila do Nordeste a anunciar o que lhe tinha acontecido.

Reza a lenda que as pessoas acreditaram no rapaz e, no dia seguinte, sete cruzes ou romarias, vindas do Nordestinho, Nordeste, Maia, Fenais, Povoação, Achadinha e Achada Grande, ali se juntaram. A Senhora cumpriu as suas promessas e os populares começaram a construir a ermida.

Para ser mais fácil o acesso, decidiram construi-la à beira do caminho e no local juntaram pedra e outros materiais. Mas, para pasmo de todos, certa manhã tudo o que haviam trazido para beira do cainho desaparecera dali e fora colocado no pasto onde Nossa Senhora tinha aparecido ao pastor, não longe do mar. Os operários trouxeram tudo, de novo, para a beira do caminho mas no dia seguinte já estava todo o material no lugar indicado por Nossa Senhora.

Uma dessas noites, as pessoas, desconfiadas, vieram vigiar e viram que Nossa Senhora com uma caninha levava a pedra e o restante material a rolar para baixo.

Não tiveram mais dúvidas: A Senhora do Pranto queria a sua ermida junto ao mar, longe das casas, para que as promessas das pessoas exigissem sacrifício e assim tivessem mais valor. Ali se começou a construir as paredes da pequena ermida.

Mas o trabalho era demorado porque não havia água doce por perto. Uma velhinha fraca, mas crente, prometeu acarretar a água do povoado. Assim o fez, até ao dia em que sentiu que as forças a abandonavam. Ajoelhando perto das paredes da ermida, pediu à Senhora vida para ver a obra terminada.

Perante o pasmo dos mestres, brotou da parede da ermida, próximo do chão, água em abundância e dali jorrou até findar a construção. Mais tarde a água deixou de correr naquele lugar e foi brotar na rocha. Lá está a correr mansamente, agora resguardada por uma gruta construída por camponeses. A umas centenas de metros, no pocinho de onde a ermitoa acartava a água, numa das pedras, vê-se a marca do pé pequenino de Nossa Senhora, que ali pousou ao ir matar a sede.

A santa velhinha ainda viveu durante anos como ermitoa, guardando o templo em cujo chão se enterrou. Muitas pessoas dizem que já ouviram cantar os anjos docemente na ermida.

 

Fonte - FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A ERMIDA DE NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS (LAGOA DAS FURNAS – SÃO MIGUEL)

Sábado, 20.05.17

Um dos mais belos e emblemáticos edifícios religiosos dos Açores é a Ermida de Nossa Senhora das Vitórias localizada junto à não menos emblemática Lagoa das Furnas, na ilha de São Miguel. A ermida, levantada ainda em vida de José do Canto, constitui uma pequena maravilha artística, em estilo neo-gótico, imitando as grandes catedrais europeias e é considerada como um dos mais ricos e originais templos do arquipélago, num cenário de uma beleza rara e estonteante. Consta que, assim como muitos outros templos da região, reflete e consubstancia a arte e o engenheiro dos célebres pedreiros de Vila Franca do Campo, alguns dos quais também se terão fixado na Fajã Grande, ao longo do século XIX.

Reza a história que esta ermida foi mandada construir pelo ilustre micaelense José do Canto, em consequência de um voto formulado por ocasião de uma doença grave de sua esposa. O seu testamento, escrito em 27 de Junho de 1862, reza assim: “Tendo feito, durante a maior gravidade da moléstia de minha esposa, em 1854, o voto de edificar uma pequena capela da invocação de Nossa Senhora das Vitórias, e não havendo realizado ainda o meu propósito por circunstâncias alheias à minha vontade, ordeno que se faça a dita edificação, no caso que ao tempo da minha morte não esteja feita, no sítio que havia escolhido, junto da Lagoa das Furnas, com aquela decência, e boa disposição em que eu, se vivo fora, a teria edificado          .”

A Ermida foi inaugurada solenemente no dia 15 de agosto de 1886, ainda em vida de José do Canto, referindo-se os jornais do tempo, a essa festa, em termos elogiosos. A imagem do altar-mor é feita de jaspe e os vitrais que circundam o templo e embelezam a capela-mor evocam passos da vida de Nossa Senhora desde o Nascimento à Assumpção. Acrescente-se que a Ermida de Nossa Senhora das Vitórias foi construída nas imediações da casa de veraneio de José do Canto, e é nela que se encontra sepultado com sua esposa.

O site Memória Portuguesa descreve assim a Ermida de Nossa Senhora das Vitórias:

A Capela de Nossa Senhora das Vitórias foi construída nas imediações da casa de veraneio de José do Canto, que nela se encontra sepultado com sua esposa. Foi erguida na margem sul da Lagoa das Furnas, em plano ligeiramente elevado e orientada para o espelho de água, com caminho de serventia marginal, tendo por pano de fundo o denso arvoredo da propriedade de que faz parte.

