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TIA, O REGO

Terça-feira, 17.04.18

Antigamente, na Fajã era de bom-tom que todos oferecessem alguma coisa do pouco que produziam, ao pároco. Geralmente, cada um escolhia o melhor que tinha. Com este gesto, pretendiam os crentes, por um lado, cumprir o estipulado no 5º mandamento da Santa Madre Igreja “Contribuir para as despesas do culto e sustentação do clero” e, por outro, diligenciar um “descontozito” na compra dos indultos e das bulas ou até na própria côngrua. Em Dezembro oferecia-se uma posta do porco, uma morcela ou um pedaço de linguiça. Na altura das colheitas uma rasoira de milho, um saco de batatas ou uma gavela de couves. Ao longo do ano uma dúzia de ovos, um cesto de inhames ou um queijo.

A Ana Sapateira era muito pobre e não tinha nada de jeito que pudesse oferecer ao reverendo. Mas falta de lógica é que não tinha e lá foi matutando consigo própria: O senhor padre tem galinhas, as galinhas põem ovos para o alimentar. Logo dar comida às galinhas é o mesmo que sustentar o reverendo.

Atrás da sua casa, ladeado pelo caminho da Fontinha e fustigado pelas enxurradas invernais e pelas manhãs soalheiras do estio, havia um rego onde florescia erva-santa de excelente qualidade Um regalo para as galinhas!

Certo dia, a Sapateira, enchendo-se de coragem e boas intenções, lá se decidiu por apanhar um cestinho de erva-santa e, não sem algum embaraço, foi oferecê-lo ao vigário.

O prebendado ficou perplexo ao ver aquela florescente maravilha da natureza e, ao perguntar-lhe onde tinha ido apanhar erva-santa tão viçosa e fresquinha, a velhota respondeu, sem hesitar:

- Foi no meu rego de trás, senhor padre. Tem lá muita.

O Jacinto que estava a cavar a courela do pároco, ali ao lado, ouviu tudo. Um canhão a disparar uma bomba de cima da rocha não espalharia os estilhaços tão depressa. Em segundos toda a freguesia ficou a saber que a Ana Sapateira tinha um “rego de trás” e que o dito cujo era fértil e estava eivado de erva-santa.

Foi uma chacota danada, sobretudo por parte dos rapazes que, ao passar-lhe por trás da casa, começavam a gritar: “Ó tia, o rego!?” A Sapateira assomava logo à porta da cozinha, furibunda, de pá do forno ou varredouro na mão, ameaçando-os e insultando-os desalmadamente.

Eu esperava, ainda muito criança mas já danado para caçoar, pacientemente aguardei a ocasião mais oportuna de também me iniciar em tão audacioso ritual. Ia-me poupando porque muito miúdo, tinha medo que ela me pilhasse e arriasse o cabo da vassoura no lombo, como já tinha feito ao Amorim.

Mas lá chegou o dia em que, enchendo-me de coragem, decidi iniciar-me na praxe de insultos à Sapateira. Passei-lhe rente à porta da cozinha e gritei com quanta força tinha, uma, duas, três vezes: - “Ó tia, o rego!?”

Azar dos azares! É que a Sapateira estava sentada cá fora mas encoberta pela aba duma pedra e eu não a vira. Eis senão quando me surge pela frente e, barrando-me a fuga por completo, agarrou-me, cravou-me as unhas nas orelhas, levantou-me do chão e sacudiu-me bem sacudido pelas orelhas, enquanto, furiosa que nem uma barata, me arregalava uns olhos de raiva e gritava bem alto: “Pscinha mijinha, pscinha mijinha”.

Só a muito custo me libertei das garras odientas da Sapateira, iniciando tamanha correria que ela não mais me pôs a vista em cima.

Só mais tarde soube que tivera uma antepassada que, para além de demente e ciosa da fala, sofria de incontinência urinária. Contaram-me que a coitada urinava em tudo o que era sítio, formando uma pequena poça à sua volta e, depois, muito contente, punha-se a saltar à volta da dita poça, cantarolando: “Pscinha mijsinha, pscinha mijsinha,” o que, obviamente, significava “pocinha de mijinho”.

Confesso que nunca mais gritei à  Velha Sapateira, não tanto por não querer sentir, mais uma vez, os seus gadanhos nas minhas orelhas, mas sobretudo porque temia que ela voltasse a descobrir o lastimoso currículo de algum outro meu antepassado.

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