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TERRA MALDITA TERRA BENDITA

Domingo, 12.08.18

Não havia dia que o Luís do José Bento não fosse às Águas, mais do que uma vez. Era levar a Moirata à relva, onde florescia a erva já gasta e amarelada, era apanhar os inhames, na parte superior, junto à rocha, era  subir a própria rocha, no corte de lenha para o lume.

Juntamente com a belga do Pico do Areal, as Águas eram o que os pais lhe haviam dado, quando casara e abandonara definitivamente o lar paterno. Era um terra fraquita, junto à rocha, dividida em três partes. A parte mais baixa, que dava para a canada de serventia por um portal de pedra, era a erva, mas uma erva pouco tenra, onde a Moirata passava as noites frescas de verão e os dias chuvosos do inverno, muitas vezes a adivinhar a moita que iria pastar. Mais acima, separada por uma parede baixa e alguns pequenos arbustos, a terra dos inhames, por entre os quais  corriam alguns fios de água vindos das grotas. Na parte superior, e já pelas encostas da rocha, a terra de lenha, onde floresciam faias, incensos, alguns álamos e queirós.

Terra pobre e perigosa! Vezes sem conta, pela rocha rolavam enormes calhaus e ribanceiras que punham em risco as vidas do Luís e da Moirata. Ele, porém, já se habituara:

- É preciso é estar sempre atento. Quando elas caem um home tem que fugir é p’ra cima, p’ra junto da rocha. Se forem pedras não nos apanham... Se for ribanceira, tanto nos apanha longe como perto da rocha.

E lá ia, dia após dia, lamentando a sua sorte e o pouco que os pais lhe haviam dado relativamente ao que possuíam. Fora por isso, por lhe darem somente  aquelas duas nicas, sem valerem quase nada e uma delas debaixo da rocha, que o Luís, a pouco e pouco, deixara de entrar em casa dos pais e já quase nem falava aos irmãos. Não fosse o cerrado do Porto, junto à casa, que a Amparo herdara da mãe e não teria milho, couves e batatas para o seu sustento e dos pequerruchos, que nasciam em catadupa. Vinha aí o quarto!

Casara com a Maria do Amparo. Órfã de mãe desde que nascera, sem conhecer o pai, fora criada em casa dos Fragarias. Os pais torceram o nariz a tal casamento... É que a Maria nada tinha de seu, a não ser o cerrado do Porto com a casa a cair e, além disso, era a filha da Genoveva, uma bendita  que, pelos vistos, nem sabia quem era o pai da filha. A paixão, no entanto, não sem alguns amargos de boca, sobrepusera-se e ultrapassara os interesseiros caprichos paternais.  O Luís, antes de casar, restaurara a casa. A mão de obra era sua e de um ou dois amigos. Mas para comprar a madeira, o cimento e o restante material, teve que vender uma grande parte do cerrado, que muita falta lhe fez

Com a chegada dos filhos a vida tornou-se muito mais difícil e a casa pequena. O leite da Moirata, que a Amparo vinha, todos os dias,  levar ao Martins & Rebelo, agora era quase todo para eles. O milho não chegava... E depois, ainda havia que comprar o açúcar, o café, o sabão, o petróleo... Apenas a roupa dos pequenos chegava da América...

Da América!... A América!... Como será a América? – perguntava o Luís, certo dia, ao Gancho, que há alguns anos para lá partira e agora regressara para vir casar. Sentados no descansadouro do Batel, observavam um enorme e esbranquiçado paquete, que surgira da rocha da Ponta e se encaminhava para trás do Monchique.

- Aquele vai direitinho para a América! Aquilo é que é uma terra..– dizia  o Gancho e, num discurso imponente e convicto, descrevia-lhe, não sem alguma mentira, a terra do Tio Sam.

O Luís ouvia-o mudo e pensativo.

Desde desse dia, porém, que a América não lhe saía da cabeça. O Gancho tinha razão.Alí, na ilha, na Fajã, debaixo daquelas rochas,  naquela terra maldita, era trabalhar, trabalhar, trabalhar, para não ter nada e ver os filhos a chorar de fome. A América sim! Aquilo é uma terra, uma terra para se viver à farta.. É verdade que não se juntam dólares na rua, mas quem trabalha ganha o que quer. O tanso do José do Outeiro, que aqui nem sabia conduzir um carro de bois, já comprou um automóvel; o Augusto Amorim anda a varrer lixo, já comprou duas casa e manda montes de dinheiro aos pais. Ele próprio estava riquíssimo e para lá tinha partido há quatro anos.. e a trabalhar num rancho...