O plano foi confiado ao arquiteto André Breton, que em 1864 realizou os desenhos de arquitetura. A Ermida, cujo sistema construtivo é de cantaria basáltica bem aparelhada, em fiadas paralelas, de bom tufo local, teve execução de mestres micaelenses, sob a chefia do Mestre António de Sousa Redemoinho, de Vila Franca do Campo, e estava em fase inicial por meados da década de 1870. Em 1882, em vias de receber o remate piramidal da torre, aproximava-se da conclusão. O programa de Breton, influenciado diretamente pela Igreja do Seminário de Angers, por indicação expressa do encomendante, define-se um espaço cruciforme (…) A toda a altura dos alçados interiores, meias colunas adossadas, de capitel esculpido e soco quadrado, com correspondência exterior de contrafortes, delimitam panos de parede e servem de suporte à organização de arcos de volta perfeita, com dupla função de arcos torais, onde repousam as abóbadas de berço. Nervuradas também nas coberturas extremas do braço da cruz, têm variante arestada no cruzeiro. À distância de 4 metros do pavimento, rasgam-se 13 janelas, em arcada redonda (…) O frontispício da Ermida, a que se chega por escadaria de dois breves lanços de quatro degraus cada um, com seu patamar intermédio, conforma-se ao corpo saliente da torre sineira. (…) Contrasta com esta imagem de elevação goticista a inspiração românica dominante nas estruturas do programa e na composição decorativa da arquitetura. Por lembrança da mesma matriz parisiense e gosto de conhecida aceitação francesa, aquelas oficinas forneceram, igualmente, equipamentos e ornatos exigidos pela função litúrgica.

(…) Tornadas síntese de liberdade decorativa e ornamental, aquelas adaptações do programa da Ermida de Nossa Senhora das Vitórias resolvem-se, também, com a figuração de São José e o Menino, feita imitação tardogótica e, como as anteriores, da mesma oficina "Moisseron et L. André", mas que na estátua da Virgem tutelar teve versão romana da imagem parisiense. A capela ficou muitíssimo valorizada com riquíssimos vitrais. A imagem do altar-mor é feita de jaspe e os vitrais que circundam o templo evocam passos da vida de Nossa Senhora desde o Nascimento à Assumpção.

 

NB – Dados retirados da Internet

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A LENDA DA IMAGEM DE SANTO CRISTO (DA IGREJA DOS FRADES – RIBEIRA GRANDE)

Domingo, 15.03.15

Segundo uma antiga lenda, contada em S. Miguel, certo dia andavam uns homens a pescar no porto de Santa Iria, na freguesia da Ribeirinha, da Ribeira Grande. Com grande esforço aguentavam o barco com os remos lançando a linha, para pescar. Enquanto estavam nesta faina, um dos homens apercebeu-se de que ali perto flutuava uma grande caixa de madeira, já quase podre e era levada pelas ondas na direção de terra, onde decerto ia dar à costa. Levados pela curiosidade, amarraram a caixa e rebocaram-na para o porto, onde, depois de varar, a abriram. Qual não foi o seu espanto, quando viram lá de dentro uma linda imagem de Cristo. Passados os momentos de assombro, depois de muito discutirem sobre a proveniência e o fim a dar à imagem, resolveram dar conta às autoridades marítimas do seu achado. Estas, sem perda de tempo, ordenaram o transporte da caixa com a imagem, para Ponta Delgada.

Arranjaram um carro de bois, carregaram a imagem e lá se puseram a caminho. O carro guinchava, os bois gemiam, porque o porto de Santa Iria fica fundo entre altas arribas. Mas tudo correu normalmente até à Ribeira Grande. Aí, ao passarem pela igreja dos Frades, os dois bois começaram a mugir e estacaram. Não havia maneira de os fazer andar.

Os homens bem os chamava e incitavam a andar. Mas quanto mais insistiam com eles e lhes batiam, mais estáticos permaneciam, apesar das pancadas no lombo e das picadas do ferrão da aguilhada. Os bois não se mexiam, continuavam agarrados ao chão como se estivessem pregados ou uma barreira lhes tapasse a passagem. Perante tão estranho comportamento dos animais, as pessoas que se tinham juntado acharam que havia ali a mão de Deus e que era melhor deixar a imagem do Senhor Santo Cristo na igreja dos Frades, ou igreja dos Terceiros, em frente à qual os bois se tinham negado a continuar a viagem. Retiraram a imagem do carro, cuidadosamente, e levaram-na para a igreja. Depois tocaram os bois que desataram a andar e não mais se negaram a continuar viagem. Essa a razão pela qual a imagem ficou para sempre na igreja dos Frades.

 

NB – Baseada em elementos retirados da Internet

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publicado por picodavigia2 às 00:35

AS FESTAS RELIGIOSAS EM PONTA DELGADA

Terça-feira, 08.04.14

Eram várias as festas que, ao longo do ano, na década de cinquenta, se realizavam na igreja Matriz de Ponta Delgada. Em Dezembro e para além do Natal, realizava uma grande festa em honra da Imaculada Conceição. Precedida de um novenário preparatório, a festa tinha o seu epicentro no dia oito, com missa solene, cantada e à tarde uma procissão em que seguia, pelas ruas de Ponta Delgada, uma imagem da Virgem que me fazia lembrar a da Senhora da Saúde, existente na igreja da Fajã.

Em Janeiro, também com grande pompa e circunstância que se realizava a festa do padroeiro, o glorioso mártir São Sebastião. A Semana Santa, por sua vez, era celebrada ao pormenor, com todas as cerimónias, ritos e procissões, com destaque para a procissão de Ramos, o lava-pés, as Endoenças e a procissão do Senhor Morto. Nós, os seminaristas das ilhas, como estávamos de férias, participávamos em todas as celebrações, a que se associavam muitos sacerdotes residentes na cidade.

