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A SEXTA-FEIRA SANTA E A TRADIÇÃO DA SOPA DE FUNCHO, NA FAJÃ GRANDE, NA DÉCADA DE CINQUENTA

Sexta-feira, 25.03.16

Na década de cinquenta, na Fajã Grande, ilha das Flores, a Sexta-Feira Santa era um dia de recolhimento, de luto e de grande respeito por nele se comemorar a morte de Jesus. Desde da tarde da quinta-feira, ainda antes de se iniciar a celebração da missa in Cena Domini e do Lava-pés, até à noite de sábado e da celebração da Vigília Pascal, o toque dos sinos e das campainhas, na igreja, era totalmente interdito. Durante esse tempo, todo e qualquer sinal de índole litúrgica, necessário a chamar a atenção e concentração dos fiéis num momento mais solene de qualquer celebração litúrgica ou destinado a anunciar e a chamá-los para qualquer ato religiosa, assim como os toques do meio-dia e das trindades eram substituídos pelo roufenho som da matraca. As imagens dos santos permaneciam retiradas dos altares ou cobertas com panos negros ou roxos, desde o Domingo da Paixão, na altura celebrado liturgicamente quinze dias antes da Páscoa.

A matraca era um instrumento construído em madeira, formado por três tábuas pregadas umas nas outras e com um suporte manual na parte superior, como se de uma pequena caixa se tratasse. Na parte exterior das tábuas estavam cravadas várias argolas de ferro, semelhantes a batentes de portas, que se soltavam batendo em conjunto e de forma violenta e agressiva na madeira, logo que a dita cuja fosse abanada com alguma força e agilidade, produzindo assim um som batido, matracado, estranho e esquisito.

Durante esse dia, o único do ano em que não havia missa, a maioria do povo não trabalhava e à tarde muitas pessoas seguiam em romaria até à Fajãzinha para assistir às endoenças, celebradas às três horas da tarde, na Igreja Matriz daquela freguesia. Para além de três padres, as cerimónias, que recordavam e celebravam a Paixão e Morte de Nosso Senhor, exigiam alfaias litúrgicas diversas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Os celebrantes deviam paramentar-se de capa de asperges, casula e dalmáticas roxas que eram mudadas na quarta e última parte da cerimónia por iguais paramentos, mas de cor preta. Presidiam a estas cerimónias para além do pároco da Fajãzinha, Padre António Joaquim, o padre Pimentel e o padre Mota, párocos da Fajã e do Lajedo respetivamente.

Na Fajã as cerimónias litúrgicas resumiam-se, ao cair da noite, à procissão do Enterro ou do Senhor Morto. A igreja permanecia totalmente escurecida, não havia Santíssimo e era retirada a imagem de Cristo com os braços articulados, de um crucifixo muito grande que existia no altar da Senhora do Rosário e colocada dentro de um esquife debaixo do altar-mor, a simular o sepulcro e de onde fora retirado o frontal. A imagem da Senhora da Soledade, habitualmente nua e escondida numa arrecadação atrás do altar, era vestida e colocada num andor. A procissão percorria a rua Direita com as duas imagens e era, simplesmente acompanhada pelo toque, sincronizado, da matraca. Depois de recolher à igreja, a procissão terminava com o sermão do Enterro.

Uma outra tradição mantida neste dia, relativamente à alimentação, para além de se guardar jejum e abstinência, era a de se comer Sopa de Funcho. O funcho que, na Fajã Grande, proliferava e florescia nas encostas entre os canaviais, nas bordas das canadas e em cima dos maroiços, na Sexta-Feira Santa, era ou parecia ser mais doce do que habitualmente. O motivo desta suposta e adocicada alteração do sabor daquela planta aromática era de carácter, eminentemente, religioso e estava relacionado com os mistérios da Paixão e Morte do Redentor. Segundo uma antiga lenda, muito provavelmente baseada nos Evangelhos Apócrifos, quando Nossa Senhora seguia a caminho do Calvário a acompanhar o sofrimento do seu Filho, como que para aliviar a sua dor, distraidamente ia apanhando e mascando folhas de funcho. Em homenagem à dor e ao sofrimento da Virgem Maria, a planta passou, todos os anos, como que a tornar-se mais doce, naquele dia.

Ora, sendo a Sexta-Feira Santa um dia consagrado ao jejum e à abstinência, o cardápio habitual e tradicional desse dia, na Fajã Grande, resumia-se a uma sopa cujo ingrediente principal era o funcho. Era a tradicional Sopa de Funcho.

A tradição da Sopa de Funcho, na Sexta-Feira Santa, era, por quase todos, respeitada. Bastava apanhar aqui ou acolá uma mancheia de funcho, escolhendo-se as partes mais verdes e mais tenrinhas. Feito o caldo com água, cebola, alho, uma colher de banha de porco e uns pedacinhos de batata, juntava-se, simplesmente, o funcho finamente picado, como se de couve ou de outra hortaliça se tratasse.

Em muitas casas, sobretudo nas mais pobres, esta sopa era feita em muitos outros dias, na altura em que havia funcho fresco. Apesar de nesses dias se juntar à Sopa do Funcho uma talhadinha de toucinho, a qual lhe dava um gostinho muito saboroso e apetecível, ela nunca tinha aquele sabor místico e adocicado da Sopa de Funcho da Sexta-Feira Santa.

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BORDÕES DE SÃO JOSÈ

Segunda-feira, 21.03.16

As açucenas são plantas pertencentes à família das liliáceas. Cuida-se que serão originárias do mediterrâneo mas atualmente desenvolvem-se e florescem, sobretudo, em várias regiões quer da Europa quer da Ásia.

Trata-se de uma planta que possui um bolbo de grandes proporções. As suas folhas são alongadas ou lanceoladas e possui interessantes flores que se apresentam sob a forma de ramos ou cacho. A sua forma assemelha-se a uma espécie de trompeta. A floração da açucena dá-se no fim da primavera e no início do verão e o seu uso é sobretudo decorativo. Uma vez que a sua cor predominante é a branca e a sua simplicidade e beleza são notáveis a açucena é considerada o símbolo da pureza, sendo muito usada nos ramos de noiva. O seu cheiro é muito agradável pelo que a açucena também é utilizada no fabrico de perfumes. Há, no entanto açucenas, vermelhas, rosas, salmão e de outras cores.

