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TIA JACINTA

Terça-feira, 14.01.14

Eu nasci na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, no início da década de trinta do século passado. Nasci numa sexta-feira e tanto gemi, chorei, gritei e berrei, que sendo a casa dos meus pais situada ao lado da igreja, até o senhor padre-cura se admirou e espantou de tão grande escarcéu. Cresci e calcorreei caminhos, atalhos e veredas, pezinho descalço, saca de serapilheira a tiracolo, na demanda da escola. Ainda criança, fui, várias vezes, a Vila Franca, com a minha avó, santa e bondosa velhinha que, temendo ser assaltada por ladrões, ao atravessar a ilha, levava sempre consigo a tranca da porta da sala, feita de marmeleiro rijo. Ladrão que lhe aparecesse pela frente era desancado debaixo a cima, mas, nos momentos de tréguas, eu aproveitava para, na brincadeira, me escanchar em cima da tranca, imaginando que ela era meu cavalo de verdade. Vila Franca, à altura, era terra próspera, produtiva e rica de toda a espécie de animais, sobretudo galinhas, patos, porcos e até macacos, estes trazidos da África por soldados da marinha, em barcos que ali ancoravam, de vez em quando.

Cresci e namorei a moça mais bonita da minha rua. Mas de tão bonita que era muitos outros rapazes por ela também se apaixonaram. Foi grande a confusão, por isso decidi ir casar às Capelas. A mulher com quem casei não era tão bonita como a primeira mas era bela de modos e costumes e tinha um coração de ouro. Essa a razão por que recebi parabéns pelo casamento que fiz, por parte de muitos parentes, amigos e conhecidos Até uns primos que viviam bem distantes, numa das Fajãs de São Jorge, me enviaram um telegrama de felicitações.

Mas a minha vida em São Miguel não me agradava, sobretudo depois da minha sogra se desentender comigo. Ela que até parecia uma raia, foi morar para a Lomba da Maia, mas tinha-me tanta reixa que resolveu ir fazer queixa de mim ao tribunal da Povoação. A todos chamava canalha e antes que mo chamasse a mim, decidi, no final da década de quarenta, vir morar para Lisboa. A guerra havia terminado, mas deixara marcas terríveis na vida, nos costumes e sobretudo na economia da cidade.

Ora, certo dia, necessitando eu, urgentemente, de uns calções, não os encontrei à venda em toda a cidade de Lisboa e, pior do que isso, não havia quem os fizesse. Soube então que em Sintra, havia uma sábia e experiente costureira, conhecida pela “Tia Jacinta” que era mui hábil na manufacturação dos ditos cujos. Desloquei de Lisboa a Sintra, a casa da famosa “Tia Jacinta”, na mira de lhe encomendar uns calções. Medidas tiradas, preço acertado e marcada a data em que eu havia voltar a Sintra, regressei a Lisboa e, na data combinada, voltei a Sintra. Recebi o embrulhinho contendo os calções e paguei.

Qual não foi o meu espanto quando, ao regressar a casa, ao vesti-los verifiquei, que eram completamente fechados à frente, sem braguilha ou qualquer outro tipo de abertura. Furioso, regressei a Sintra, reclamando junto da tia Jacinta que era inadmissível que me tivesse feito uns calções, esquecendo-se de uma abertura, à frente, para as minhas “precisões”:

Resposta imediata da experiente e douta Tia Jacinta, que pelos vistos até costurava calções e outras indumentárias para o Marechal Carmona e para outras altas figuras da sociedade lisbonense da época:

- Ai, menine! Caredo! Qu’ingnorância a sua! Ei nã m’esqueci d’abertura ninhua. Vê-se logue que o menine veie duis Açores há pouque tempe! Antão o menine ainda nã sabe c’aqui, a moda agora é ui sinhores de Lisboa fazerim as suas precisães mesme incoirinho.

Só então percebi que afinal a tia Jacinta também era natural dos Açores e, a julgar pelo seu falar, muito provavelmente, seria da ilha das Flores. E regressei, feliz com os meus calções, prometendo à tia Jacinta que, a partir de agora, em todas as minhas “precisões” havia de seguir, sempre e com rigor, o exemplo dos senhores de Lisboa.

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publicado por picodavigia2 às 20:32





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