- Num rancho. Isto é que eu queria! – cismava o Luís - Trabalhar num rancho, na Califórnia, com dezenas, talvez centenas de vacas, tirar o leite com mechins, criar bezerros, ter uma vida farta , viver naquela terra bendita – pensava em voz alta.

Certo dia, depois de tanto matutar naquilo, terminando a ceia – um caldo de  couves com  uma talhada de toucinho e um quarto de bolo que a Amparo cozera à pressa, - atirou-lhe decididamente:

- Maria vamos para a América!

- Credo, home! Parece que não estás bom do juízo!

O Luís expôs-lhe, então, com clareza, todo o plano que, durante algum tempo, arquitectara,  ultrapassando, decidida e convictamente, todas as dificuldades e  obstáculos que a Amparo contrapunha, inclusivamente o da falta de dinheiro para a passagem.

- Já falei com meu padrinho. Ele descansou-me e disse-me que tudo se há-de arranjar. Depois temos a Moirata e o bezerro que darão algum, mais a casa e este bocado do cerrado...

A Amparo não se continha:

- A casa?!... Vais vender a casa!?...E depois, se chegamos a S. Miguel e não arranjamos os papéis e temos que voltar para trás?!...

Naquela noite não dormiram, mas, de madrugada, a decisão estava tomada.

 

 

O Carvalho chegou às Lajes já noite escura. Demorara muito no Corvo, pois, trazia um Senhor Secretário de Estado de Salazar, acompanhado de numerosa comitiva, que vinha  inaugurar o novo edifício dos Paços do Concelho. De certo que iria demorar em Santa Cruz e, sobretudo nas Lajes, onde ficaria à espera de Sua Ex.cia, que jantava nas Flores. Os passageiros, no entanto, embarcaram imediatamente. Na última lancha, seguiu o Luís com a Glória num braço e o José Luís noutro, enquanto a Amparo sentava a seu lado a mais velhita,  a Ana e apertava no colo o Augusto, que nascera poucos meses antes. Ao aproximarem-se do velho paquete, a carita de espanto dos miúdos contracenava com as lágrimas da mãe. O vulto negro do Carvalho, onde entraram temerosos e inseguros, estava ali, flutuando sobre as águas calmas do oceano, como um monstro tenebroso e temível, que os engolia sem piedade. No convés e nas torres dezenas de luzes projectavam-se na noite escura e reflectiam-se nas águas mansas e límpidas da baía das Lajes. Do outro lado, a vila e a ilha, distanciando-se cada vez mais...

O navio levantou ferro de madrugada. Viajando em terceira classe, apenas a Amparo e os pequenos tiveram direito a beliche, por condescendência especial do senhor Imediato. O Luís tinha que pernoitar no convés, numa cadeira que apanhasse livre. Como não encontrasse nenhuma, dirigiu-se para a borda do vapor, que, iniciava uma marcha lenta, enquanto, cada vez mais longe, a mancha escura da ilha, delineada pelos reflexos dos faróis das Lajes e do Albarnaz, se ia perdendo no infinito, até desaparecer

Agora só o roncar turbulento das máquinas, o marejar sincronizada do oceano, a incerteza escura da noite. O Luís perdera o sono. Debruçado sobre a borda do navio, observava a ilha cada vez mais longe, mais pequenina e mais perdida na escuridão.

 

Em Ponta Delgada fixaram-se na Rua do Arquinho. Um quarto pequeno, com duas camas. Era caro mas a Amparo podia utilizar a cozinha, o que tornaria a estadia em São Miguel, não se sabia por quanto tempo, mais barata, embora agora tivesse que comprar tudo, até o leite, as batatas e o pão. Além disso o Consulado da América era perto, poderia deslocar-se a pé, sempre que necessitasse.

Os dias,  porém, teimavam em passar sem nada se decidir. No Consulado eram horas e horas de espera para no fim ouvir: - “Volte amanhã. Ainda não chegou nada.” Ao chegar a casa eram os pequenos irrequietos, pegados uns com os outros, era a Amparo aflita, sem pão, sem leite, sem açúcar e, pior do que tudo, sem esperança... Não raras vezes atirava-lhe à cara a precipitação em vender a Moirata, a casa e as terras:

- Eu devia  ter ficado com os pequenos na Fajã e tu vinhas sozinho! Se conseguisses vínhamos ter contigo. Assim o que vai ser de nós? Vamos voltar para trás sem nada, desgraçados!...Lágrimas amargas corriam-lhe pelos olhos, enquanto apertava ao peito o mais pequeno, que se desfazia em acentuado berreiro.