O significado da açucena relaciona-se diretamente com o coração, com a inocência do espírito e da pureza, no caso da branca. Além disso também expressa o amor puro e delicado já que o pudor e a elegância acompanham o significado desta flor.

São conhecidas cerca de cinquenta espécies de açucenas e são muito populares, porque são fáceis de cultivar, e têm uma adaptação muito fácil ao clima, adaptando-se mesmo em espaços pequenos ou em vasos.

Na Fajã Grande. Freguesia cujo padroeiro é São José, a espécie de açucena ali cultivada era a branca, sendo as açucenas que por ali floresciam designadas, popularmente, por Bordões de São José, uma vez que quer as imagens quer as pagelas que representavam o santo, geralmente, mostravam uma vara de açucena florida que lhe servia de bordão a significar não apenas a altivez, a elegância, a graça e a dignidade do pai adotivo de Jesus mas sobretudo a sua pureza, divulgados num interessante poema divulgado nos livros escolares: Sou de prata, sou de neve, batizei-me em Nazaré, Fui bordão de um carpinteiro chamado José.

Na mitologia grega a açucena também representava altivez, elegância e graça e estava associada ao deus Apolo, que era muito conhecido pelo seu orgulho.

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A PIA DA ÁGUA BENTA

Quarta-feira, 12.08.15

A Pia de Água Benta era uma espécie de pequena bacia semi circular, feita de mármore ou material similar, encastoada na parde,  existente logo após a entrada da igreja, a seguir ao amplo guarda vento. Na igreja da Fajã existiam duas, uma de cada lado do guarda vento que era servido por duas portas. No entanto, como a porta de uso corrente e habitual era a da direita de quem entrava, ou seja do lado da epístola, era praticamente e apenas esta que era usada por quem entrava no templo e pretendia purificar-se com um pouco de água lustral. Para tal metia a ponta dos dedos na pia, molhava-as na água e a seguir benzia-se. Essa a razão pela qual o sacristão ou as mulheres que aos sábados cuidadavam da limpeza e ornamentação do templo deviam manter a pia sempre com água benta, abastecendo-a com a regularidade necessária. Além disso, por vezes a água esgotava-se rapidamente, dado que algumas pessoas gostavam de lá encher um frasquinho  a fim de levá-a para casa, por vezes, com fins pouco católicos e ortodoxos. Mas a Pia  da Água Benta tinha uma outra função importante. Na parte superior e do lado da parede em que se encastoava, a pia tinha um pequeno tampão de madeira onde se colocavam, geralmente muito bem arrumadinhos, uma série de pequenos objectos: pentes, ganchos de cabelo, terços, medalhinhas, canivete com o ferro enferrujado, aneis, pulseiras, etc. Eram objectos perdidos por alguém e que as pessoas ao encontrá-los, ali os colocavam para que o verdadeiro dono, ao entrar na igreja e ao meter a mão na pia, visse o objecto que perdera e assim o recuperasse, o que diga-se em abono de verdade, nem sempre acontecia. Foi o que aconteceu com mestre Eduardo, um tio da Marquinhas de São João que, depois de muitos anos emigrado na Califórnia regressou à Fajã. Saíra das Flores ainda criança e nunca mais voltara à sua terra natal, desconhecendo por completo pessoas, usos e costumes. Alguns dias após a sua chegada, ao passar em frente à igreja paroquial, decidiu entrar, com a denodada e exclusiva intenção de ver e conhecer o templo. Ao transpor a porta do guarda-vento, reparou, para espanto seu, que por cima da pia da água benta havia uma minúscula prateleira onde estavam colocado os tais objetos. Admirado com aquela panóplia e na tentativa de descortinar a razão por que estavam ali, dirigiu-se à Tia Cristóvão, que, como habitualmente, permanecia horas a fio no templo, em oração, no intuito de descortinar o que aquilo significava. Ela, pacientemente, explicou-lhe tudo bem direitinho e Eduardo achou aquilo muito interessante. Era na realidade uma magnífica estratégia, nunca imaginada pelos americanos, para, com a colaboração de Deus, “devolver a César o que é de César”. Nem na Califórnia e possivelmente em nenhum outro estado americano se havia algum dia projetado ou posto em prática tão simples e inovadora forma de restituir a cada um o que, por direito próprio, lhe pertencia. Encantado com aquela originalidade que engrandecia a admiração que começava a ter pela simplicidade e honestidade das gentes das ilhas, vai disto e, para testar o sistema, tira do bolso interior do seu casaco uma caneta de tinta permanente, novinha em folha, colocando-a na dita prateleira, no meio dos outros objetos. Saiu do templo e foi dar um passeio até ao Porto. Ao regressar a casa, algum tempo depois, voltou a entrar na igreja, não para meter a mão na água lustral mas para reaver a sua bela caneta. Qual não foi o seu espanto ao verificar que lá ainda estavam os outros objetos, mas a sua caneta tinham desaparecido, tinha sido dali retirada por alguém que não o legítimo dono. Admiradíssimo e furibundo foi ter com a Tia Cristóvão, recriminando-a por o ter enganado. Ela emudeceu sem saber o que lhe dizer.

Consta que a Pia de Água Bemta parece ter tido a sua origem na Roma imperial onde nas entradas dos templos do paganismo e nos átrios das casas romanas, havia grandes recipientes de água, para os sacerdotes se purificarem antes dos sacrifícios ou. No caso das moradias para os hóspedes se lavarem à chegada.

Atualmente e em substituição das pias tradicionais que se consideram pouco higiénicas, uma vez que todos, indescriminadamente, metem as mãos lá dentro, um italiano inventou um Dispensador de Água Benta Personalizado, que apenas liberta uma gota de cada vez, semelhante às torneiras dos WC públicos, munidas de sensor. Assim a água benta só é libertada, quando alguém coloca a mão debaixo da respectiva saída. Desta forma, diminui-se significativamente o risco para a Higiene e Saúde em geral. Sobre estes substitutos das tradicionais pias, obviamente que não haverá lugar para colocar objetos perdidos e, assim, a Pia de Água Benta, regressa exclusivamente à sua função pura e original de purificar os que procuram a sua água.