Mas a mais aliciante de todas as procissões, realizada por altura da Páscoa era a Procissão aos Enfermos. As ruas cobriam-se com tapetes multicolores e enfeitavam-se as janelas com colchas desde da Avenida Marginal até à rua da Arquinha, passando pelas do Amorim, Contador, Passal, Santana, Margarida Chaves e muitas outras, até regressar à Matriz. O Senhor, sob a espécie do pão, era conduzido pelo pároco e acólitos, debaixo do pálio, acompanhado de muito clero, dos seminaristas e de muito povo, visitando os doentes e acamados, a quem era distribuída a comunhão.

Para além destas festas realizadas na paróquia a que pertencíamos, ainda participávamos na grandiosa festa do Senhor Santo Cristo, incontestavelmente a maior festividade celebrada nos Açores. Participávamos nas procissões da mudança da imagem e na do dia da festa, esta com um giro gigantesco e dávamos passeios pelo campo de São Francisco e pela Avenida, vendo e observando as barracas e os vendedores ambulantes. Simplesmente como o dinheiro era pouco ou quase nenhum, apenas consegui comprar uns pequenos objectos de barro da Lagoa que guardei para levar e oferecer a meus irmãos nas férias que já se aproximavam.

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publicado por picodavigia2 às 09:16

A IGREJA DE SÃO JOSÉ DE PONTA DELGADA

Quarta-feira, 29.01.14

Quando pela primeira vez, no longínquo ano de 1958, demandei a cidade de Ponta Delgada, a fim de frequentar o Seminário Menor de Santo Cristo, o monumento da arquitectura religiosa que logo me impressionou naquela urbe micaelense, por uma dupla razão, foi a igreja de São José. Primeiro porque São José também era o padroeiro da igrejinha da minha terra natal e, em segundo lugar, ficava-me no encalce do casarão que ma havia de recolher e abrigar durante dois anos. Na realidade, o percurso entre a doca, onde o Carvalho, juntamente com mercadorias e bagagens e um magote de gente, me despejara bem como um grupo de jovens oriundos das ilhas “de baixo” e o Seminário Menor, situado no antigo Convento Jesuíta, na Avenida Gaspar Frutuoso, era curto, acessível e rápido. Saía-se da doca, voltava.se à direita, circulava-se num pequeno troço de rua, entre o Castelo de São Brás e o Hospital e estávamos, de imediato, no largo de São Francisco. Depois, mais duas ou três ruas e chegava-se ao Seminário. Curiosamente, o largo de São Francisco e a Avenida Gaspar Frutuoso, conhecida também por avenida dos Milionários eram os espaços da cidade de Ponta Delgada mais falados, mais badalados, mais discutidos, mais divulgados na Fajã Grande e os quais me habituara a ouvir referenciar, como marcos de estadia obrigatória, por quantos vinham a S. Miguel, por doença, para a tropa ou para tirar os papéis para ir para a América. O largo de São Francisco, porque nele se situava o admirável e histórico Santuário do Senhor Santo Cristo, onde todos os que visitavam, pela primeira vez, a ilha do Arcanjo, procuravam entrar, não apenas para rezar mas também para colocar uma vela acesa diante da imagem milagrosa e a rua dos Milionários por nela estar sediado o Consulado Americano, local de passagem obrigatória e inevitável, de quantos demandavam os Estados Unidos da América.

No entanto, estranhamente, o que mais ali prendeu a minha atenção foi a magnífica e majestosa igreja de São José. Por um lado a sua enorme fachada branca, toda debruada a tiras de basalto negro e vulcânico, com uma infinidade de portas e janelas que lhe davam um ar alegre, risonho e fantasista e, por outro, porque sendo o seu padroeiro São José, fazia-me lembrar a pequenina igreja da minha freguesia, com o mesmo orago, mas bem mais simples e humilde. Ao fixar a torre sineira, com o seu emaranhado de sinos - três à frente e outros tantos nos lados, - imaginava como seria fantástico, harmonioso e sublime fazer repicar simultaneamente todo aquele minúsculo carrilhão. E encheu-se-me o peito de uma saudade enorme, dos tempos em que subia a sineira da igrejinha da Fajã, para tocar Trindades Dobradas. De toda a garotada da freguesia, eu era o único que sabia tocar devidamente os sinos. Meu tio era o sacristão e eu aprendera com ele. Casando-se, o que aconteceria em breve, abandonaria o cargo. Pensando que um dia havia de lhe suceder, eu já tinha sido iniciado na prática e no acompanhamento das diversas cerimónias litúrgicas e celebrações religiosas. Já sabia de cor, em latim, o "Confiteor" e as respostas ao "Introíbo" e ao "De Profundis". Apenas um senão pesava contra a minha contratação e que levara o Senhor Padre Pimentel a adiá-la indefinidamente: a exígua altura de que dispunha, na opinião do reverendo, não se adequava às exigências preliminares e posteriores ao Santo Sacrifício - acender e apagar as velas dos altares. É verdade que eu jurara solenemente resolver o problema, subindo a uma cadeira e, se necessário, até saltar para cima dos altares, actos que o pároco condenava e reprovava radicalmente, quer porque os considerasse pouco litúrgicos, quer porque, tendo em conta a fama de estroina que eu tinha, corria o risco iminente de, na descida, trazer algum santo embrulhado comigo, estatelando-o no chão.

