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TERÇO DO ESPÍRITO SANTO

Terça-feira, 19.05.15

Estalou o foguete! Muitos já haviam chegado. Outros só depois do estoiro. Todos, à medida que iam chegando, entravam e, em pouco tempo, enchiam a sala, onde, num dos cantos, um altar fora armado, sobre o qual estava colocada a coroa de prata, com o cetro engalanado com uma fita branca, ladeada por jarras com flores e castiçais com velas a brilhar. Ao lado do altar, as bandeiras vermelhas, debruadas a amarelo com os símbolos do Paráclito. As mulheres e as crianças apinhavam-se, em filas, ao redor do altar. Postada na primeira, em frente à coroa, Maria Florinda iniciava a reza do terço em louvor do senhor Espírito Santo. Os homens enchiam a cozinha, o corredor e, alguns, por não terem lugar na casa ou por cuidarem que era mais fresco, optavam for ficar no balcão da sala. Outros em frente à porta da cozinha. Ao chegar, tiravam os bonés e benziam-se desajeitadamente. Pouco depois, pedia-se silêncio. As vozes mais finas, mas também mais afinadas das mulheres, iniciavam a cantoria:

- Adoremos com afeto de alma, o Espírito Santo Divino!

Logo as vozes grossas e pouco sincronizadas dos homens e de uma ou outra mulher que chegara mais tarde e não tivera lugar na sala, respondiam:

- Que dos céus desceu sobre nós, ó incêndios de amor divino.

As mulheres insistiam e os homens voltavam a retorquir. Dez vezes com a mesma música e a mesmas invocações. Outras tantas vezes quantas as Ave Marias de cada mistério do Rosário de Nossa Senhora, instituído e pregado por S. Domingos. Ao chegar à décima, a Maria Florinda que ia contando as invocações pelas camândulas de um terço acastanhado, dava sinal de mudança, levantando o braço bem alto para que todos vissem. As mulheres, sobretudo as mais atentas, alteravam, de imediato, a cantoria:

- Glória ao Pai que nos criou, glória ao Filho que nos remiu!

Os homens não se faziam esperar:

- Glória ao Spirito San, que em suas graças nos concebiu! 

Depois, unindo todas as vozes, as da sala, do corredor, da cozinha e dos pátios:

- Fazei ó Santo Espírito, a Deus Pai, Filho, amar. A um só Deus em três pessoas, no Céu pra sempre adorar

E logo continuavam, agora alterando a ordem das invocações. Primeiro o grupo dos mais distantes do altar, dos de cantar tosco e desajeitado, a começarem

No fim do terço, todos juntos iniciavam e cantavam a Salve Rainha. Depois, com profunda intensidade e comoção de voz, cantavam, três vezes: Senhor Deus de Misericórdia/Virgem Mãe de Deus, rogai por nós. A Florinda voltava a assumir a presidência, oferecendo Pai-Nossos sucessivos, que eram rezados por todos: pelos irmãos falecidos e pelas intenções do mordomo. O Terço terminava com o “Oferecimento ao Divino Espírito Santo”, durante o qual cantavam: Ó Senhor Espírito Santo/Nós roguemos com clamor/Mandai oprimir à terra,/Que não haja mais tremores. Sois pai de misericórdia/Livrai-nos de todo o mal/Não castigueis com tremores/Esta ilha de ofendal. Não desprezeis a fé grande/Com que nós recomendamos/Fazei como Pai Divino/Naja que nós o merecemos. Barca onde embarcou Cristo/Na galera tão real/Feita em tão bela hora/Para aquele general. À popa leva sentado/Santo António com seu véu/Que rica viagem de anjos/Leva Jesus para o Céu. Senhor que lá estais em cima/Nesses Céus de alegria/Vos peço que nos chamais/Para a Vossa companhia. Andavas tão vigiado/Sem saberes da partida/Morte de uma ocasião/Vida nova vida. Chega-te à confissão,/Se te queres confessar/ Morte da ocasião/ É o laço do pecado. Mil vezes cada dia/ Tua alma com diligência/ Toma paz e alegria/Que é da boa consciência. Quando Deus formou a terra/Bons e maus Deus os criou/Quando nos Céus se encerram/Só os bons Deus os guardou. Ó Senhor eu vos ofereço/Esta nossa devoção/Seja honra e glória Vossa/Para nossa devoção.”

Terminado todas estas orações o Mordomo, retirando o cetro do interior da coroa, distribuía-o pelos presentes que o passavam de mão em mão. Enquanto se cantava o hino “Alva Pomba”, o cetro passava de mão, a fim de que cada um dos presentes, o osculasse com o maior respeito, dignidade e veneração.

Estavam ali reunidos porque se aproximava a Terça-Feira, o dia da festa do Espírito Santo na Prainha. O Mordomo fora escolhido, no ano anterior, por escortino dos irmãos, para presidir, orientar, organizar, transportar a coroa para a igreja e, por fim, coroar no dia da Festa. Para além de se empenharem em ajudar o mordomo, cada qual havia de cozer o seu açafate de rosquilhas. As mulheres levá-los-iam em cortejo até ao adro, onde as rosquilhas seriam distribuídas por todos. Na verdade, no Pico e de modo muito peculiar, em São Caetano, desde os primórdios do povoamento que o povo, frequentemente, fustigado por crises sísmicas e temporais, implorava o auxílio divino, centrando a sua fé na Terceira Pessoa da Trindade. Em São Caetano, freguesia onde, desde os tempos mais remotos se enraizou uma profunda, convicta e autêntica devoção ao Espirito Santo, as festividades em honra do Paráclito tinham a sua expressão mais visível, por um lado, nas funções realizadas ao longo do ano e, por outro, na festa, celebrada na Terça-feira de Pentecostes. Umas e outras eram antecipadas e preparadas por uma novena, realizada em casa do mordomo, duranta a qual se cantava o terço. A festa, para além da celebração solene da eucaristia incluía um cortejo em que os irmãos transportavam em açafates ornamentados com toalhas com rendas e bordados artesanais, as suas ofertas de pão, sob a forma de rosquilhas, que, à tardinha e após o arraial, seriam distribuídas por todo o povo.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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