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A CASA DO PURGATÓRIO

Sexta-feira, 09.05.14

Segundo testemunhos de pessoas mais antigas, na Fajã Grande, no início do século XX ainda existiria a chamada Casa do Purgatório. Esta casa, com o objectivo principal de angariar fundos que revertessem em favor das benditas almas do Purgatório, situava-se na Rua Direita, frente à casa do Espírito Santo de Baixo, num edifício que na década de cinquenta era o palheiro do gado e casa de arrumos do Josezinho Fragueiro e que actualmente é o restaurante Costa Ocidental.

A casa destinava-se a recolher milho, batatas e outros produtos agrícolas oferecidos pela população e que se destinavam a sufragar as almas dos seus antepassados falecidos. Depois de recolhidos, os produtos eram vendidos e o dinheiro entregue ao vigário para celebrar missas por todos os defuntos da freguesia. Ali também, muito provavelmente seria recolhido o milho que era oferecido no dia um de Novembro. A crença de que as almas estavam a penar no Purgatório era muito grande, pelo que houve sempre, na freguesia, uma recolha de géneros destinados a sufragar as suas almas. As línguas dos porcos eram leiloadas com a mesma intenção e muitas pessoas faziam promessas que consistiam percorrer todas as casas da freguesia a pedir para as almas, embora, neste caso, muitas donas de casa simplesmente oferecessem um Padre-Nosso e uma Ave-Maria.

A casa do Purgatório, assim como a administração dos bens recolhidos eram administrados por um mordomo o mordomo das almas, cargo que, nas décadas de quarenta e cinquenta, chegou a ser exercido por uma mulher. Ti José Caetano foi mordomo das almas durante muitos anos, no início do século XX. Sucedeu-lhe, Joaquina Fagundes, até ao final da década de cinquenta, altura em que o mordomo foi o Urbano Fagundes e, mais tarde o Teodósio. Durante o mês de Novembro celebrava-se todos os dias uma novena das almas, durante a qual eram rezados responsos por todos mortos da freguesia.

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APELIDOS USADOS NA FAJÃ GRANDE NOS SÉCULOS XVIII E XIX

Terça-feira, 14.01.14

AÇO, João Rodrigues           

ANINA*,  António José de Freitas

BALAIO*, José Coelho       

BARRICAS, Manuel Valadão

BATOCO*, António de Freitas

BONECO, Manuel Rodrigues

BORREGO, Manuel Joaquim

BOSECA, Maria de Freitas

BOTACO, António de Freitas

CABEÇA, Manuel Freitas (Ponta)

CAIXEIRA*, Ana de Freitas

CAIXEIRO*, João de Freitas

CALISTRA, Francisco de Fraga*

CALSSADO, António Rodrigues (Ponta)

CAMARÃO, António George

CAMARINHO, António George

CAPÃO, José Inácio (Quada)

CAPITÃOZINHO, Manuel Caetano

CASCADO, Manuel Lourenço (Ponta)

CAVALA*, Manuel Freitas

CAZADINHO, António de Freitas

CHABAÇO, António Fraga (Ponta)

CHABOCO, Manuel Fraga (Ponta),

COELHINHO*, José

CUELHEIRO, Joseph de Freitas

DESALMADO*, António Caetano

ENRILHADO, Caetano Pimentel

FANFARRÃO, João Coelho

FANHA, António Coelho

FARELO, António Coelho

FENA, Francisco Valadão

FERREIRO, José de Freitas

FOINHA, António Coelho

GALHA, Francisco Fraga

GALO, José António

GATO*, José Fraga

GRANDE, Manuel Rodrigues

LAGOS, António de Freitas

LARÉ, Maria

MAGRO, João de Fraga

MANGAS, Domingos de Freitas

MIL HOMENS, João de Freitas

MOURATO, Francisco

PADRE*, Manuel Rodrigues

PADRE*, Manuel Rodrigues (Ponta)

PANÃO, António Rodrigues

PANOA, Bárbara Pimentel

PASTORA, Maria Pimentel

PATO, Francisco Freitas

PEDASSO, Francisco Furtado (Ponta)

PEIXE, António de Freitas

PEIXINHO, Francisco

PENEIREIRA, Catarina de Freitas

PENEIREIRO, Manuel de Freitas (Ponta)

PEQUENO, Francisco Freitas (Ponta)

PINGELHO, Francisco Valadão

PINTADA, Maria

PINTADO, João Furtado

PREGUISSA, Isabel (Ponta)

PREZO, Manuel de Freitas

RATA, Margarida de Freitas

RATINHO, João Pimentel

RATO, João Pimentel

REI, António de Freitas

SACO, Caetano de Freitas

SAILÉ, José de Freitas

SILOQUE, Leonardo José

TAMBOR, Maria Antónia

TORTO, António de Freitas

TRÉ, Manuel Furtado

TURCA, Maria Rosa

XIBANTE, Manuel Inácio

XOCHA, Manuel Furtado

 

Fonte – Gomes, Francisco A. N. Pimentel, A Ilha das Flores (Da Descoberta à actualidade)

NB – Os apelidos indicados com * ainda se utilizavam na década de cinquenta.

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publicado por picodavigia2 às 16:34

CRENDICES FAJÃGRANDENSES

Domingo, 29.12.13

Muitas eram as crenças ou crendices existentes entre a população da Fajã Grande, nos anos cinquenta. Tratava-se, naturalmente, de espécies de sentenças muito antigas, algumas trazidas muito possivelmente pelos primeiros povoadores e que se foram transmitindo de geração em geração. Aqui se recordo algumas, sendo que se trata apenas de meras citações de memória

“Atirar o dente de leite para cima do forno e dizer a oração – Maião, Maião, pega lá o meu dente podre e dá-me um são - tornava os dentes fortes e saudáveis.”

“Colocar o dente de leite, depois de extraído, debaixo do travesseiro, dava sorte.”

“Apontar uma estrela fazia nascer verrugas no dedo que apontasse.”

“Saltar por cima duma criança impedia-a de crescer.”

“As raparigas não deviam comer ovos de duas gemas, pois teriam gémeos.”

“Encontrar ou cruzar com um gato preto, na rua, dava azar.”

“Sol com chuva, casavam-se as viúvas”.

“Uma vassoura atrás da porta espantava as visitas.”

“Quando o arco-íris virasse de pernas para o ar seria o fim do mundo.”

“No ano dois mil acabava o mundo.”

“Não se devia cantar durante a Quaresma.”

“Comer salsa em jejum ajudava a desenvolver a memória.”