O Luís, já nem a ouvia! Permanecia mudo, apático e indiferente.

Os dias eram passados no pequeno cubículo. A maioria das refeições eram pão e leite, porque esses não podiam faltar aos pequenos. O Luís saía de manhã, ia ao Consulado, trazia o pão e ali ficavam a tarde inteira, pensativos, tristes, misturados no reboliço dos filhos, Numa tarde, em que os três mais novos dormiam e Ana saíra a convite duma filha da dona da casa, a Amparo resvalando dum passageiro  e agora pouco vulgar rescaldo amoroso, timidamente, adiantou:

- Tenho, desde há muito, uma coisa para te dizer e não tenho coragem...

O Luís, assustado e estupefacto levou as mãos à cabeça:

- Vem aí outro?! Não faltava mais nada!

- Credo home!  Vira-me a boca para o lado. Não é nada disso. É que antes de sair da Fajã, fiz uma grande promessa.

- Ora! Todos fazem! Qual foi?

- Um jantar ao Senhor Espírito Santo... do Portal ao Risco!

- Fajazinha, Quada, Fajã e Ponta!?

- Sim, carne e pão em todas as casas.

O Luís emudeceu. Sabes por quanto fica isso Maria? Só a carne é uma fortuna! São precisos quatro bois!.. E temos que o vir dar? E as passagens?

A Amparo não pensara em nada disso. Apenas prometera, quando o vira vender a Moirata, a casa e o cerrado. Só o Senhor Espírito Santo os poderia salvar. Se tudo lhes corresse bem não teriam problemas. Não havia ninguém que fosse para a América sem promessa e não viesse pagá-la.

- Pois – concluía o Luís – mas do Portal ao Risco, não é qualquer um.

E o milagre aconteceu. Finalmente chegou a tão almejada notícia! O Luís entrou no quarto efusivamente, saltando, abraçando a Amparo e esquecendo os filhos que, apáticos, não entendiam a razão de tão grande contentamento. O Luís, aos soluços, num misto de alegria e sofrimento, exclamava:

- Eu sabia! Eu sabia que iríamos conseguir!

- Louvado seja o Senhor Espírito Santo. Assim que pudermos voltamos para pagar a promessa.

A Agência “Melo & Cabral” tratou das viagens e dos passaportes. O dinheiro que sobrou quase nem deu para o taxi que os levou ao Aeroporto. Assim como o Carvalho, fundeado na baía das Lajes os engolira naquela noite em que partiram das Flores, agora era a Sata que os transportava até Santa Maria, para então tomarem o Boing da TAP com destino a Boston. Voando sobre o Atlântico, enquanto os pequenos dormiam, a Amparo constrangida e amedrontada voltava-se, novamente, para o Divino Espírito Santo. O Comandante anunciava:

- Senhores passageiros, muito boa tarde. O nosso voo até Boston demorará quatro horas. Neste momento estamos a sobrevoar a ilha das Flores.

A Amparo de olhos fechados, fingindo dormir, nem o ouviu. O coração do Luís, porém, deu um enorme baque. Olhou pela pequena janela. O avião sobrevoava a parte sudoeste da ilha:  as Lajes, a seguir a Rocha Alta, uma enorme alcantil escarpado, sobranceiro ao mar. Depois umas casitas isoladas, devia ser a Costa. Logo a seguir o Lajedo, o Mosteiro e lá ao fundo a ponta negra do baixio, estendida pela ilha fora, com as casinhas brancas, muito alinhadas e agrupadas, entre as quais sobressaía a torre da igreja. Por trás, como que a protegê-las, as escarpas do Outeiro e, finalmente, a rocha – era a Fajã!

Os olhos do Luís encheram-se de lágrimas, lágrimas de dor e lágrimas de raiva. Se não via podia ao menos imaginar os caminhos que percorrera carregando molhos de erva, de incensos, de lenha, cestos de inhames, de milho e de esterco. Quanto sofrera, debaixo daquelas rochas, calcorreando aqueles atalhos, sem horas de descanso! Quanto trabalhara de enxada ou sacho na mão naquelas terras, semeando batatas, mondando o milho e plantando couves! Nunca tivera um tostão! Saíra de lá mas endividado!  É verdade que era a sua terra, era a terra onde nascera, que lhe estava no corpo, mas era a terra maldita, que não lhe dera, nem nunca lhe  daria aquilo com  que tanto sonhava – fartura, não tanto para si, mas sobretudo para os filhos.

