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UM INCIDENTE

Domingo, 23.03.14

(UM CONTO DE NUNES DA ROSA)

 

Em casa do Senhor imperador há uma lida, uma barafunda, que eu sei lá!…

Roupas brancas ao sol, secas de goma, os estandartes de seda pelas janelas fora, enrolados, grandes cestos de verdura e flores sobre o balcão, molhos de canas de foguetes por aqui ou por acolá, mesas lavadas ao sol, um montão de cadeiras, em desordem, de pés ao ar umas, de lado outras… Vê-se que há ali trabalho… E que balbúrdia, que confusão!… Todos andam esbaforidos e apressados…

Rapazes que acarretam coisas de fora - loiças, bancos, alguidares; grupos de raparigas com cestos de copos e garrafas; homens sisudos e atarefados que armam os arcos - à porta de entrada, ao portão e a atravessar o caminho…

 - Também não fica mau!…

 E a cozinha do imperador fumega todo o santo dia, em roças de fumo que é uma coisa!… A cada fornada de pão que se coze atira-se uma resposta, quando se toma a presa às massas queima-se um foguete.

E aqui a senhora imperatriz tem que atender a tudo, dar expediente a tudo…

O magarefe ainda de braços ensanguentados, a comprida faca na mão e o suor em camarinhas pelo peito - a camisa aberta, dá a derradeira demão à carne: aquela para cozer, aquela para assar, aquela para os senhores padres, aquela para os cantores, esta para…

- Não se poipa… Há para tudo com a graça do Senhor Espírito Santo!…

E a cozinheira e as ajudantes de braços arregaçados, as saias presas à cintura, os lenços atados para trás, vão e vêm e voltam, e andam numa confusão…

- Vamos daqui, vamos daqui…

- Meninos, brincar lá para fora…

E pela porta da cozinha sai um enxame de crianças, enfarinhadas, trazendo pedaços de pão, retoiçando alegres…

O senhor imperador, esse, então, nem falar nisso…

- É preciso um homem ter cabeça para estas coisas…

- O Senhor Espírito Santo ajuda…

E dá-se um gole de aguardente a este que está suado, um copo de vinho àquele - para ir depressa, uma fatia de pão àquele outro para levar aos pequenos…

- Há para todos com a graça do Senhor Espírito Santo!…

Mas à tarde fez-se uma relativa quietação pacificadora…

- Não tarda aí essa gente…

Essa gente eram os vizinhos, os conhecidos, as pessoas devotas, que todas iam rezar o Terço ao Divino Espírito Santo.

Deu-se então à casa a ordem possível, que a sala de fora essa está sempre arranjada…

O altar da Coroa é uma coisa linda, de rendas e flores e lumes, a sala é um céu, de cortinados e de lençóis de linho, afestoada de lenços de seda e engalanada de cordões e anéis de oiro…

E como quer que nestes dias só se trate de coisas indispensáveis à vida - a lenha para as fornadas de vésperas, moenda para o pão da festa e comida para o gado, a senhora imperatriz deixou de andar em dia com a bisbilhotice das vizinhas; mas ao marido sempre vão dizer as coisas. Ela não sabe como é. Acha-o triste. Quem serve sempre tem desgosto!

 - Coitado! Tenho dó dele! - comentava a que atiçava o lume do forno, afectando uma grande inquietação.

E depois dum suspiro, mal reprimido:

 -Ah! línguas, línguas, quem as apanhasse picadas entre esta lenha!…

A senhora imperatriz estacou no meio da cozinha, com as mãos nas ilhargas e o rosto em camarinhas:

 - Mas que é que foi agora?!

 - Que é que foi?! A comadre está farta de o saber!

 - Assim Deus me salve, como não sei nada! Que foi?!…

- Antes tratasses do forno! - Enviesou uma lá dum canto, muito aborrecida, a temperar um molho.

Mas a senhora imperatriz insistia: não era bem que em sua casa, e em dias daqueles, se dissessem coisas que ela não pudesse saber…

E a do forno, com grandes gestos, assomadiça:

- Antes eu estivesse calada!… Vá a comadre tratar do seu governo!…

A dona da casa exaltou-se: que não tivesse o atrevimento de lhe dar ordens e que já que falava por meia língua havia de dizer o resto!

 - Eu cá não digo nada!

 - Há-de dizer!

- Dize, criatura! intervieram as outras, fazendo sinais para aquilo não ir por diante.

Um grupo de mulheres que chegava açodado com coisas precisas, inteirado do incidente, achou que a senhora imperatriz tinha carradas de razão… A outra se sabia alguma coisa a respeito do dono da casa devia declará-lo, até para não se fazerem juízos temerários, porque às vezes uma pessoa andava vendida inocente…

E a sujeita:

  - A respeito de meu compadre, daquelas barbas honradas, o quê, filhas?!… Foi cá uns zuns-zuns que me passaram pelos ouvidos, mas a respeito doutra pessoa…

E muito sacudida:

 - Ora aí está! Fiquem vocemecês agora descansadas!

 - De outra pessoa?!…

Foi uma explosão!

É bem feito, que havíamos de estar em nossas casas!

- Eu cá se não fosse com medo de algum castigo do Senhor Espírito Santo…

- Ó mulheres! Isso não é com vocês! - Gritava a do forno.

 Uma vinha com uma colher para a senhora imperatriz provar um tempero, mas esta repeliu-a, protestando colérica que a deixassem, que já estava quase doida, que lhe mudassem o nome que tinha se aquilo se não pusesse a claro…

A outra continuava a bravejar, algumas berravam que daquela maneira ficava o governo por fazer, outras protestavam alto contra os mexericos que roubavam o sossego das pessoas, e o alarido estendendo-se pela casa fora, chegou ao balcão, ao pátio e à rua.

Toda a gente correu por ali dentro, ansiosa de saber de que se tratava. O senhor imperador veio também, pálido e enfiado, ainda com um foguete e um tição, de olho assarapantado, receando que o tecto da cozinha tivesse vindo abaixo.

A coisa estava custosa de aclarar.

 Todas falavam ao mesmo tempo, alto e com grandes gestos, e o senhor imperador não sabia a qual atender.

O magarefe, nos bicos dos pés, sobre a soleta da porta da cozinha, perguntava se algum caldeirão tinha estoirado, e uma mulher, que emprestara pratos, entrava a inquirir, possessa, se se tinha quebrado a loiça.

Ninguém se entendia!

O senhor imperador, nervoso, encaminhou-se para o balcão, atirou o foguete, para que se soubesse que não tinha acontecido nenhuma desgraça, e voltou a ver se conseguia deslindar a questão.

A explosão da cólera entre o mulherio que redemoinhava na cozinha estava no seu auge.

A mulher do forno deliberara, finalmente, falar.

As suas palavras eram repetidas naquele pandemónio, espumante de indignação:

- O João Rodrigues tinha dito que o vinho do senhor imperador ainda era mais somenos que vinagre!

O senhor imperador abalou, a atirar mais foguetes:

 - Ora! Ora!

 

Nunes da Rosa, in Gente das Ilhas,

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publicado por picodavigia2 às 15:06





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