A minha especialidade, porém, era o toque dos sinos. Era exímio!... Tocava-os como ninguém e de acordo com as exigências de cada festa, celebração ou momento litúrgico.

Animava-me a esperança de que um dia, ali naquela igreja ou na do Seminário se a houvesse, eu ainda havia de tocar os sinos. 

 

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publicado por picodavigia2 às 13:57

PONTA DELGADA DE RELANCE

Domingo, 19.01.14

A madrugada tardou em comparecer, (ontem), aqui, em São Miguel, talvez porque diminuída num fuso horário, quiçá porque aureolada de um relento que lhe parece ser congénito, e, como se isso não bastasse, ainda chegou, trazendo consigo uma cidade cinzenta, molhada e, aparentemente, tonta. Apesar de tudo, Ponta Delgada não perdeu a beleza, nem o burburinho que lhe são peculiares, nem sequer o estatuto que usufrui de maior cidade açoriana e capital administrativa dos Açores. A sombrear ainda mais o destino desta acolhedora urbe açoriana, a greve, que para além do mais, veio baralhar, complicar e alterar voos e viagens, retendo, no João Paulo II, passageiros, em trânsito, que rumavam às “ilhas de baixo”. Mas ao longo do dia, a manhã foi clareando e, embora caldeada com chuviscos, Ponta Delgada foi-se mostrando simpática e atraente, fazendo desaparecer, aos poucos, aquela chuva miudinha que a envolvia e que nos molhava e, pior, consternava.

Se os dissabores do desalento climatérico acarretaram consternação, a serenidade da bela cidade, apesar de transformada, involuntariamente, em “cárcere”, havia de constituir-se em desanuviamento turístico e ostentar-se nos seus templos e monumentos e, sobretudo, na sua magnitude histórica, cuja origem remonta aos mapas e portulanos genoveses do século XIV e ao início do seu povoamento, no princípio do século seguinte, graças ao empenho de homens e mulheres, oriundos do Algarve, do Alentejo e de outras paragens, aqui aportados, numa madrugada, talvez ela também acinzentada e nevoenta.

Na realidade, como se pode ler nos roteiros e guias turísticos que proliferam no hall do hotel, “Ponta Delgada é dona de uma rica história e de um encantador património construído, rodeado pela esplêndida natureza da Ilha de São Miguel, que delicia quem a contempla a todo o momento. Outrora, a cidade mais importante da Ilha seria Vila Franca do Campo, contudo em 1522 um grande terramoto causou a maior destruição na localidade, passando então Ponta Delgada, uma povoação composta por várias comunidades piscatórias, a herdar a sua importância. Foi no século XIX que Ponta Delgada granjeou o maior sucesso e prosperidade, tornando-se mesmo numa das principais e mais ricas cidades do País, sobretudo devido à forte exportação de citrinos, à indústria piscatória e à fixação de muitos comerciantes estrangeiros. Esta herança é hoje visível no aspecto colonial e Romântico da cidade, tão típico deste período, concedendo-lhe uma ambiente encantador. Hoje em dia, pela cidade respira-se história, quer pelo seu ambiente cosmopolita, quer pelos seus românticos jardins, pelas suas ruas apertadas e calcetadas, ou pelos vários palacetes espalhados pela região que demonstram o poderio económico de outros tempos, graças à fertilidade dos solos e ao furor mercantil. É a Ponta Delgada que oferece o seu rico património cultural, arquitectónico e histórico numa paisagem idílica, onde a indústria turística tem florescido com conta, peso e medida. Ponta Delgada orgulha-se do seu património, com monumentos como a sua bela Igreja Matriz do século XV, o gracioso edifício da Sede da Alfândega, os Conventos da Conceição, de Santo André, do Carmo e de Nossa Senhora da Esperança, o antigo Colégio dos Jesuítas, o Forte de São Brás (também conhecido por Castelo de São Brás) ou as emblemáticas Portas da Cidade.

A cidade apresenta hoje uma crescente oferta de serviços, animação e actividades com espaços comerciais, teatros, cinemas, locais de diversão nocturna, e a renovada Marinha com as suas piscinas e os espaços de lazer, apresenta também espaços antigos e sempre tão aprazíveis como o romântico Jardim António Borges, ou interessantes como o excelente Museu Carlos Machado, instalado no antigo mosteiro de Santo André, retractando a história natural, a pesca e a agricultura de toda a Ilha de São Miguel.”

E a tarde acabou por se tornar soalheira, convidativa a devaneios, aureolados por uma simples, pequena, ordeira e singela manifestação contra os dissabores da crise, frente às portas da cidade, que se transformou em cortejo, com destino ao palácio da Conceição, na demanda de entregar as justas reivindicações de um povo que também se sente, fortemente, ultrajado nos seus direitos, ao representante do governo central na região.

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publicado por picodavigia2 às 22:45

A IGREJA DE TODOS OS SANTOS, DE PONTA DELGADA

Domingo, 19.01.14

A Igreja de Todos-os-Santos, mais conhecida como Igreja do Colégio dos Jesuítas, localiza-se no centro histórico da cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores. É chamada de igreja de Todos-os-Santos, por o lançamento da primeira pedra ter ocorrido no dia 1 de Novembro de 1592. Juntamente com o templo e paralelo a este, foi construído, pelos religiosos da Companhia de Jesus, um convento onde os frades jesuítas estabeleceriam o seu Colégio na cidade. A igreja foi reconstruída na primeira metade do século XVII, quando adquiriu a actual fisionomia. Os trabalhos iniciaram-se em 1637, sendo o frontispício adossado ao anterior. Entre 1643 e 1646 foi instalado o novo retábulo na capela-mor. A nova fachada foi concluída em 1666. Nesta igreja pregou o padre António Vieira, por ocasião da festa da Santa Teresa de Jesus, no dia 15 de Outubro de 1654.