A Ampara, agarrando-se a ele, apenas perguntou:

- Vês a nossa casa?

  • Não vejo nem quero ver – respondeu o Luís baixando o cortinado da janela.

 

No aeroporto de  Boston a confusão estava institucionalizada. Dezenas de portugueses ali desembarcaram, nas condições do Luís. À maior parte, ou seja os que ali faziam escala para San Francisco, com destino à Califórnia, foram dadas ordens para não sair do avião. Um dos mais espevitados, com ar de  espertalhote, experimentado em tais andanças, explicou, com ar de sabichão:

- Temos que sair. A TAP não voa para San Francisco, temos que mudar para a “Amaricana Arlaite”.

Nada, porém, se resolvia e os insultos começaram a chover:

- Tratam-nos como animais!

- Só lhes interessa o dinheiro!

- Depois de terem a massa não ligam a ninguém.

Algum tempo depois, uma senhora, de meia idade, esquelética, cabelo louro, vestindo uma farda azulada, com um lenço ao pescoço, entrou no avião e gritou com voz americanizada:

- Can va parra San Francisco siga-me porr favorr. Van semprre atrraz de mi.

Os portugueses, nos quais se incluía o Luís, a Amparo e os filhos, formaram uma fila compacta, amontoando-se e atropelando-se uns aos outros. Saindo do avião, percorreram corredores infindáveis por onde deslizavam funcionários fardados, passageiros em trânsito, de raças e nacionalidades diversas, carregando malas e sacos, num atropelar-se contínuo. A senhora da pronúncia americanizada, ao chegar à sala de embarque, avisou-os de que esperassem alí até ser feita a chamada para o voo da TWA, com destino a San Francisco.

Este porém tardou. A  noite já se aproximava. Na sala reinava a impaciência. As crianças choravam com fome e os adultos protestavam sem que ninguém os atendesse. Finalmente outra funcionária, falando português pior do que a primeira, entrou na sala e conduziu-os ao avião. Quatro horas  mais tarde aterravam aeroporto de San Francisco.

Depois de alguns dias em Vallejo, em casa da irmã Alice, o Luís, a Amparo e os pequenos rumaram para Fresno, no Vale de S. Joaquim. Fora um primo do cunhado Heriberto que arranjara o emprego, precisamente o que o Luís queria. O ranho pertencia a um italiano, que passava mais tempo no seu país do que nos Estados Unidos. Assim era-lhe atribuída toda a responsabilidade e guarda do mesmo. Para além duma casa enorme, tinha direito ao leite que precisasse, poderia criar os bezerros que entendesse e cultivar o que lhe interessasse. O patrão passaria por ali, apenas, de ano a ano.

Um sonho! Uma maravilha! A América, mais concretamente a Califórnia, era, realmente, a terra bendita com que tanto sonhara.

O acentuado interesse pela terra e pela criação de gado que o Luís sempre revelara concretizava-se agora de forma objectiva. Além disso conjugava o trabalho de que gostava com o ganho e a fortuna com que sonhava. Em casa não faltava nada! Pão, leite, batatas couves e carne sobretudo carne!... E no fim do mês os dólares. A Amparo tratava da casa e da horta. Ele ordenhava centenas de vacas, carregava o leite, tratava de todas como da Moirata. Tudo ali, perto de casa, sem grande esforço, com máquinas de todas as espécies e com automóvel para passeios e compras. Os filhos cresciam, iam para a escola e já falavam melhor inglês do que português. Aos quatro levados dos Açores juntaram-se mais quatro. As dívidas estavam pagas e já havia muitos dólares no banco. A Ana casou e veio o primeiro neto.

Era altura de voltar às Flores para pagar a promessa ao Senhor Espírito Santo. Isso não podia falhar!

Na véspera da partida, porém, a tragédia sobrepôs-se à continuada concretização do sonho de sempre, agora tornado realidade. O Luís sucumbia, vítima de um ataque cardíaco! Ali, naquela terra bendita, mas que, apesar de tudo, fora incapaz de lhe segurar a vida.

 

Passaram-se os anos. Numa manhã cálida e cinzenta de Outono, em todas as casas da Ponta, da Fajã, da Quada e da Fajazinha fumegava, quer em velhos caldeirões ou em modernas panelas de pressão, carne guisada e sobre a mesa, um, dois ou três pães.

Era o jantar dado pela viúva do Luís de José Bento.

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