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UMA CEIA DE PAPAS

Segunda-feira, 24.09.18

O Grotas tinha sete filhas. Lindas quando crianças, depressa cresceram tornando-se ainda mais belas, o que desencadeava, diariamente, uma enxurrada de rapazes, a postarem-se em permanente corrupio, frente à sua casa.

Passado algum tempo, o necessário para que as moçoilas pudessem seleccionar os candidatos a futuros maridos, começou a faina dos enxovais e já se indicavam datas. Mesmo com sacrifício e esfoço, cada qual havia de escolher os seus padrinhos e ter, no dia escolhido, uma mesa lauta que em nada desdenhasse os maiores da freguesia. Muito preocupado com a felicidade das filhas, o Grotas analisou e voltou a analisar, minuciosamente, o currículo de cada um dos pretendentes.

Certa noite, antes de adormecer, comentou para a consorte:

- Gosto de todos, Jacinta, menos do filho do Estrinca. Aquilo não é boa cepa… Tem a quem sair…

A mulher bem o tentava demover da sua consumição. Que o rapaz parecia muito educado e trabalhador. Que os filhos não têm culpa do que fazem os pais e que a Cizaltina não era de se deixar enganar…

Mas convencer o Grotas é que não.

Quando as piquenas começaram a marcar datas, propôs-lhes, o pai, que se havia de fazer uma ceia, lá em casa. Que haviam, todos juntos, comer umas papas e que seria cada uma das filhas a convidar o respectivo namorado. Não podia haver desculpas. Todos tinham que comparecer.

As meninas ficaram muito contentes. Pela primeira vez teriam em sua casa os seus apaixonados, sentar-se-iam à mesa com eles, far-se-iam os pedidos e acertar-se-ia tudo para as bodas. No entanto e apoiadas pela mãe, não acharam nenhuma graça aquilo das papas. Não era comida que se apresentasse a ninguém de fora, muito menos aos seus futuros maridos. Uma ceia de papas era uma grandessíssima vergonha! Podia muito bem matar-se uma ou duas galinhas ou, pelo menos, cozer-se um caldeirão de couves com toucinho.

Mas o pai tinha-se decidido pelas papas e a sua vontade havia de ser cumprida.

Agendou-se a ceia para o sábado seguinte. À hora marcada todos chegaram enfarpelados nos seus fatos domingueiros.

Entraram, conversaram e aproximarem-se da mesa. Por determinação do pai, cada menina sentou-se ao lado do seu “mais-que-tudo”, enquanto ele se acomodava ao lado da sua Jacinta, cada vez mais envergonhada por apresentar, em momento tão solene, aquele miserável repasto.

Sentaram-se todos à mesa, tendo cada um à frente o seu prato fumegante e a transbordar, à espera de licença do dono da casa para iniciar o bródio. Eis senão quando, para espanto de todos, o Grotas levanta-se e com um sopro apaga a luz que frouxa e titubeante emanava de um candeeiro a petróleo, velho mas muito limpo e areado e com o vidro a brilhar como novo, gritando bem alto.

 - Agora, cada uns às suas.

Apesar de admirados com tal condescendência, todos se voltaram para as respectivas namoradas e aproveitaram aquele momento único, tão propício a uma intimidade a que não estavam habituados, para se abraçarem, para dizerem um segredo e alguns até para trocar o primeiro beijo. Todos… excepto um, o filho do Estrinca, que, abraçando-se ao prato das papas e agarrando-o com unhas e dentes, gritava bem alto:

 - Nas minhas ninguém toca! Nas minhas ninguém toca.

 

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