 Com a expulsão da Companhia de Jesus do reino de Portugal, à época Pombalina, o valioso recheio da igreja foi dispersado. Era na biblioteca do Colégio que se encontravam importantes documentos da história dos Açores, como por exemplo, o acervo de Gaspar Frutuoso, inclusive o manuscrito das Saudades da Terra. Hoje a igreja do colégio encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público, tendo sido recuperada e requalificada. Desde 2004 que se fechou ao serviço litúrgico e passou a abrigar o núcleo de arte sacra do Museu Carlos Machado, no qual se destaca a pintura “A Coroação da Virgem”, de Vasco Pereira Lusitano. Em 2008 nela foi instalado um grande órgão, obra do organeiro Dinarte Machado, inaugurado por Ton Koopman. ´Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, funciou ali uma dependència do Seminário diocesano.

 Trata-se de um templo de uma beleza singular e de um valor histórico inexaurível, destacando-se a magnífica talha da capela-mor em cuja construção foram utilizadas madeiras de árvores muitas delas endémicas dos Açores, como o teixo, o cedro, o bucho, faia, vinhático e o pau-branco. A ornamentação do altar-mor, do arco triunfal e dos retábulos laterais eram arautos de um eloquente testemunho da liberdade decorativa do Barroco. Coexistia ali uma variedade enorme de elementos decorativos, de elevado requinte artístico, destacando-se motivos vegetalistas e zoomórficos, colunas salomónicas, torneados e concheados. No altar-mor podia ver-se uma infinidade de anjos em diferentes poses e nas amplas e altas paredes das duas enormes sacristias pendiam vários quadros pintados a óleo de pintores notáveis.

 É verdade que a talha da capela-mor não é pintada a ouro, como a da maioria das igrejas açorianas, tinha antes uma cor acastanhada, muito próxima da cor da própria madeira. Tal facto, no entanto, não lhe retirava a beleza. Pelo contrário, esta singularidade e esta singeleza faziam realçar ainda mais a beleza natural da talha. Também o frontispício era um emaranhado magnífico de pedra basáltica, conjugada com a fluência inebriante e singular das portadas e janelas.

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publicado por picodavigia2 às 16:53

“SENHORA DO PRANTO” DE JOSÉ AUGUSTO BORGES

Quinta-feira, 16.01.14

Da autoria de José Augusto de Melo Borges e sob a égide da Câmara Municipal do Nordeste, ilha de São Miguel, foi recentemente publicado o livro Senhora do Pranto – Caminho de Fé.

Numa linguagem simples, comunicativa, esclarecedora, raiada de jactos de fé, ornada com vivências pessoais e enriquecida com dados históricos e com testemunhos de alguns devotos, mas acessível aos mais humildes dos crentes que demandam aquele pequeno “santuário” mariano, José Augusto Borges relata-nos vivências, testemunhos, lendas e estórias daquele que é considerado um dos mais antigos e emblemáticos templos religiosos, não apenas do concelho do Nordeste mas até de toda a ilha de São Miguel.

Construída no ano de 1522, a pequenina ermida situada na Lomba de João Soares, precisamente no extremo da freguesia de São Pedro de Nordestino, já na fronteira com a Lomba da Fazenda, está ligada a algumas interessantes lendas, já referidas por Gaspar Frutuoso. Naquele ano, altura em que começou uma grande peste em Ponta Delgada, um moço guardador de gado avistaria Nossa Senhora e a Virgem ter-lhe-ia ordenado, entre outras tarefas, a da construção duma ermida, ali, naquele andurrial, sobre o mar. O povo, eivado de fé, tê-la-á construído, de imediato. Durante as obras, escreve frei Agostinho de Montalverne, a água teria milagrosamente aparecido e, depois de pronto, o templo seria de muita romagem. Conta ainda Gaspar Frutuoso que outros factos sobrenaturais se repetiram em 1563, por ocasião de um grande terramoto. Não obstante toda esta crença e devoção, a ermida passou, ao longo dos séculos por vicissitudes diversas, chegando mesmo a ser abandonada ao descalabro, durante alguns anos. Mas a devoção no povo nunca se extinguiu, procedendo-se sempre a vários restauros, com destaque para o último, verificado já na segunda década do século XXI.

Construída sobre uma lomba junto do mar, no silêncio da natureza e afastada dos burburinhos dos povoados e até da vista dos que passam nos caminhos circundantes, esta ermida, verdadeiro testemunho de crença e fé das gentes do nordeste micaelense, guarda, no seu interior uma valiosa imagem da Virgem com um conjunto de capas anexo e uma tela representando a descida da Cruz, estando uma e outra, bastante longe das primitivas, nomeadamente a tela que, se cuida que, tendo ido a restaurar, terá sido substituída por uma outra, em tudo semelhante.

