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UMA ESTÓRIA DE PESCA

Sábado, 21.03.15

Depois dos catorze anos, foi a vez de eu fazer a inscrição marítima. Tratava-se da licença indispensável para poder embarcar como tripulante em qualquer embarcação. Se por um lado eu até gostava de ir ao mar, por outro, havia que ajudar a assegurar o conduto para a casa dos meus pais. Gostava imenso de ir pescar, no verão, ao chamado peixe de cima de água. Pescava cachorras ou bonitos e bicudas barracudas. Normalmente ia no barco do Tio Francisco Jorge. O mestre era o Francisco, o filho mais velho e por sinal meu vizinho. Como campanha, iam os irmãos dele o António e o Hermenegildo, eu, o meu amigo de infância Adelino Cambóio, meu tio Deodato e o Francisco da Vigia. Certa noite, no mês de Setembro, arreamos com muito bom tempo. A certa altura, pouco depois da meia-noite, estava-mos na marca, fora da Terra do Pão, pescando de linha, às bicudas. Por sinal, estava a ser uma boa noite de pesca. Já tínhamos dentro do barco talvez mais de um cento delas. Entretanto, sentimos que estava a passar por debaixo do barco uns rolos de mar, que aos poucos foram aumentando. O vento era do quadrante Sul. Formavam-se muitas nuvens negras, no horizonte. O mestre, o Francisco Jorge ordenou:

- Aparelhos para a borda e vamos remar rapidamente para terra.

Começavam a ver-se relâmpagos e a ouvir um crescente trovejar. Remávamos aos quatro remos, rumo ao porto da Prainha. As ondas, continuavam a crescer. A trovoada a aproximar-se. Ao longe, via-se no cais a luz dum petromax. Era o Florindo, o João de Manuel da Ritinha e o Aldemiro que já haviam varado e, vendo o tempo a crescer, davam sinal aos outros que ainda estavam no mar, para regressarem rapidamente a terra.

O mar já cobria o cais de ponta a ponta. Eram vagas altíssimas, mas que de vez em quando davam algum descanso. Quando nos aproximávamos do cais, num desses momentos de descanso, aqueles que estavam em terra, gritavam:

- Não encostem! Não encostem! Sigam de vez para o varadouro com tudo a bordo.

A chuva, era quanta Deus mandava, acompanhada de forte trovoada. De repente e sem contarmos, apaga-se-nos a luz. Às escuras, o Francisco não tendo percebido o que lhe diziam de terra, tenta pôr um homem ou dois sobre o cais. Um para passar e segurar o cabo do revés e o outro para alar o cabo da proa como era costume em tais situações. Foi o António Jorge que fora passar o cabo de revés. Mas os cabos eram muito frágeis, feitos de filaça ou espadana, seca e torcida, com uns torcedores de pau. Eis que vem uma enorme vaga de mar. O Francisco bem gritava:

- Aguenta o revés! Aguenta o revés!

O António dá duas ou três voltas com a corda no pau da ponta do cais, segura bem mas a força do mar era maior. A corda rebenta e o barco atravessa-se. Vem uma segunda vaga de mar, volta a embarcação, vem a terceira e a quarta, e, fica tudo à deriva os homens embrulhados na água, o barco virado, as bicudas, albarcas, cestos de asa, remos, tilhas, tudo perdido. Ouviam-se os gritos. Todos imaginaram o pior. Quando o mar voltou a acalmar um pouco, os homens estavam espalhados por aqui e por além. Eu fui projectado pelas ondas para cima dumas rochas, ali ao lado direito da entrada do caneiro, onde me consegui agarrar. Um ou outro marinheiro conseguiu pôr-se a salvo sem grandes moléstias. O António e o Hermenegildo, ao tentarem equilibrar o barco na tentativa de o salvar, ficaram debaixo dele e com as pernas todas esfarrapadas. Com a ajuda dos que estavam em terra, varou-se o barco. Ficou muito danificado. Ninguém pensava mais em bicudas nem alparcas. Parecia um sonho o que acabava de acontecer. Enquanto isto, o Neves, jovem afoito, amestrando o barco do tio dele, José Mateus, continuava pescando, como que se nada se passasse, indo um pouco ao sabor da maré, já do porto para Oeste, ali para os lados da Ribeira Velha. Fomos nós que depois de terminada a nossa odisseia, os ajudamos a salvar, evitando que passassem pelo mesmo. Estes e as suas bicudas foram sãos e salvos e fizeram as suas partilhas, esquecendo aqueles que os haviam ajudado a salvar e que tinham ficado sem uma bicuda para o caldo. Na vida de cada um, há sempre coisas que marcam, mais que outras talvez até mais importantes.

 

N B - Baseado numa estória contada e publicada por António Silva

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publicado por picodavigia2 às 08:35





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