“Uma cruz feita em cima da massa do pão, acompanhada da oração – São João t’afermente e Santo Antonho t’acrescente – fazia levedar o pão mais depressa.”

“Sexta-feira 13 era dia de azar.”

“Agosto era mês de desgosto “.

“A língua do porco não se devia comer, devia ser oferecida pelas almas do purgatório”.

“Assobiar à meia-noite chamava o diabo.”

“Atirar sal para o lume espantava o azar.”

“Quem passasse por debaixo do arco-íris tornava-se mula-sem-cabeça.”

“Na Sexta-Feira Santa era bom comer funcho. Nossa Senhora também comera a caminho do Calvário.”

“Passar debaixo duma escada dava má sorte.”

“Quebrar um espelho, dava sete anos de azar.”

“As crianças que se portassem mal seriam assentadas no Boiceiro, uma cadeira com o fundo do assento repleto de pregos virados com o bico para cima.”

“Quem trabalhasse no primeiro dia do ano trabalhava todos os dias.”

“Era pecado cuspir depois de comungar.”

“Assistir à missa, confessar-se e comungar em nove sextas-feiras seguidas era garantia de não se morrer em pecado mortal.”

“Fazer uma cruz de cuspo no peito do pé melhorava o pé dorido.”

“Quando fazia relâmpagos deviam-se esconder ou tapar os espelhos.”

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publicado por picodavigia2 às 19:04

O AEIOU DE OUTROS TEMPOS

Domingo, 29.12.13

Muitos dos nossos antepassados e uma boa parte das pessoas que na nossa infância eram de avançada idade, na Fajã Grande, por alturas dos anos cinquenta, sabiam ler e escrever, sendo que alguns deles até liam em voz alta, com alguma qualidade, acentuado rigor e boa dicção e escreviam, sem erros e com excelente caligrafia. No entanto, a maioria não tinha chegado sequer a fazer o exame final. É que este, na altura, correspondendo à antiga terceira classe e ao actual terceiro ano de escolaridade, só poderia ser realizado em Santa Cruz, a maior e mais importante vila da ilha das Flores, naqueles tempos. Apenas lá existiam as estruturas necessárias e adequada e o júri competente e capaz de presidir e realizar  tão importante acto, confirmativo da qualidade das aprendizagens efectuadas e das competências adquiridas, pelos alunos, nas escolas das suas freguesias. Assim, nas últimas décadas do século XIX, bem como nas primeiras do século passado, estava interdito à maioria das crianças da Fajã Grande, apesar de devidamente preparadas e com a devida capacidade, realizar o exame final. Para além das despesas que implicava uma estadia tão prolongada em Santa Cruz, a pagar comida e cama a uma criança e a um acompanhante adulto, eram quatro dias de trabalho que se perdiam: dois para realizar os exames, um escrito e outro oral e, outros tantos dias, para as viagens de ida e volta. Assim, as crianças ficavam com as competências, com a sabedoria, com as aprendizagens adquiridas, mas sem o exame, o qual, bem vistas as coisas e para a maioria dos pais, até de muito pouco ou de nada servia.

Muitos conhecimentos e muita sabedoria nos transmitiram os nossos antepassados. Não apenas a adquirida nas aprendizagens escolares mas sobretudo aquela que foi aprendida com trabalho, ou seja, aquela que foi adquirida com a experiência ao longo da vida. E foi sobretudo essa sabedoria e esses conhecimentos, que eles nos transmitiram.

Das aprendizagens, ficaram retalhos interessantes como aquela cantilena com que, na primeira classe, aprendiam e decoravam o AEIOU e que tantas vezes, quando éramos crianças, eles nos repetiam:

“A mãezinha leva já. A,

Belo leite com café, E,

P’ra merenda da Lilí, I,

Que está em casa da avó, O,

A Brincar com a Lulu, U.

A E I O U”.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

A CASA DE BARBEARIAS

Domingo, 22.12.13

{#emotions_dlg.star}Na Fajã Grande, nos anos cinquenta, sobretudo nas casas onde havia crianças, faziam-se sempre presépios por altura do Natal. Grandes presépios, bonitos presépios! Presépios com uma gruta que abrigava a Virgem, o Menino e São José, com montes, com rios e lagos, com o palácio de Herodes e com casas, entre as quais havia uma muito especial, localizada num dos cantos do presépio. Era a casa de Barbearias, uma casa pobre, humilde, pequenina e a mais distante da gruta.

Segundo uma lenda muito antiga, que se contava na Fajã Grande, quando Jesus nasceu em Belém, as pessoas da cidade recusaram colaborar com os Seus pais, negando-lhes não só hospedagem mas tudo o mais de que necessitavam. Assim, Maria e José foram forçados a se recolherem e se acomodarem numa gruta que servia de estábulo a dois animais, tendo Jesus nascido precisamente aí. Como não havia berço, a Sua Mãe colocou-O sobre umas palhinhas que estavam na manjedoura e que serviriam para alimento dos animais. José e Maria pouco ou nada tinham para acomodar o Menino. Mas Este, acabadinho de nascer, como todos os recém-nascidos, necessitava de um banho, do seu primeiro banho. Como era Inverno a água estava muito fria, quase gelada e, por isso, São José tinha que fazer uma fogueira e aquecê-la. Simplesmente São José não tinha lume com que ateasse o fogo à lenha. Foi pedi-lo aos vizinhos, mas todos se recusaram a dar-lho. Deambulou de casa em casa, mas todos lhe negaram o lume. Já desanimado, ainda foi bater à porta da última e da mais pobre casa da cidade, onde morava um homem de nome Barbearias e a sua família, tendo sido este a dar-lhe não apenas o lume mas tudo o mais que São José precisava para dar o primeiro banhinho ao seu Filho.

Esta lenda, desconhecida nas outras ilhas e localidades açorianas, nem constando ao que parece nos evangelhos apócrifos, constitui, no entanto um interessante registo da tradição popular da Fajã Grande, onde lendas e mitos, tinham de facto um lugar de relevo constituindo uma cultura popular bastante ampla e deveras interessante. Essa a razão pela qual em todos os presépios construídos na Fajã Grande, se construía e colocava, lá bem escondidinha, num cantinho, uma pequena e humilde casa, a casa de Barbearias, a contrastar com o rico e sumptuoso palácio de Herodes, por tradição, localizado no lado oposto do presépio.