O livro está dividido em duas partes. Na primeira, o autor, misturando a história e a realidade com a ficção, relata-nos a “estória” de uma jovem – Maria de Lurdes – cuja vida, desde o namoro e casamento dos pais, se prende intimamente com a ermida e com a devoção à Senhora do Pranto. Através de um relato fictício mas sempre fundamentada em vivências reais, a que o autor não é alheio, o leitor vai construindo, por entre os modos de vida, os costumes e as tradições dos nordestinos de antanho e sobretudo pelas suas vivências religiosas sempre direccionadas para a invocação da Senhora do Pranto, “caminhos de vida” diversos e diversificados, sempre aureolados pelo apoio e auxílio, por vezes milagroso, da Senhora – Senhora de encontros, de aflições, de estudantes, de pescadores, de militares em guerra, de romeiros e de emigrantes, proporcionando a todos os mais sublimes momentos de alegria, as mais emblemáticas vidas de felicidade, os mais sensatos e profícuos caminhos que, através da fé e da oração, conduzem à salvação, sobre a poderosa intercessão da Mãe de Deus - a Senhora do Pranto, também designada por Senhora da Vida.

Na segunda parte José Augusto Borges relata, de forma rigorosa e documentada, os aspectos mais significativos da história da ermida, referindo as principais obras de restauro, nomeadamente, as últimas, inauguradas em Fevereiro de 2012, as quais fizeram da ermida da Senhora do Pranto “um dos marcos do património cultural e arquitectónico do Nordeste”. Por tudo isso e, sobretudo, por ser um local de paz, onde tudo o que “o envolve torna-o um sítio privilegiado para nos encontrarmos com Deus, connosco e com os outros”. No alto da Lomba onde se situa a ermida ficamos “completamente isolados de todo e qualquer casario, temos uma visão paradisíaca à nossa volta: a nascente o mar azul que toca o céu na linha do horizonte e a oeste a montanha que se ergue até ao céu.” Por tudo isto, segundo o autor, a ermida da Senhora do Pranto deve integrar o “roteiro religioso” da ilha do Arcanjo.

Recorde-se que José Augusto Borges que fez uma boa parte da sua formação académica no Seminário de Angra, foi bancário em Ponta Delgada e na Ribeira Grande, reformando-se como gerente em 2002, já havia publicado um primeiro livro sobre esta ermida, intitulado Lágrimas de Fé.

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publicado por picodavigia2 às 11:36

NÃO PERCA A PERCA

Segunda-feira, 30.12.13

Em viagem do Porto para o Pico, fiz uma escala, deliberadamente programada, no aeroporto de Ponta Delgada, onde cheguei, já noite escura. No dia seguinte, fui, inevitavelmente, apanhado nas teias da greve geral, o que obviamente, me trouxe alguns transtornos. No entanto, a SATA não se poupou em cuidados e atenções, disponibilizando, como mandam as normas europeias, alimentação, dormida e táxi. Assim dei comigo, inadvertidamente, hospedado num dos (em número de estrelas) melhores hotéis de Ponta Delgada, onde havia de pernoitar e fazer as refeições.

No entanto, de manhã, enquanto aguardava decisões e esclarecia procedimentos, dei umas voltas pela cidade. Como gosto de apreciar os produtos da “ilha verde”, sempre tão fresquinhos e viçosos, entrei no Mercado da cidade. Para além dos belíssimos produtos agrícolas que a ilha produz, encontrei a peixaria a abarrotar de uma enorme diversidade de espécies de peixe em que as águas açorianas são abundantes. Além disso todo ele muito fresquinho e com um preço acessível: abróteas, garoupas, meros, chernes, vejas, moreias, chicharro, cavalas, sargos, pargos, etc., etc. Uma maravilha!

Regressei ao hotel, para o almoço, com “o olho cheio”. A SATA, logicamente, condicionara a escolha do menu, “obrigando-me” a comer peixe. Nada me custou a determinação, antes me alegrou, vindo-me logo à ideia, a excelência daquela variedade de peixe açoriano que havia observado no Mercado, sonhando que, decerto, me havia de deliciar, com algum dele, mesmo que fosse um chicharro frito, um carapau grelhado ou um filete de cavala assada.

Qual não foi o meu espanto, quando me puseram na frente um prato de peixe, sim senhor, conforme o anunciado, mas perca do Nilo. É evidente que comi, até porque vinha muito bem apresentado – gourmet – com batata e legumes, mas ficou-me, ao longo da tarde, um sabor perdido, aliado a uma interrogação permanente: Por que motivo numa terra com tanto peixe nas suas águas, se serve, nos melhores restaurantes, perca do Nilo? Por isso, agora, ainda “aportado” à Terceira, entre chuva e vento, à espera de voo para o Pico, apetece-me gritar aos quatro ventos um interessante “slogan” que talvez possa incentivar o turismo nas ilhas:

- “Se visitar São Miguel não perca a perca”. 

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publicado por picodavigia2 às 15:11

A ILHA DO ARCANJO

Segunda-feira, 09.12.13

Um soneto de Natália Correia, bem escarrapachado a letras garrafais, num canto da sala de embarque do Aeroporto "João Paulo II", Ponta Delgada, ilha de São Miguel:

 

“Eu vos direi da ilha que na dorna

do Arcanjo é eterna em chão escasso.

Fulva de gado ao dia. À noite morna.

Embebida no verde. E o mar colaço.

 

Ilibado alumbramento em tempo torna

a unção de contemplar. Um ténue traço

de garça entre água e céu. A paz encorna

em lagoa e lavoura o tempo e o espaço.

