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TRADIÇÕES PASCAIS

Domingo, 20.04.14

Na Páscoa de 1975 foi-me proporcionada a oportunidade de, pela primeira vez, visitar e conhecer as terras transmontanas. Coincidindo com os três dias do tríduo pascal e fixando-me numa típica aldeia transmontana, junto às margens do Coa, foi-me possível também observar e conhecer algumas dos costumes e tradições relacionadas com a Semana Santa, naquela interessante região portuguesa.

Na realidade, em Trás-os-Montes, as múltiplas e diversas tradições da Semana Santa apresentam-se preenchidas com rituais que, simultaneamente, parecem ter misturados rituais cristãos e pagãos, alguns dos quais representam, um claro regresso a ambientes medievais. Às vias-sacras, endoenças, autos da paixão e procissões dos “sete passos”, juntam-se as queimas do judas, os enterros do bacalhau, as corridas dos rapazes aos sinos, entre outras.

A tradição gastronómica, por sua vez, na região transmontana incide, principalmente, sobre a confecção dos folares da Páscoa, feitos com massa um pouco adocicada e recheados com carnes salgadas e enchidos que, naturalmente e por imposições religiosas, ao longo de semanas, estiveram em standby, isto é, às escondidas e arredadas das mesas dos camponeses. Há ainda o cabrito assado, o borrego e a caldeirada de cabrito. As amêndoas e os ovos de chocolate também não faltam

Por sua vez as variadas e diversas celebrações de rituais da Paixão de Cristo traduzem e reflectem cenários de luto, de reflexão dolorida, expressos dos tons roxos e negros das celebrações e nos cânticos tristes e dolentes. Algumas aldeias ainda conservam as 14 cruzes, ou cruzeiros, que representam as 14 estações que a via-sacra cumpre simbolizando o calvário de Cristo a caminho da crucificação.

A tradição dos “sete passos” mantém-se em Freixo de Espada à Cinta como caso único no país. Embora seja mais intensa na Sexta-Feira Santa, trata-se de um ritual de raízes medievais que tem lugar em todas as sete sextas-feiras quaresmais. Num cenário bem ao jeito de um filme de terror, em plena escuridão, dois homens encapuçados de negro, ao soarem as badaladas da meia-noite, lançam ruidosamente sobre as lajes de granito do átrio da igreja correntes de ferro que prendem nas pernas e arrastam pelas calçadas das ruas produzindo barulhos estridentes e assustadores. O ritual prossegue com a saída de uma “velhinha” vergada sob um negro manto e capuz, transportando numa mão uma lamparina de azeite e na outra um cajado em que se apoia, bem como uma bota de vinho com a qual vai dando de beber aos populares que se ajoelham à sua passagem e devotamente o solicitem, pois a vinho é o símbolo do sangue de Cristo derramado. O cenário é ainda acompanhado por grupos de cantadores que junto aos cruzeiros entoam melodias angustiosas, próprias de ambientes lúgubres medievais. (Cf Alexandre Parafita: Antropologia da Comunicação, Lisboa, Âncora Editora, 2012) in Diário de Trás-os-Montes).

“Por sua vez, mais comuns em Trás-os-Montes, os autos da paixão, enquanto representações de teatro popular, que narram os últimos dias de Cristo, desde a traição até à morte e deposição na cruz, envolvem cerca de quarenta figuras humanas recrutadas no seio do povo, muitas delas pessoas idosas e iletradas, pelo que conservam na memória, durante décadas e décadas, os dizeres das personagens que encarnam. Alguns dos seus papéis eram, outrora, desempenhados com tal emoção e realismo, que, no ato de agredir ou chicotear, as vítimas chegavam a sair em braços e ensanguentadas de verdade das respectivas cenas, havendo ainda casos em que os atores ganhavam, pela vida fora, as alcunhas dos papéis que representavam, como por exemplo, Cristo, Judas, Caifaz, Pilatos, Fariseu ou Diabo”./Cf Ibidem)