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publicado por picodavigia2 às 11:05

O PAlÀCIO DE HERODES

Sábado, 21.12.13

{#emotions_dlg.fallingstar}Nos grandes e bonitos presépios que se faziam na Fajã Grande, nos anos cinquenta, por altura do Natal, o maior, mais belo e mais sumptuoso edifício que ali se colocava era o Palácio de Herodes, contrastando com a pobre e humilde casa de Barbearias, situada, por tradição, no lado oposto do presépio.

Porém, enquanto Barbearias era uma figura mítica e a sua lenda, ao que parece, era conhecida apenas na Fajã, Herodes era uma figura histórica, referida não apenas pelos evangelistas mas também por cronistas e historiadores, embora, na Fajã Grande, se contassem muitas estórias e lendas a seu respeito, embora, na Fajã Grande, se contassem muitas lendas e estórias acerca dele.

Herodes Antipas era filho de Herodes, o Grande e, após a morte do pai herdou a tetrarquia da Galileia, auto intitulando-se “rei” sem no entanto nunca ser reconhecido como tal, pelos romanos, dado que para estes. Vivendo maritalmente com Herodias, a mulher de seu irmão, fez a vida negra a João Baptista e mais tarde, na mira de matar o Menino Jesus, foi o responsável pela trágica e catastrófica “degola dos inocentes”. Quando Jesus nasceu era que governava a Galileia, uma das quatro divisões romanas da Palestina, a cujos governantes se atribuía a designação de “tetrarca”.

Sendo assim, esta personagem perversa e malina, o tal “cara de burro sem cabresto… que tinha das duas tranças mas não gostava de crianças”, segundo Torga, não podia faltar no presépio e com um maravilhoso palácio, onde abundavam a grandiosidade, a sumptuosidade, o luxo, a riqueza, a depravação e onde reinavam a concupiscência, a intriga, o ódio e a promiscuidade. Feito a partir de uma enorme caixa de papelão, com janelas e varandas recortadas e coladas, com telhado ornado de enfeites, com cortinados de veludo vermelhos por dentro da janela, era colocado distante da gruta, mas em lugar de destaque e por ali haviam de passar, obrigatoriamente, os três reis magos, na sua lenta caminhada, a tentarem obter, junto do facínora, informações sobre o local onde Jesus nascera.

O Evangelista São Marcos, descreve assim uma festa no sumptuoso palácio de Herodes: “Aconteceu então que Herodes, no dia de seu aniversário, deu um banquete a seus nobres, oficiais, e altos dignitários da Galiléia. Durante o banquete dançou a filha de Herodíades, a qual muito agradou a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à donzela: Pede-me o que queres, e to darei. E prometeu em juramento: Dar-te-ei o que quiseres, ainda que seja a metade do meu reino. Ela foi perguntar à sua mãe: Que queres tu que eu peça? Esta respondeu: a cabeça de João Batista. A donzela foi ter com Herodes e lhe respondeu: quero que me entregues numa bandeja a cabeça de João Batista. O rei se entristeceu, mas não quis negar o pedido, visto que o havia jurado na presença de seus convidados. No mesmo instante, ordenou a um verdugo que trouxesse a cabeça de João. Este foi ao cárcere e cortou a cabeça do profeta. Logo, trazendo-a numa bandeja, entregou-a à donzela, e esta foi ofertá-la à sua mãe.”

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publicado por picodavigia2 às 18:11

DIA DOS DEFUNTOS

Sábado, 02.11.13

Na ilha das Flores, como em todo o orbe católico, celebrava-se com um misto de saudade, tradição e religiosidade o dia dois de Novembro, vulgarmente, denominado “Dia dos Defuntos”.

Mas, na Fajã Grande, o culto e devoção das almas, com verdade, envolvia, em desmedida dedicação, toda a freguesia. Nem os mais descrentes se esquivavam de evocar a memória dos falecidos e sufragar as almas dos familiares que já haviam partido deste mundo. Daí que, não apenas o dia dois, mas também todos os outros dias de Novembro tivessem uma forma de celebração religiosa específica e muito peculiar.

Durante o ano eram feitas, na freguesia, duas recolhas ordinárias de ofertas a favor das Almas do Purgatório: em Janeiro, a das línguas do porco e em Novembro, a do milho. No que concerne à oferta das línguas dos porcos, fenómeno estranho e de esconsa clarificação, cada agregado familiar, se assim o entendesse, salgava a língua do seu porco e, algum tempo depois da matança, levava-a para a missa dominical, finda a qual, era arrematada, no adro da igreja, sendo o dinheiro resultante de cada leilão entregue ao mordomo das almas, que o guardava. A recolha do milho, por sua vez, era feita no dia de Todos os Santos. Grupos de homens munidos de cestos ou sacos de serapilheira percorriam as ruas da freguesia e, batendo à porta cada casa, gritavam: “Milho pr’ás almas”. Era, também, um costume ancestral e que tinha como objectivo recolher as ofertas de milho, cujo dinheiro resultante da venda, também era destinado às benditas almas. Esta actividade era devidamente planificada e programada pelo mordomo das almas, que, dias antes, requisitava os homens necessários para fazer o peditório. Convidava também uma grande quantidade de mulheres para, durante e após o peditório, recolher o milho, debulhá-lo e enchê-lo em sacos. O milho, posteriormente, era vendido e esse dinheiro, juntamente com o do leilão das línguas e o de outras ofertas, era entregue, ao pároco. Destinava-se a celebrar missas e rezar os responsos, todos os dias, durante o mês de Novembro, por alma dos defuntos de todas as famílias da freguesia. Além disso, ainda eram feitas, ao longo do ano e por iniciativas individuais, sempre resultantes de promessas, outros peditórios e recolhas extraordinárias de produtos agrícolas que também eram vendidos ou leiloados.

Assim e tendo em conta o dinheiro obtido através de todas estas derramas e ofertas, o pároco calculava o número de missas a celebrar. Depois dividia o número de casas da paróquia por esse número e estabelecia uma espécie de calendário, sendo que, em cada dia do mês, excepto ao domingo, a missa era celebrada por alma dos defuntos de um conjunto de famílias. Este conjunto era determinado, grosso modo, pelo quociente do número de casas a dividir pelo número de missas. Nenhuma casa era excluída, mesmo que tivesse contribuído com pouco ou nem sequer tivesse colaborado na oferta de géneros ou na recolha de donativos.