 

Tanto silêncio confiado à luz!

Treme um nenúfar se um trilo tremeluz.

Caiam o sol de azul os agapantos.

 

Na cevadeira a broa luminosa,

Romeiros nos persignam com uma rosa.

Suas rezas joeiram pombos santos.

 

Natália Correia in “O dilúvio e a pomba”

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publicado por picodavigia2 às 10:14

QUADRO RÚSTICO MICAELENSE

Quinta-feira, 14.11.13

(Soneto de João Anglin - Dedicado a Armando Cortes-Rodrigues)

 

Trazem ao ombro o sacho prateado

Os camponeses, de regresso aos lares.

As aves voam no espaço aos pares

E o ar tem um aroma perfumado.

 

A enxada é brasão aureolado

De nobreza de feitos singulares,

Do trabalho por campos e pomares

Deste nosso torrão abençoado.

 

Comem o podre caldo alegremente

E agradecendo a Deus a refeição,

Conversam à luz branda da lareira.

 

Rezam depois uma oração fervente

E na serena paz do coração

Dormem a sono solto a noite inteira.

 

João Hickling Anglin

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publicado por picodavigia2 às 19:08

O SEMINÁRIO MENOR DE PONTA DELGADA NA DÉCADA DE CINQUENTA

Quinta-feira, 20.06.13

O primitivo Seminário Menor de Santo Cristo, criado em Ponta Delgada na segunda metade da década de cinquenta, como uma espécie de sucursal do Seminário de Angra, situava-se na Avenida Gaspar Frutuoso, logo no início da mesma, à direita de quem a subia, nas traseiras do semicircular jardim Antero de Quental. O acesso ao vetusto e emblemático edifício, outrora sede dos frades da Companhia de Jesus, que em tempos idos, ali haviam fixado residência e construído escola, fazia-se por um alto e rígido portão, que raramente se abria e através do qual se entrava num grande pátio, feito de gigantescas pedras basálticas, rectangulares, algumas já rilhadas pelo tempo e recobertas de um musgo esverdeado e sombrio. Ao fundo do pátio e à direita de quem entrava, uma porta de madeira esbranquiçada, com vidros encastoados em taliscas brancas, muito limpos mas embaçados, dava acesso ao interior do edifício, onde se situava um pequeno hall. Ao lado direito ficava a sala de visitas, onde os seminaristas de São Miguel, às quintas e aos domingos de manhã, recebiam as visitas dos familiares. Ao hall de entrada, seguia.se um amplo e vasto corredor, ladeado de paredes muito brancas e altas, ao fundo do qual e do lado direito se situava o quarto do Dr Simão Leite de Bettencourt, director Espiritual e professor de Religião. O corredor terminava logo a seguir, formando esquina com um outro muito semelhante e posterior. Era no vértice desta esquina que ficavam duas camaratas destinadas aos alunos do segundo ano, no meio das quais se encastoava um velha e decrépita arrecadação que servia de porão para guardar as malas e baús dos alunos que ali dormiam. As camaratas eram resultantes da transformação de pequenos e antigos quartos, comportando apenas uma dúzia de camas, cada uma. Por isso alguns alunos do segundo ano eram encaminhados para a camarata do primeiro, bem maior e mais ampla. No segundo corredor, que seguia na direcção oeste – leste, tinham lugar as salas de aula: à direita a dos alunos do segundo ano, mais alta, mais clara, mais bafejada pelo ar, com várias janelas, cercadas com varandas, viradas para o jardim interior ou claustro; à esquerda a sala de aula destinada aos alunos do primeiro ano, maior, mas mais escura, mais acabrunhada, apenas com duas janelas que, apesar de enormes, lhe condicionavam, irregularmente, a claridade interior. Este corredor terminava numa espécie de T, prolongando-se, à esquerda, para o refeitório e para a cozinha e à direita, para uma enorme varanda que raramente se abria, e que, paralela à sala do segundo ano, projectava uma vista exterior para o jardim e para a parte sul da cidade. A este corredor, seguia-se um outro do qual se separava por uma descomunal e gigantesca porta. Era o corredor mais pequeno, mais escuro, uma vez que a luz apenas lhe entrava por uma pequena clarabóia encastoada no tecto e também o mais enigmático do edifício e onde os seminaristas nunca podiam parar. Nele ficavam, do lado direito o quarto do padre José Franco e a reitoria e à esquerda os aposentos episcopais, cujas portas estavam sempres fechados, pois destinavam-se exclusivamente a receber o prelado diocesano, quando visitava ilha do Arcanjo. Este corredor, através duma porta que, ao contrário da sua antípoda, estava sempre aberta, desembocava num outro, o maior, o mais claro e o mais ocupado pelos alunos, uma vez que servia, simultaneamente, de sala de recreio, de sala de estar, de salão de festas e até para projecção de filmes, o que raramente acontecia.