Na maioria das localidades transmontanas, nestes dias, a vida das populações muda radicalmente. Em muitas aldeias, ao meio dia de Quinta-feira Santa, toca o sino ela última vez e as pessoas param por completo os seus trabalhos rurais, hábitos que, na década de cinquenta, também se verificavam na Fajã Grande, das Flores Com excepção dos mínimos afazeres domésticos, ninguém trabalhava até ao sábado à mesma hora. Contavam-se, inclusivamente, algumas estórias de insucesso nos trabalhos realizados nestes dias. Em algumas aldeias, um homem que corre todo o povoado tocando uma matraca, como se fazia nas Flores, onde a matraca era utilizada em substituição dos sinos, para alertar as pessoas para a solenidade do dia e chamá-las para as cerimónias religiosas celebradas na igreja. Também se deve jejuar e abster de carne e de outros pequenos prazeres, nestes dias. Contaram-me, inclusivamente, que, nestes dias as pessoas mais idosas nem se penteavam. Também não se devia cozer pão porque diziam que aparece sangue na massa ou nas broas, costume este que também havia nas Flores.

No Sábado de Aleluia, à meia-noite, havia outrora a tradição de os rapazes correrem a tocar os sinos das igrejas, que quebravam o silêncio quaresmal. Até então, os toques dos sinos eram proibidos, sendo substituídos por pungentes matracas de madeira e arame, que emitiam sons ritmados, com as quais um mensageiro percorria as ruas apelando ao recolhimento, à reflexão e à oração. A retomada do toque dos sinos à meia-noite de sábado era disputada pelos rapazes, na crença de que o primeiro que tocasse o sino seria recompensado na descoberta dos ninhos das melhores aves, especialmente a perdiz, o que, noutros tempos, era algo muito cobiçado.(Cf Ibidem)

“Em Montalegre, mantém-se viva a Queima de Judas, no Sábado de Aleluia. A Câmara Municipal organiza um concurso para melhor mobilizar a população. Mas esta tradição é igualmente ativa noutros pontos do país: Palmela, Azeitão, Vila Nova de Cerveira, Matosinhos, Santa Comba Dão, Tondela, Viana do Castelo, Vila do Conde, Maia, Travassô, Milheirós de Poiares, Ponte do Lima, entre outros. Nela se representa o julgamento de Judas Iscariotes, por ter traído Cristo por trinta dinheiros. O povo, armado de tochas, aguilhadas e outros meios, aguarda os momentos da acusação e defesa, a leitura da sentença e, por fim, participa no castigo fatal investindo sobre um sinistro boneco que se incendeia ou explode. Este castigo simboliza a expiação dos pecados do mundo e o fogo tem um carácter simbólico de purificação. As queimas do Judas, assim como o Enterro do Bacalhau, representam impulsos eufóricos de catarse e libertação perante os constrangimentos quaresmais. Em Vila Real, a tradição do “Enterro do Bacalhau” é um ritual que responde a outros “enterros”, de sentido inverso, outrora frequentes na região transmontana (enterro do galo na quarta feira de cinzas, enterro do Entrudo…). A tradição do enterro do bacalhau é hoje especialmente praticada na localidade de Constantim, nos subúrbios de Vila Real. Noutros tempos, era toda a cidade a vibrar com o ritual. Um bacalhau enorme feito de cartão seguia escoltado por militares e era julgado perante carrascos, juízes e advogados, tendo, como testemunhas de defesa, os marçanos das mercearias e, de acusação, os empregados dos talhos. O castigo a incidir sobre o bacalhau simboliza a libertação dos constrangimentos da Quaresma, que não permitia o consumo de carne. A partir do Sábado da Aleluia, dia da celebração, já o povo deixa de estar limitado ao consumo de peixe e festeja assim o regresso da carne.” (Cf Ibidem)

Nos meios rurais transmontanos e m quase todo o norte do país, no Domingo de Páscoa mantém-se a tradição do Compasso, traduzida num cortejo presidido pelo pároco ou por um leigo seu representante, que visita as casas dos fiéis dando a cruz a beijar e aspergindo com água benta os compartimentos. Neste dia as famílias juntam-se nas casas umas das outras, para receber o Compasso, convivendo, provando os folares e outros petiscos e almoçando o tradicional cabrito assado no forno.

NB – Alguns destes dados foram retirados de Alexandre Parafita, acima citada: Antropologia da Comunicação, Lisboa, Âncora Editora, 2012) in Diário de Trás-os-Montes

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publicado por picodavigia2 às 12:25





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