Na tarde do dia de Todos os Santos, procedia-se à ornamentação e limpeza do cemitério, enfeitando cada família as sepulturas dos seus antepassados. No dia dois, de manhã cedo era celebrada a primeira missa, “Missa in die obito” com paramentos pretos, sendo inicialmente montada a essa no centro do cruzeiro, com seis castiçais ao redor e um tapete negro a cobri-la, como se de um funeral se tratasse. Finda a missa, o pároco trocava a casula preta pela capa de asperges da mesma cor e rezava os responsos dos defuntos. Seguia-se a procissão ao cemitério, durante a qual os sinos “dobravam a finados” e onde, novamente, eram rezados responsos e benzidas as sepulturas. De regresso à igreja eram celebradas mais duas missas, de acordo com as normas litúrgicas então vigentes. As Trindades da noite do dia um e da manhã e noite do dia dois eram acompanhadas do “dobrar a finados”.

Quando nós crianças, ainda indiferentes a tais celebrações, perguntávamos de quem era o enterro ou quem tinha morrido, diziam-nos, os adultos, que era o enterro do “Velho Laranjinho”, figura mítica que representava todos os finados da freguesia. Também era costume, no dia 2 de Novembro, cozer pão e assar abóboras no forno, em louvor das almas do purgatório, mas o forno deveria ser apagado sempre antes do toque das Trindades, caso contrário, dizia-se, as almas dos nossos antepassados continuariam a ser queimadas pelo “santo fogo” do Purgatório.

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OS GATINHOS DE LAIAS

Terça-feira, 01.10.13

Seriam muito poucas as casas da Fajã que, outrora, não tinham como enfeite, geralmente em cima de uma cadeira de vimes ou sobre a mesa da sala, um gatinho de laias, feito com agulhas e com laias ou seja com fios de lã e que geralmente tinha cores muito variadas.

Eram feitos com agulhas semelhantes àquelas com que se faziam as “soeras”, as meias e afins, mas com “pontos” diferentes. Eram extremamente bem elaborados e ainda melhor acabados, da cabeça aos pés, passando pelo corpo e pelas mãos e até tinham olhitos feitos, geralmente, com dois botões pretos, castanhos ou azuis, mas daqueles que vinham em roupas da América e não tinham buracos, mas sim uma espécie de anilha por trás, que os prendesse. Eram feitos de maneira que ao colocá-los sobre a cadeira ou sobre a mesa ficavam muito bem sentadinhos sobre as patas inferiores e tinham sobre estas e presa à barriga uma grande bola feita também com fios de lã. Eram verdes, vermelhos, pretos, brancos, azuis ou de várias cores, conforme as lãs de que dispunha quem os fazia.

Decididamente parecem ter-se perdido no tempo… os gatinhos de “laias”.

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AS ANTIGAS DANÇAS DE CARNAVAL NA FAJÃ GRANDE

Segunda-feira, 26.08.13

Durante toda a década de cinquenta e a prolongar-se mais tarde na de sessenta, o Carnaval, na Fajã Grande, caracterizava-se, para além de diversas tradições, brincadeiras e até comezainas, com a realização das chamadas “Danças do Carnaval”, que constituíam de facto como que o epicentro de toda a folia carnavalesca.

Sobre a sua origem pouco se sabe. Apenas que eram muito antigas e, obviamente, anteriores aos anos cinquenta, julgando-se que, assim como as da ilha Terceira, deviam remontar aos séculos XVI e XVII, dado que as suas características nomeadamente no que concerne aos textos e roupas, se inseriam numa temática de mar, navegação, batalhas e aventura, muito semelhante à daquela ilha. Por isso é muito provável até que tenham sido introduzidas nas Flores, por alguns terceirenses que ali foram fixando residência ao longo dos tempos. Na Fajã, por exemplo, nos anos sessenta, quando pareciam já estar esquecidas, um dos grandes impulsionadores e responsáveis pelo seu reaparecimento foi o terceirense Manuel Linhares, que ali havia fixado residência.

As “Danças do Carnaval” da Fajã Grande eram interessantíssimas e, para além da dança e da música, tinham uma coreografia própria, uma autêntica teia teatral, num emaranhado de arcos, cores, espadas, movimentos e sons, misturados com o dançar ou marchar dos pares constituintes do elenco e que ao longo da actuação iam trocando de posições, cruzando espadas ou passando por baixo dos arcos uns dos outros, sempre sobre as ordens do mestre e os olhares do contra mestre. Eram constituídas por duas alas onde participavam exclusivamente homens, numa das alas uns com trajes masculinos e e na outra com femininos, comandados pelo um mestre com apito e espada. O textos eram declamados ou cantados e acompanhados por um grupo de tocadores de instrumentos de corda e tinham como conteúdo uma espécie de enredo que abordava os mais diversos assuntos, indo do dramático ao cómico e jocoso, ou a lutas e batalhas e até amores infiéis, de que são exemplo os seguintes versos cantados numa das últimas marchas realizadas na Fajã Grande, já na década de sessenta, em que o Mestre e ensaiador era o terceirense Manuel Linhares e o contra mestre o Ângelo de João Augusto:

Mestre: “Sou mestre desta dança,/Tenho licença pra falar/Minha espada triunfante/Tem direito a dominar.” Ao que o contra mestre respondia: “Se o domínio fosse teu,/Dominavas à vontade,/Como é teu também é meu./Ambos temos liberdade.” O Mestre prosseguia: “Liberdade, liberdade,/Quem na tem chama-lhe sua,/Tu só tens a liberdade/De ver o Sol e ver a Lua.” Contra mestre: “Vejo o Sol e vejo a Lua,/Parentes que os não há iguais./Vejo a linda esposa tua,/Que me agrada muito mais.”

As danças de Entrudo eram geralmente executadas ao ar livre. Exigiam, da parte dos participantes e seus familiares um longo trabalho de preparação, não só de ensaio mas também de arranjo e elaboração das roupas e dos adereços usados, que incluíam lantejoulas, missangas, plumas, fitas prateados ou douradas e tecidos brilhantes, vindos em encomendas da América. Os textos eram geralmente arranjados pelo próprio mestre que tinha também a responsabilidade de orientar os ensaios e durante a actuação fazer a abertura e o final e ser o “puxador do enredo”.