Na parte norte, este enorme corredor terminava numa grande varanda, voltada para um pequeno pátio interior, oposto ao do claustro, situado na parte setentrional do edifício, entre o refeitório e a sala de estudo e que também servia de campo de futebol, para os mais “toscos”. Era aí, suspensa da parede exterior por uma adequada ganchorra, que ficava a sineta ou “cabra” que, tocada à vez e semanalmente por um aluno mais velho, indicava o início e o termo das aulas, das horas de estudo, dos recreios, das refeições, dos tempos destinados à missa e à oração e a todas as outras actividades em que os seminaristas se envolvessem. Seguindo este corredor na direcção Norte – Sul, do lado direito apenas havia uma porta, aquela que comunicava com o corredor anterior, a seguir à qual o primeiro corredor amplamente se prolongava, fazendo fronteira com a reitoria e com o pátio interior ou claustro. Por sua vez do lado esquerdo, ligava-se a uma pequena escadaria que dava acesso ao salão de estudo, à camarata do primeiro ano e ao quarto do padre Agostinho Tavares. A seguir a esta escadaria, um quarto onde o cabeleireiro assentava arraiais, onde, às segundas-feiras, se colocavam as sacolas com a roupa suja à espera de que as lavadeiras, na sexta-feira seguinte as viessem entregar lavadinha e que também, de vez em quando, era adaptado a quarto de hóspedes e uma outra pequena arrecadação, contígua à capela-mor da vetusta igreja, pejada de arcaboiços de madeira que serviam de roupeiro geral, pois era ali que todos os alunos guardavam os fatos e as batinas, sendo que estas últimas, poucos as tinham, uma vez que não eram obrigatórias. O salão ou corredor, embora separado por uma ampla porta, prolongava-se enorme, comprido, com o piso em mosaicos, paralelo à igreja, terminando, ao fundo, num pequeno cubículo, onde havia uma escadaria, finda a qual, através duma porta situada à esquerda do frontispício da igreja de Todos os Santos, existia um outro acesso ao exterior. Por sua vez, o salão de estudo, situado na extremidade mais norte do edifício, postava-se na direcção sul-norte e era muito baixo, muito comprido, muito velho, mas muito claro porque ladeado de ambos os lados por um número quase infinito de pequenas janelas. Era a meio desse salão, do lado direito, que havia uma porta que comunicava directamente com a camarata do primeiro ano. Esta camarata que se estendia na direcção oeste – leste era o espaço mais comprido e estreito de todo o edifício, um autêntico corredor sem continuidade, de estrutura semelhante à sala de estudo e que se prolongava até à rua de Santana, constituindo a parte mais oriental do edifício.

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publicado por picodavigia2 às 21:30

NORDESTE

Quarta-feira, 19.06.13

Por capricho ou por benevolência ou talvez por insensatez ou loucura (sabe-se lá), os deuses pintaram aquele torrão de lava do Nordeste micaelense de verde, mas de um verde tão verde que jorra por aqui, por além e por toda a parte, atulhando os campos, cobrindo as montanhas, enfeitando as beiras das ruas, ornando os caminhos, salpicando a orla das estradas, abalroando as casas e as igrejas, correndo pelo leito das ribeiras e até se reflectindo enigmaticamente na pureza imensa e infinita do Oceano. Ali tudo é verde! Apenas o céu, de dia clarificado por um Sol amarelado e risonho e de noite escurecido mas cravejado de uma infinidade imensa de estrelas, permanece, na sua essência, azul, muito azul, como se fosse um enorme manto protector de toda aquela aguarela monumental e sublime. Do mar sopra apenas e tão-somente uma brisa suave e fluente que se enrola e aconchega nos beirais das casas, penetrando por frestas e janelas como que a purificar e a fortalecer a esperança e o destino.

Mas não se ficou por aqui a douta e imensa generosidade dos deuses. É que também dotaram aquele extremo mais oriental das nove ilhas açorianas com paisagens naturais raras e extremamente belas, com vistas deslumbrantes e terrivelmente inesquecíveis como os miradouros da Ponta do Sossego, da Ponta da Madrugada, da Vistas dos Barcos, do Pico Longo, fortificaram-no com serras e montanhas alcantiladas de uma medonha excentricidade, como o Pico da Vara, a Serra da Tronqueira, estacaram-lhe as arribas e falésias com promontórios como a Ponta do Arnel, a da Achada, a de S. Pedro e a da Madrugada, encravaram-lhe ali bem no meio a Cascata da Ribeira dos Caldeirões e rasgaram-no com muitas outras ribeiras e grotões que serpenteiam e deslizam por ali, forçando as estradas a vertiginosos traçados curvilíneos, por entre uma vegetação luxuriante, alguma endémica e outra indígena, sob a tímida mas consoladora protecção do priolo.

E como se isto não bastasse os deuses ainda na sua desconhecida mas eficiente tarefa de criação, traçaram ou melhor permitiram que se traçasse por ali, nos contrafortes da Assomada, entre campos repletos de fresca alfombra e sulcados por pequenas ribeiras onde sussurra o murmúrio sibilante das águas, uma rua. Nessa rua há uma casa, apenas uma casa. A rua é erma mas singela e simples e a casa é de um basalto negro, tingido de branco onde sobressaem manchas de lava escura e onde foram rasgadas frestas e janelas por onde penetram a claridade do Sol, a brancura da Lua, o canto dos pássaros, o colorido das flores e o sabor adocicado das ervas perfumadas que a rodeiam.

Mas o mais interessante é que do interior da casa, mesmo quando a aguarela se tinge de um verde mais esbatido ou o priolo afrouxa e roufenha o seu canto, emerge uma enorme torrente de ternura e carinho e irrompe, continuamente, um gigantesco caudal de hospitalidade.

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publicado por picodavigia2 às 22:28





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