Tudo começava com o formar do grupo constituído pelo ensaiador que geralmente ocupava o lugar de mestre, pelo contramestre e por um bom número variável de pares. As roupas ou fardamentos deviam ser todas a condizer umas com as outras, assim como os arcos que cada par utilizava durante a dança. Um dos primeiros ensaiadores no início dos anos cinquenta foi o Cabral. Seguiu-se o Tobias, entre outros e, bastante mais tarde, o terceirense Manuel Linhares.

As danças, na Fajã, tinham geralmente um casal de “velhos”, devidamente mascarados que enquanto se efectuava a dança, faziam palhaçadas junto dos espectadores, metiam-se com as raparigas e os rapazes e assustavam os mais pequenos.

Para além das danças ensaiadas na própria freguesia, por vezes vinham visitar e actuar na Fajã Grande muitas outras danças, oriundas da Fajãzinha, da Lomba e até de Santa Cruz.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:08

A MATRACA

Domingo, 11.08.13

Nos antigos rituais litúrgicos de Sexta-Feira Santa, anteriores às reformas conciliares da década de sessenta, o toque de sinos e campainhas era totalmente interdito nas igrejas, desde a noite de Quinta-Feira Santa, logo após a celebração da missa in “Cena Domini” até à meia noite de Sábado de Aleluia. Durante esse tempo, todo e qualquer toque de índole litúrgica, necessário a chamar a atenção e concentração dos fiéis num momento mais solene de qualquer celebração litúrgica ou destinado a despertá-los e chamá-los para qualquer acto religiosa, era substituído pelo toque da matraca.

A matraca era um instrumento construído em madeira, formado por três tábuas pregadas umas nas outras e com um suporte manual na parte superior, como se de uma pequena caixa se tratasse. Na parte exterior das tábuas estavam cravadas várias argolas de ferro que se soltavam batendo em conjunto e de forma violenta e agressiva na madeira, logo que a dita cuja fosse abanada com alguma força e agilidade, produzindo assim um som barulhento, matracado, estranho e esquisito.

Na Fajã, atrás do altar mor e pendurada num prego da parede, havia uma matraca que era utilizada na Sexta Feira Santa, na procissão do Senhor Morto, única cerimónia realizada na freguesia naquele dia, uma vez que as “endoenças” eram celebradas às três horas da tarde, na igreja Matriz da Fajãzinha, às quais, no entanto, assistiam muitas pessoas da Fajã, que para aquela freguesia vizinha se deslocavam com tal intuito. As cerimónias das “endoenças”, na Fajãzinha, eram muito concorridas, exigiam três padres, alfaias litúrgicas adequadas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Daí que a matraca da Fajã fosse utilizada apenas na Sexta-Feira Santa, à noite, na procissão do Enterro ou do Senhor Morto, assim como no toque das Trindades dos três dias que constituíam o chamado Tríduo Pascal.

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publicado por picodavigia2 às 21:17

UMA NOITE MÁGICA

Segunda-feira, 24.06.13

Acredita-se, hoje, que as tradicionais e populares festas em honra de S. João terão tido, muito provavelmente, a sua origem nas chamadas festas juninas, de origem pagã e relacionadas com a celebração do solstício do Verão, que se crê terão tido a sua origem no Norte da Europa, onde naturalmente a chegada do Estio era muito desejada e, consequentemente, efusivamente festejada. Depressa, no entanto, essas celebrações se foram alastrando por outras regiões e latitudes, sendo mais tarde, já em plena Idade Média, cristianizadas como festas em homenagem a S. João, permanecendo, no entanto, eivados de costumes interessantes e estranhos e de tradições muito antigas, que permaneceram enraizados naquelas festas e que foram sendo enriquecidos com outros costumes, tradições e até lendas da Igreja Católica. É o caso das fogueiras que se acendem por toda a parte, nesta noite e a que a Fajã Grande, dos anos cinquenta e da minha meninice, não era alheia.

Segundo uma lenda católica, este antigo costume de acender fogueiras na noite de S. João tem as suas raízes num acordo feito entre as primas Maria e Isabel. Para avisar Maria, de que o nascimento de São João Baptista se aproximava e ter a sua ajuda após o parto, Isabel terá acendido uma fogueira sobre um monte. Segundo outras fontes, as fogueiras já seriam acesas, em tempos anteriores, sobretudo nos países nórdicos, a fim de darem, no início do Estio, uma ajuda simbólica ao Sol, a fim de que este se fortalecesse e transmitisse sua força vital ao planeta Terra. Também se pensa que as fogueiras teriam, inicialmente, como objectivo afastar os seres místicos, como as bruxas e outras forças do mal, naquela importante noite de Verão, pois acreditava-se que, durante a mesma, tais seres vagavam ainda mais, obstruir os tempos menos escuros que se seguiriam.

Na Fajã Grande, na véspera de São João, acartávamos molhos e molhos de loureiro, bem verde, a que juntávamos ramos de tamujo, para que, ao arder, o lume estalejasse melhor. Não havia casa com crianças que, em frente à porta da cozinha, não acendesse a sua fogueira, a qual se ia activando e saltando ao longo da noite.

Para além das fogueiras, da magia das suas labaredas, do estalejar das folhas verdes do loureiro e do tamujo e do vermelho do brasido final, a noite também era mágica porque outros costumes e tradições se cumpriam e encenavam. Um deles era o da clara do ovo: à meia-noite partia-se um ovo e deitava-se a clara num copo com água, deixando-o assim, na rua, ao relento, até de manhã, preferencialmente, entre verduras. O fresco da noite e o sereno provocavam na clara formas de objectos diversos que, seguramente, davam pistas de como seria o destino futuro de quem a colocara. Quem não se sentisse seguro sobre o amor, colocava num prato um pouco de água e dentro ele deixava cair duas agulhas, que assim permaneciam durante a noite. Se estas, de manhã, aparecessem juntas na água era sinal de que o ser amado era fiel e também amava a pessoaem causa. Se, ao contrário, as agulhas se separassem, era sinal de infidelidade e de que o amor não era correspondido. Outro costume era o de colocar debaixo do travesseiro três grãos de favas: uma, toda descascada, outra, com meia casca e a terceira com a casca toda. De manhã, tirava-se uma das favas, de repente. A que tirássemos dir-nos-ia, se seríamos pobres, remediados ou ricos. As pessoas solteiras que colhessem sete flores de tipos diferentes e as colocassem debaixo do travesseiro teriam a possibilidade de sonhar com a pessoa com quem se casariam. Por sua vez, torrar favas era um hábito muito comum, no dia seguinte, assim como bordejar no mar e a cantar. Por isso neste dia se davam muitos passeios, de barco, no mar

Também se dizia que as fontes, nessa noite, jorravam vinho. Quem, à meia-noite em ponto, procurasse uma bica para beber água, seria surpreendido pois esta era substituída por um bom vinho. Mas pelos vistos nunca ninguém o conseguiu, pois era impossível colocar a boca na bica, à meia-noite, com rigor absoluto, em tempos em que os relógios rareavam

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publicado por picodavigia2 às 23:46

SOPA DE FUNCHO

Quinta-feira, 13.06.13

O funcho que proliferava e florescia nas bordas das canadas e em cima dos maroiços da Fajã, na Sexta-Feira Santa, era ou parecia ser mais doce do que habitualmente. O motivo desta suposta alteração do sabor daquela planta aromática era de carácter, eminentemente, religioso e estava relacionado com os mistérios da Paixão e Morte do Redentor, comemorados naquele dia. Segundo a tradição, muito provavelmente baseada nos Evangelhos Apócrifos, quando Nossa Senhora seguia a caminho do Calvário a acompanhar o sofrimento do seu Filho, como que para aliviar a sua dor, ia apanhando e mascando folhas de funcho. Em homenagem à dor e ao sofrimento da Virgem Maria, a planta passou, todos os anos, como que a tornar-se mais doce, naquele dia.

Ora, sendo a Sexta-Feira Santa um dia consagrado ao jejum e à abstinência, o cardápio habitual e tradicional desse dia, na Fajã Grande, resumia-se a uma sopa cujo ingrediente principal era o funcho. Era a tradicional Sopa de Funcho.

À tarde muitas pessoas seguiam em romaria até à Fajãzinha para assistir às endoenças, celebradas às três horas da tarde, na Igreja Matriz local. Para além de três padres, as cerimónias exigiam alfaias litúrgicas diversas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Os celebrantes deviam paramentar-se de capa de asperges, casula e dalmáticas roxas que eram mudadas na quarta e última parte por iguais paramentos, mas de cor preta. Na Fajã as cerimónias resumiam-se, ao cair da noite, à procissão do Enterro ou do Senhor Morto. Era retirada a imagem de Cristo com os braços articulados, de um crucifixo muito grande que existia no altar da Senhora do Rosário e colocado dentro de um esquife debaixo do altar-mor, donde fora retirado o frontal. A imagem da Senhora da Soledade era vestida e colocada num andor. A procissão percorria a rua Direita com as duas imagens, finda a qual se seguia o sermão e o beija-pé do Senhor Morto. Era proibido o toque de sinos e campainhas, que eram substituídos pelo bater duma matraca, um pequeno instrumento construído com três tábuas de madeira a que estavam presas argolas de ferro e que, quando agitada, fazia um barulho estranho e esquisito.

A tradição da Sopa de Funcho, na Sexta-Feira Santa era, por todos, respeitada. Bastava apanhar aqui ou acolá, escolhendo-se as partes mais verdes e tenrinhas. Feito o caldo com água, cebola, alho, uma colher de banha de porco e uns pedacinhos de batata, juntava-se, simplesmente, o funcho finamente picado, como se de couve ou de outra hortaliça se tratasse.

Em muitas casas, porém, esta sopa era feita em muitos outros dias, na altura em que havia funcho fresco. Apesar de nesses dias se juntar à Sopa do Funcho uma talhadinha de toucinho, a que tinha o gosto mais saboroso e apetecível, era a feita em Sexta-Feira Santa.

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publicado por picodavigia2 às 13:45

PAPÃO FEIO

Quarta-feira, 12.06.13

Em criança, todos nós, de forma mais ou menos inconsciente, fizemos as nossas “asneirasitas”, manifestámos algumas birras, chorámos quando devíamos estar caladinhos, enchíamo-nos dos pés à cabeça de sarampo e bexigas loucas, apanhávamos defluxo, mexíamos no que não devíamos, surripiávamos, às escondidas, uma colherzita de açúcar, atirávamos o gato para o curral das galinhas, dizíamos nomes feios e “entregávamos”, enfim e numa palavra, metíamos o nariz onde não éramos chamados.

Os nossos pais, para nos castigar e corrigir daquelas pequeninas malícias, as quais, mais do que os prejudicar, lhe dificultavam e obstruíam as inúmeras e árduas tarefas do seu quotidiano agrícola e, sobretudo, doméstico, lá foram criando alguns monstros supostamente idealizados para nos amedrontar. Entre eles o Papão Feio, o Coiso-Mau, o Boiceiro e tantos outros.

E não é que as ameaças, muito naturalmente, ultrapassavam os efeitos desejados e o medo apoderava-se de nós, inocentes e frágeis criancinhas, a ponto de nos aterrorizarem e até, por vezes, nos tirarem o sono?

Talvez porque exagerassem nos arquétipos concebidos, talvez porque se arrependessem de os ter criado, os nossos antepassados tentaram afastá-los. Já era tarde, mas em boa hora o fizeram, porque assim nasceram algumas belas canções que as nossas mães cantavam sobre o nosso berço, enquanto esperavam que o leite colocado em cima do tisnadíssimo fogão de vidro do candeeiro a petróleo amornasse para depois o meter numa garrafa, já vazia, de xarope de benzo-diacol, colocando-lhe uma mamadeira no lugar da rolha, simulando, assim, os modernos biberões. Uma dessas canções que ouvi tantas vezes cantar sobre o berço de meus irmãos mais novos era precisamente “O Papão Feio”, felizmente já registado em CD, através duma excelente interpretação de Maria Antónia Esteves, baseada numa cuidadosa recolha feita na Fajã Grande, por seu tio, o P.e José Luís de Fraga e cuja letra, a seguir reproduzo:

 

“Vai-te embora papão feio,

De cima do meu telhado.

Deixa dormir o menino,

Um soninho descansado.

 

Vai-te embora papão feio,

De cima desse loureiro,

Deixa dormir o menino,

Que está no sono primeiro. “

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publicado por picodavigia2 às 09:55





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